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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL 


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HISTÓRIA DAS GRANDES IDEIAS 
DO MUNDO OCIDENTAL 


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EDITOR: VICTOR CIVITA 


e COPYRIGHT MUNDIAL 1972 — ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL 
caixa postal 2372 — SÃO PAULO — BRASIL 


Composto e impresso em oficinas próprias da 
ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL 
São Paulo — Brasil 


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João Paulo Monteiro — Hobbes 
Locke 
Berkeley 
Hume 
José Américo Motta Pessanha — Descartes 
Marilena Chaui-Berlinck — Pascal 
Espinosa 
Leibniz 
Voltaire 
Diderot 
Rousseau 
Kant 
Rubens Rodrigues Torres Filho — Fichte 
Schelling 


Colaboração: 
Pesquisa de Paulo Sérgio de Morais Sarmento — Hobbes 


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vota 4 


SUMÁRIO 

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OS PENSADORES 


homas Hobbes nasceu na Ingla- 
T terra, na aldeia de Westport, ads 

cente a Malmesbury, no Wiltshire, 
a 5 de abril de 1588. De família pobre, 
filho de um clérigo semiletrado, muito 
cedo deixou de contar com a assistência 
paterna. Seus estudos pa a ser 
custeados por um tio, luveiro relativa- 
mente próspero em Malmesbury. 

Aos sete anos, Hobbes foi recebido 
como pupilo por Robert Latimer, pre- 
ceptor versado na cultura clássica e que 
lhe proporcionou sólidos conhecimentos 
de latim e grego. Pode-se dizer que essa 
formação inicial constitui o fundo sobre 
o qual se destacariam mais tarde seus 
pendores literários e sua familiaridade 
com os clássicos. Em 1603 ingressou no 
Magdalen Hall, em Oxford. Tinha então 
catorze anos. De um ponto de vista 
convencional, sua passagem pela univer- 
sidade não revelou um estudante que 

udesse ser considerado dos mais bri- 
hantes. O currículo escolar, marcado 
pela Escolástica, era estreito e rígido, 
exercendo pouca atração sobre Hobbes. 
Sem muito entusiasmo, estudou vagaro- 
samente a Lógica e a Física, chegou a 
gostar de Astronomia e de Geografia — 
por “aliviar a imaginação” — e deixou- 
se impressionar pela Retórica. 

Apesar de concluir o bacharelado sem 
muito brilhantismo, em 1608, Hobbes 
foi indicado pela direção do seu college 
para preceptor do filho de Willam 
Cavendish, que, depois, seria o primeiro 
Conde de Devonshire. A indicação foi 
decisiva, marcando o início de uma 
convivência e amizade, conservada du- 
rante toda a vida. Apesar da insegurança 
financeira da casa dos Cavendish, esse 
emprego permitiu-lhe poupar-se da hu- 
milhante pobreza em que geralmente vi- 
viam os preceptores no século XVIII. A 
permanência de Hobbes na casa dos 
Cavendish foi extremamente importante 
para o seu desenvolvimento intelectual. 
Encontrou tempo e tranquilidade para 
dedicar-se à leitura e à reflexão, e uma 
grande biblioteca permitia-lhe o acesso 
a centenas de obras literárias, garan- 


Página anterior: Thomas Hobbes, por 
M. Wright, Galeria Nacional de 
Retratos, Londres. (Foto Fabbri.) 


266 


tindo a continuidade e o aprofundamento 
do seu contato com os clássicos. 

Em 1610, Hobbes e seu aluno visita- 
ram a França e a Itália, onde se aplicou 
ao estudo de idiomas estrangeiros. De 
volta a Chatsworth, prosseguiu na leitu- 
ra dos historiadores clássicos, que lhe 
interessaram, não só pelos aspectos lite- 
rários como também pelas intuições 
sobre o homem e a política. Este último 
aspecto ficaria claramente demonstrado 
no primeiro trabalho publicado por 
Hobbes, em 1629. Nesse ano veio a pú- 
blico sua tradução da Guerra do Pelopo- 
neso, de Tucidides, que, embora de cará- 
ter literário, apresentava antecipações 
do Leviatã, sua principal obra. Essas 
antecipações aparecem tanto nas insi- 
nuações que Hobbes faz no prefácio, 
quanto em vigorosas frases da tradução. 
Desde essa época já manifestava sua 
aversão à democracia e por isso reco- 
mendava a leitura de Tucídides: “um rei 
é mais capaz que uma república”. 

Nessa época, elaborou, em latim, um 
longo poema descritivo (publicado ape- 
nas em 1636), no qual se encontra a nar- 
ração de uma viagem que fizera à região 
montanhosa próxima de Chatsworth. 
Além desse poema, literariamente pouco 
significativo, a ligação de Hobbes com a 
literatura se manifestará até o fim da 
vida. Exemplo nesse sentido é o ensaio 
de crítica literária no prefácio ao poema 
épico Gondibert de Sir William Dave- 
nant (1606-1668), bem como as tradu- 
ções da Ilíada e da Odisséia, feitas nos 
seus últimos anos. 


A experiência literária de Hobbes, 
todavia, não o afastou de um certo 
preconceito doutrinário. Acreditava no 
propósito didático do poema heróico e 
concebia a literatura como algo orna- 
mental e secundário em relação a um 
tipo de discurso mais verdadeiro. Este 
seria a filosofia. 


Da literatura à filosofia 


A problemática filosófica de Hobbes, 
embora já anunciada em suas incursões 
pela literatura, somente começou a 
estruturar-se a partir do contato com 
Francis Bacon (1561-1626), do qual foi 
secretário entre 1621 e 1626. Bacon 
tinha Hobbes em alta conta, julgando-o 


HOBBES 


Robert Dudley, Conde de Leicester 
(Gal. Nacional de Retratos, Londres), 
foi um dos principais instrumentos da 

política « absolutista de Elizabeth I, 

sob cujo reinado Hobbes nasceu. 


capaz de compreender seu pensamento e 
chegando mesmo a autorizar que tradu- 
zisse algumas de suas obras para o 
latim. 


Contudo, sua formação filosófica não 
se limitou ao empirismo baconiano. Em 
sua segunda viagem ao continente, em 
1629, teve a oportunidade de ler, em 
Genebra, na Suiça, os Elementos de Geo- 
metria, de Euclides (século III a.C.), 
obra fundamental para a formulação do 
método proposto pelos grandes raciona: 
listas do século XVII. Em nova viagem 
ao continente (1634/37), Hobbes entrou 
em contato com o Padre Mersenne, 
amigo e correspondente de Descartes 
(1596- 1650). Em torno de Mersenne, em 
Paris, reunia-se uma plêiade de pensa- 
dores e homens de ciência e foi através 
dele que Hobbes entrou em polêmica 
com Descartes. Igualmente importante 
para Hobbes foi seu encontro com Gali- 
leu (1564-1642), na Itália. 


Os novos horizontes intelectuais aber- 
tos por esses contatos, entretanto, não o 
desviaram da situação concreta em que 
se encontrava a Inglaterra. Era profundo 
o seu interesse pelos problemas sociais. 
De volta à Inglaterra, em 1640, colo- 
cou-se como defensor do rei, Carlos I 
(1600-1649), então ameaçado por uma 
revolução liberal. Em apoio ao sobera- 
no, compôs seu primeiro tratado, Ele- 
mentos de Lei Natural e Política, obra 
destinada a fundamentar a ciência da 
política e da justiça. O trabalho circulou 
em cópias manuscritas, vindo a ser 
publicado apenas em 1650 na forma de 
dois tratados separados: Natureza Hu- 
mana e Sobre o Corpo Político. Hobbes 
colocava-se visivelmente ao lado do rei 
e, como a força do parlamento era cres- 
cente, foi obrigado a refugiar-se em 
Paris, temendo a ameaça dos anti-rea- 
listas. 

Em Paris, ainda em defesa do poder 
real, publicou Sobre o Cidadão, em 
1642, ano em que se desencadeou a 
Guerra Civil na Inglaterra. Mesmo exi- 
lado, Hobbes não deixou de participar 
das controvérsias políticas e religiosas 
com homens da corte inglesa refugiados 
na França. A mais destacada dessas 
polêmicas foi a que manteve com John 
Bramhall, bispo de Derry, a propósito 
da questão do livre arbítrio. Nessa oca- 


267 


OS PENSADORES 


são, o bispo acusou-o de impiedade e, 
osteriormente, condenaria também o 
ivre pensamento veiculado pelo Leviatã, 
ublicado, em Londres, em 1651. O 

lixo Sobre o Cidadão já exibia o que os 

adversários consideravam sentimentos 
ateístas, o que dificultou a aceitação de 

Hobbes como preceptor do Principe de 

Gales, futuro Carlos If (1630- 1685) da 

Inglaterra, então no exílio. Frente à opo- 

sição que se criara em torno da sua indi- 

cação, Hobbes viu-se obrigado a prome- 
ter que se limitaria estritamente ao 
ensino da Matemática, em suas funções 
de preceptor. À publicação do Leviatã 
precipitou as controvérsias a respeito de 

suas opiniões religiosas e políticas, e a 

situação chegou a um ponto tal que 

Hobbes foi banido da corte inglesa exi- 

lada em Paris. 

Em 1652, Hobbes retornou definitiva- 
mente à Inglaterra, encontrando-a domi- 
nada pela atuação de Cromwell 
(1599-1658), o Lord Protector que 
comandara a revolução liberal de 1642 e 
que, com mãos fortes, arantia o sentido 
econômico-burguês essa revolução. 
Nessa atmosfera, Hobbes retomou o tra- 
balho, publicando a seguir Sobre o 
Corpo (1654) e Sobre o Homem (1658). 

A Restauração dos Stuart, em 1660, 
ocorreu quando Hobbes já contava 72 
anos e se sentia distante dos problemas 
políticos imediatos. Seu encontro com o 
novo rei (e antigo pupilo) marcou a 
reconciliação entre ambos, mas Hobbes, 
nessa altura, já tinha retornado ao con- 
vívio dos Cavendish e retomado o estudo 
dos clássicos, fazendo traduções de par- 
tes da Ilíada e da Odisséia. Depois de 
uma velhice tranquila, durante a qual 
escreveu uma autobiografia em versos 
latinos, Hobbes faleceu em Hardwick, 
em 1679. dez anos antes do triunfo das 
idéias liberais das quais fora ferrenho 
adversário. 


Entre arazão ca experiência 


Todo historiador da filosofia sente-se 
obrigado a reconhecer, nos capítulos de 
abertura da Época Moderna do pensa- 
mento ocidental, a presença decisiva da 
orientação baconiana e do caminho 
cartesiano. Tanto a filosofia experi- 
mental de Francis Bacon quanto o racio- 


268 


nalismo do francês Renê Descartes 
(1596-1650), apesar do antagonismo 
que os separava, foram momentos bási- 
cos na superação da escolástica medie- 
val e constituíram, ao mesmo tempo, 
expressões fundamêntais de uma nova 
atitude do homem em face da natureza e 
do próprio homem. 

Essas duas posições apresentavam-se 
como opostas e conflitantes. Cada qual, 
reiterando seu próprio extremismo, Jus- 
tificava a reiteração do extremismo da 
outra, como se a razão só existisse na 
transparência de sua auto-afirmação 
racionalista e como se a experiência só 
existisse na sua diluição empírica. 

Mas quando se estuda a filosofia de 
Hobbes o problema da dominância do 
racionalismo ou do empirismo pode ser 
colocado em outros termos. É possível 
perguntar, por exemplo, se não havia um 
secreto intercâmbio entre ambos, apesar 
das diferenças; se não estavam constan- 
temente voltados um para o outro, à es- 
pera de um terreno comum em que 
pudessem exercer ação conjunta. 

A obra de Hobbes abriu justamente 
um espaço de convivência entre esses 
extremos, manifestando, assim, um 
campo de conciliação entre eles. É preci- 
so, contudo, evitar que essa visão geral 
do lugar teórico da obra de Hobbes deri- 
ve para uma caracterização ingênua de 
seu pensamento. Hobbes não foi o resul- 
tado mecânico do convívio com Bacon, 
do encontro com Galileu ou do contato 
com o Padre Mersenne. Sua obra não 
constituiu uma simples justaposição de 
variantes empiristas e racionalistas do 
século XVII; ele não somou as palavras 
de Bacon e as de Descartes. Hobbes 
impôs à razão e à experiência um modo 
particular de vida comum. 

Desvendar essa particularidade é uma 
forma de revelar a originalidade de sua 
filosofia. Não se pode dizer apenas que 
seu “grande mérito” esteja — como afir- 
ma Bertrand Russell — no fato de ter 
sido empirista e de ter “concedido, não 
obstante isso, a devida atenção à mate- 
mática”. É preciso ir aos detalhes que 
salientam a fisionomia do filósofo. 

Do ponto de vista estritamente baco- 
niano, a obra de Hobbes poderia ser jul- 
gada como demasiado carente de recur- 
so aos fatos e metodologicamente pobre 


HOBBES 


| 
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4 


ARG DR 
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RT Ad 


“Quando alguém raciocina, nada mais faz do que conceber uma soma total, 

a partir da adição de parcelas, ou conceber um resto, a partir da subtração 
de uma soma por outra .. .” Oracionalismo matemático expresso nesse texto de 
Hobbes, tem, entre outras fontes, o contato que o filósofo manteve com 
Galileu. (Anônimo: retrato de Galileu; Vila Le Selve, Lastra a Signa.) 


OS PENSADORES 


NEESCO, BACONE 


ç, do SAB ano 
; “is “moer. 


FABBRI 


GS. me qa mal reco = goigene 


A filosofia de Thomas Hobbes pode ser interpretada como uma E de 


sintese entre o racionalismo e o empirismo. O primeiro foi formula 


do por 


Descartes, com quem Hobbes polemizou; o segundo constitui a contribuição 
inovadora de Francis Bacon, do qual foi secretário. (Retrato de Bacon 
pertencente à Civica Raccolta Stampe Bertarelli, Milão, e retrato de Hobbes.) 


em induções. Essa interpretação, contu- 
do, não é inteiramente verdadeira. Ape- 
sar de deduzir sua ciência política de 
conceitos e definições, esses conceitos 
correspondem para ele aos fatos da 
natureza humana; os capítulos IaXIdo 
Leviatã encerram considerável número 
de fatos da experiência. Além disso, se 
Hobbes estrutura a teoria política como 
eômetra, sua doutrina do homem 
o mento da política) admite apenas 
uma espécie de demonstração e mesmo 
essa não é dedutiva, não se tratando, 
portanto, de demonstração no sentido 
rigoroso da palavra. A única espécie de 
demonstração admitida por Rn es no 
caso, consiste em cada um encontrar em 
si mesmo a “humanidade” (a natureza 
do homem), que o próprio autor encon- 
trou “lendo-se a si mesmo” 
Dando continuidade ao pensamento de 
Bacon. Hobbes realizou seu próprio pro- 


270 


jeto filosófico em obras que manifestam 
um encadeamento lógico-dedutivo, defi- 
nindo previamente os termos dos quais 
se serviu. 

Esse procedimento reitera-se tanto 
nos escritos sobre aquilo que ele enten- 
dia por fisica, quanto nas obras politi- 
cas. Suas teses estão escalonadas, suce- 
dendo-se umas às outras em rigorosa 
construção lógica; no livro Sobre o 
Corpo encontra-se a declaração expressa 
segundo a qual concluir é adicionar e 
subtrair. A filosofia seria, assim, “co- 
nhecimento adquirido por um raciocinio 
correto, dos ao ou fenômenos con- 
forme as causas ou gerações concebidas 
e, inversamente, das gerações possíveis 
conforme os efeitos conhecidos” 

O racionalismo empirista (ou empi- 
rismo racionalista), formulado por Hob- 
bes no texto acima, consiste em partir da 
natureza e voltar a ela, percorrendo um 


THE MANSELL COLLECTION 


HOBBES 


trajeto em que o real é reduzido a ele- 
mentos simples, a fim de que se possa 
utilizá-los numa dedução capaz de 
recompor as realidades concretas. Ini- 
cialmente atomizado, o real é ideal- 
mente encontrado, visando-se ou não à 
sua útil transformação. 

Em resumo, a originalidade de Hob- 
bes no campo do empirismo encontra-se 
no racionalismo metodológico e nominal 
que arma e encadeia suas teses. 


Corpo e alma 


Um tal racionalismo, enquanto mate- 
maticismo, Isto é, redução das operações 
lógicas às operações matemáticas de 
adição e subtração, não basta para 
incluir Hobbes entre os seguidores de 
Descartes. Pelo contrário, sua posição 
em relação a Descartes era visivelmente 
polêmica, chegando mesmo atê a mais 
profunda antipatia, como se verifica na 
correspondência entre os dois. Radicado 
na Holanda, Descartes recebeu, através 
do Padre Mersenne, as objeções levanta- 
das por Hobbes contra as suas Medita- 
ções Metafísicas. A obra foi publicada 
por Descartes, em 1641, juntamente 
com as objeções de Hobbes e outros filó- 
sofos e as respostas do autor. 

A discussão entre os dois filósofos 

possibilita a caracterização do pensa- 
mento de Hobbes. Em certo momento de 
sua Segunda Objeção, Hobbes aceita 
que o conhecimento da proposição “eu 
existo” possa depender do conhecimento 
da proposição “eu penso”. Com isso, 
assimila a célebre frase de Descartes 
“penso, logo existo”, mas, logo em 
seguida, coloca um problema: de onde 
viria o conhecimento da proposição “eu 
penso”? Hobbes adianta sua própria 
resposta nos seguintes termos: como 
“não podemos conceber qualquer ato 
sem seu sujeito, assim também não 
podemos conceber o pensamento sem 
uma coisa que pense, a ciência sem uma 
coisa que saiba eo passeio sem uma 
coisa que passeie” - De onde se segue 
“que uma coisa que pensa é alguma 
coisa de corporal”. 

Essa consegiência é rejeitada por 
Descartes, dizendo que Hobbes a acres- 
centa “sem qualquer razão e contra toda 
boa Lógica, e mesmo contra o modo 


Hobbes serviu ao soberano Carlos I, 
defendendo seu absolutismo contra os 
ataques dos parlamentares liberais. 
(Mystens, o Velho: Carlos I; 
Galeria Nacional de Retratos, Londres.) 


271 


FABBRI 


OS PENSADORES 


ordinário de falar”. Descartes não admi- 
te que todas as substâncias sejam corpó- 
reas. Com efeito — diz ele —, “os sujeitos 
de todos os atos são bem verdadeira- 
mente entendidos como sendo substân- 
cias (ou, se desejais, como matérias, a 
saber, matérias metafisicas), mas nem 
por isso como corpos”. Mais adiante, 
Descartes reafirma o seu dualismo, 
dizendo que há duas substâncias, uma 
extensa, corpórea, outra espiritual, pen- 
sante. A substância extensa é a pressu- 
posta pelos “atos que chamamos corpo- 
rais, como a grandeza, a figura, O 
movimento”: esses atos “residem” em 
corpos. Porém — diz Descartes “há ou- 
tros atos que chamamos intelectuais”, 
como o “querer, imaginar”, etc., atos 
que dependem do “pensamento ou per- 
cepção”, da “consciência e conhecimen- 
to”: esses atos “residem” em “uma coisa 
que pensa”, tenha ou não esta coisa o 
nome de espírito, pouco importa, “con- 
quanto não a confundamos com a subs- 
tância corporal, uma vez que os atos 
intelectuais não têm qualquer afinidade 
com os atos corporais”. Em suma, “o 
pensamento ... difere totalmente da ex- 
tensão”. Hobbes manteve a idéia de que 
o sujeito do pensamento é corporal e 
aliou a esse materialismo uma posição 
empirista. Radicalizando seu materia- 
lismo na Quarta Objeção, Hobbes per- 
unta: 

“Que diremos agora, se talvez o racio- 
cinio não seja outra coisa senão uma 
reunião e encadeamento de nomes pela 
palavra “e”? De onde se seguirá que, pela 
razão, nada concluímos no tocante à 
natureza das coisas, mas só no tocante 
às suas denominações; isto é, pela 
razão, vemos simplesmente se reunimos 
bem ou mal os nomes das coisas, segun- 
do as convenções que, de acordo com 
nossa fantasia, tenhamos feito no tocan- 
te às. suas significações”. Nesse texto 
encontra-se o que os historiadores cha- 
mam de “nominalismo” de Hobbes, isto 
é, a redução de conceitos a palavras, de 
significações ideais a nicações con- 
vencionais. 


Hobbes vai ainda mais longe: “Se isso 
é assim, como parece ser, O raciocínio 
dependerá de nomes, os nomes depende- 
rão da imaginação, e a imaginação tal- 
vez (e isto segundo o meu sentimento) 


Puros 


dependerá do movimento dos órgãos 
corporais; e assim o espírito não será 
outra coisa senão um movimento em cer- 
tas partes do corpo orgânico”. 

Hobbes cava cada vez mais fundo o 
abismo que o separa de Descartes. Este 
rejeita a aproximação entre espírito e 
movimento e não admite confusão entre 
a “imaginação” e o “puro conceito de 
entendimento”; do mesmo modo, não 
aceita a redução da “idéia” a “imagens 
de coisas materiais desenhadas na fanta- 
sia corporal”. 

Dessa diferença em relação a Descar- 
tes é que se pode destacar o princípio 
fundamental da filosofia de Hobbes. 
Para Descartes, as noções de extensão e 
de movimento bastam para explicar as 
substâncias, propriedades e transforma- 
ções do mundo corporal, e essa concep- 
ção mecanicista considera o movimento 
como puro entrechoque de corpos exte- 
riores uns aos outros. Mas, para Descar- 
tes, o mecanicismo é explicativo apenas 
do que diz respeito ao mundo corporal, 
não sendo válido para explicar o que 
acontece no mundo intelectual, na ordem 
psicológica, etc. 

Hobbes universaliza o mecanicismo. 
Para ele, “toda mudança se liga a um 
movimento de corpos modificados, isto 
é, de partes do agente e do paciente”. O 
espaço é a primeira das noções funda- 
mentais de sua filosofia. Para ele, espa- 
ço “é o fantasma de uma coisa que existe 
enquanto existe, isto é, enquanto não se 
considere nela nenhum acidente a não 
ser aquele de aparecer fora daquele que 
a imagina”. Existir é existir no espaço, é 
ser corpo em movimento. 


As palavras e as coisas 


Estabelecidas as noções de corpo e de 
movimento, Hobbes leva o mecanicismo 
a invadir os domínios do espírito. É essa 
a finalidade de sua física e o sentido da 
obra denominada Sobre o Corpo, a pri- 
meira do seu “plano” filosófico. 

A fisica de Hobbes procura explicar 
mecanicamente a maneira pela qual os 
corpos exteriores afetam o corpo huma- 
no e aí produzem as percepções e os 
fenômenos que delas dependem. Afeta- 
dos pelos movimentos dos objetos exte- 
riores, os sentidos seriam postos em 


HOBBES 


A história da Inglaterra no século XVII foi marcada pelos conflitos entre o 
absolutismo dos reis e as tentativas de tomada do poder pelos representantes 
da burguesia no Parlamento. Hobbes defendeu o absolutismo em suas obras 

teóricas e foi preceptor de Carlos II, filho de Carlos I. (Uma tela de Anton 


van Dyck representa os três filhos do 


movimento e este se transmitiria ao cê- 
rebro e, daí, ao coração; neste órgão, 
começaria um movimento de reação em 
sentido inverso. Para Hobbes, o início 
desse movimento de reação é precisa- 
mente o que constitui a sensação: “a sen- 
sação é o princípio do conhecimento dos 
próprios princípios, e a ciência é inteira- 
mente dela derivada”. 

Alicerçados nas sensações, os elemen- 


ei Carlos I; Galeria Sabauda, Turim.) 


tos do edificio científico seriam simples 
nomes. “A proposição”. diz Hobbes, “é 
constituida pela adição de dois nomes; o 
silogismo, pela adição de duas proposi- 
ções; a demonstração, pela adição de vá- 
rios silogismos.” Uma tal somatória 
conduziria à ciência, que se define, 
assim, como “conhecimento das conse- 
quências de uma palavra a outra”. Uma 
vez bem definidos, os nomes são conec- 


Pari: 


FABBRI 


OS PENSADORES 


A vida de Hobbes transcorreu num período muito rico da história britânica, 
não só do ponto de vista político, como também no que diz respeito à 
literatura. Entre os escritores dessa época, encontra-se Ben Johnson, 
cujas obras retratam satírica e realisticamente a sociedade londrina. 

(Anônimo do séc. XVII: Ben Johnson; Gal. Nacional de Retratos, Londres.) 


274 


FABBRI 


HOBBES 


tados nas proposições e estas são conec- 
tadas nos silogismos. A conclusão obti- 
da — completa Hobbes — “é de todas as 
proposições antecedentes”. 

Na obra Sobre o Corpo, Hobbes expli- 
cita essa posição nominalista no refe- 
rente à célebre questão dos universais: 
“os conceitos que, no espírito, corres 
pondem aos nomes comuns (que desig- 
nam coleção de indivíduos) são imagens 
ou fantasmas de objetos singulares. 
Desse modo, para 'se compreender o 
valor do universal, não se tem necessi- 
dade de outra faculdade que a imagina- 
tiva, faculdade que nos lembra que as 
palavras desse gênero suscitaram em 
nosso espírito uma coisa ou outra” 

O nominalismo de Hobbes é solidário, 

ortanto, de um associacionismo psico- 
áBicA que fará sucesso mais tarde. Para 
ele, as imagens associam-se na consciên- 
cia, formando um “discurso mental” 
uma tal associação é um tanto quanto 
aventureira quando se está sonhando; 
porém, uma observação atenta poderia 
reencontrar o nexo que associa essas 
imagens aparentemente descoordenadas. 
A razão não passaria, assim, de um uso 
aperfeiçoado da imaginação, pela apli- 
cação correta da análise (que descobre 
noções e definições, partindo da expe- 
riência) e da sintese (isto é, deduções 
que, a partir das primeiras idéias, pro- 
vam e explicam todas as realidades). 

Em suma, o conhecimento humano é 
explicado por Hobbes a partir do entre- 
choque de corpos, a partir de movimen- 
tos exteriores que, por meio dos senti- 
dos, atingem o espírito (este não passa 
de um “corpo tênue e sutil”), repercu- 
tindo uns nos outros, associando-se e 
finalmente organizando-se na arquite- 
tônica científica. 


A luta pela vida 


A teoria nominalista da arquitetônica 
cientifica e a teoria materialista da 
estrutura da realidade, que se articulam 
como um todo sistemático nas obras de 
Hobbes, não se esgotam em si mesmas. 
Pelo contrário, seu materialismo e nomi- 
nalismo vinculam-se intimamente aos 
problemas práticos do homem. O mundo 
vivido por Hobbes era pisa Cu 
rico em contradições políticas e religio- 


sas e o filósofo marcou sua presença em 
inúmeras polêmicas, expondo suas 
idéias e declarando suas opções. Essas 
idéias e opções, que se encontram nos 
seus escritos políticos, somente ganham 
dimensão filosófica à luz de seu materia- 
lismo e nominalismo. Querer isolar esta 
ou a uela parte de sua obra é uma das 
possibilidades de leitura, mas não é a 
melhor maneira de compreender o pen- 
samento do filósofo. 


Segundo Hobbes, o ponto de partida 
da ação humana e. consequentemente, 
da ação morale política é o conato (cona- 
tus), ou seja, o esforço ou empenho. Nos 
Elementos de Lei Natural e Política, 
Hobbes explicita essa idéia afirmando 
que o “movimento, que consiste no pra- 
zer e no desgosto, é uma solicitação ou 
provocação para se aproximar do que 
agrada ou para se retirar do que desa- 
grada; e essa solicitação é o esforço ou 
começo interno do movimento animal” 

Desde esse movimento inicial, toda 
ação humana é vista pelo autor de forma 
radicalmente determinista; isso aconte- 
ce, por exemplo, quando explica a per- 
cepção visual: “a visão se faz por ação 
derivada do objeto; ora, toda ação é um 
movimento; o movimento é, pois, propa- 

ado da luz ao olho”. Assim, para Hob- 

es, não é de se estranhar que a alegria 
seja causada pela posse de um objeto 
que favoreça o indivíduo. À tendência no 
sentido desse objeto chama-se “bem”: o 
“mal” seria, ao contrario, a aversao ao 
objeto que causa dor. 

Como lembra Bertrand Russell, as 
definições que Hobbes dá das paixões 
baseiam-se, em sua maior parte, numa 
visão competitiva da vida. 

A vida seria comparável a uma corri- 
da na qual é preciso vencer sempre. Para 
Hobbes, ela começa com o esforço ini- 
cial chamado “desejo”, sendo o “amor” 
definido como ligação a alguém. “Estar 
continuamente UE trapassado é miséria”, 
diz o autor do Leviatã. “Ultrapassar 
continuamente quem está adiante é feli- 
cidade. Abandonar a corrida ê morrer.” 

No racionalismo clássico, a vontade 
implica a razão. Em Hobbes, ela se defi- 
ne como “último apetite na delibera- 
ção”. Liga-se, portanto, ao conjunto das 
paixões, alternando-se no jogo estabele- 
cido entre tendência e aversão ao objeto. 


273 


OS PENSADORES 


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O estilo renascentista chegou relativamente tarde à Inglaterra; a primeira 
arte sensível às inovações foia arquitetura. O progresso econômico 


ocorrido no séc. XVI levou anobreza 


ritânica a construir as manor houses, 


mansões senhoriais simples e austeras, mas imponentes. Exemplo disso 
é Kingston House, edificada em 1580, em Bradford-on-Avon, Northamptonshire. 


Em suma, um determinismo mecanicista 
regeria não só os movimentos do uni- 
verso como também a atividade psicoló- 

ica do homem. Nessa mesma ordem de 
idéias, a liberdade, em Hobbes, reduz-se 
à “ausência de tudo que impede a ação e 
que não está contido na natureza e na 
qualidade intrínseca do agente”. O 
“livre arbítrio” não passaria de ilusão: 
seria apenas uma expressão destinada a 
ocultar a ignorância das verdadeiras 
causas das decisões humanas. 


Egoísmo e altruísmo 


“O homem é o lobo do homem” é uma 
das frases mais repetidas por aqueles 
que se referem a Hobbes. Essa máxima 
aparece na obra Sobre o Cidadão, coroa- 
da por uma outra, menos citada, mas 
igualmente importante: “guerra de 


276 


todos contra todos”. Ambas são funda- 
mentais como síntese do que Hobbes 
pensa a respeito do estado natural em 
que vivem os homens. O estado de natu- 
reza é o modo de ser que caracterizaria 
o homem antes de seu ingresso no estado 
social. No estado de natureza, “a utili- 
dade é a medida do direito”. Isso signi- 
fica que, levado por suas paixões, o 
homem precisa conquistar o bem, ou 
seja, as comodidades da vida, aquilo que 
resulta em prazer. O altruísmo não 
seria, portanto, natural. Natural seria o 
egoísmo, inclinação geral do gênero 
humano, constituído por “um perpétuo e 
irrequieto desejo de poder e mais poder 
que só termina com a morte”. Essa idéia 
é afirmada por Hobbes em relação a 
todos os homens. Apesar de defensor do 
despotismo político e adversário da 
democracia política, Hobbes afirma que 


HOBBES 


“todos os homens são naturalmente 
iguais”. 

Essa igualdade baseia-se no desejo 
universal de autopreservação, isto é, da 
procura do que é necessário e cômodo à 
vida. Com isso, fica estabelecido um 
direito fundamental de autoconservação. 
Como todos os homens seriam dotados 
de força igual (pois o fisicamente mais 
fraco pode matar o fisicamente mais 
forte, lançando mão deste ou daquele 
recurso), e como as aptidões intelectuais 
também se igualam, o recurso à violên- 
cia generaliza-se e complica-se, cada 
qual elaborando novos meios de destrui- 
ção do próximo, com o que a vida se 
torna “solitária, pobre, sórdida, embru- 
tecida e curta”, na qual cada um é lobo 
para o outro, em guerra de todos contra 
todos. Assim, o estado natural exige uma 
saida com base no próprio instinto de 
conservação da vida. Deixado a si, O Ins- 
tinto de conservação é a abertura para a 
violência que o reitera e, ao mesmo 
tempo, para a paz tática que prometa 
conservação. É esse o campo da lei 
natural. 


Natureza e sociedade 


A concepção que Hobbes tem do esta- 
do de natureza distancia-o da maior 
parte dos filósofos políticos, que acredi- 
tam haver no homem uma disposição 
natural para viver em sociedade. Na 
obra Sobre o Cidadão Hobbes argumenta 
contra Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C. 
para quem o homem é um animal social 
e já está naturalmente incluído numa 
ordem ideal. Como o instinto de conser- 
vação é básico na filosofia de Hobbes, 
para ele os indivíduos entram em socle- 
dade só quando a preservação da vida 
está ameaçada. Os homens não vivem em 
cooperação natural, como o fazem as 
abelhas ou as formigas. O acordo entre 
elas é natural; entre os homens, só pode 
ser artificial. 

Guiado pela razão, o instinto de 
conservação ensina que — diz Hobbes — 
“é preciso procurar a paz quando se tem 
a esperança de obtê-la”, pois a vida de 
cada um estaria sempre ameaçada se 
cada qual tudo fizesse para exercer seu 
poder sobre todas as coisas. Não sendo 
possível a paz, “é preciso procurar em 


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A partir de 1603, Hobbes estudou no 
Magdalen College de Oxford, onde 
imperava um ensuno escolástico, cuja 


rigidez e estreiteza o desagradaram. 
(Torre do Magdalen College, Oxford.) 


277 


FABBRI 


OS PENSADORES 


toda parte os recursos para a guerra, 
sendo lícito empregá-los”. De qualquer 
modo, a paz é a dimensão mais compa- 
tivel com o instinto de conservação. 

Nesse sentido, os homens são levados 
a estabelecer contratos entre si. O con- 
trato “é uma transferência mútua de 
direito”. O pacto, isto é, a promessa de 
cumprir o contrato, vale enquanto a 
conservação da vida não estiver sendo 
ameaçada. Para que seja durável a paz 
obtida com o contrato social, “é neces- 
sário que a multidão dos associados seja 
tão grande que os adversários de sua 
segurança não tenham a esperança de 
que a adesão de um pequeno número 
baste para assegurar-lhes a vitória”. 
Para que a vida seja viável, impõe-se, 
pois, uma sociedade civil. Assim, a paz 
imprescindível à conservação da vida 
que a razão solicita cria o pacto social e, 
através deste, o homem é introduzido em 
uma ordem moral. 


No nível das relações morais, ê& preci- 
so que cada um — segundo Hobbes — 
“não faça aos outros o que não gostaria 
que fizessem a si”; é preciso evitar a 
ingratidão, os insultos, o orgulho, enfim, 
tudo o que prejudique a concórdia; que o 
mal seja vingado sem crueldade, que 
haja moderação no uso dos bens; que os 
bens sejam distribuídos equitativamente 
e que haja uso comum daqueles que não 
possam ser divididos; havendo disputas, 
E se recorra a um árbitro imparcial e 

esinteressado. Essas leis não são dedu- 
zidas por Hobbes de um instinto natu- 
ral, nem de um consentimento universal, 
mas da razão que procura os meios de 
conservação do homem; elas seriam 
imutáveis por constituírem conclusões 
tiradas por raciocínio. 


Ditadura ou democracia? 


Para Hobbes, o pacto social, sendo 
artificial e precário, não é fsuficiente 
para assegurar a paz, pois sempre €ex1s- 
tiriam pessoas que, acreditando saber 
mais do que as outras, poderiam desen- 
cadear guerras civis, a fim de conquistar 
o poder só para elas. Tal consequência 
somente poderia ser evitada se cada 
homem submetesse sua própria vontade 
à vontade de um único homem ou a uma 
assembléia determinada. O escolhido 


278 


para exercer o poder deveria ser total- 
mente seguido pelos componentes do 
corpo social no il e se refere aos proble- 
mas da paz geral. Um tal poder só seria 
capaz de corresponder à sua finalidade 
se exercido despoticamente. 

Ai está o que os historiadores chamam 
de originalidade e novidade do sistema 
de Hobbes: é partidário do poder abso- 
luto e admite, ao mesmo tempo, o pacto 
social. Hobbes não estabelece contradi- 
ção entre o pacto e o absolutismo; quan- 
do bem compreendido, o pacto conduzi- 
ria necessariamente ao absolutismo, 
segundo o filósofo. Por isso, pode-se 
dizer que Hobbes é absolutista sem ser 
teólogo, o que o distingue dos outros 
absolutistas do século, desde Jaime I até 
Bossuet; ou seja, Hobbes não deriva o 
absolutismo de um direito divino, mas 
do pacto. Além disso, conquanto mani- 
feste sua preferência por um rei absolu- 
to, Hobbes reconhece a legitimidade de 
outros tipos de governo; o que não admi- 
te é que o governo seja misto ou tempe- 
rado, como a monarquia constitucional. 
A razão dessa restrição está, para ele, no 
fato de que competições compromete- 
doras da paz derivam necessariamente 
da presença de vários detentores do 
poder. 

Esse equacionamento do problema 
político deriva do modo como Hobbes 
encara o pacto social. Para o autor do 
Leviatã, o contrato é estabelecido unica- 
mente -entre os membros do grupo que, 
entre si, concordam em renunciar a seu 
direito a tudo para entregá-lo a um sobe- 


-“rano encarregado de promover a paz. 


Um tal soberano não precisaria dar 
satisfações de sua gestão, sendo respon- 
sável apenas perante Deus “sob pena de 
morte eterna”. Não submetido a qual- 
uer lei, o soberano absoluto é a própria 
onte legisladora. A obediência a ele 
deve ser total, a não ser que ele se torne 
impotente para assegurar paz durável] e 
prosperidade. A fim de cumprir sua tare- 
fa, o soberano deve concentrar todos os 
poderes em suas mãos. “Os pactos sem a 
espada não passam de palavras.” Segu- 
rança interna e externa estão em suas 
mãos, as mesmas que detêm a legislação 
suprema e o direito de guerra e paz. 
Para salientar a concepção social e 
política de Hobbes, os historiadores cos- 


HOBBES 


Os reis Stuart foram incapazes de controlar todas as contradições da política 
inglesa do século XVII. Diante de sua fraqueza, Oliver Cromwell (1599-1658) 
liderou os puritanos na guerra civil que estourou em 1642, posteriormente, 
enfeixou todos os poderes em suas mãos, governando a Inglaterra como ditador. 
(Peter van der Faes: retrato de Oliver Cromwell; Galeria Pitti, Florença.) 


279 


FABBRi 


OS PENSADORES 


Depois do desenvolvimento do madrigal na época elizabetana, a música inglesa 
regrediu a ponto de quase desaparecer, com o triunfo do puritanismo 
calvinista, nos meados do séc. XVII. Uma nova era de esplendor só viria a 
ocorrer com as composições de Henry Purcell (1658-1695), o maior músico 
europeu de seu tempo. (Abram Bosse: Instrumentistas; Bibl. Nac., Paris.) 


tumam confrontá-la com a idéia de con- 
trato social e de vontade geral em Rous- 
seau (1712-1778), para quem o homem 
é naturalmente bom, naturalmente livre 
e naturalmente igual aos outros homens. 
O contrato social, única forma de asso- 
ciação legítima, em Rousseau, manifes- 
ta-se em um pacto estabelecido entre o 
ovo e os governantes. Esse pacto esta- 
elece a submissão dos governantes, 
assim como de todos os cidadãos, à Von- 
tade Geral. Esta se volta, não para os 
bens particulares, mas para o bem 
comum. Nas assembléias, a Vontade 
Geral, segundo Rousseau, seria manifes- 
tada pela maioria absoluta, se bem que o 
número não crie essa Vontade; ele ape- 
nas indica onde ela se encontra. 
Hobbes pensa diferentemente. O autor 
do Leviatã distingue as assembléias ““so- 
beranas” daquelas que ele chama “siste- 


280 


mas sujeitos”. Derrubar as assembléias 
soberanas é ilegítimo, mas os sistemas 
sujeitos — para ele — são todos suspei- 
tos. Hobbes teme a ignorância de seus 
membros, tanto no que se refere aos 
assuntos internos quanto no que diz res- 
peito aos externos; estes devem perma- 
necer secretos. Ele teme igualmente a 
eloquência, o que hoje se chamaria de 
demagogia. “É a loucura do vulgo e a 
elogiência que concorrem para a sub- 
versão dos Estados”, diz Hobbes. Por 
isso, embora a sua filosofia admita a 
democracia (no caso das assembléias 
soberanas), desde que os indivíduos 
abram mão do seu direito natural (fonte 
de desavenças),ele prefere um rei, asses- 
sorado por um conselho secreto de ho- 
mens escolhidos. 

Ao soberano absoluto deve pertencer 
também — segundo Hobbes — todo poder 


FABBRI 


HOBBES 


Jaime II (1633-1701) foi o último representante do absolutismo dos Stuart. 
Seu reinado estendeu-se de 1685 até 1688, culminando na Revolução Gloriosa. 
Esta significou o triunfo definitivo das forças liberais do Pariamento 
ea consequente derrota dos ideais políticos defendidos por Thomas Hobbes. 
(J. Riley: Retrato de Jaime II; Galeria Nacional de Retratos, Londres.) 


de decisão em matéria religiosa, em vir- 
tude de a religião implicar a existência 
de um poder distinto da soberania civil, 
originando conflitos: “Não há quase ne- 
nhum dogma referente ao serviço de 
Deus ou às ciências humanas de onde 
não nasçam divergências que se conti- 
nuam em querelas, ultrajes e, pouco a 
pouco, não originem guerras; o que não 
sucede por falsidade dos dogmas, mas 


porque a natureza dos homens é tal que, 


vangloriando-se de seu suposto saber, 
querem que todos os demais julguem o 
9 

mesmo 

Hobbes não vê solução para esses con- 
flitos a não ser pela entrega de toda 
autoridade religiosa ao soberano abso- 
luto; caso contrário, a religião ameaça- 
ria a paz civil. 

À objeção de que o soberano poderia 
impor aos súditos suas próprias crenças 


e sua própria forma de culto, o autor do 
Leviatã responde, afirmando não acredi- 
tar que o soberano viesse a permitir o 
ensino de idéias que poderiam implicar 
sua condenação eterna. Na verdade, a 
dificuldade apontada persiste, Ra Res 
tudo quando se verifica que reis católi- 
cos governavam súditos protestantes, na 
Inglaterra da época. Apesar disso, Hob- 
bes desenvolve sua argumentação, 
pondo de lado as possíveis opiniões pes- 
soais do soberano e declarando que o Es- 
tado deve instituir um culto único e obri- 
gatório: “porque, caso contrário, seriam 
encontradas em uma mesma cidade as 
mais absurdas opiniões referentes à natu- 
reza divina e as mais impertinentes e 
ridiculas cerimônias jamais vistas”. A 
única restrição que Hobbes faz ao sobe- 
rano em matéria religiosa é a de que os 
súditos não deveriam obedecer-lhe se 


281 


FABBRI 


OS PENSADORES 


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O Leviatã de Thomas Hobbes pretende demonstrar rigorosamente que o homem é 


egoísta por natureza, que cada indivíduo é um verdadeiro lobo para todos os 

outros, que o mundo vive em permanente luta de todos contra todos e que, por 

essas razões, o detentor do poder deve governar despoticamente. (Leviatã. 
frontispício da edição de 1651; Fototeca Histórica Nacional, Milão.) 


282 


FABBRI 


HOBBES 


No séc. XVIII, as idéias de Hobbes sofreram muitas críticas. Entre outros, 
James Gillaray satirizou o Leviatã, misturando livremente o conteúdo da obra 
com os eventos políticos da Revolução Francesa na caricatura À Nova 
Moralidade ou A Prometida Investidura do Sumo Sacerdote dos e 


com a Homenagem do Leviatã e 


mandasse ultrajar a Deus e adorar um 
homem a quem conferisse atributos 
divinos. 


Outra dificuldade poderia ser levanta- 
da: não há no decálogo e nos preceitos 
evangélicos leis obrigatórias, diferentes 
por sua origem das leis civis? Para res- 
ponder à objeção, Hobbes afirma que os 
mandamentos do decálogo são leis civis, 
pois Moisés possuia soberania temporal 
sobre o povo judeu. Além do mais, um 
mandamento como “não roubarás” não 
tem sentido se antes não se definisse a 
natureza da propriedade; o mesmo ocor- 
reria com todos os restantes mandamen- 
tos. O pecado, o justo, o injusto, só têm 
sentido na medida em que recebem sua 
existência das leis civis. Por outro lado, 

receitos dos evangelhos — segundo 

Hobbes — não são leis, mas chamados à 
fe; nos evangelhos não haveria regra al- 
guma que permitisse distinguir entre “o 
teu e o meu”, como também eles não 
estabelecem quaisquer regras de inter- 
câmbio comercial ou outras análogas. 
Em suma, só ao soberano caberia distin- 
guir entre o justo e o injusto, entre o 
certo e o errado. 

Por conseguinte, o fundamento da paz 
reli iosa, condição da paz social, é o 
conformismo e não a tolerância, como 
muitos contemporâneos de Hobbes jul- 
gavam. O Leviatã expressa nitidamente 


e seu Séquito. (Museu Britânico, Londres 


a atitude crítica do autor diante do papel 


da Igreja. 


O veredicto da história 


As idéias de Hobbes sobre a religião, 
assim como toda sua teoria da natureza 
humana e da organização politica, não 
podem ser compreendidas sem se levar 
em conta duas ordens de fato- 
res. Por um lado suas idéias constituem 
elementos que se vinculam a uma metafi- 
sica materialista e à sua teoria nomina- 
lista da natureza do conhecimento, com- 
pondo um sistema filosófico rigido. Por 
outro lado, as teorias do homem e do 
Estado, formuladas no Leviatã e em 
Sobre o Cidadão, mserem-se dentro de 
um processo histórico de lutas sociais e 
econômicas bem definido: os conflitos 
entre o poder real e o poder do Parla- 
mento, na Inglaterra do século XVII. 

Apesar da rigorosa ordem de razões 
lógicas que concatenam as idéias do 
autor, elas constituem menos um con- 
Junto de verdades intemporais do que as 
opções concretas do homem Thomas 
Hobbes. Na realidade política em que 
vivia, optou pelo fortalecimento extre- 
mado da autoridade, pelo militarismo 
do executivo, pelo controle severo de 
todas as formas de criação intelectual. 

A história não lhe deu razão, prefe- 


283 


rindo a solução hberal de seu conter- 
râneo John Locke. Em 1689. as forças 
liberais que predominavam no Parla- 
mento inglês derrotaram definitivamente 
o absolutismo real, instituindo a separa- 


1588 — 4 5 de abril, nasce 
Thomas Hobbes, na aldeia 
de Westport, Malmesbury, 
Inglaterra. 

1603 — Morre Elizabeth I, 
a última dos Tudor. Suce- 
de-a seu primo Jaime I, que 
inicia a dinastia dos Stuart. 
Hobbes ingressa no Magda- 
ten Hall, Oxford. 

1608 Termina seu ba- 
charelado em Oxford e é in- 
dicado para preceptor do fi- 
lho de Lorde Cavendish. 
I61I0 — Faz sua primeira 
viagem ao continente. 

1625 — Morre Jaime I, su- 
cedendo-o notrono seu filho 
CarlosI. 

1629 — Hobbes publica 


GotrbsMmitTH, M. M.: Hobbes Science of Politics, Columbia University Press, Nova York e 


Londres, 1966. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


uma tradução da Guerra do 
Peloponeso, de Tucídides. 
1640 — Produz seu primei- 
ro tratado, Elementos de Lei 
Natural e Política. Em face 
dos acontecimentos políti- 
cos ingleses, retira-se para a 
França, onde permanece on- 
ze anos. 

1642 — Publica Sobre o Ci- 
dadão. Inicia-se na Inglater- 
ra a Guerra Civil, quando 
Carlos I é decapitado, e ini- 
cia-se o periodo da Com- 
monwealth, sob a liderança 
de Cromwell. 

1645 — Hobbes é nomeado 
preceptor do principe de 
Gales, que virá a ser o Rei 
Carlos II da Inglaterra. 


BIBLIOGRAFIA 


ROBERTSON, G. C.: Hobbes. Londres, 1886. 
TayLOR,A. E.: Thomas Hobbes, Londres, 1908. 
BRANDT, F.: Thomas Hobbes' Mechanical Conception of Nature, Copenhague e Londres, 


1928. 


ção e a autonomia dos poderes, fazendo 
prevalecer a mentalidade civil. admi- 
tindo a pluralidade de confissões religio- 
sas e proporcionando a liberdade de pen- 
samento e de expressão. 


1651 — Publica, na Ingla- 
terra, o Leviatã ou A Maté- 
ria, a Forma e o Poder de 
uma Comunidade Eclesiás- 
tica e Civil. 

1652 — E banido da corte 
inglesa no exílio e volta defi- 
nitivamente à Inglaterra. 
1654 — Publica Sobre o 
Corpo. 

1658 — Publica Sobre o 
Homem. Morte de Crom- 
weli. 

1660 — Restauração dos 
Stuart com Carlos II. 

1668 — Hobbes traduz, em 
versos ingleses, partes da 
Iíada e da Odisséia. 

1679 — Morte de Hobbes, 
em Hardwick. 


WARRENDER, H.: The Political Philosophy of Hobbes, his Theory of Obligation, Oxford, 


1957. 


Lvon, G.: La Philosophie de Hobbes, Paris, 1893. 
SoRTAIS, G.: La Philosophie Moderne jusqu à Leibniz, Paris, 1922. 
LANDRY, B.: Hobbes, Paris, 1930. 

PETERS, R.: Hobbes, Penguin Books, Harmondsworth, 1956. 
Mac PHERSON, C. B.: The Political Theory of Possessive Individualism, Hobbes to Locke, 


Clarendon Press, Oxford, 1962. 


MinTz, S. I.: The Hunting of Leviathan, Cambridge University Press, 1962. 
Brown, K. C.: Hobbes Studies, Black well, Oxford, 1965. 


284 


e COPYRIGHT MUNDIAL, 1973 — ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL — SÃO PAULO — BRASIL. 


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ÍTULO 22 


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OS PENSADORES 


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Inaugurando o racionalismo moderno, a influência de Descartes atravessou os 
séculos e as fronteiras da França. Como procura de clareza, apoiada nas 
exigências do rigor matemático, o cartesianismo tem sido visto como a 
expressão mais plena do espírito filosófico francês. (Planta de Paris, 1575.) 
Na página anterior: Descartes, de Franz Hals, Louvre, Paris. (Foto A. Mella.) 


m lugarejo nas cercanias de Ulm, 
l | Alemanha, .1619. De 10 para 11 

de novembro, Renê Descartes, 
jovem francês engajado nas tropas do 
Duque Maximiliano da Baviera, vive 
uma noite extraordinária. Depois de um 
período de febril atividade intelectual, o 
dia transcorrera em meio a grande exal- 
tação e entusiasmo: afinal, parecia ter 
descoberto os fundamentos de uma 
“ciência admirável”. O arrebatamento 
prossegue durante o sono, atravessado 
por três sonhos sucessivos cujas ima- 
gens o próprio Descartes interpretará 
como simbolos da iluminação que rece- 
bera e, ao mesmo tempo, como indicação 
da missão a que deveria consagrar a 
vida. Essa missão era a de unificar todos 
os conhecimentos humanos a partir de 
bases seguras, construindo um edificio 
científico plenamente iluminado pela 


286 


verdade e. por isso mesmo, todo feito de 
certezas racionais. 

Já havia algum tempo Descartes 
vinha meditando sobre este tema: a 
superioridade das obras — seja um edifi- 
cio, uma cidade, uma legislação — que 
resultam da atividade de um único 
homem. Na Alemanha, depois de assis- 
tir, em Frankfurt, de julho a setembro 
daquele ano, às cerimônias e às festivi- 
dades da coroação do Imperador Ferdi- 
nando, Descartes entregara-se a longo 
periodo de recolhimento. Havia chegado 
o mvemo e cessaram as manobras mili- 
tares. Nada perturbava o jovem soldado, 
que podia então ocupar-se de suas pró- 
prias idéias. Ele mesmo descreverá, 
mais tarde, essa fase tranquila, mas 
decisiva para seu destino intelectual: 
“.. Não encontrando nenhuma conver- 
sação que me divertisse e não tendo, 


FABBRI 


DESCARTES 


Durante o reinado de Henrique IV 
foi fundado o Colégio de La Flêche, 
onde Descartes estudou. Para a capela 
do colégio foi trasladado, em 1610, 
o coração do grande soberano. 


além disso, por felicidade, preocupações 
ou paixões que me perturbassem, ficava 
todo o dia fechado sozinho num cômodo 
aquecido por uma estufa, onde dispunha 
de todo o tempo para me entreter com 
meus pensamentos” (Discurso do Méto- 
do). Um desses pensamentos era justa- 
mente o de como “as construções come- 
cadas e concluídas por um único 
arquiteto são geralmente mais belas e 
mais bem ordenadas que aquelas que vá- 
rios esforçaram-se por reformar, servin- 
do-se de velhas muralhas que haviam 
sido construídas para outros fins”. Do 
mesmo modo, as cidades novas, fruto do 
traçado ditado pela fantasia de um enge- 
nheiro, ofereceriam à razão satisfações 
que ela não encontra nas ruas tortuosas 
e desiguais” das velhas cidades, resul- 
tantes da expansão desordenada de anti- 
gos burgos. 


A ciência seria também uma arquite- 
tura que, embora destinada a sopa 0 
assentimento de todos os espíritos atr: 
vês de sua dimensão universal. dana e 
deveria ser alicerçada pelo trabalho de 
uma inteligência isolada. Um único espt- 
rito, atento exclusivamente às exigên- 
cias da razão, seria capaz de cone eber o 
plano urbanístico do conhecimento. a 
“cidade nova” onde todos poderiam 
habitar em ruas claras, de tracado per- 
feito porque integrado numa concepção 
unitária. Essa a conclusão a que chega 
Descartes. E o entusiasmo do dia 10 de 
novembro e os sonhos que povoaram a 
noite provinham não somente da desco- 
berta do instrumental que permitiria a 
construção da “ciência admirável”: re- 
sultavam. mais ainda, da convicção de 
que era ele, Descartes, o arquiteto desti- 
nado a traçar o plano e lançar as bases 
daquela cidade onde não haveria as 
“ruas tortuosas e desiguais” das múlti- 
plas opiniões acumuladas pelo tempo e 
ensombradas pela dúvida. A ele cabia a 
tarefa de inaugurar, desde os fundamen- 
tos. o luminoso reino da certeza. 


Tempo de inovações 
e incertezas 


O século XVI foi uma epoca de profun- 
das transformações na visão de mundo 
do homem ocidental, época marcada por 
verdadeira paixão pelas descobertas. No 
tempo e no espaço abrem-se novos hori- 
zontes: eruditos redescobrem antigas 
doutrinas filosóficas e científicas, forja- 
das pelos gregos, e em nome das quais 
torna-se possivel constituir uma sabedo- 
ria nova, oposta às concepções que 
prevaleceram na Idade Média; simulta- 
neamente, viajantes e aventureiros ras- 
gam continentes e mares, descobrindo 
terras e povos. À antiguidade greco-ro- 
mana renasce através de seus pensado- 
res e artistas, enquanto se constitui uma 
nova imagem geográfica do mundo. Essa 
efervescência, que caracteriza a atmos- 
fera intelectual do Renascimento, traz 
consigo, imevitavelmente, a rejeição das 
idéias até então vigentes e que estiveram 
garantidas sobretudo pelo peso de auto- 
ridades agora contestadas. Tudo é sacu- 
dido ou destruído: a unidade política, 


287% 


OS PENSADORES 


E Ra o Aa Do MR 


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ERA Pao 


a au 


“ 


Descartes foi criado num meio familiar e social marcado pela mentalidade 
conservadora. A origem divina do poder real permanecia incontestada na França, 
enem a dúvida metódica preconizada pelo cartesianismo será a Pass as 

e 


instituições políticas. (Detalhe de quadro do século XVIII, dutor 


sconhecido, 


mostrando as festas do casamento de Luís XIII, Museu Carnavalet, Paris.) 


religiosa e espiritual da Europa; as afir- 
mações da ciência e da filosofia medie- 
vais, calcadas principalmente em Aristó- 
teles; a autoridade da Biblia, posta em 
confronto com os dados das novas desco- 
bertas científicas; e o prestígio da Igreja 
e do Estado, abalado pelo movimento da 
Reforma e pelas guerras motivadas por 
dissidências políticas ou religiosas. 
Além disso, se o homem europeu desco- 
bre que há idéias bem diversas das que 
vinham docilmente aceitando como úni- 
cas verdadeiras, e se passa a saber que 
há outros povos vivendo segundo pa- 
drões bem diferentes daqueles. que lhe 
pareciam os únicos legítimos, é natural 
que se espraie uma vaga de descrença e 
de dúvida. 

Principalmente três pensadores ex- 
pressarão o clima de ceticismo propi- 
criado pelas conquistas da Renascença e 
pela falência das concepções e dos valo- 
res da Idade Média: o alemão Agripa de 
Nettesheim (1487-1535), que proclama 
a incerteza das ciências; o médico portu- 
guês Francisco Sanchez (1552-1632), 
que lecionou na França, em Montpellier 
e Toulouse, revelando-se adversário das 
doutrinas aristotélicas e adotando a dú- 


288 


vida como recurso metodológico: e o 
francês Michel de Montaigne 
(1533-1592), que modernizou e enri- 
queceu a argumentação do ceticismo e 
ressaltou a influência que os fatores pes- 
soais, sociais e culturais exercem sobre 
as idéias. Através de agudas análises, 
servidas por fina ironia, Montaigne pro- 
curou demolir as superstições, os erros e 
o fanatismo das opiniões que pretendem 
impor-se a qualquer preço, mascaradas 
de verdade, embora carentes de susten- 
tação racional. Depois de olhar em torno 
e de examinar comportamentos, costu- 
mes e idéias, conclui que só há opiniões 
neste mundo incerto. Voltando-se para 
dentro de si mesmo, aí julga encontrar 
apenas finitude e mortalidade. Sanchez 
havia concluído que o homem não pode 
conhecer nada com segurança, nem o 
mundo, nem a si mesmo. Montaigne vai 
adiante e proclama que o homem nada 
sabe porque o homem não é nada. Que 
outra sábia solução lhe resta — e que 
propõe aos outros homens — senão a do 
ceticismo: a renúncia à certeza aparen- 
temente inatingível? 

No final do século XVI manifesta-se 
um movimento de reação ao ceticismo 


DESCARTES 


que Montaigne soubera justificar e 
exprimir com tanta acuidade. No campo 
religioso, ali na própria França, Pierre 
Charron (1541-1603) extrai do ceti- 
cismo uma indireta defesa da fé. Segun- 
do ele, a crítica cética destrói-se a si 
mesma: as provas a favor de alguma 
coisa de nada valeriam, mas também as 
provas contra seriam sem valor. Assim, 
perante as incertezas da razão natural, 
Charron exalta a certeza sobrenatural 
da crença religiosa. Mas, na verdade, o 
fideismo de Charron não teve mais 
ampla repercussão, nem conseguiu reter 
a expansão do ceticismo. Este se alimen- 
tava de fortes argumentos colhidos na 
derrocada de toda uma visão de mundo e 
de toda uma concepção de ciência e de 
filosofia. 

No campo filosófico e científico, a 
superação das incertezas não poderia 
resultar de correções parciais que ten- 
tassem aproveitar as ruinas da visão de 
mundo medieval. Não era possível utili- 
zar as “velhas muralhas que haviam 
sido construídas para outros fins”. Ao 
contrário, era preciso começar tudo de 
novo, encontrar novo ponto de partida e 
demarcar novo itinerário que condu- 
zisse, com segurança, a certezas cienti- 
ficas universais. As múltiplas opiniões 
eram caminhos vários e inseguros que 
não levavam a nenhuma meta definitiva 
e estável. Era necessário, portanto, que 
se encontrasse não um caminho — mais 
um ao lado de tantos outros a porém o 
caminho certo, aquele que se impusesse 
a todos os demais como o único legitimo 
porque o único capaz de escapar ao labi- 
rinto das incertezas e das estéreis cons- 
truções meramente verbais, para condu- 
Zar a descoberta de verdades 
permanentes, irretorquíveis, fecundas. 
Era preciso achar a via — o ódos dos gre- 
gos — que levasse à meta ambicionada: 
precisava-se achar o método para a 
ciência. 

Essa é uma preocupação que se gene- 
raliza a partir do final do século XVI e 
vai caracterizar a investigação filosófica 
do século XVII. Duas grandes orienta- 
ções metodológicas surgem então, abrin- 
do as principais vertentes do pensa- 
mento  modemo: de um lado a 
perspectiva empirista proposta por 
Francis Bacon (1561-1626), a preconi- 


O Cardeal Richelieu foia figura mais 
importante do cenário político da 
França na época ue Descartes. Apoiou 
a ascensão da burguesia. (Tela de 
F. Champaigne, M. do Louvre, Paris.) 


289 


OS PENSADORES 


zar uma ciência sustentada pela obser- 
vação e pela experimentação, e que for- 
mularia indutivamente as suas leis, 
partindo da consideração dos casos ou 
eventos particulares para chegar a gene- 
ralizações; por outro lado, inaugurando 
o racionalismo moderno, Descartes 
busca na razão — que as matemáticas 
encamavam de maneira exemplar — os 
recursos para a recuperação da certeza 
científica. 


As múteis humanidades 


Os Descartes constitutam uma família 
de burgueses radicados na região entre 
Tours e Poitiers, e dedicados principal- 
mente ao comércio e à medicina. Ligan- 
do-se aos Sam e aos Brochard, torna- 
ram-se proprietários de terras e 
ascenderam socialmente. Tanto que Joa- 
chim Descartes, casado com Jeanne Bro- 
chard, passará a ostentar o titulo de 
conselheiro do rei no Parlamento da 
Bretanha. Com esse título ele é identifi- 
cado na ata de batismo de seu filho 
René, nascido em La Haye, na Touraine, 
em 1596. 

De saúde frágil, René passou o início 
da infância sob os cuidados da avó, 
Jeanne Sai, pois perdera a mãe com um 
ano de idade. E, chegado o momento de 
começar os estudos, o pai enviou-o, em 
1606, ao já célebre colégio jesuíta de La 
Fléche. Era um estabelecimento de ensi- 
no fundado recentemente, mas logo 
transformado numa das mais renomadas 
escolas da Europa. Os Jesuitas o haviam 
criado. em 1604, sob a proteção de Hen- 
rique IV. que, para essa finalidade, 
doou-lhes um palácio e amplos recursos. 
Conscientes do papel que lhes estava 
reservado numa França pacificada de- 
pois de tantos distúrbios políticos e de 
tantas lutas religiosas, os jesuítas esme- 
raram-se em sua tarefa de educadores. O 
colégio recebeu o nome de colégio real e 
o soberano decidiu que, quando morres- 
se, seu coração deveria ser trasladado 
para lá e ser depositado em sua capela. 
Isso de fato aconteceu, em maio de 
1610, e o jovem Descartes esteve pre- 
sente às solenidades. 

Mais tarde, no Discurso do Método, 
ele falará das esperanças e das dece 
ções que o ensino de La Fléche lhe susci- 


290 


tou. “Eu estava num dos mais célebres 
colégios da Europa, onde pensava que 
deveriam existir homens sábios, se eles 
existissem em algum lugar da Terra.” 

Mas essa expectativa viu-se cedo frus- 
trada: ““Alimentei-me de letras desde 
minha infância, e, devido ao fato de me 
terem persuadido de que por meio delas 
podia-se adquirir um conhecimento 
claro e seguro sobre tudo o que é útil à 
vida, tinha extremo desejo de aprendê- 
las. Porém, assim que termine: todo esse 
curso de estudos, ao fim do qual costu- 
ma-se ser recebido na fileira dos douto- 
res. mudei inteiramente de opinião”. O 
desencanto de Descartes não se referia 
ao sistema de ensino de La Fléche nem 
aos seus mestres. Pelo contrário, por 
estes conservou sempre estima, e, mais 
tarde, consultado por um pai sobre a 
escolha de uma escola, recomendou La 
Flêche com insistência. A decepção de 
Descartes fora causada pelo próprio 
conteúdo dos ensinos que recebera, que 
exprimiam uma cultura sem funda- 
mentos racionalmente satisfatórios e 
vazia de interesse para a vida. O que o 
decepcionou foram as próprias “letras”, 
as litterae humaniores, as chamadas 
“humanidades”, de que ele avidamente 
se alimentou no curso de La Fléche (de 
1606 a 1614) e depois nos estudos de 
direito, em Poitiers (de 1614 a 1616). 
Em La Fléche, onde o latim era a única 
lingua admitida e Cicero o autor mais 
lido, a base do estudo era a lectio, ou 
seja, a leitura e a explicação de um texto 
antigo , completada por uma repetição 
que tinha o objetivo de afastar quaisquer 
dúvidas; finalmente, a erudição deveria 
enriquecer as noções recebidas, apoian- 
do-as em diversas informações (sobre 
história, geografia, direito, etc.). Esse 
procedimento pedagógico aplicava-se 
micialmente às ciências de erudição (es- 
tudo de lin uas antigas, grego e latim, 
história e “fábulas”); num segundo está- 
gio. o aluno era levado a estudar 
eloquência, poesia e teologia; por fim, 
as ciências que naquela época eram 
designadas genericamente pelo nome de 
filosofia (lógica, fisica, metafísica e 
moral) e as que seriam aplicações dos 
princípios filosóficos (medicina e juris- 
prudência). Esse campo da filosofia 
pareceu a Descartes um caos, onde as 


DESCARTES 


t FA saver pra vi 


A época de Descartes foi de expansão científica e técnica. O filósofo ficou 
surpreso, porém, ao verificar que as matemáticas eram usadas apenas para 
aplicações mecânicas. Concebeu então o projeto de uma “matemática universal”, 
que levasse clareza a todos os campos do conhecimento. (O Louvre eo Sena 
Vistos da Ponte Nova, anônimo do século XVII, Museu Carnavalet, Paris.) 


291 


FABBRI 


OS PENSADORES 


ARBORIO MELLA 


A pa Lt 
É E”. 
A filosofia de Descartes é construída 
como um encadeamento de idéias claras 
e distintas. Seu ponto de partida 


é a evidência do cogito, que une 
toda dúvida: “Penso, logo existo” 


PS Su 


teses mais contraditórias já haviam sido 
defendidas e “cultivadas pelos melhores 
espíritos”. Assim, na filosofia que apren- 
de — como aliás em todos os dominios 
das “letras” —, Descartes defronta-se 
com opiniões inseguras e sem qualquer 
utilidade prática: as “humanidades” não 


serviam verdadeiramente ao homem. 
Certo é que, porém, em La Fléche, 


Descartes recebeu uma educação im- 
pregnada de profundo espírito religioso 
e imbuída de um civismo que assumia a 
forma de fidelidade à monarquia. Prove- 
niente de um meio marcado por fortes 
tradições conservadoras, Descartes con- 
viveu em La Fléche com uma mentah- 
dade imbuida de religiosidade e de sub- 
missão às Instituições politicas. À marca 
daquela origem burguesa e do espirito 
conservador de La Fleéche irá transpare- 
cer, segundo muitos intérpretes, no pen- 
samento cartesiano, embora contraba- 
lançada pelo senso de tolerância ditado 
pelo eixo central de sua construção filo- 
sófica — a razão. 

A natureza do ensino recebido em La 
Flêche tem a ver com as condições políti- 
cas da época em que vive Descartes. De- 
pois de Henrique IV, Luis XIII. seu 
filho, ocupou o trono da França (de 
1610 à 1643). Porém, a partir de 1624, 
a efetiva direção dos negócios públicos 
esteve nas mãos do Cardeal Richelieu, 
que durante dezoito anos foi a figura 
mais proeminente do cenário politico 
francês. Mais ainda do que a de Henri- 
que IV, a diretriz de governo do cardeal 
desenvolveu-se no sentido de sustenta- 

ção da burguesia. Atribuiu toda sorte de 
privilégios e monopólios aos nego- 
ciantes e manufatureiros e ampliou o 
comércio marítimo. Com isso, expandi- 
ram-se em grande escala as manufaturas 
e multiplicaram-se os engenhos mecâni- 
cos. Essa expansão científica e técnica 
foi obra da burguesia; mas, se o absolu- 
tismo real favorecia a burguesia, ele não 
pretendia entregar-lhe o poder. A mo- 
narquia procurava simplesmente fortifi- 
car-se, utilizando a burguesia contra a 
nobreza e contendo uma por meio da 
outra. Explica-se desse modo, em gran- 
de parte, o retardamento da “ciência ofi- 
cial” da época — que desencantara Des- 
cartes desde os tempos do colégio de La 
Flêche —, completamente estagnada em 


DESCARTES 


torno dos comentários dos antigos (par- 
ticularmente de Aristóteles, no campo 
filosófico) e predisposta a rejeitar e a 
condenar, em nome da tradição e da 
autoridade, quaisquer manifestações de 
uma nova mentalidade científica. 


A sedução das matemáticas 


Depois dos cursos realizados em La 
Fleche e em Poitiers — e desencantado 
com a instabilidade e a inutilidade prá- 
tica das “letras” —, Descartes resolve 
procurar apenas a ciência que “poderia 
encontrar em mim mesmo, ou antes, no 
grande livro do mundo”, seguindo o 
caminho apontado por Montaigne. In- 
gressa, então, na carreira militar, e vai 
para os Paisás Baixos. onde passa a ser- 
vir sob o comando de Maurício de Nas- 
sau, que combatia os espanhóis. Nessa 
época liga-se por forte amizade a Isaac 
Beeckman, jovem médico holandês apai- 
xonado pela fisica-matemática. 

Paralelamente à decepção vausada 
pelas “humanidades”, Descartes Já 
havia sido tocado — certamente desde os 
tempos do colégio — pela sedução das 
matemáticas, todos aqueles conheci- 
mentos regidos pelas noções de número e 
medida. “Eu me comprazia principal- 
mente com as matemáticas, devido à cer- 
teza e à evidência de suas razões”, 
escreverá mais tarde no Discurso do Mé- 
todo. E não sem motivo: ao contrário da 
fragilidade dos argumentos e da dissen- 
são típica das “humanidades” , as mate- 
máticas exibiam uma construção sólida 
e clara, que a todos se impunha com a 
força de demonstrações incontestáveis e 
que atravessara incólume as crises de 
pensamento instauradas pelos novos 
ventos da Renascença. À A validade das 
proposições matemáticas parecia pairar 
acima das contigências de espaço e de 
tempo, sugerindo a possibilidade de 
seguras e perenes verdades que escapas- 
sem à corrosão do ceticismo. As mate- 

máticas eram a promessa de se ir além 
de Montaigne. Mas, ao lado do encanta- 
mento pelas matemáticas — estimulado 
pela comunhão com os interesses de seu 
amigo Beeckman —, o jovem Descartes 
faz duas verificações que o surpreen- 
dem: apesar de apresentarem solidez e 
perfeito encadeamento, as matemáticas 


serviam então de base para um campo 
bastante limitado de aplicações (o das 
artes mecânicas); por outro lado, embo- 
ra dotadas de tão grande riqueza racio- 


nal. elas não ensinavam nada de funda- 
mental para os problemas da vida, que 


permaneciam objetos de especulações 
vagas. 


Em 1619, Descartes deixa a Holanda 
e viaja por vários países: Dinamarca, 
Polônia, Hungria, Alemanha. Continua 
seus estudos de matemática, na mesma 
época em que ingressa na confraria 
Rosa-Cruz, caracterizada por um misti- 


cismo de indole fortemente racional. O 
ano de 1619 foi, assim, marcado por 


grande atividade científica e por uma 
efervescência espiritual que culminaram 
nos sonhos da noite de 10 para 11 de 
novembro. Descartes alcançava então O 
desvelamento de sua missão filosófica: 
certo de que existia um acordo funda- 
mental entre as leis matemáticas e as 
leis da natureza, conclui que a ele cabe- 
ria a tarefa de reviver e atualizar o anti- 
go ideal pitagórico de submeter o uni- 
verso aos números, abrindo a via para o 
conhecimento claro e seguro de todas as 


coisas. . 
A partir de 1620, Descartes renuncia 


definitivamente à carreira militar para 
dedicar-se à investigação científica e 
filosófica. Realiza novas viagens, inclu- 
sive à Itália. Em 1627, durante sua 
permanência em Paris, participa de um: 
debate na residência do núncio papal, e 
causa tão viva impressão que o Cardeal 
de Bérulle exorta-o a se consagrar à 


reforma da filosofia. 
Arê esse momento Descartes havia 


escrito alguns trabalhos. dos quais só se 
conhecem extratos ou os títulos, onde 
transparecem suas preocupações cienti- 
ficas aliadas à influência dos temas da 


sociedade Rosa-Cruz. Dentre esses es- 
critos encontram-se o Parnassus, os 


Olympica, um Compendium Musicae 
(dedicado a Beeckman), uma Álgebra, a 
Democritica e o Studium Bonae Mentis, 
que dá início às investigações metodoló- 
gicas de obras posteriores, como as Re- 

ras para a Direção do Espírito (Regu- 
lae ad Directionem Teens escritas em 
1628. Nesse mesmo ano, fixa-se na 
Holanda, onde vive até 1649 e onde faz 
vários amigos, particularmente Constan- 
tn Huygens ( pai do futuro cientista 


293 


OS PENSADORES 


No Discurso do Método, Descartes descreve sua formação intelectual, 
relata o desencanto que lhe causaram as “letras” e proclama a superioridade 
das matemáticas. Finalmente, apresenta os preceitos metodológicos capazes 

de conduzir o espirito à verdade. Do ano da publicação do Discurso (1637) 
é este quadro de Verwer, mostrando trecho de Paris. (Museu Carnavalet.) 


Christiaan Huygens  — 1629-1695). 

Os cinco primeiros anos de sua 
permanência na Holanda foram dedica- 
dos à elaboração de um pequeno tratado 
de metafísica e, principalmente, à com- 
posição de uma obra que deveria abar- 
ar o conjunto da fisica: o Traité du 
Monde et de la Lumiere (Tratado do 
Mundo e da Luz). O trabalho já estava 
pronto para ser impresso quando Des- 
cartes soube da condenação de Galileu, 
motivada por uma tese a que ele também 
havia aderido: a do movimento da Terra. 
Por prudência, Descartes renuncia à 
publicação de sua obra. E por prudência 
(que alguns criticos considerarão às 
vezes excessiva), toda a obra posterior 
do filósofo ficará. até certo ponto muti- 
lada ou deformada: Descartes apresen- 
tar-se-á como um “filósofo mascarado” 
(segundo sua própria expressão), pas- 
sando a se exprimir de forma frequente- 
mente embuçada e ambígua, para garan- 


294 


tir à tranquilidade de sua vida e evitar a 
repressão da Igreja. 

Em 1637, Descartes reconsidera sua 
mtenção de nada mais publicar, e edita 
três pequenos tratados: a Dióptrica, os 
Meteoros e a Geometria, precedidos do 
Discours de la Méthode pour bien Con- 
duire Sa Raison et Chercher la Vérité a 
travers les Sciences, obra escrita em 
francês, o que constitui uma novidade 
para a época, pois desde a Idade Média 
as obras científicas e filosóficas eram 
escritas em latim. Dessa forma Descar- 
tes marca Já, pela roupagem de seu pen- 
samento em “língua vulgar”, nacional, a 
afirmação do espírito modem: tendente 
a romper com a latinização unificadora 
da cultura. 

Anos mais tarde (1641), Descartes 
publica as Méditations sur la Philoso- 
phie Prémiêre, que suscitaram numero- 
sas objeções por parte de filósofos e teó- 
logos (como Hobbes, Caterus, Amault, 


DESCARTES 


CGassendi), obrigando-o a redigir as Res- 
postas, que contêm elementos impor- 
tantes para a compreensão de suas dou- 
trinas. Em 1644, para completar a 
exposição de sua filosofia e de sua fisi- 
ca, publica, em latim, os Princípios da 
Filosofia, dedicados à Princesa Eliza- 
beth da Boêmia, com quem Descartes 
manteve assídua correspondência sobre 
temas filosóficos e que, de certo modo, o 
induziu a escrever o Traité des Passions, 
publicado em 1649. Descartes já era 
então um nome internacional, louvado 
por uns e combatido por outros. No final 
daquele mesmo ano, aceita o convite da 
Rainha Cristina da Suécia — que gostava 
de se cercar de artistas e intelectuais — e 
parte para a corte de Estocolmo. Sua 
saúde, que sempre fora frágil, não resis- 
te, porém, aos rigores do clima nórdico: 
tendo contraído pneumonia. Descartes 
morre poucos meses depois de sua che- 
gada (11 de fevereiro de 1650). 


Se duvido, penso 


Nos Princípios da Filosofia Descartes 
compara a sabedoria a uma árvore que 
estaria presa ao domínio do ser, à reali- 
dade, através de suas raizes metafísicas. 
O tronco da árvore seria a física, ou seja, 
o conjunto dos conhecimentos sobre o 
mundo sensível, redutíveis, porém, à sua 
estrutura matemática. Os ramos repre- 
sentariam as principais artes que apli- 

am conhecimentos científicos: a mecá- 
nica, a medicina, a psicologia, a moral. 
Uma única seiva circularia por todo esse 
complexo organismo, garantindo-lhe a 
vitalidade. Por outro lado, a imagem 
deixa perceber claramente que Descar- 
tes, embora desde cedo voltado para as 
pesquisas científicas, não considera que 
estas se bastem a s! mesmas: o tronco da 
fisica sustenta-se em raízes metafisicas. 

A maior parte da obra de Descartes é 
consagrada às ciências; mas ele com- 
preende que não é suficiente pesquisar e 
resolver problemas científicos — o que 
faz sobretudo nos dominios da matemá- 
tica e da óptica —, se, naquele tempo de 
incertezas, não consegue justificar a 
própria legitimidade da ciência. Desde 
os 23 anos Descartes havia aplicado a 
álgebra à geometria, encontrando um 
método matemático geral e abstrato que 


e /4 oi honor mio do. fitea demão das Simas 
o E fereeR ecomimndab io per ses Dprtus sa paréroo 
t 

à olue se pes: da prefêndeir de 304 Connoisan cas 
Gi bt ba fo cent nes: dz Rechrerhe de laTirdk é 
errar uaisso Aabclo Ma b onatiiern qrea boryBe tanto ni io 


Mon 
Mileto he (1638-1715) on 9) 
racionalismo cartesiano, vinculando-o 
aos dogmas cristãos. Para ele, Deus 
seria a causa de tudo, a atuar 
por meio das “ocasides” concretas. 


fomecia simultaneamente as leis dos nú- 
meros e das figuras. Mas sua ambição é 
maior, como maior era o âmbito da tare- 
fa intelectual de que se Julgara investi- 
do, principalmente depois dos sonhos de 
novembro de 1619. Tratava-se de unifi- 
car, com o auxílio do instrumental mate- 
mático, todo o vasto campo dos conheci- 
mentos, até então dispersos em débeis 
construções isoladas. Mas, para sso, 
era necessário que, antes, o terreno fosse 
preparado de modo a que nele não 
medrasse qualquer dúvida. Só então a 
árvore da sabedoria poderia expandir-se 
com o pleno viço da certeza. 

Descartes percebe que existe apenas 
um caminho que supera a dúvida: o que 
a atravessa toda, esgotando-lhe todas as 
dimensões. Ou seja: parece-lhe impos- 
sivel vencer a dúvida evitando-a ou 
pretendendo instalar-se desde logo numa 
frágil certeza — e frágil justamente por- 
que ainda não submetida. aos testes da 


295 


SORIU Mt ana 


ARE 


OS PENSADORES 


A vida de Descartes esteve sempre ligada à Holanda. Na juventude, lá conheceu 
o médico Isaac Beeckman, outro apaixonado pelas investigações matemáticas. 
Mais tarde, de 1628a 1649, viveu outra vez na Holanda, quando então 
tornou-se amigo de Constantin Huygens, pai do futuro grande cientista 
Christiaan Huygens. (Rotterdam, segundo uma gravura do século XVIIL.) 


dúvida. Descartes aceita o desafio da 
dúvida que transpassava a atmosfera 
cultural de sua época; aceita para 
combatê-la com suas próprias armas. 
Eis porque duvida metodicamente de 
tudo. Adota em princípio a sugestão de 
Montaigne: o decisivo campo de batalha 
entre a certeza e a incerteza é o próprio 
eu. Fazendo a sondagem de suas pró- 
prias idéias, verifica que as “que parecem 

referir-se a objetos físicos são instáveis e 
obscuras, facilmente atingíveis pela in- 
certeza; outras, ao contrário, apresen- 
tam-se ao espírito com grande nitidez e 
estabilidade — exatamente as utilizadas 
pelas matemáticas (como “figura”, “nú- 
mero”). Essas idéias claras e distintas 
são concebidas por todos da mesma 
maneira, o que parece mostrar que elas 
independem das experiências dos senti- 
dos (individuais e mutáveis), consti- 
tuindo o substrato inato da pensée. 
Essas idéias inatas satisfazem plena- 
mente o ideal de construir uma “mate- 
mática universal”, que passara a ser o 
objetivo de Descartes. Com elas — e 


296 


somente com idéias desse tipo — parecia 
exequível a construção de uma “cadeia 
de razões”, cujos elos seriam intuídos 
com a clareza das evidências matemá- 
ticas e interligados com a coerência per- 
feita das demonstrações de que a mate- 
mática fornecia os exemplos. Construida 
por sucessivas intuições ligadas por vín- 
culo dedutivo, a perfeita sabedoria — 
aplicável a quaisquer objetos — deveria 
ser uma tessitura de idéias claras. A cla- 
reza das idéias, porém, representa uma 
garantia apenas subjetiva: porque são 
perfeitamente claras e distintas é que as 
idéias se impõem com a força de evidên- 
cias. Mas quem garante que a tais 
idéias, embora claras, corresponda algo 
real? 

Nesse ponto de seu esforço de funda- 
mentação da certeza científica, Descar- 
tes amplia a dúvida ao máximo, tornan- 
do-a “hiperbólica”: passa a duvidar até 
mesmo das idéias claras e distintas, que 
o espírito espontaneamente admite como 
evidentes. 

Para levar a dúvida a essa dimensão 


FABBRI 


DESCARTES 


extrema, Descartes lança mão de um 
artifício: a hipótese do “gênio maligno” 
E se a realidade toda fosse regida por 
um malin génie, um princípio de malig- 
nidade e de malícia, que justamente 
manifestasse sua mais requintada mal- 
dade ao fazer com que o homem esti- 
vesse errando toda vez em que tivesse a 
mais forte impressão de estar certo? O 
que a hipótese do malin génie levanta é, 
na verdade, uma séria questão: a do 
valor objetivo dos conhecimentos cienti- 
ficos. O que Descartes, através desse 
artifício, está lembrando é que, enquanto 
se permanecesse apenas no interior da 
consciência, onde a ciência aparece 
como uma representação, nada garante, 
nem mesmo a máxima clareza e o per- 
feito encadeamento lógico dessa represen- 
tação, que ela possui um correspondente 
“lá fora”, no mundo objetivo. À hipótese 
do gênio maligno faz, desse modo, pai- 
rar sobre o universo Sientlico a ameaça 
de ele nada mais ser que uma ficção, 
uma criação apenas subjetiva, um 
sonho, embora o mais bem concatenado. 
No entanto, na medida mesma em que 
é estendida até sua máxima dimensão e 
mostra seu tamanho ameaçador, é que a 
dúvida manifesta seu limite e pode dar 
lugar à sua superação. De cada nível de 
conhecimento em que é aplicada — das 
idéias obscuras provenientes de impres- 
sões sensíveis até as idéias claras uni- 
versais —. a dúvida permite extrair um 
núcleo de certeza, que cresce à medida 
que ela se radicaliza: é mndubitável que, 
“se duvido, penso”. E quanto mais duvi- 
de, mais se repete, reforçando-se, a 
mesma experiência: se duvidar de que 
duvido, só posso fazê-lo pensando essa 
dúvida a respeito da própria dúvida 
micial. 


Penso, logo existo 


No final da Geometria, obra escrita 
em 1637, Descartes afirma: “Em maté- 
ria de progressões matemáticas, quando 
se tem os dois ou os três primeiros ter- 
mos, não é dificil encontrar os outros” 
Essa idéia de uma ordem natural, me- 
rente à progressão do conhecimento, é 
fundamental para o projeto cartesiano 
de construir uma “matemática univer- 
sal”. A partir do que ele experimenta 


Na Holanda o jovem Descartes serviu 
no exército comandado por Maurício de 
Nassau. (Detalhe de Mercado de Ervas 
em Amsterdam, de Gabriel Metzu, 
pintor do século XVII, Louvre, Paris.) 


297 


FABBRI 


OS PENSADORES 


103 


Rexarir Des-Canris 


licates horum filamen- 
torum in co cfle 

tas, quod folavi ipini- 
tuum ca tansentium, 
haud difficulter quo- 
modolibeeintlefti pol 
fint, & ferc ac fiê 
plumbo vel cera con- 
ftarent, tamdiu retinc- 
re poltremos ques re- 
ceperint flexus, donec 
contrarii impriman- 
tur. Cogitindum de- 
nique poros de quibas 


DISCOURS 


DE LA METHODE 


Pour bien conduire fa raifon,8 chercher 
la verité dans les feiencos. 


Prius 
LA DIOPTRIQVE. 
LES METEORES. 
ET 
LA GEO METRIE. 
Qui font des eflass de cete METHODE. 


a Levpe 
De Hmprimericde Lan MarRr. 


cla ly cxxxvia 


nec Prinileçe. 


A ambição de Descartes era a de abranger, num conjunto unitário e claro, 
todos os problemas propostos à investigação científica. Preocupado com 
óptica, tanto quanto com medicina e moral, pretendeu estender a precisão das 
matemáticas aos problemas humanos. (Ilustração, de 1667, do Tratado sobre 
o Homem, e frontispício da primeira edição do Discurso do Método, de 1637.) 


com campo matemático, Descartes tende 
a ver o desconhecido como um termo 
ignorado, mas que será necessariamente 
descoberto desde que, a partir do já 
conhecido, seja construida uma “cadeia 
de razões” que conduza a ele. Genera- 
liza o procedimento matemático que faz 
do desconhecido um termo relativo a ou- 
tros termos (o conhecimento existente), 
e que em função destes pode ser desco- 
berto. O importante — e que constitui o 
preceito metodológico básico que Des- 
cartes aponta no Discurso do Método — 
é que só se considere como verdadeiro o 
que for evidente, ou seja, o que for intui- 
vel com clareza e precisão. Mas a 
ampliação da área do conhecimento nem 
sempre oferece um panorama permeável 
à intuição, e, consequentemente, ade- 
quado de saída à aplicação do preceito 
da evidência. Eis por que Descartes pro- 
põe outros preceitos metodológicos com- 
plementares ou preparatórios da evidên- 
cia: o preceito da análise (dividir cada 


298 


uma das dificuldades que se apresentem 
em tantas parcelas quantas sejam neces- 
sárias para serem resolvidas), o da sín- 
tese (conduzir com ordem os pensamen- 
tos, começando dos objetos mais simples 
e mais fáceis de serem conhecidos, para 
depois tentar gradativamente o conheci- 
mento dos mais complexos) e o da 
enumeração (realizar enumerações de 
modo a verificar que nada foi omitido). 
Tais preceitos representam a submissão 
a exigências estritamente racionais. E 
justamente o que Descartes prescreve 
como recurso para a construção da ciên- 
cia e também para a sabedoria de vida é 
seguir os imperativos da razão, que, a 
exemplo de sua manifestação matemá- 
tica, opera por intuições e por análises. 
De nada adiantaria afiar o gume do 
instrumental analítico se ele, porém, não 
atingisse um alvo real — é o que Descar- 
tes parece mostrar nas partes do Dis- 
curso do Método e das Meditações, em 
que a exacerbação da dúvida, por via da 


rABBRI 


DESCARTES 


A condenação de Galileu pela Igreja 
mostrou a Descartes que era prudente 
não dizer tudo o que pensava, 
ou então dizê-lo de forma indireta ou 
velada. (Tribuna Galileana, Florença.) 


hipótese do malin génie, coloca em 
xeque a objetividade do conhecimento 
científico. Se da máxima incerteza des- 
ponta uma primeira certeza — “Se duvi- 
do, penso” —» esta é ainda, contudo, uma 
certeza a respeito da própria subjetivi- 
dade (“penso”). Nada fica até aí garan- 
tido a respeito de qualquer realidade 
subsistente. Todavia, já é um primeiro 
elo na cadeia de razões — e basta uma 
primeira certeza plena para que a 
“ordem natural”, como numa progres- 
são matemática, faça jorrar luz sobre o 
que até então permanecia desconhecido. 
A dinâmica inerente às séries de termos 
dispostos racionalmente (como as pro- 
gressões matemáticas) leva à inevitável 
explicitação do que está contido no “Se 
duvido, penso”. Leva ao cogito: “Penso, 
logo existo” “(Cogito, ergo sum). 

Surge assim, depois da dúvida, uma 
primeira certeza sobre um existente 
(Cexisto”). Toda a existência do eu apa- 
rece dada, nesse primeiro momento, 


FABBRI 


como absolutamente dependente do pen- 
samento: “se deixasse de pensar, deixa- 
ria totalmente de existir”. Mas a enorme 
importância do cogito na construção do 
cartesianismo é de duplo sentido: por 
um lado, ele se apresenta como um para- 
digma para as intuições que deverão 
suceder-se numa visão clara da realida- 
de, ou seja, tudo que for afirmado deverá 
ser afirmado com a evidência plena do 
tipo “penso, existo”: por outro lado, o 
cogito repercute no plano metafísico, 
pois significa o encontro, pelo pensa- 
mento, de algo que subsiste, de uma 
substância. O desdobramento “natural” 
do “Penso, logo existo” é: existo “como 
coisa pensante”. Do pensamento ao ser 
que pensa — realiza-se, então, o salto 
sobre o abismo que separa a subjetivi- 
dade da objetividade 

Sem dúvida, trata-se de um domínio 
extremamente exiguo da objetividade 
que é assim conquistado: apenas a subs- 
tância pensante (a res cogitans). Mas era 
um termo conhecido, a partir do qual, 
devido à confiança depositada na razão, 
Descartes podia alimentar a esperança 
de resolver definitivamente a grande 
equação do universo. 

A única certeza contida no cogito era 
a da existência do eu enquanto ser pen- 
sante. Todavia, Descartes estaria conde- 
nado filosoficamente à solidão se o 
exame de suas próprias idéias — par- 
tindo sempre do já conquistado — não o 
levasse a provar com evidência, critério 
jamais abandonado, outra existência 
que não a do seu espírito, essa “coisa 
que pensa”. E, antes mesmo de tentar 
demonstrar racionalmente a existência 
do mundo fisico — onde se situa seu pró- 
prio corpo —, Descartes procura provar 
a existência de Deus, garantia última de 
qualquer subsistência e, portanto, fun- 
damento absoluto da objetividade. 


O bom Deus 


A sugestão era platônica e já havia 
sido aproveitada, cristianizada. por 
Santo Agostinho: o fundamento do ser e 
do conhecer é um Bem. E só por isso o 
conhecer — o conhecer de um certo tipo, 
o conhecer científico, epistêmico — pode 
corresponder ao ser, a “o que é”. Porque 
o fundamento da realidade é Don sendo 


299 


OS PENSADORES 


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Desde cedo Descartes reconhecera que um dos melhores caminhos para a ampliação 
dos conhecimentos era ler “no grande livro do mundo”. No decorrer de sua 
vida fez várias viagens, inicialmente em campanhas militares, depois 
como intuito de conhecer diferentes povos e paises. E, afinal, acabou 
morrendo na distante Suécia. (Planta da cidade de Estocolmo, gravura de 1730.) 


mesmo o sumo Bem, o Sol que torna os 
objetos inteligiveis e os sujeitos capazes 
de intelecção, é que a ciência torna-se 
possível como construção clara sobre a 
realidade. E o sono se distingue da vigi- 
lia, e estar acordado, olhando os objetos 
iluminados por esse Sol, é mais do que 
sonhar o terrível sonho de quem sonha, 
com perfeita concatenação de imagens, 
que está acordado, vendo um fictício Sol 
a iluminar objetos ilusórios. 

Na terceira de suas Meditações, Des- 
cartes apresenta provas da existência de 
Deus baseadas no princípio de causali- 
dade, como a que afirma que só exis- 
tindo realmente Deus (causa) pode-se 
explicar a existência de um ser finito e 
imperfeito, o eu pensante, porém dotado 


300 


da idéia de infinito e de perfeição (efei- 
to). Essa idéia estaria na mente do 
homem como “a marca do artista im- 
pressa em sua obra”. Já na quinta de 
suas Meditações Descartes reformula o 
argumento ontológico, forjado inicial- 
mente, na Idade Média, por Santo Ansel- 
mo (1035-1109), e que, antes de Descar- 
tes, fora retomado por São Boaventura 
(1221-1274) e rejeitado por Santo 
Tomás de Aquino (1225-1274). Esse 
argumento pretende provar a existência 
de Deus a partir exclusivamente da idéia 
de Deus, que, como ser perfeitíssimo, 
exigiria a afirmação de sua existência — 
desde que se entenda a existência como 
uma perfeição que possa ser atribuida, 
necessariamente ou não, a uma essência. 


DESCARTES 


A Rainha Cristina da Suécia, mulher 
inteligente, gostava de se cercar 
de artistas, filósofos, cientistas. 

A seu convite, em 1649, Descartes 
foi conhecera corte de Estocolmo. 


Descartes, certamente atraido pelo arca- 
bouço estritamente racional desse argu- 
mento — pois não faz apelo senão ao 
esforço lógico de tornar explicito o 
significado de uma noção supostamente 
nata —, insere-o em sua metafísica. 
Mas, para sobrepor-se às críticas feitas, 
no passado e em sua época, a esse tipo 
de argumentação, procura fazer dela 
não a passagem, acusada de indébita, da 
ordem dos conceitos (idéia de Deus) 
para a ordem real (existência de Deus), 
mas uma passagem entre dois existen- 
tes: porque Deus existiria é que se justi- 
ficaria a existência da idéia de Deus na 
mente humana. O argumento ontológico 
apenas mostraria, na versão cartesiana, 
a relação entre duas substâncias: a res 


infinita (Deus) e a res cogitans (o 
pensamento). 


Todavia, se Deus existe — um Deus 
que não o Deus da religião, mas um 


Deus fundamento da ciência, um “Deus 
de filósofos e de sábios” —, e existe 
como ser perfeitíssimo, então ele é bom e 
veraz, conclui Descartes. Assim sendo, 
não pode permitir o erro sistemático do 
espirito humano. A bondade de Deus im- 
pede a sustentação da hipótese do gênio 
maligno e Justifica o otimismo cientifico 
e a própria crença na razão. Substi- 
tuindo o malin génie pelo bon Dieu, Des- 
cartes pode agora afirmar, com toda a 
segurança, que a evidência é mesmo o 
critério da verdade: às idéias claras 
correspondem de fato realidades — elas 
não são a terrivel armadilha de um gênio 
enganador e cruel. O Deus cartesiano é, 
assim, a garantia da objetividade do 
conhecimento científico; enquanto bon 
Dieu, torna-se a expressão do otimismo 
racionalista que pressupõe que ao máxi- 
mo de clareza subjetiva corresponde o 
cerne da objetividade. O bon Dieu é na 
verdade uma deusa: a Deusa-Razão, que 
Descartes cultua e que será exaltada 
pelo Iluminismo do século XVIII. 

Com base na bondade e na veracidade 
divinas é que Descartes irá também — na 
sexta das Meditações — demonstrar 
racionalmente a existência do mundo fi- 
sico: Deus serve de apoio para retirar do 
domínio da dúvida o conhecimento rela- 
tivo aos corpos. 

Mas como o testemunho sobre o 
mundo fisico é, na maioria das vezes, 
fornecido por idéias obscuras, origina- 
das de impressões sensíveis, Descartes 
não pode aplicar diretamente a ele o pre- 
ceito metodológico da evidência. A exis- 
tência do mundo físico — e como tal 
exterior ao pensamento — deve ser então 
comprovada através de etapas sucessi- 
vas, numa forma de argumentação por 
aproximações que representa um crescer 
da certeza. Descartes primeiro demons- 
tra que a existência do mundo exterior é 
possível; em seguida, que é mais que 
possível — é provável; finalmente, que é 
mais que provável — é certa. 

A possibilidade da existência do 
mundo físico sustenta-se na onipotência 
divina, em nome da qual pode-se legiti- 
mamente supor que aquele mundo exis- 


301 


OS PENSADORES 


te, criado por um ser que tudo pode. 
Mas, além disso, há na pensée uma idéia 
clara referente ao mundo físico — a de 
extensão. Essa idéia que existe no espi- 
rito humano — como a de algo dotado de 
grandeza e forma — é fundamental à 
geometria e torna provável a existência 
dos corpos. Mas, para chegar à certeza, 
Descartes recorre novamente a Deus: se 
à idéia clara e mata de extensão não 
correspondesse uma realidade extensa, 
isso significaria aquela inclinação fatal 
do espírito humano para o erro, obra de 
um malin génie, mas incompatível com a 
idéia de um bon Dieu. Porque Deus é 
bom é que a imagem que o homem faz de 
um mundo exterior não representa uma 
ficção de sua mente, na maior parte 
apoiada nos dados sensíveis: se Deus 
existe — como garantia da objetividade 
—, então pode-se ter certeza de que o 
mundo físico existe. A passagem da cer- 
teza a respeito da existência do pensa- 
mento (res cogitans) para a certeza 
sobre a existência do mundo físico (res 
extensa) pressupõe, assim, o apoio em 
Deus (res infinita). Deus serve de inter- 
mediário entre duas certezas: a de que 
“sou uma coisa que pensa” e a de que 
tenho realmente um corpo. O infinito 
sustenta, mediando-as logicamente, 
duas finitudes: a do pensamento humano 
e a do mundo físico. 

Definidos como substâncias perfeita- 
mente distintas, a extensão e o pensa- 
mento coexistem, todavia, no homem 
através da dualidade corpo/alma. E, 
para justificar as relações entre essas 
duas substâncias opostas, Descartes 
terá que desenvolver (como faz no Trata- 
do das Paixões) engenhosas explicações, 
apelando para a ação intermediária do 
que chama de “espíritos animais”, res- 
ponsáveis pelas interligações entre 
corpo e espírito. O dualismo cartesiano 
será substituido, dentro mesmo da ver- 
tente do racionalismo moderno, por ou- 
tras explicações sobre a relação 
corpo /alma, dadas principalmente por 
Spinoza e por Leibniz. 


Uma moral provisória 


A fisica cartesiana representa uma 
aplicação de sua metafísica, na qual 
Deus garante o conhecimento científico 


302 


constituido a partir de idéias claras. 
Baseada primariamente no plano do 
pensamento, a física cartesiana resulta, 
assim, de construções abstratas, regidas 
pela razão. Mas Descartes reconhece 
que os eventos do mundo físico não são 
facilmente absorvidos pelas idéias cla- 
ras ligadas por cadeias dedutivas. De 
qualquer modo, porém, a física carte- 


siana mostra o mundo tal como ele se 
apresenta ao intelecto: constituido ape- 


nas pela extensão, que é a essência da 
corporcidade. ; . À 

A aplicação das exigências estrita- 
mente racionais à compreensão do 


mundo fisico leva Descartes a concebê-lo 
como finito e pleno: a matéria seria divi- 


dida em particulas perfeitamente conti- 
nuas (não existiria o vazio). Num uni- 
verso assim cheio, toda partícula que se 
move só pode fazê-lo na medida em que 
ocupa o lugar de outra que também se 
move. Porém o mais importante é que 
Descartes concebe que esse movimento 
está submetido a uma determinação tal 
que, se nada o afetar, ele deverá reali- 
zar-se de modo retilineo e uniforme. 
segundo o princípio de inércia. Descar- 
tes reconhece que num mundo em que, 
devido àquele princípio, as partículas 
que constituem a matéria deveriam 
mover-se retilineamente, de fato elas se 
movem em trajetórias circulares — o que 
significa que o princípio de inércia é um 
princípio geral, mas que não se efetiva 
nunca. Fora deste mundo é que uma par- 
tiícula se moveria em linha reta e unifor- 
memente: continuando a tradição platô- 
nica, Descartes vê o mundo físico como 
um caso particular de um mundo ideal, 
este alcançável apenas pelo intelecto. 
Também na consideração das ações 
humanas Descartes reconhece que o pro- 
pósito de generalizar as exigências de 
uma razão matemática encontra obstá- 
culos: a urgência da ação demanda a 
aceitação de imposições puramente fac- 
tuais. Por isso, embora a pretensão de 
criar uma “matemática universal” conti- 
vesse o ideal de uma sabedoria, guiada 
pela razão e aplicável às contingências 
da vida, Descartes é compelido a propor 
uma “moral provisória” espécie de 
arte de ser feliz, apesar das dúvidas que 
possam persistir no julgamento que se 
faça sobre as coisas. Essa moral reco- 
menda o conformismo social, a ube- 


DESCARTES 


FABBRI 


A obra de Descartes manifesta um único objetivo: converter em pura claridade 
racional todos os fenómenos do universo. Certo de que a ele cabia a missão 
de construir a “cidade nova” da sabedoria, Descartes usou as armas da 
dúvida para combater a própria dúvida. (Detalhe de A Rainha 
Cristina Cercada de Sábios, entre eles Descartes; de Dumesnil, Versalhes.) 


303 


OS PENSADORES 


diência às leis e aos costumes do pais. O 
que confirma que a formação conserva- 
dora de Descartes, fruto do meio fami- 
liar e social e fortalecida pela atmosfera 
cultural de La Flêche, deixou marcas no 
seu pensamento. Por outro lado, mostra 
que o destino de Giordano Bruno e de 
Galileu sugeria uma prudência que 
pautou não apenas a vida como também 
certos aspectos da obra de Descartes. 
Mesmo quando ampliada ao máximo, a 


dúvida cartesiana, que chegou a atingir 
as idéias claras da matemática, jamais 
se voltou para os temas políticos e 
sociais. Será necessário aguardar o sé- 
culo XVIII para que, na França, em 
nome da razão analítica prescrita pelo 
cartesianismo, o poder político e as 
instituições sociais sejam julgados e 
condenados, em nome do ideal de uma 
sociedade constituída por imdividuos li- 
vres e iguais. 


1596 — Nasce Descartes, 
em La Haye. 

1606 — Entra para o colé- 
gio jesuíta de La Fleche. 
1610 — Início do reinado 
de Luís XIII. O coração de 
Henrique IV é transferido 
para La Fléche. 

1614 — Descartes sai do 
Colégio de La Flêche. 

1618 — Início da Guerra 
dos Trinta Anos. Descartes 
vai para a Holanda, onde 
realiza sua instrução militar 
sob a direção de Maurício 
de Nassau. 

1619 — Descartes deixa a 
Holanda, seguindo para a 
Dinamarca, depois para a 
Alemanha. 


CRONOLOGIA 
1620 — Renuncia à vida 
militar. 


1622 — Voltaa França. 
1623 — Viagem a Itália. 
1624 — O Cardeal Riche- 
lieu entra para o Conselho 
do Rei e logo se torna chefe 
desse órgão. 

1628 — Descartes escreve 
as Regras para a Direção do 
Espirito. Passa a viver na 
Holanda. 

1629 — Harvey, médico 
inglês, publica a obra Sobre 
o Movimento do Coração. 
1633 — Galileu é conde- 
nado pela Inquisição. 

1634 — Descartes renun- 
cia à publicação de seu Tra- 
tado do Mundo. 


BIBLIOGRAFIA 


1635 — Nasce Francine, 
filha de Descartes e de Hele- 
na, talvez uma criada. 

1637 — Publica o Discur- 
so do Método. 

1641 — Aparecem as Me- 


ditações. 
1642 — Morre Richelieu. 
1644 — Descartes viaja à 
França. 


1647 — Nova viagem à 
França. Encontro com Pas- 
cal. 

1648 — Descartes vai ou- 
tra vez à França. 

1649 — Descartes parte 
para a Suécia, a convite da 
Rainha Cristina. 

1650 — Morre em Esto- 
colmo, de pneumonia. 


RENOULVIFR, CHARLES: Descartes, trad. esp. Espasa, Calpe, Argentina, 1950. 
HAMELIN, OCTAVE: Le Systême de Descartes, Paris, Alcan, 1911; trad. esp. Editorial Losada, 


Buenos Aires, 1949. 


MESNARD, PIERRE: Descartes, Êditions Seghers, Paris, 1966. 
GOUHIER, HENRI: Essais sur Descartes, J. Vrin, Paris, 1949. 
BRUNSCHVICG, LEON: Descartes, Rieder, Paris, 1937. 

BRUNSCHVICG, LEON: Les Etapes de la Philosophie Mathématique, Presses Universitaires de 


France, Paris, 1912. 


GUEROULT, MARTIAL: Descartes selon "'Ordre des Raisons (2 vol), Aubier, Paris, 1953. 


LAPORTE, JEAN: Le Rationalisme de Descartes, Presses Universitaires de France, Paris, 1950. 
ALQUIE, FERDINAND: La Découverte Métaphysique de "Homme chez Descartes, Presses 
Universitaires de France, Paris, 1950. 

ALQUIE, FERDINAND: Science et Métaphvsique chez Descartes, Centre de Documentation 
Universitaire, Sorbonne, Paris, s/d. 

CHEVALIER, JACQUES: Descartes, Plon, Paris, 1921. 

MILHAUD, GASTON: Descartes Savant, Alcan, Paris, 1921. 

ALQUIE, GOUHIER, GUEROULT, J. HyPPOLITE, J. WAHL e outros: Descartes, Cahiers de 
Royaumont, Les Éditions de Minuit, Paris, 1957. 


304 


anam 


PANDA DICIIT RAVIMINEIAS 


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OS PENSADORES 


de junho de 1623, Blaise Pascal 

era filho de Étienne Pascal, presi- 
dente da Corte de Apelação, e de Antoi- 
nette Bégon. Segundo sua irmã e biógra- 
fa, Gilberte Périer, Pascal revelou desde 
cedo um espírito extraordinário, não só 
pelas respostas que dava a certas ques- 
tões, mas sobretudo pelas questões que 
ele próprio levantava a respeito da natu- 
reza das coisas. Tendo perdido a mãe 
aos três anos de idade e sendo o único 
filho do sexo masculino, o pai apegou-se 
muito a ele e encarregou-se de sua 
instrução, nunca o enviando a colégios. 
Mesmo quando, em 1631, a familia Pas- 
cal mudou-se para Paris, a educação de 
Blaise permaneceu ao encargo do pai. A 
irmã Gilberte escreverá mais tarde: “A 
máxima dessa educação consistia em 
manter a criança acima das tarefas que 
lhe eram impostas; por esse motivo só 
deixou que aprendesse latim aos doze 
anos, para que aprendesse com maior 
facilidade. Durante esse intervalo não o 
deixou ocioso, pois o ocupava com todas 
as coisas de que o julgava capaz. 
Mostrava-lhe de um modo geral o que 
eram as linguas; ensinou-lhe como ha- 
viam sido reduzidas as gramáticas sob 
certas regras, que tais regras tinham 
exceções assinaladas com cuidado, e que 
por esses meios todas as linguas haviam 
podido ser comunicadas de um pais para 
outro. Essa idéia geral esclarecia-lhe o 
espírito e fazia-o compreender o motivo 
das regras da gramática, de sorte que 
que veio a aprendê-las sabia o que 
azia e dedicava-se aos aspectos que lhe 
exigiam maior dedicação”. 

Além das línguas, Étienne Pascal ensi- 
nava outras coisas ao filho: dava-lhe 
rudimentos sobre as leis da natureza e 
sobre as técnicas humanas. Tudo isso 
aguçava ainda mais a curiosidade do 
menino, que queria saber a razão de 
todas as coisas e não se satisfazia diante 
de explicações incompletas ou superfi- 
ciais. Diante de uma explicação insufi- 
ciente, passava a pesquisar por conta 
própria até encontrar uma resposta 
satisfatória e quando se defrontava com 


Nin em Clermont-Ferrand, a 19 


Na página anterior: Quesnel, o jovem, 
retrato de Blaise Pascal, Museu de 
Versalhes, Paris. (Foto Fabbri.) 


306 


um problema não o largava até resolvê- 
lo plenamente. Aos onze anos, suas 
experiências sobre os sons levaram-no a 
escrever um pequeno tratado, conside- 
rado muito bom para sua idade. 

Etienne Pascal era matemático e sua 
casa era muito frequentada por geôme- 
tras. Como queria que Blaise estudasse 
linguas e, sabendo como a matemática é 
apaixonante e absorvente, evitou por 
muito tempo que o filho a conhecesse, 
prometendo-lhe que a ensinaria quando 
ele já soubesse grego e latim. Essa pre- 
caução serviu apenas para aumentar a 
curiosidade de Blaise, que passou a se 
divertir com as figuras geométricas que 
o pai lhe havia mostrado. Procurava tra- 
çá-las corretamente; depois passou a 
buscar as proporções entre elas e, afinal, 
depois de propor axiomas relativos às 
figuras, dedicou-se a fazer demonstra- 
ções exatas. Com isso chegou até a 32.º 
proposição do livro I de Euclides. Estar- 
recido, o pai verificou que o filho desco- 
brira sozinho a matemática. A partir de 
então, Blaise recebeu os livros dos Ele- 
mentos de Euclides e pôde dedicar-se à 
vontade ao estudo da geometria. Os 
avanços foram rápidos: aos dezesseis 
anos escreveu o Tratado sobre as Côni- 
cas, que, no entanto, por sua própria 
vontade, não foi impresso na época. 


Entre a ciência 
ea religião 


Não apenas na matemática revelou-se 
o gênio precoce de Pascal. Nas demais 
ciências realizou surpreendentes pro- 
gressos e aos dezenove anos inventou a 
máquina aritmética, que permitia que se 
fizesse qualquer operação sem lápis nem 
papel, sem que se soubesse qualquer 
regra de aritmética, mas com segurança 
infalível. O invento de Pascal foi consi- 
derado uma verdadeira revolução, pois 
transformava uma máquina em ciência, 
ciência que reside inteiramente no espi- 
rito. À construção da máquina foi, toda- 
via, muito complicada e Pascal levou 
dois anos trabalhando com os artesãos. 
Essa fadiga comprometeu definitiva- 
mente sua saúde, que se tornou muito 
frágil daí por diante. 

Aos 23 anos, tendo tomado conheci- 
mento da experiência de Torricelli 


PASCAL 


ERA 


A carreira sn e filosófica de Blaise Pascal perdurou durante a 


primeira década do 


ongo reinado de Luís XIV, o Rei Sol, 


quando o classicismo 


francês atingiu o auge de seu desenvolvimento. À tela acima representa uma 
visita do monarca à Academia de Ciências de Paris, da qual Pascal participou, 
apresentando trabalhos de matemática em 1654. (Museu de Versalhes, Paris.) 


(1608-1647) referente à pressão atmos- 
férica, realizou uma outra denominada 
“a experiência do vácuo”, provando que 
os efeitos comumente atribuídos ao 
vácuo eram, na verdade, resultantes do 
peso do ar. Mais tarde — a partir de 
1652 —, Pascal passou a se interessar 
pelos problemas matemáticos relacio- 
nados com os jogos de dados. As pesqui- 
sas que fez a esse respeito conduziram- 
no à formulação do cálculo das 
probabilidades, que ele denominou 
Aleae Geometria (Geometria do Acaso). 
O chamado Triângulo de Pascal foi um 
dos resultados dessas pesquisas sobre 
Jogos de azar: trata-se de uma tabela 
numérica que, entre outras proprieda- 


des, permite calcular as combinações 
possíveis de m objetos agrupados n a n. 

Um dos últimos trabalhos científicos 
de Pascal nesse periodo é o Tratado 
sobre as Potências Numéricas, em que 
aborda a questão dos “infinitamente 
pequenos”. A essa questão voltará mais 
uma vez em 1658, num derradeiro estu- 
do cientifico sobre a área da ciclóide, 
curva descrita por um ponto da circunfe- 
rência que rola sem deslizar sobre uma 
reta. O método aplicado por Pascal para 
estabelecer essa área abriu caminho à 
descoberta, mais tarde, do cálculo inte- 
gral, realizada por Leibniz (1646-1716) 
e Newton (1642-1727). 

Em Ruão, para onde se havia mudado 


307 


FABBRI 


OS PENSADORES 


A abadia cistersiense de Port-Royal des Champs foi centro de grande atividade 
intelectual no século XVII na França e núcleo do movimento espiritual 
iniciado pelo holandês Cornélio Jansênio. Foi dentro do jansenismo que Pascal 
encontrou expressão para sua sede de absoluto e transcendência religiosa. 
(Port-Royal des Champs, Coleta de Esmolas, Museu de Versalhes, Paris.) 


a família Pascal, Blaise conheceu Jac- 
ques Forton, senhor de Saint-Ange- 
Montcard, com quem teve as primeiras 
discussões a respeito da Biblia, dos dog- 
mas da Igreja Católica e da teologia em 
geral. Blaise e outros jovens, seus ami- 
gos, logo consideraram Saint-Ange- 
Montcard um herético pemnicioso. Come- 
ca então a fase apologética da obra de 
'ascal, quando ele se une aos janse- 
nistas de Port-Royal, sob a influência de 
sua irmã, Jacqueline Pascal, que havia 
entrado para 0 convento. Segundo o rela- 
to de Gilberte, Jacqueline conseguiu per- 
suadir o irmão de que “a salvação devia 
ser preferivel a todas as coisas e que era 
um erro atentar para um bem passageiro 
do corpo quando se tratava do bem eter- 
no da alma”. Pascal tinha então trinta 
anos, quando “resolveu desistir dos 
compromissos sociais. Começou mudan- 
do de bairro e, para melhor romper com 


308 


seus hábitos, foi morar no campo, onde 
tanto fez para abandonar o mundo que o 
mundo afinal o abandonou” 

Assim, depois do período em que pro- 
curou a verdade científica e a glória hu- 
mana no domínio da natureza e da 
razão, Pascal dirigiu seu interesse para 
as questões da Igreja e da Revelação, 
acalentando o projeto de reunir a socie- 
dade laica e a cristã e de combater a cor- 
rupção que teria sido causada pela evo- 
lução dos últimos séculos. Nesse periodo 
escreve o Memorial, obra mística, e os 
trabalhos de cunho apologético Coló- 
quios com o Senhor de Saci sobre Epic- 
teto e Montaigne e as Provinciais. 

Na verdade, Pascal foi decisivamente 
marcado por um acontecimento, que 
determinou a mudança de sua trajetória 
espiritual: o “milagre do Santo Espi- 
nho”. O fato é narrado pela i irmã de Pas- 
cal, Gilberte Périer: “Foi por esse tempo 


FABBRI 


PASCAL 


: É va. 
€ CORNELIVS TANSSENIVS EPISCOPVS IPRENSIS. 
DL: om 


cCsrrelias em ng HA VYaee m Avoverimo: 


a dra xe: b srcanar uma ma tes, 

rhas Ae enra quentar, erpr 

Lonam din adrer atom, fitrar, Ea sad dei, prefiro pesa 
doc meecpre tentem; A do opor arde er pio dederat. 


44 Epucopale ado fica evectas, [Ad 
ut Belos reto, eclrÃo caput; 
s 1 flui luaso, Pagto exactas es é ba tn ' 


à humana suma e Pere er depreçde decFor, 


nam browse com boass Ame: XPecdos 


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as etuns. fe mento 2.17. 
1 é meadd 


FABBRI 


O fundador do jansenismo opós-se aos 
métodos escolásticos e revitalizou a 
doutrina agostiniana da predestinação. 
(Gravura retratando Jansênio, Civica 
Raccolta Stampe Bertarelli, Milão.) 


que aprouve a Deus curar minha filha de 
uma fistula lacrimal que a afligia há três 
anos e meio. Essa fistula era maligna e 
os maiores cirurgioes de Paris a consi- 
deravam incurável: e enfim Deus permi- 
tiu que ela se curasse tocando o Santo 
Espinho que existe em Port- Royal, e 
esse milagre foi atestado por vários 
cirurgiões e médicos, e reconhecido pelo 
Juizo solene da Igreja”. A cura de sua 
sobrinha e afilhada repercutiu profunda- 
mente em Pascal: “.. .ele ficou emocio- 
nado com o milagre porque nele Deus 
era glorificado e porque ocorria num 
tempo em que a fé da maioria era medio- 
cre. A alegria que experimentou foi tão 
grande que se sentiu completamente 
penetrado por ela, e, como seu espirito 
ocupava-se de tudo com muita reflexão, 
esse milagre foi a ocasião para que nele 
se produzissem muitos pensamentos 
importantes sobre milagres em geral. 


As análises sobre o milagre são funda- 
mentais no pensamento de Pascal, pois 
determinam o centro de todas as suas 
reflexões religiosas e filosóficas: a figu- 
ra de Cristo, mediador entre o finito (as 
criaturas) e o infinito (Deus criador). Em 
função de Cristo, Pascal estabelece a 
verdadeira relação entre os dois Testa- 
mentos: o Antigo revelaria a Justiça de 
Deus, perante a qual todos os homens 
seriam culpados pela transmissão do pe- 
cado original; o Novo revelaria a miseri- 
córdia de Deus, que o leva a descer entre 
os homens por intermédio de seu Filho, 
cujo sacrifício infunde a graça santifi- 
cante no coração dos homens e os redi- 
me. A idéia central de Pascal sobre o 
problema religioso é, portanto, a de que 
sem Cristo o homem está no vício e na 
miséria; com Cristo, está na felicidade. 
na virtude e na luz. 

A figura de Cristo permite ainda a 
Pascal distinguir os pagãos, os judeus e 
os cristãos: os pagãos (isto é, os filóso- 
fos) seriam aqueles que acreditam num 
Deus que é simplesmente o autor das 
verdades geométricas e da ordem dos 
elementos; os judeus seriam os que acre- 
ditam num Deus que exerce sua provi- 
dência sobre a vida e os bens dos homens 
a fim de dar-lhes uma sequência de anos 
felizes; já os cristãos seriam os que 
crêem num Deus de amor e de consola- 
cão, que faz com que eles sintam inte- 
riormente a miséria em que vivem e a 
infinita misericórdia de quem os criou. 
Somente aquele que chega ao fundo da 
miséria e da indignidade e que sabe que 
essa é a natureza humana poderá sentir 
a necessidade do mediador (Cristo), che- 
gando por intermédio dele a conhecer o 
verdadeiro Deus, pois só o mediador 
poderia reparar a miséria do homem. 


Jansenismo e 
monarquia absoluta 


Com o intuito de reformular global- 
mente a vida cristã, o holandês Cornélio 
Jansênio (1585-1638) deu início a um 
movimento que abalou a Igreja Católica 
durante os séculos XVII e XVIII. Des- 
contente com o exagerado racionalismo 
dos teólogos escolásticos, Jansênio — 
doutor em teologia pela Universidade de 
Louvain e bispo de Ypres — uniu-se a 


309 


OS PENSADORES 


Antoine Arnauld (1612-1694), grande 
defensor do jansenismo, contou com a 
colaboração de Pascal para a redação 
da Lógica ou Arte de Pensar, também 
conhecida como Lógica de Port-Royal. 


Jean Duvergier de Hauranne, futuro 
abade de Saint-Cyran, que também pre- 
tendia o retorno do catolicismo à disci- 
plina e à moral religiosa dos primórdios 
do cristianismo. Os jansenistas dedica- 
ram-se particularmente à discussão do 
problema da graça, buscando nas obras 
de Santo Agostinho (3514-430) elemen- 
tos que permitissem conciliar as teses 
dos partidários da Reforma com a dou- 
trina católica 

Jansênio em sua obra Augustinus 
declarava que a razão filosófica era “a 
mãe de todas as heresias”. Baseando em 
Santo Agostinho sua doutrina do dúplice 
amor, sustentava que Adão, antes de 
ecar, era livre; pelo pecado perdeu a 
hhberdade e tornou-se escravo da concu- 
piscência, que o arrastou para o mal. Em 
conseguência disso, o homem não pode 
deixar de pecar, a não ser que interve- 
nha a caridade (amor celeste), que o 
orienta infalivelmente para o bem. Sub- 
metidos à lei férrea desse dúplice amor, 
os seres humanos tornaram-se escravos 
da Terra ou do Céu, arrastados para a 


510 


ARBORIO MELL Aa 


condenação ou para a salvação. Desse 
modo, independentemente das ações que 
cometa, o homem estaria predestinado 
para o céu ou para o inferno. 

O jansenismo expandiu-se principal- 
mente na França, graças à atuação do 
abade de SaintCyran e de Antoine 
Arnauld (1612-1694), que, juntamente 
com outros intelectuais. instalaram-se 
em Port-Royal. Ali o jansenismo assu- 
miu forma ascética e polêmica, apresen- 
tando-se como um verdadeiro cisma, que 
logo foi atingido pelos anátemas do papa. 


Era uma época de profundas transfor- 
mações políticas na França. À monar- 
quia, em sua evolução, passava de 
monarquia temperada do antigo regime 
(caracterizada pela primazia da realeza 
sobre os senhores, graças ao apoio do 
Terceiro Estado, do corpo de legistas, de 
administradores e de oficiais) à monar- 
quia absoluta, na qual as atribuições 
dos oficiais e das cortes são transferidas 
para o corpo de comissários do rei. Os 
imciadores do movimento Jansenista na 
França — Saint-Cyran, Arnaud 
d” Andilly, Antoine Le Maitre — perten- 
ciam à nobreza togada e em especial a 
um grupo desses nobres que esperavam 
passar à condição de comissários do rei. 
E a ideologia que vai diversificar o inte- 
rior desse grupo apresenta como núcleo 
a afirmação da impossibilidade radical 
de se realizar uma vida válida neste 
mundo: isso leva homens e mulheres não 
apenas a abandonar a vida mundana, no 
sentido corrente do termo, mas a aban- 
donar toda e qualquer função social. 


Antes do início do movimento, os 
mais destacados integrantes do grupo de 
Port-Royal eram amigos e companheiros 
do cardeal Richelieu, embora dele dis- 
cordassem quanto a alguns pontos im- 
portantes: preconizavam uma aliança 
com a Espanha católica e luta mortal 
contra os huguenotes, que estivessem 
dentro ou fora do país. 

Até I637,a oposição entre o grupo e 
Richelieu não consistia em indagar se a 
vida cristã era ou não compatível com a 
política, mas sim qual era a política 
cristã. A vitória de Richelieu desenca- 
deou a ruptura com o grupo e um de seus 
membros (Saint-Cyran) permaneceu, du- 
rante dez anos, na prisão do castelo de 


PASCAL 


Vincennes. A partir de então é que nasce 
o Jansenismo propriamente dito: afirma- 
ção de que é impossivel para o verda- 
deiro cristão e para o verdadeiro ecle- 
siástico participar da vida política e 
social. À vanguarda jansenista era cons- 
tituida por advogados e suas famílias, 
que se incompatibilizaram com a poli- 
tica de Richelieu; os simpatizantes do 
movimento eram, em geral, oficiais, 
advogados e membros das cortes supre- 
mas, desgostosos como poder"dos comis- 
sários do ret, que passaram a exercer as 
antigas funções dos oficiais e das cortes. 
Deve-se notar que o pai de Pascal era 
membro da Corte Suprema de Clermont- 
Ferrand. 

A oposição dos jansenistas constituía 
apenas uma das modalidades de oposi- 
ção que se fazia, na época, à monarquia 
e que contará com maior número de 
adeptos depois da Fronda (sublevação 
contra o primeiro-ministro Mazarin, que 
se estendeu de Paris às províncias, de 
1648 a 1652). Mas o jansenismo apre- 
sentou duas vertentes: uma preconizava 
o retiro completo, a segunda optava pela 
militância religiosa. Esta última é que 
terá maior sucesso depois da Fronda e é 
ela que prossegue, no século XVIII, a 
luta contra a monarquia absoluta. Pas- 
cal participa de ambas as correntes, em 
momentos diversos de sua vida. 


Da militância 
ao recolhimento 


O jansenismo podia propor uma atitu- 
de abstencionista em relação à política 
porque estava constituido por pessoas 
que pertenciam a um grupo social cuja 
base econômica dependia diretamente 
do Estado. Enquanto nobreza togada, os 
oficiais, os membros das Cortes depen- 
diam economicamente do Estado, embo- 
ra, ideologicamente, dele se afastassem 
e a ele se opusessem. A situação dos 
jansenistas é, assim, paradoxal: expri- 
me o descontentamento em face da 
monarquia absoluta, sem, contudo, 
poder desejar sua destruição ou sua 
transformação radical. Os jansenistas 
são trágicos porque vivem uma situação 
trágica — e por isso afirmam tragica- 
mente a vaidade essencial do mundo e a 
salvação pelo retiro e pela solidão. 


“E preciso conhecer-se a si mesmo; se 
isso não servisse para encontrar a 
verdade, serviria ao menos para 
regular a vida, e não há nada de mais 
justo.” (Retrato de Pascal.) 


311 


BETTMANN ARCHIVE. INC. 


OS PENSADORES 


O centro da trajetória espiritual de 
Pascal reside no seu encontro com o 
jansenismo, que lhe permitiu exprimir 
melhor sua sede de absoluto e de trans- 
cendência. A vocação religiosa de Pascal 
encontra no jansenismo o solo favorável 
para sua expansão. O “milagre do Santo 
Espinho” reforçou-lhe a tendência mis- 
tica e a certeza de que “há alguma coisa 
acima daquilo que chamamos natureza” 
— como escreve sua irmã Gilberte. Até o 
encontro com o jansenismo havia na vida 
de Pascal uma contradição entre a pri- 
mazia atribuída, em princípio, à reli- 
gião, e a realidade prática de uma vida 
consagrada ao mundo. Esse encontro 
permite a Pascal estabelecer o acordo 
entre a consciência e a vida, através da 
militância religiosa que procura o triun- 
fo da verdade (ciência) na Igreja e o 
triunfo da fé (religião) na sociedade 
laica. Esse acordo, porém, não se mante- 
rá. Todavia, será ainda entre os janse- 
nistas que Pascal chegará à conclusão 
de que é importante retirar-se definitiva- 
mente do mundo e até mesmo da mili- 
tância religiosa. Pascal transita, assim, 
entre as duas atitudes que já existiam 
entre os próprios jansenistas: da mili- 
tância (Amauld, Nicole) passa ao retiro 
(Barcos, Jacqueline Pascal). À fase 
apologética das Provinciais segue-se 
então a fase dos Pensamentos. 

Essa mudança é determinada pela 
condenação do jansenismo pelo papa 
Alexandre VI. Pascal acaba submeten- 
do-se ao poder papal — e isso significa 
que a militância religiosa não mais pode 
ser efetuada. Nessa terceira fase de sua 
vida, Pascal volta a dedicar-se à ciência 
(estudos sobre a ciclóide e sobre a role- 
ta, seguidos de discussões com vários 
sábios da época), mas seus escritos reli- 
giosos perdem o tom apologético para se 
tornarem trágicos. Os Pensamentos re- 
velam ser os escritos de um homem a 
quem “o silêncio eterno dos espaços infi- 
nitos apavora” 

Na fase final de sua vida e de sua 
obra, Pascal exprime uma única certe- 
za: a de que a única verdadeira gran- 
deza do homem reside na consciência de 
seus limites e de suas fraquezas. “Pascal 
descobre a tragédia”, escreve Lucien 
Goldmann, “a incerteza radical e certa, 
o paradoxo, a recusa intramundana do 


e liZ 


mundo e o apelo de Deus. E é estendendo 
o paradoxo até o próprio Deus — que 
para o homem é certo e incerto, presente 
e ausente, esperança e risco — que Pas- 
cal pôde escrever os Pensamentos e abrir 
um capítulo novo na história do pensa- 
mento filosófico.” 

Pascal morreu a 29 de agosto de 
1662, à uma hora da madrugada. Tinha 
39 anos de idade. 


O século 
do Grande Racionalismo 


O filósofo francês Maurice Merleau- 


Ponty (1908-1961) denomina o século 
XVII de “século do Grande Racionalis- 


mo”, e explica: “Momento privilegiado 
em que o conhecimento da natureza e da 
metafísica acreditaram encontrar um 
fundamento comum”. O Grande Racio- 
nalismo buscou a harmonia do finito 
com o infinito: da natureza e de Deus, do 
homem e de Deus; buscou a harmonia do 
exterior e do interior, isto é, da alma e 
do corpo: buscou os fundamentos de 
tudo o que existe num plano visível e 
num plano invisível; acreditou no poder 
teórico e prático da razão, em sua capa- 
cidade para produzir o conhecimento 
verdadeiro das coisas e para dominar 
tecnicamente a natureza. A possibili- 
dade dessas harmonias, dessas investi- 
gações e desse dominio fundam-se na- 
quilo que é o “segredo do Grande 
Racionalismo”: a admissão do imfinito 
atual, isto é, de um ser atualmente infi- 
nito, ou infinitamente infinito, produtor 
de si mesmo, das coisas e das verdades, 
e que é denominado Deus. 

O século XVII representa a vitória do 
racionalismo filosófico e de seu corolá- 
rio, o mecanicismo científico, contra a 
filosofia e a física aristotélico-tomista 
que preponderaram na Idade Média, e 
contra a filosofia animista que reinara 
durante o Renascimento. No periodo ini- 
ciado no século XVI, que se prolonga 
atraves do XVII, ocorre uma verdadeira 
revolução espiritual, que Já foi chamada 
de “crise da consciência européia”. O 
desenvolvimento de uma nova cosmolo- 
gia substituiu o mundo geocêntrico dos 
gregos e o mundo antropomórfico da 
Idade Média pelo universo descentrado 
da astronomia moderna. Ao mesmo 


PASCAL 


“4 


] 
E 
- ftititraa 


No período 1652/54, Pascal fregúentou salões da sociedade paristense, na 
companhia de amigos de espírito livre e emancipado. Essa experiência talvez 
explique por que tenha afirmado mais tarde: “O sentimento da falsidade dos 

prazeres presentes e a ignorância dos prazeres ausentes causam a inconstância”. 


(Bosse Abraham: 


tempo, como assinalam alguns historia- 


dores. a “ciência contemplativa” foi 
substituída pela “ciência ativa” — o que 


fez com que o homem se transformasse 
de espectador em possuidor e senhor da 
natureza. No lugar da preocupação com 
o “outro mundo” (típica da mentalidade 
religiosa que predominou na Idade 
Média) colocou-se o interesse por este 
mundo, enquanto a imagem do universo 
como um organismo regido por uma 
finalidade foi substituída pela explica- 
cão causal e mecanicista. 

Todos esses aspectos seriam, porém, 
segundo A. Koyré, expressões concomi- 
tantes de um processo mais profundo e 
mais grave, em vista do qual o homem 
perdeu seu lugar no mundo, ou, mais 
exatamente, perdeu o próprio mundo 
que formava o quadro de sua existência 
e o objeto de seu saber, e precisou trans- 
formar e substituir não somente suas 
concepções fundamentais, mas as pró- 


“Reunião de Senhoras”, 


Museu de Artes Decorativas, Parts.) 


prias estruturas de seu pensamento. 
(...) As mudanças produzidas no século 
XVII podem ser reduzidas a dois ele- 
mentos principais, estreitamente ligados 
entre si: a destruição do cosmo e a 
geometrização do espaço” 

A destruição do cosmo siguifica a 
destruição do mundo enquanto conce- 
bido como um todo finito e bem ordena- 
do. no qual a estrutura espacial encar- 
nava uma hierarquia de graus de valor e 
de perfeição, indo da matéria corruptível 
ao espírito eterno e puro. Nessa hierar- 
quia, a Terra, pesada e opaca, ocupa o 
centro da região sublunar, mutável, 
corruptivel e situada abaixo das “esfe- 
ras celestes”, dos astros imponderáveis, 
incorruptíveis e luminosos. O cosmo — 
mundo ordenado e fechado, provido de 
limites definidos — é então substituido 
por um universo infinito, que não mais 
comporta hierarquia natural e que se 
apresenta unido apenas pela identidade 


313 


FABBRI 


OS PENSADORES 


das leis que o regem em todas as suas 
partes componentes. 

Dessa nova visão do universo decorre, 
como corolário, a geometrização do 
espaço. A concepção aristotélica do es- 
paço era qualitativa e diferenciava os 
“lugares naturais” (o centro da Terra 
era o lugar natural dos corpos pesados, 
que por isso cairiam; o ar era o lugar 
natural dos corpos leves, que por isso 
subiriam, etc.). Essa concepção é substi- 
tuíida pela do espaço homogêneo da geo- 
metria euclidiana, onde todos os lugares 
são equivalentes. A geometrização do 
espaço, decorrência das leis físicas da 
queda livre e da gravitação, expulsou do 
pensamento científico as noções de 
valor, de perfeição, de hierarquia, de 
finalismo, estabelecendo o divórcio entre 
o mundo neutro dos fatos governados 
pelas relações de causa e efeito e o 
mundo dos valores. 

A infinitização do espaço será vista 
por Pascal de maneira muito peculiar. 
Por um lado, elaborará a famosa alter- 
nativa dos dois infinitos — em grandeza 
e em pequenez —, e, de outro lado, 
sentir-se-á apavorado perante o silêncio 
glacial dos espaços infinitos. Pascal ex- 
trai as consequências humanas da revo- 
lução científica de sua época. Sua preo- 
cupação será a de saber onde colocar o 
homem finito no universo infinito. Trá- 
gica será sua resposta. 


A ordem e a medida 


Característica marcante do século 
XVII é a busca do método que permita a 
constituição de legitimo e seguro conhe- 
cimento. Várias propostas são feitas por 
diversos pensadores: Francis Bacon es- 
creve o Novum Organum; Descartes, o 
Discurso do Método e as Regras para a 
Direção do Espírito; Spinoza, o Tratado 
da Reforma Inteligência; Malebran- 
che, a Procura da Verdade; os Janse- 
nistas de Port-Royal, a Arte de Pensar; e 
Leibniz dedica ao assunto vários e 
importantes opúsculos. 

Essa generalizada preocupação com o 
método é explicada pela ruptura dos 
pensadores com toda autoridade prees- 
tabelecida em matéria de conhecimento. 
Tal ruptura exigiu que os pensadores 
encontrassem apoio para suas idéias, 


314 


independentemente da tradição e das 
opiniões correntes. O método surge, 
assim, como garantia para um pensa- 
mento verdadeiro; por isso, sua procura 
torna-se urgente e imprescindível. A 
novidade trazida pelo século XVII não 
pretende valer apenas porque é novida- 
de, mas porque é verdadeira. E só será 
verdadeira se for encontrada graças a 
um método que conduza eficaz e firme- 
mente a razão. 

Para o racionalismo do século XVII, o 
método é fundamentalmente sinônimo de 
regra e de ordem: o método deve forne- 
cer o conjunto de regras que permitam 
ao pensamento ordenar numa “cadeia de 
razões” todas as idéias. O modelo do 
método é o procedimento dedutivo da 
geometria: lugar privilegiado da aplica- 
ção do método, a matemática passa 
então a servir de modelo para os outros 
ramos do saber. Não que se aplicasse a 
matemática à filosofia ou à teologia: o 
que se aplica é o procedimento dedutivo, 
pois o encadeamento ordenado da geo- 
metria é que serve de padrão básico para 
outras áreas do conhecimento. 

O método é então entendido como um 
instrumento da razão + e esta é a “luz 
natural” que pode conhecer tudo o que 
estiver a seu alcance, difermdo da “luz 
sobrenatural”, isto é, da fé. Mas os pen- 
sadores da época estabelecem diferente- 
mente as fronteiras entre essas duas 
“luzes”: para Descartes (1596-1650), a 
razão humana pode conhecer a verdade, 
mas encontra certos limites intranspo- 
níveis; no interior de seus limites a 
razão encontra certeza completa: para 
além desses limites o conhecimento seria 
revelado por Deus e objeto da fé; razão e 
fé teriam cada qual uma certeza que lhe 
é própria. Em Spinoza (1632-1677),a fé 
é totalmente eliminada, sendo colocada 
Junto às formas imperfeitas de conheci- 
mento; a razão humana, embora limita- 


da, pode conhecer mesmo aquilo que 


antes se atribuia à fé; o que não pode ser 
conhecido pela razão é obscuro, absur- 
do, contraditório ou falso. Já para Pas- 
cal a razão só conhece se for iluminada 
pela fé: a “luz natural é impotente 
mesmo para conhecer as verdades natu- 
rais se não for sustentada pela fé”. Pas- 
cal permanece, portanto, desconfiado 
quanto aos poderes da razão. 


PASCAL 


“Deus existe ou não existe? Para que 
lado nos inclinaremos? A razão não o 
pode determinar: há um caos infinito 
que nos separa .. .” (Estátua de 
Pascal, M. Artes e Ofícios, Paris.) 


PLESSNER INTERNATIONAL 


Sob a inspiração da matemática, o 
racionalismo do século XVII projeta 
construir uma ciência universal da 
ordem e da medida, uma mathesis 
universalis que transforma a análise 
num método de aplicação universal. 
Desde Descartes, a análise aparece 
como procedimento capaz de produzir 
um conhecimento novo, refermdo o 
desconhecido que se procura ao Já 
conhecido. E, nesse sentido, a análise, 
que é o método, subordina-se à noção de 
ordem. A matemática serve de no 
a progressão aritmética e geométrica 
consistem essencialmente numa série de 
termos ordenados de tal maneira, que 
dessa ordem decorre a determinação do 
termo seguinte pelo termo precedente. A 
ordem permite não apenas colocar cada 
termo em seu lugar, como também e 
sobretudo determinar — pelo próprio 
lugar que deve ocupar — o valor de outro 
termo desconhecido. Assim, a ordem ofe- 
rece uma realidade na qual os vínculos 
das partes são determinados interna- 
mente, de sorte que a ordenação é inme- 
rente aos termos ordenados. Por isso 
mesmo, a ordem permite a comparação 
entre termos conhecidos para determi- 
nar um outro desconhecido. E, para o 
racionalismo do século XVI. essa 
ordem é tanto a ordem da própria reali- 
dade quanto a ordem dos conhecimentos 
sobre a realidade. 

Mas, se conhecer é referir o desconhe- 
cido ao já conhecido, é necessário supor 
que esses dois termos tenham a mesma 
medida, isto é, sejam da mesma nature- 
za. A medida é, portanto, o critério da 
homogeneidade e da diferença entre os 
seres. Assim, a medida do corpo seria a 
extensão, enquanto a da alma seria o 
pensamento. Esse dualismo, que provém 
de Descartes, leva à conclusão de que o 
conhecimento do corpo não pode ser 
alcançado mediante o conhecimento da 
alma, e o da alma não pode ser feito por 
meio do conhecimento do corpo. Um 
corpo só permitiria conhecer outro 
corpo, como o estudo de uma figura 
geométrica, e uma idéia pode levar ao 
conhecimento de outra idéia. Por outro 
lado, torna-se impossivel conhecer uma 
realidade por intermédio de outra que 
lhe é heterogênea, isto é, que não possui 
a mesma medida. 


315 


OS PENSADORES 


A questão da medida coloca um dos 
principais problemas propostos à medi- 
tação dos racionalistas do século XVII: 
o das relações entre corpo e alma. Sob a 
influência do jansenismo, esse problema 
se aguça em Pascal. O sacrifício ascético 
do corpo é por ele considerado uma con- 
dição para a salvação da alma. Mas 
como essa relação é possível se o corpo e 
a alma são Incomensuráveis? 


Racionalismo e 
consciência trágica 


Cruzam-se em Pascal duas histórias: 
a do racionalismo e a do jansenismo, a 
ciência e a apologética. No prefácio ao 
Tratado do Vácuo, ele define a história 
das ciências como progressão c a da teo- 
logia como transmissão. Os conheci- 
mentos que dependem da razão aperfei- 
coam-se com o tempo — e por Isso os 
modernos conheceriam mais e melhor a 
fisica do que os antigos. Às verdades da 
fe. ao contrário, seriam fundadas na 
autoridade e na memória; assim, numa 
questão como a da graça, torna-se neces- 
sário averiguar o que pensaram São 

*aulo ou Santo Agostinho. Essa posição 
conduz Pascal à crítica ao conservado- 
rismo de seu século: combate os físicos 
que apelam para a autoridade dos anti- 
gos e os teólogos que pretendem inven- 
tar “verdades” novas. À escolástica, de 
um lado. e os jesuítas, de outro, susci- 
tam em Pascal — como em todos os gran- 
des pensadores da época — uma atitude 
permanentemente polêmica. 

E, no entanto, a visão pascalina é uma 
visão trágica, que não se concilia com o 
racionalismo expansionista típico de seu 
tempo. Cartesiano pelo método, Pascal é 
um anticartesiano resoluto pelas idéias. 

A física, ao destruir o cosmo € geome- 
trizar O espaço, construiu a imagem de 
um universo infinito; a filosofia, por sua 
VEZ, propôs um método cuja garantia 
seria a própria correção do ato de pen- 
sar. Com isso elas destruíram duas 
noções medievais: a de mundo e a de 
comunidade. Em seu lugar surgiram a 
de espaço infinito e a de indivíduo racio- 
nal. O mundo, de um lado, não apresenta 
mais hierarquia, enquanto o conheci- 
mento, de outro lado, tem de encontrar 


316 


Justiça, 


“Quando se lê depressa demais ou 
demasiado devagar, não se entende 


nada.” (Pascal em seu atelier, 
Biblioteca Nacional de Paris.) 


em si mesmo o seu fundamento. Essas 
duas movações liberam, no plano social, 
as idéias de liberdade, de igualdade, de 
mas, sobretudo. a de isolamento 
ou de auto-suficiência individual. Tra- 
ta-se, na verdade, de uma característica 
do Terceiro Estado — como se designava, 
na época, a parte não privilegiada da 
nação francesa (as duas ordens privile- 
giadas da sociedade eram a nobreza e o 
clero, enquanto essa terceira ordem era 
constituída por burgueses, artesãos, 
operários e camponeses). Explica Lucien 
Goldmann: “Em vez de uma sociedade 
hierarquizada, na qual cada homem pos- 
suiíria seu lugar próprio, diferente de 
todo outro homem, segundo o ofício ou a 
categoria social, e onde cada um julgava 
o valor de seu lugar comparando-o com 
o dos demais, o Terceiro Estado desen- 
volveu progressivamente indivíduos 1so- 
lados, livres e iguais, três condições ine- 
rentes às relações de troca entre 
vendedores e compradores”. Nesse isola- 
mento é que Pascal enfrenta os espaços 


ARBORIC MELLA 


PASCAL 


o Meira 


“Nada é mais insuportável ao homem do que um repouso total... Sente então seu 
nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu 
vazio. Incontinente subirá do fundo de sua alma o tédio, o negrume, a 
tristeza ...” (Luís XII no Teatro, Museu de Artes Decorativas de Paris.) 


infinitos, o infinito em grandeza e o infi- 
nito em pequenez 

O mecanicismo é o racionalismo esva- 
ziaram a noção de mundo físico e de 
comunidade humana e explicaram a 
natureza e a sociedade através de leis 
naturais; com isso, esvaziaram também 
os problemas do bem e do mal e a neces- 
sidade de o homem encontrar um apoio 
exterior a ele. Deus não mais podendo 
falar aos homens por intermédio do 
mundo, abandonou-o, escondeu-se. O 
“Deus dos filósofos” apresenta-se ape- 
nas como uma hipótese, um artificio 
para provar, como em Descartes, a exts- 
tência do mundo: é um puro conceito 
teórico. Opondo-se a essa cone epção 
generalizada em seu século, o Jansenista 
Pascal desenvolve uma consciência trá- 
gica: reconhece tudo o que havia de pre- 
cioso e de definitivo no novo conheci- 
mento científico e, simultaneamente, 
recusa-se radicalmente a considerar este 
mundo como a única perspectiva para o 
homem. Considera a razão como um 


fator importante da vida humana, um 
fator de que o homem pode se orgulhar; 
mas ela não seria todo o homem, nem 
deve e nem pode ser suficiente para a sua 
vida, mesmo no plano da investigação 
científica. Por isso Pascal retorna ao que 
o racionalismo havia abandonado: à 
moral e à religião — esta no sentido 
amplo de fé num conjunto de valores 
transcendentes ao indivíduo. Mas essa 
volta não significa a recriação da noção 
antiga de comunidade: a moral e a fé 
pascalinas são a moral e a fé do homem 
solitário, do homem perdido em busca 
de apoio. O individualismo marca Pas- 
cal como marcou os outros raciona- 
listas, só que para estes o indivíduo 
constituta uma fortaleza racional, en- 
quanto para Pascal ele seria um abismo 
de miséria e de fraqueza. 

A consciência trágica faz de Pascal 
um filósofo do paradoxo: afirma que a 
verdade é sempre a reunião dos contrá- 
rios e que o homem é um ser paradoxal, 
ao mesmo tempo grande e pequeno, 


317 


FABBRI 


OS PENS 


ADORES 


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Além de filósofo e pensador religioso, Pascal foi matemático, físico experimental e 


cientista 


rático, tendo inventado a máguina de calcular, 


que se vê acima (Museu de Artes e Ofícios, Paris), precursora das atuais. 
Na mesma época, outros tiveram a mesma preocupação e construíram as máquinas 
vistas em detalhe na página seguinte: em cima, a de Tito Lívio Burattint 
(Museu de História da Ciência, Florença) e a de Samuel Morlando, embaixo. 


fraco e forte. Grande e forte porque 
nunca abandona a exigência de uma ver- 
dade e de um bem puros, sem mistura 
com o falso e com o mal. Pequeno e fraco 
porque jamais pode chegar a um conhe- 
cimento ou produzir uma ação que 
alcance plenamente esses valores. O pen- 
samento de Pascal é trágico justamente 
porque assume esse “tudo ou nada”, que 
proíbe o abandono da busca dos valores 
e, no entanto, proíbe qualquer ilusão 
quanto aos resultados alcançados pelo 
esforço humano. 

Para o racionalismo clássico tudo o 
que existe e tudo o que o homem conhece 
têm uma causa ou uma razão que deve 
ser encontrada; a totalidade das coisas e 
a totalidade das idéias teriam, portanto, 
um fundamento real e indubitável. Have- 


318 


ria um ponto fixo, a partir do qual as 
coisas passam a existir: Deus. Haveria 
também um ponto fixo a partir do qual 
as idéias passam a ter existência: o 
sujeito racional. Para Pascal, todavia, é 
impossível encontrar o ponto fixo das 
coisas e das idéias, embora “'ardamos de 
desejo de encontrar uma base constante 
e um ponto seguro”. Para exprimir sua 
visão de um universo e de um homem 
marcados pelo dilaceramento e pelo 
paradoxo, Pascal utiliza a imagem dos 
dois infinitos e a do círculo cujo centro 
está em toda parte, enquanto a circunfe- 
rência não está em nenhuma. A essas 
imagens acrescenta uma terceira: a da 
balança cujos braços são infinitos e pen- 
dem incessantemente para um e para 
outro lado, sendo impossível fixá-la ou 


SNARK INTERNATIONAL 


PASCAL 


equilibrá-la. E se a ordem consistisse 
justamente nesse desequilíbrio perma- 
nente da balança? “A oposição faz apa- 
recer a ordem e a ordem faz aparecer a 
oposição”, afirma Pascal. A ordem 
seria, assim, circular e os braços da 
balança só se encontrariam no infinito. 
O ponto de encontro dos braços da 
balança e o centro do circulo infinito não 
estariam situados nem na natureza (fisi- 
ca). nem na natureza humana (razão), 
mas em Jesus Cristo. Para Pascal, a físi- 
caca filosofia deveriam desembocar na 
fé. pois o ponto fixo não seria nem físico 
nem metafísico, mas religioso. 


As razões do coração 


Ao contrário de Descartes, que busca 
um método universal, Pascal fala em 
métodos: para cada problema preciso 
deve-se elaborar o método preciso para 
resolvê-lo. Haveria, assim, tantos méto- 
dos quantos os problemas a resolver. A 
particularidade da questão exige a 
particularidade do instrumento capaz de 
resolvê-la, e esse renovado esforço de 
invenção é que caracterizaria'o matemá- 
tico, cujo talento residiria Justamente 
em descobrir as noções e os princípios 
úteis à resolução dos diferentes proble- 
mas. O descobrimento das relações entre 
as figuras não dependeria, portanto, de 
um método “democraticamente” comu- 
nicável a todos (como em Descartes), 
mas de certo talento, de certo espírito 
que muito poucos possuem: o espírito 
geométrico. 

Mas o espírito de geometria não cons- 
titui, para Pascal, a totalidade do espi- 
rito cienúfico. Quando se faz expe- 
riência em fisica, verifica-se que na 
determinação de cada fenômeno entra 
grande número de princípios. Na física 
deve imperar, portanto, outro tipo de 
espírito: o espírito de Justeza. Todavia. 
há casos em que o cientista não traba- 
lha, nem pode trabalhar, com princípios. 
Então — como no caso do estudo do 
vácuo —. nem o espírito de geometria, 
nem o de justeza são úteis: é imprescin- 
dível adotar o método experimental. 

Cada um dos métodos revela, segundo 
aa uma direção e um dom do espiri- 

Pascal não os descreve, não Ad 
SR eles e nem lhes dá regras: pratice 


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319 


OS PENSADORES 


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“Não sei quem me pôs no mundo; nem o que é o mundo, nem o que sou eu mesmo; 
vivo numa terrível ignorância acerca de todas as coisas; não seio que é O 
meu corpo, o que são meus sentidos, a minha alma e essa parte mesma de mim 
que pensa o que digo, que medita sobre tudo e sobre ela própria, e não se 
conhece mais do que o resto.” (Pascal, Biblioteca Nacional de Paris.) 


320 


PASCAL 


os. porém, com entusiasmo. Sua idéia 
fundamental é a do ajustamento do espi- 
rito ao domínio dos objetos de que se 
ocupa. Assim, um espírito que é “corre- 
to” num domínio poderá tornar-se “falso 
e insuportável” noutro. 

O tipo peculiar de espirito do homem 
comum é um talento que nada tem a ver 
com os raciocínios e as observações dos 
cientistas. O homem comum sente mais 
do que raciocina. Ele pensa, mas pensa 
espontaneamente, naturalmente, tacita- 
mente. Está dotado de um espírito muito 
diferente do geométrico: o espírito de 
finura, que consiste principalmente em 
“ver a coisa de uma só vez e não por pro- 
gresso do raciocínio”. Trata-se do espi- 
rito intuitivo, que apreende num só 
lance. 

Pascal separa aquilo que Descartes 
unira: a unidade do método. Entretanto, 
de outro ponto de vista, compara e apro- 
xima, pois considerando, embora, que o 
valor de um “espírito” consiste em sua 
aptidão para resolver os problemas de 
seu próprio domínio, pondera que esti- 
má-lo apenas por esse valor é julgar 
somente como especialista. Além disso, 
acha Pascal, é necessário também julgar 
o que aquele “espirito” vale para o 
homem como homem. E novamente aqui 
Descartes e Pascal se separam: para O 
primeiro gs as ciências servem para 
fortificar o juizo porque seriam uma 
nfelipência única a utilizar um único 
método: para Pascal a especialidade 
prevalece e para que um espirito seja 
fecundo é preciso que seja exclusivo em 
seu domínio. Afirma: “É raro que os geô- 
metras tenham finura e é raro que os 
dotados de finura sejam geômetras” 

Desse modo, segundo Pascal, somente 
a religião teria resposta no que tange à 
vida humana. Aqui o espírito de geome- 
tria nada pode fazer. Mas, assim como 
em geometria e em fisica cada problema 
exige que se encontre uma solução que 
lhe é peculiar, rece »orrendo não aos pró- 
prios dados dos problemas, mas a certas 
relações exteriores a eles e, todavia, 
capazes de resolver a questão, também 
no problema do homem a solução deve 
ser particular e não é fornecida pelos 
próprios dados da existência humana, e 
sim por algo exterior a ela e que, no 
entanto, seria o único capaz de justificar 


“nito e o infinito: 


a humanidade: Jesus Cristo. Embora 
venha de fora do humano e seja ininteli- 
gível para os critérios humanos, só a 
religião seria capaz de esclarecer o mis- 
tério do homem. 

Pascal tem horror aos princípios 
considerados válidos para tudo e para 
todos. Detesta tanto a casuística dos 


Jesuitas quanto a filosofia de um dos 


seus discípulos, Descartes. as quais 
através de principios universais afinal 
não explicam nada. Os principios pode- 
riam ser universais se e somente se o 
homem pudesse alcançar os primeiros 
princípios de tudo o que existe — mas a 
natureza humana não tem essa força. 
Nos Pensamentos Pascal escreve: “O 
homem é, na natureza, nada com relação 
ao infinito, tudo com respeito ao nada: 
um meio entre o nada e o tudo”. Eis por- 
que o homem pode conhecer alguma 
coisa de st e dos outros seres, mas não 
deve esperar conhecer o princípio e o fim 
deles e de si próprio. 

Como usar, então. certos conheci- 
mentos como princípios para outros? 
Qual a faculdade que permite ao homem 
fazer isso? Pascal diz que é o “coração” 
Mas não se trata dos sentimentos, pois, 
ao contrário, as paixões impedem o 
homem de se conhecer e de se salvar: 
trata-se de um tipo peculiar de inteli- 
gência, que Pascal opõe à razão dos 
racionalistas. A razão é o conhecimento 
discursivo, demonstrativo, que funciona 

extraindo conclusões de certas premis- 
sas dadas. O coração. essa forma singu- 
lar de inteligência, seria, ao contrário, O 
conhecimento imediato e intuitivo dos 
principios. Assim, seria o coração que 
alcança os axiomas da geometria. ou 
que Jesus Cristo é o mediador entre o fi- 
o coração é a intuição 
dos princípios indemonstráveis. Ao dizer 


que “o coração tem razões que a razão 
desconhece”, Pascal não está afirmando 


que os sentimentos e a inteligência se 
opõem. Está mostrando que há no 
homem duas maneiras de conhecer: o 
conhecimento intuitivo e imediato de 
uma verdade (p. ex.. que o espaço tem 
três dimensões) e o conhe: imento discur- 
sivo ou mediato de uma realidade (p. 
x. que a quarta proporcional é encon- 
trada pela operação com os outros três 
elementos dados). A fé seria um conheci- 


321 


OS PENSADORES 


mento do coração — e por isso Pascal 
critica os filósofos que pretendem de- 
monstrar ou desacreditar as verdades da 
fé por meio da razão, que nada tem a ver 
com ela, do mesmo modo que o espírito 
de geometria nada tem a ver tom o de 
finura. O Deus dos filósofos não & o Deus 
da fé: não é Deus. 


O Deus escondido 


As Provinciais foram escritas por Pas- 
cal na fase em que, militante, defende a 
concepção Jansenista da graça, do mila- 
gre. da razão e da fé. Já no período final 
de sua vida, a partir de março de 1657, é 
marcado pela submissão exterior aos 
poderes políticos e eclesiásticos, embora 
interiormente os recuse através do recur- 
so ao paradoxo, à tragédia e a Deus. 
Nessa fase — que é a dos Pensamentos — 
Pascal aproxima-se da posição dos 
jansenistas do retiro completo, da visão 
trágica da vaidade do mundo e dos 
homens. Os jansenistas das duas tendên- 
cias tinham em comum o postulado do 
Deus escondido, isto é, da distância 
insuperável entre Deus e o homem. Mas 
os militantes e o Pascal das Provinciais 
acreditavam que Deus deu ao homem os 
meios de conhecer as verdades essen- 
ciais por meio da luz natural e das 
Escrituras, e se algumas vezes o homem 
as ignora é por uma depravação da von- 
tade e por viver fora dos quadros da 
Igreja. Já os jansenistas trágicos e o 
Pascal dos Pensamentos acreditam que 
a incerteza recobre tudo e que a vida 
cristã é um misto de esperança e tremor. 
Deus se esconde irremediavelmente e 
não há Graça que o tome manifesto ao 
homem. Deus tendo abandonado o 
mundo e a Igreja, o homem só pode ser 
um miserável pecador. No terceiro pe- 
riodo de sua vida, Pascal vive assim o 
paradoxo de ter de se submeter ao poder 
monárquico e eclesiástico, e de dedicar- 
se aos trabalhos científicos, ao mesmo 
tempo que admite a incerteza radical de 
tudo. Assume então o paradoxo janse- 
nista do “pecador justo”, do homem que 
vive simultaneamente na recusa e na 
aceitação do mundo. Desse modo é que 
se deve compreender a famosa * “aposta 
que aparece nos Pensamentos: já que 
não se pode provar nem que Deus existe, 


dez 


nem que Deus não existe, já que não se 
pode provar que haverá ou não salvação 
eterna — só se pode apostar. Mas ao 
apostar, deve-se levar em conta as per- 
das e os ganhos; assim, se se aposta que 
Deus não existe, e se ele existir, está-se 
perdido; se se aposta que Deus existe, e 

ele não existir, nada acontece. Deve-se 
então apostar na existência de Deus, 
pois a condição humana é risco, perigo 
de fracasso e esperança de vitória: o 
homem sente que Deus existe quando 
experimenta cruelmente sua ausência. 

O Pascal apologeta não lê as Escritu- 
ras para demonstrá-las, mas para mos- 
trar que somente nelas existe aquela 
religião que corresponde completamente 
às necessidades do homem. A única 
prova das verdades religiosas é, para 
ele, a revelação, e Deus — fonte dessa 
revelação — é a única autoridade. Por 
isso os Pensamentos partem de verdades 
reveladas referentes ao destino sobrena- 
tural do homem e à mediação de Cristo. 
Se as provas aqui fossem como as 
geométricas, a apologética seria inútil, 
pois as provas religiosas — milagres e 
profecias — são inúteis para o incrédulo. 
Nelas Deus se revela ocultando-se, e, por 
isso, só a fé as alcança. E a fé depende 
da graça, não do raciocínio. Dirigindo- 
se ao incrédulo, é necessário empregar 
provas, mostrar que a religião cristãeta 
única que pode levar o homem a 
compreender a si mesmo. Mas as provas 
não são provas da verdade religiosa, 
mas um estimulo para que o incrédulo 
venha a crer. 

“Para Pascal, o ponto de partida para 
se subir à fé é o autoconhecimento. Os 
estóicos e Descartes teriam, portanto, 
entrevisto uma parte da verdadeira natu- 
reza humana. Montaigne (1533-1592) 
também teria tido razão ao apontar a 
fraqueza e a debilidade do homem, do 
homem sempre enganado por sua imagi- 
nação, volúvel e escravo da opinião pú- 
blica, sujeito às doenças e à morte. Mas 
isso seria também apenas uma parte da 
natureza humana. Esta, para Pascal, é a 
unidade paradoxal e trágica daquelas 
duas verdades contrárias. O homem é 
uma incoerência e essa incoerência é trá- 
gica, porque não se oferece ao próprio 
homem como um quadro que ele pode 
contemplar com indiferença: ao contrá- 


PASCAL 


“Tudo o que sei é que devo morrer 

logo, e contudo o que mais ignoro é 

essa morte que não poderei evitar. 
Assim como não sei de onde venho, não 


>> 


sei para onde vou ... 
(Máscara mortuária de Pascal.) 


ARBORIO MELLA 


rio, diz respeito ao que ele tem de mais 
intimo e profundo. A incoerência do 
homem retira de sua moral e de sua ciên- 
cia todo apoio e toda a segurança, der- 
xando-o desesperado e descentrado. O 
homem é essa “glória e escória do 
universo”, que não sabe de onde veio e 
nem para onde irá. Em si mesmo o 
homem encontra seu próprio eu miserá- 
vel e cujo sentido só poderá ser encon- 
trado referindo-o ao seu destino sobre- 
natural revelado pelo cristianismo: sua 
grandeza vem de sua origem divina, sua 
esperança de salvação é sustentada pela 
redenção de Jesus Cristo, sem a qual o 
conhecimento de Deus seria inútil para o 
homem. 

O Deus das Escrituras, ao contrário 
do Deus dos filósofos, não é uma idéia 
da razão: o homem o perde e o reencon- 
tra, pode sentir sua existência ao sentir 
sua ausência. Encontrá-lo não significa 
sentir uma satisfação intelectual, à 
semelhança da que o matemático experi- 
menta ao resolver um problema dificil: 
encontrá-lo é mudar de vida, é esquecer 
tudo, menos o próprio Deus. 

A apologética pascalina começa, 
portanto, provocando uma tomada de 
consciência da contradição irredutível 
que definiria uma vida humana. Estabe- 
lece, de saida, uma exigência de lucidez: 
o homem não pode nem deve fugir de si 
mesmo, inventar desculpas para suas 
fraquezas e glórias para suas grandezas, 
nem inventar razões filosóficas para jus- 
tificar o que ele é. Em seguida, a apolo- 
gia consiste em decifrar os dois Testa- 
mentos e a história da Igreja, 
enunciando os motivos para se crer no 
drama da queda e da redenção, que 
explicaria a antinomia da condição 
humana. Não se trata de provar a fé, mas 
de estimular sua vinda. Mesmo porque 
não é possível transformar a natureza 
humana: só o mistério da Graça pode 
realizar essa transformação e isso de- 
pende de Deus. A tarefa do apologeta 
não pode, portanto, ser demonstrativa, 
mas apenas persuasiva. Eis por que Pas- 
cal não emprega a arte de demonstrar, 
mas a de persuadir. que êa que se ajusta 
à disposição do ouvinte e que “consiste 
tanto em agradá-lo como em convencê- 
lo, pois os homens se governam mais por 
capricho do que pela razão”. 


323 


1623 — Nascimento de 
Pascal, em Clerniornt-Fer- 
rand, a 19 de junho. 

1631 — O pai de Fascaí 
instala-se em Puris com cs 
filhos. 

1635 — Manifestução de 
precocidade do gênio cienti- 
fico de Pascal, que descobre 
sozinho as primeiras 32 pro- 
posições de Euclides. 

1632 — A família Pascal 
retira-se para a pre “nº: 
Auvergne. 

1639 — Pascal inventa à 
méguna ce calcular. 

1640 -— Impressão do Er.- 
saio sobre as CQnicas, pri- 
meira obra de Pascal. 

1645 — Publicação cu Car- 
ta Dedicatória a Morsennor 
Chanceler acerca “a inova 
Máçuina (Ariimética; In- 
veriada pelo Sennor Blaise 
Pascal. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1646 — Pascal converte-se 
ao jensenismo; repete, em 
Ruão, as experiências de 
Torricelii sobre o vácuo. 
1647 -—- 2ascal encontra-se 
com Descartes; publica as 
Novas Experiências sobre o 
Vácuc e .edige o Prefácio 
para um Tratado do Vácuo. 
i648 — Pascal escreve, em 
latim, a Generatio Conisec- 
“cnum; faz experiências so- 
Ere pressão atmosférica na 
torre de Saint-Jacques, em 
Eucis: retige a Descrição da 
tr.de  Fxperiência do 
“auilitrio Cos Licores. 

als -— morre o pai de 
Pescal a 24 de setembro. 
1053 — Pascal redige o 
Tratado do Equilibrio dos 
Licores e Tratado da Gravi- 
cale sa Mass ide Ar. 

1655 -. - Pascal redige o Co- 
lógico de Vascal com o Se- 


3SIBLIOGRAFIA 


nhor de Saci sobre Epicteto 
e Montaigne. 

1656 — Condenação do 
Jornalista Arnauld pela Sor- 
bonne; Pascal entra na polê- 
mica e publica a primeira 
Provincial. 

1657 — As autoridades re- 
ligiosas poem as Provinciais 
de Pascal no Index. 

1658'— Pascal redige a Pri- 
meira Carta Circular Relati- 
va à Ciclóide. 

1659/1660 — Pascal escre- 
ve a Oração para o Bom 
Uso das Doenças e Discur- 
sos sobre a Condição dos 
Grandes. 

1662 — Pascal obtém pa- 
tente pura exploração de 
una empresa de transportes 
coletivos; morre a 19 de 
agosto. 

1670 — Primeira edição 
dos Pensamentos de Pascal. 


PASCAL: ?ensame::'os, trai. Serzk Milliet; Les Frovinciales, in Oeuvres Complêtes, Editions 


du Seuil, Paris, 1965. 


GOLDMUANN, Luck'N: Le Diu Cache, Ea. Gallimard, Paris, 1955. 

PÉR.ER, GILBERTE + q Vie de M. Pascal, Ecrite par Mme. Périer, sa Soeur, in Pascal, Oeuvres 
Cemplêtes, Ed. du Sesi, Por's, 1963. 
GANDILLAC, MAURICE: Puscal, Homme :t "Oeuvre, Ed. Minuit, Paris, 1957. 


Ed 


KoYRE, ALEXANDRE: Du Monde € »s à Univers Infini, Presses Universitaires de France, 


Paris. 


BRUNSCHWICG, LEON: Spinoza et ses Cont :nporains, Presses Universitaires de France, Paris, 


4.º ed., 1951. 


SERRES, MICHEL: La Philosaphie de Leibniz et ses Modeles Mathématiques, Ed. P.U.F,, 


Paris, 1968. 


GUEROULT, MARTIAI.: Descartes selon (Ordre des Raisons, Ed. Aubier, Paris, 1953. 
FouçauULT. MICHEL: Les Mots e: les Choses, Ed. Gallimard, Paris, 1966. 


GOUHIER, HENRI: 4 


GRANGER, G. GASTO: Lo “aison, Ed. P.U.F., Paris, 1958. 


GRANGER, G. GAstTON: In. 
do Livro, São Paulo, 1962. 


cal, 1. rocu vão a Pascal, Oeuvres Compleêtes, Ed. du Seuil, Paris, 1963. 


“dução às Obras Escolhidas de Descartes, Ed. Difusão Européia 


HussERL, EDMOND: Philosophie Premiêre, Ed. P.U.F., Paris, 1970. 
MERLEAU-PONTY, MAURICE: Partout et Nulle Part, m Eloge de la Philosophie, Ed. Galli- 


mard, Paris, 1960. 


LEFEBVRE, HENRI: Pascal, Les Éditions Nagel, Paris, 1954. 


MUNDIAt 1973 — ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL — SÃO PAULO — BRASIL! 


e — COPYRIGH 


| CAPÍTULO 24 


ESPINOSA 


OS PENSADORES 


dos santos, excomungamos, ex- 

pulsamos, execramos e maldize- 
mos Baruch de Espinosa... Maldito 
seja de dia e maldito seja de noite; mal- 
dito seja quando se deita e maldito seja 
quando se levanta; maldito seja quando 
sai, maldito seja quando regressa... 
Ordenamos que ninguém mantenha com 
ele comunicação oral ou escrita, que nin- 
guém lhe preste favor algum, que min- 
guém permaneça com ele sob o mesmo 
teto ou a menos de quatro jardas, que 
ninguém leia algo escrito ou transcrito 
por ele.” 

Essas palavras fazem parte do texto 
de excomunhão de Espinosa, promul- 
gada pela comunidade judaica de Ams- 
terdam a 27 de julho de 1656. Com- 
preender-lhe o significado mais 
profundo exige que se saiba o que ele 
pensou e exprimiu, a que situação con- 
creta esse pensamento respondia e quais 
as suas consequências; como se formou e 
como se desenvolveu. 


e “P ela decisão dos anjos e julgamento 


Um cristão-novo? 


A família de Espinosa é originária da 
cidade castelhana de Espinoza de los 
Monteros. Em 1492, seus membros emi- 
araram para Portugal; seis anos depois, 
oram obrigados a converter-se ao cris- 
tianismo. Tornaram-se marranos ou 
cristãos-novos, isto é, Judeus converti- 
dos. Embora aceitassem a nova fé, os 
marranos permaneceram vinculados à 
tradição judaica. 

O pai de Espinosa, Miguel, nasceu nas 
cercanias de Beja. Dai, emigrou com a 
família para a cidade francesa de Nantes 
e depois para Amsterdam, numa das inú- 
meras levas de marranos que procura- 
ram a Holanda por causa do declínio da 
Espanha. O império espanhol enfraque- 
cia-se porque sua economia, baseada no 
privilégio e no monopólio, não era capaz 
de competir com o livre comércio, do 
qual a Holanda era pioneira. 

No dia 24 de novembro de 1632, em 
Amsterdam, nasceu Baruch (ou Bento 


Na página anterior: retrato de 
Espinosa, por van Hoogsraten; Herzog 
August Bibliothek, Wolfenbuttel. 


326 


em português, ou Benedictus em latim). 
Nasceu marcado pelo conflito de suas 
origens: judeu, porque recebido na co- 
munidade de Abraão e por receber edu- 
cação rabínica; português (e com o cato- 
licismo implicito nesse fato), porque 
seus pais eram emigrantes portugueses, 
o português sua língua materna; holan- 
dês, porque nasceu em Amsterdam, mor- 
reu em Haia e porque participou da vida 


política e cultural dos Países-Baixos. A 
verdade está provavelmente com o histo- 


riador Carl Gebhardt, quando afirma 
que Espinosa era marrano e seu destino 


foi determinado pelo fato de que sua 
nação, como sua religião, não foi para 
ele propriamente uma realidade, mas 
sobretudo um problema. Espinosa foi a 
única exceção à regra que liga cada pen- 
sador moderno a seu povo e à participa- 
ção deste em sua obra. 

Pouco se sabe da infância de Espino- 
sa. Consta que seu pai, homem muito 
sensato, foi o primeiro a ensinar-lhe a 


não confundir carolice com devoção. 


Sabe-se também que na adolescência foi 
educado como os demais jovens: marra- 
nos de familia abastada. Estava desti- 
nado à profissão mercantil, mas isso não 
excluia o estudo do hebraico, da Biblia e 
da história do povo judeu. Esses estudos 
foram feitos na escola Árvore da Vida. 
Frequentou também a Academia da 
Coroa e da Lei, onde penetrou nos gran- 
des problemas do judaísmo. Impressio- 
nou-se muito com Abraão Ibn Ezra, o 
primeiro a despertar-lhe dúvidas quanto 
à unidade do Pentateuco; essas dúvidas 
aumentaram quando leu Gersonides, que 
assinala discrepâncias cronológicas nos 
Livros Sagrados. Na Academia da Coroa 
e da Lei, Espinosa conheceu a obra de 
Maimônides, escolástico de tendência 
aristotélica; leu o judeu-espanhol Chas- 
dai Crescam e o renascentista Leon 
Hebreu. Este último tentou conciliar o 
judaismo e a cultura do Renascimento, 
especialmente o platonismo renovado, e 
propôs uma concepção do mundo basea- 
da no amor como força cósmica. À teoria 
espinosana do amor intelectual de Deus 
mostra clara influência de Leon Hebreu. 
Na mesma época, Espinosa estudou com 
Morteira, o maior talmudista da comu- 
nidade de Amsterdam e conheceu a Ca- 
bala que, posteriormente. trataria com o 


ESPINOSA 


Espinosa foi marcado, desde suas origens remotas, por uma formação étnica e 
cultural feita de elementos contraditórios. Sua família era judia e foi 
obrigada a converter-se ao cristianismo em Portugal. Depois, emigrou para 
os Países-Baixos, e o filósofo integrou-se na cultura holandesa. (Jakob van 
Ruysdael (1628-1682): Cemitério Hebraico-Português; Pinacoteca de Dresde.) 


maior desprezo, considerando-a como 
uma das formas de superstição. 


Todos esses elementos de sua forma- 
ção eram, até certo ponto, contraditô- 
rios, como era contraditório e problemá- 
tico o mundo judaico em que vivia. As 
mais variadas tendências se entrecru- 
zavam, obrigando os pensadores a bus- 
car soluções próprias. Nem sempre o 
resultado era aceito pela comunidade, 
como aconteceu com Uriel da Costa, que 
afirmava não existir beatitude eterna, 
pois na Biblia não se fala em imortali- 
dade da alma, mas em felicidade tempo- 
ral. Uriel da Costa foi perseguido por 
causa dessa idéia e obrigado a retratar- 


se depois de submetido à flagelação pú- 
blica. Desesperado, suicidou-se em abril 
de 1640. Com apenas oito anos de idade, 
Espinosa assistiu à flagelação, e o 
acontecimento, certamente, causou-lhe a 
mais profunda impressão. 

Dentro de tal cenário, o jovem Espi- 
nosa cada vez mais passou a fazer parte 
daqueles que — no dizer de Oróbio de 
Castro — “... chegam ao judaísmo de- 
pois de haver estudado durante todo seu 
periodo de idolatria algumas ciências 
profanas como a lógica, a metafísica e a 
medicina. Ignoram a lei tanto quanto os 
princípios, mas cheios de arrogância e 
de orgulho estão convencidos de que a 


pi 


OS PENSADORES 


Os marranos, cristãos-novos da peninsula Ibérica, emigraram no século XVII 
para os Países-Baixos por três motivos básicos: o medo da Inquisição,o 
espírito empresariale as promessas de liberdade religiosa. Amsterdam era 
conhecida como a Nova Jerusalém. (Gravura de fins do século XVIII representa 
duas sinagogas de judeus alemães de Amsterdam; coleção particular, Paris.) 


conhecem a fundo e, embora desco- 
nheçam o essencial, estão convencidos 
de que conhecem muito bem todas as 
matérias”. Ainda segundo Oróbio, esses 
elementos arrogantes e orgulhosos 
negam a verdade das Escrituras e do 
Deus nelas revelado, substituindo-o por 
um Deus-Natureza. Negam a fé, só acei- 
tam o poder natural da razão e, portan- 
to, negam os milagres. Negam que haja 
um povo eleito e perguntam por que 
Deuús não se teria dado a conhecer a 
todos os homens. Oróbio acusa explici- 
tamente o médico Juan del Prado como 
herege, mas a acusação visava sobre- 
tudo ao jovem Espinosa, que a comuni- 


328 


dade judaica julgava ter saído do bom 
caminho, por influência de Juan del 
Prado. 

Espinosa tem então 24 anos e é cha- 
mado pelo talmudista Morteira. chefe 
espiritual da comunidade e diretor da 
Academia da Coroa e da Lei, a fim de 
que se retrate. Espinosa recusa-se e a 
convocação passa a ser feita em nível 
superior, pela própria Sinagoga de Ams- 
terdam. As autoridades o submetem a 
intenso e malicioso interrogatório, cuja 
finalidade é mostrar seu ateísmo. Antes 
que a Sinagoga se visse compelida a 
excomungá-lo, Espinosa toma a inicia- 
tiva de afastar-se e redige o opúsculo 


"a 
a CO 
o 
«4 
wu 


ESPINOSA 


Espinosa foi excomungado da comunidade judaica de Amsterdam quando tinha 
apenas 24 anos de idade. Ainda não tinha escrito suas obras, mas já formulava 
uma das idéias essenciais que caracterizaria toda sua filosofia: a crítica da 
religião judaico-cristã, fundada na onipotência cega de Deus e na crença em 
profecias e milagres. (Rembrandt, “O Rabino”; Museu Real de Amsterdam.) 


Apologia para Justificar uma Ruptura 
com a Sinagoga, atualmente perdido. 


O partido da liberdade 


A exclusão da comunidade judaica foi 
seguida por outras transformações na 
vida de Espinosa. Como por essa época 
as finanças da família não iam bem, os 
irmãos e cunhados viram na excomu- 
nhão um bom motivo para deserdá-lo e 
afastá-lo dos negócios familiares. Espi- 
nosa não se abalou e procurou uma ocu- 
pação que resolvesse o problema da 
subsistência. Pondo em prática uma 
regra de vida dos antigos sábios judeus, 


aprendeu a polir lentes para lunetas. 
Saiu-se tão bem no ofício que a clientela 
aumentou rapidamente, fornecendo-lhe o 
suficiente para viver. 

A mais importante das consequências, 
contudo. foi sua integração na vida cul- 
tural holandesa, no momento em que os 
Países-Baixos viviam seu século de 
ouro. O novo Estado holandês fundava- 
se na liberdade burguesa, entendida 
como liberdade de empresa e liberdade 
de consciência. Valorizava-se a ativi- 
dade econômica e promovia-se a tole- 
rância religiosa, pois as barreiras con- 
fessionais apresentavam-se como 
empecilho para o intercâmbio comer- 


329 


FABBRI 


OS PENSADORES 


cial. A Igreja Romana, com seus tribu- 
nais, sua fiscalização, sua intolerância, 
aparecia aos burgueses da Holanda 
como manifestação de sua dependência 
em relação a um poder estrangeiro e 
contrário a seus interesses vitais. A alta 
burguesia adotou então o calvinismo em 
sua forma liberal, também chamado 
evangélico ou libertino e que se opunha 
ao calvinismo ortodoxo. Os libertinos 
defendiam a tolerância em matéria de 
religião, afirmavam a supremacia do 
poder civil sobre a autoridade religiosa 
e declaravam que esta não tinha direito 
de legislar em assuntos de fé e de moral. 
Opunham-se, assim, aos ortodoxos, par- 
tidários da dominação do Estado pela 
Igreja e que condenavam o desenvolvi- 
mento econômico como contrário à Bi- 
blia. O calvinismo ortodoxo foi, em 
geral, adotado por todas as classes e 
camadas sociais prejudicadas com o 
desenvolvimento da economia mercante 
e com a nascente indústria. Ortodoxos 
eram, assim, os camponeses pobres, 
artesãos, marinheiros, operários portuá- 
rios e a nobreza, constituindo todos a 
clientela da Casa de Orange. 

O conflito entre as duas tendências 
opostas explodiu abertamente após o 
tratado de vestfália (1648). As Provin- 
cias Unidas haviam participado da 
Guerra dos Trinta Anos, ao lado da 
França contra a Espanha, e assinaram 
um tratado de paz em separado, o que 
abria as portas das colônias espanholas 
para o comércio holandês, satisfazendo 
portanto aos interesses da burguesia. A 
Casa de Orange, ao contrário, desejava a 
continuação da guerra, sem a qual sua 
existência não tinha sentido. Firmada a 
pie: o poder passou a ser ocupado pela 

urguesia e pela ala calvinista libertina. 
Seu maior representante era Johannes de 
Watt, eleito Grande Pensionário em 
1653, permanecendo até 1672, quando 
foi assassinado e a Casa de Orange reto- 
mou o poder. 

Espinosa, amigo de Witt, viveu inten- 
samente todo o conflito. Partidário de 
sua política e horrorizado com o crime, 
quis pregar nas paredes de Amsterdam 
um cartaz que dizia “Últimos dos Bár- 
baros”, mas foi impedido por um amigo. 

Durante esse periodo, Espinosa escre- 
veu a maior parte de suas obras e sua 


330 


integração na cultura holandesa se fez, 
assim, no momento de maior intensidade 
dos conflitos sócio-econômicos, caracte- 
rísticos dos Paises-Baixos, e na fase de 
maior esplendor da vida intelectual e 
artística da nação. 


Um homem do mundo 


Dentro desse panorama, após a exco- 
munhão em 1656, Espinosa abandonou 
os estudos judaicos e penetrou no huma- 
nismo clássico. Aprendeu latim e um 
pouco de grego com Franz Van den 
Enden, ex-jesuíta, médico, filólogo e 
livreiro, que em 1648 tentou a paz entre 
os Paises-Baixos e a Espanha, em 1650 
ofereceu-se a Johannes de Witt para 
lutar contra a Inglaterra e, em 1654, foi 
enforcado pelos Rd depois de par- 
ticipar de um complô de alta traição. 
Com esse mestre, Espinosa leu obras de 
Terêncio. Tácito, Tito Lívio, Petrônio, 
Virgílio, Sêneca, Cesar, Salústio, Mar- 
cial, Plínio, Ovídio, Cúrcio, Plauto e Ci- 
cero. Dos gregos, leu Diofanto, Aristóte- 
les, Hipócrates, Epiteto, Luciano, 
Homero e Euclides. 

Na mesma época, Espinosa estuda a 
filosofia de Descartes, sobre o qual 
escreverá, em 1663, os Princípios da 
Filosofia Cartesiana. O peso do cartesia- 
nismo sobre Espinosa é, na verdade, o 
peso do novo racionalismo do século 
XVII; é a confiança no poder da razão 
tanto nos domínios da teoria, quanto na 
ação prática e que começou pela necessi- 
dade de elaborar as noções de método, 
de verdade e, a partir delas, as noções de 
ser e de ação. 

Os. calvinistas lhbertinos eram favorá- 
veis ao cartesianismo. Entre eles, for- 
mou-se o grupo dos colegiantes (inte- 
grantes do Collegi Prophetica), entre os 
quais se encontrava a maior parte dos 
amigos de Espinosa. Os colegiantes 
dedicavam-se especialmente ao estudo 
da Biblia e da nova filosofia; foram eles 
os primeiros a ler o manuscrito da Ética, 
redigida por E “spinosa a partir de 1661 

Além dos amigos colegiantes, E spi- 
nosa relacionava-se com muito mais 
gente dos círculos culturais holandeses. 
Não é verdadeira, portanto, a imagem 
muito difundida, segundo a qual teria 
sido uma espécie de eremita, solitário, 


ES 


Guilherme de Orange (em baixo ) dirigiu 
a sublevação das Províncias Unidas e 
o duque de Alba organizou a repressão 
religiosa contra os holandeses em 
nome de Filipe, soberano da Espanha. 


PINOSA 


pobre e asceta. Nada mais distante da 
realidade. Entre a burguesia libertina e 
progressista, encontram-se amigos inti- 
mos do filósofo. Loedwjk Meijer, Simon 
de Vries, Jarig Jelles, Pieter Balling. 
Johannes Rienwertz. Conrad von Beu- 
ning. Johannes Hudde mantêm relações 
com Espinosa, e todos são representantes 
expressivos das altas esferas adminis- 
trativas e científicas da Holanda. O 
Grande Pensionário Johannes de Witt e 
seu irmão Cornelius visitam-no em casa. 
assim como o filósofo Leibniz. A corres- 
pondência de Espinosa revela que discu- 
tiu longamente com o quimico inglês Ro- 
bert Boyle, a respeito da natureza do 
salitre. Outro correspondente foi Olden- 
burg, diplomata holandês na Inglaterra. 
As cartas revelam também que foi convi- 
dado para lecionar na Universidade de 
Heidelberg, mas recusou, pois o convite 
solicitava-lhe não ensinar teorias com- 
prometedoras para a religião. Prova 
também de seu intenso relacionamento 
encontra-se na viagem a Utrecht. reali- 
zada em 1673. como embaixador. 

Que não era um asceta e solitário, 
preocupado exclusivamente com a sal- 
vação de sua alma e desinteressado do 
mundo, prova-o melhor ainda o Tratado 
Teológico-Político, onde defende a sepa- 
ração entre Estado e Igreja, politica e 
religião, filosofia e revelação. O Tratado 
preocupa-se com a violência política e 
nele aparece a meditação teórica articu- 
lada com as exigências objetivas. pró- 
prias da sociedade em que viveu e dos 
interesses da classe com a qual era 
solidário. 

O Tratado Teológico-Político foi es- 
crito em 1665 e, por precaução. publi- 
cado sem o nome do autor. Além dessa 
obra e dos Princípios da Filosofia Carte- 
siana (única obra publicada com seu 
nome), escreveu, em 1660, o Breve Tra- 
tado, forma juvenil e preparatória da 
Ética, o Tratado da Correção do Intelec- 
to, em 1661, e a Etica, sua maior obra, 
iniciada nesse mesmo ano e terminada 
em 1675. A Ética não pôde ser publica- 
da. logo após a efervescência causada 
pelo Tratado Teológico-Político, por 
causa das acusações que pesavam sobre 
o autor: os teólogos o consideravam 
“ateu, blasfemador e elemento nocivo 
para a república”. Em 1677, após sua 


331 


OS PENSADORES 


Christiaan Huygens (1629-1695) foi um 
dos maiores representantes do grande 
desenvolvimento científico holandês, 
na época de Espinosa. (Retrato 
anônimo, Het Trippenhuis, Amsterdam.) 


morte, Meijer e Schuller enviaram a 
Rienwartz os manuscritos e Jelles finan- 
ciou uma edição, que saiu com o título 
de Obras Póstumas, compreendendo a 
Etica, o Tratado da Correção do Intelec- 
to, o Tratado Teológico-Político, uma 
Gramática Hebraica e as Cartas. 

Espinosa era fisicamente muito fraco 
e sofreu de tuberculose, durante quase 
vinte anos. Na manhã de domingo, 21 de 
fevereiro de 1677, o amigo Meijer foi 
visitá-lo porque o filósofo não se sentia 
muito bem. Almoçaram juntos e logo de- 
pois Espinosa faleceu. 


Um racionalismo absoluto 


A filosofia de Espinosa é uma critica 
da superstição em todas as suas formas: 
religiosa. política e filosófica. A supers- 
tição é uma paixão negativa nascida da 


332 


FABBRI 


imaginação que, impotente para com- 
preender as leis necessárias do universo, 
oscila entre o medo dos males e a espe- 
rança dos bens. Dessa oscilação, a 
imaginação forja a idéia de uma Natu- 
reza caprichosa, dentro da qual o 
homem é um joguete. Em seguida, essa 
concepção é projetada num ser supremo 
e todo-poderoso, que existiria fora do 
mundo e o controlaria segundo seu 
capricho: Deus. Nascida do medo e da 
esperança, a superstição faz surgir uma 
religião onde Deus é um ser colérico ao 
qual se deve prestar culto para que seja 
sempre benéfico. A superstição cria uma 
asta de homens que se dizem intér- 
pretes da vontade de Deus. capazes de 
oficiar os cultos, profetizar eventos e 
invocar milagres. A superstição engen- 
dra, portanto, o poder religioso que do- 
mina a massa popular ignorante. O 
poder religioso, por sua vez, forma um 
aparato militar e político para sua 
sustentação, de forma tal que a supersti- 
ção está na raiz de todo Estado autori- 
tário e despótico, onde os chefes se man- 
têm fortes alimentando o terror das 
massas, com o medo dos castigos e com 
suas esperanças de recompensa. Toda 
filosofia que tentar explicar a Natureza 
apoiada na idéia de um Deus transcen- 
dente, voluntarioso e onipotente, não 
será filosofia, será apenas uma forma 
refinada de superstição. 

A crítica da superstição leva Espinosa 


a escrever a Ética, onde demonstra como 
Deus é a causa racional produtora e 


conservadora de todas as coisas, segun- 
do leis que o homem pode conhecer 
plenamente; a escrever o Tratado da 
Correção do lIntelecto, onde separa a 
imaginação da razão e mostra o cami- 
nho que esta deve seguir para conhecer a 
realidade; a escrever o Tratado Teológi- 
co-Político, onde analisa a gênese e os 
efeitos da superstição e ns a pri- 
meira interpretação histórico-crítica da 
Bíblia. A crítica da superstição leva 
Espinosa a negar a existência de causas 
finais na realidade e a redefinir a liber- 
dade humana, não mais como livre arbi- 
trio, mas como consciência da necessi- 


dade. A virulência dessas críticas 
acarretou-lhe a acusação de ateu. 


sendo que, no século XVII (como em 
todos os tempos), ateu não é o homem 


ESPINOSA 


FABBRI 


Afirmou Espinosa: “O desejo é a própria essência do homem, enquanto concebida 
como determinada a fazer algo por uma afecção qualquer nela verificada ... A 
alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior... À 

tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor.” 
(Amsterdam, por Jakob van Ruysdael; Museu Fitzwilliam, Cambridge.) 


que não crê em Deus, mas o “que não-crê 
no nosso Deus”. Ateu é menos uma 
designação religiosa do que política e 
refere-se ao homem que concebe Deus 
contra a concepção tradicional e, por- 
tanto, abala o edificio da religião e do 
Estado que se sustenta nela. 

Comparado com os outros filósofos do 
século XVII, Espinosa distingue-se pelo 
racionalismo absoluto. Descartes e 
Leibniz, por exemplo, a despeito de seu 
racionalismo, deixam permanecer misté- 
rios subjacentes ao conhecimento racio- 
nal, enquanto Espinosa procura desfazer 
a própria noção de mistério e não apenas 
os conteúdos misteriosos. A filosofia, 
para Espinosa, é conhecimento racional 
de Deus, da Natureza e da união do 
homem com a Natureza, isto é, com 
Deus. O Deus espinosano não é o Deus 
Escondido de Pascal; Espinosa não é um 


trágico, como o autor dos Pensamentos. 
Para Espinosa, uma consciência dilace- 
rada por paixões contrárias e atônita 
diante do infinito jamais alcançará a 
verdade nem se sentirá unida a Deus, 
isto é, à Natureza. Não é possível sentir 
alegria e amor sob as ruínas da razão. 

No autor da Etica não há tragédia, 
nem há mistério; ao contrário, confiança 
plena na razão, capaz não só de conhe- 
cer, mas de fazer o homem trilhar o 
caminho das paixões positivas, a alegria 
e o amor. 


A correção do intelecto 


Os instrumentos de trabalho utiliza- 
dos por Espinosa no combate ao irracio- 
nalismo e à superstição foram dois: o 
método histórico-crítico e o método 
genético. O primeiro serviu-lhe para 


333 


OS PENSADORES 


interpretar a Bíblia e mostrar como nas 
Escrituras Sagradas não há verdades, no 
sentido próprio da expressão, mas tão- 
somente preceitos morais e políticos, 
necessários para preservar a comuni- 
dade judaica através dos tempos. Me- 
diante o método histórico-crítico, Espi- 
nosa salienta o papel político dos 
profetas e dos grandes dirigentes do Es- 
tado hebraico, mas ressalta também o 
fato de terem sido homens de forte 
imaginação, não preocupados em conhe- 
cer Deus, mas em dirigir um povo. Dessa 
maneira, quando os teólogos pretendem 
usar a Biblia como se fosse ciência ou 
filosofia. cometem um grave engano. 
Espinosa vai mais longe ainda ao salien- 
tar que se os teólogos e os soberanos 
fazem esse uso fraudulento da Biblia é 
porque têm interesse nisso: pretendem 
manter a superstição. 

Através do mesmo método de análise 
histórico-critica, o autor do Tratado 
Teológico-Político marca a dupla dife- 
rença entre Cristo e Moisés. À primeira 
diferença reside no tipo de lei que pro- 
poem. A lei mosaica é a “pena de 
talão”, olho por olho, dente por dente. A 
lei cristã é a da resignação, “dá a outra 
face”. A lei mosaica é a expressão poli- 
tica de um Estado sadio e poderoso, a lei 
cristã é lei para um Estado oprimido. A 
segunda diferença está no modo de 
relacionamento com Deus: Moisés teve 
contato exterior (Deus lhe falava pela 
boca), Cristo relacionava-se interior- 
mente (es spírito com espirito). A verdade 
do cristianismo, para Espinosa, está no 
Evagelho de São João quando afirma 
que estamos e somos em Deus; a Encar- 
nação não significa que Deus veio viver 
entre os homens, mas que ele vive nos 
homens. Espinosa ataca impiedosamente 
a teologia e a política “cristãs” por 
terem destruido essa verdade do cristia- 
nismo, guardando apenas a imagem da 
cruz, isto é, da dor e do castigo. A Igreja 
e a Política cristãs parecem conhecer 
apenas a sexta-feira da paixão e ignorar 
o sábado de aleluia. 

O segundo método espinosano de com- 
bate ao irracionalismo, o método genéti- 
co, encontra-se formulado pela primeira 
vez no Tratado da Correção do Intelecto. 
O autor começa afirmando que a felici- 
dade está vinculada ao objeto do desejo 


334 


e do amor humanos; desejando-se ou 
amando-se coisas perecíveis, a felici- 
dade será, consequentemente, perecível 
ou estará dilacerada. É preciso desejar e 
amar um Bem verdadeiro, capaz de 
comunicar-se a todos. A primeira tarefa 
a ser cumprida nesse sentido é a elimina- 
ção de pseudo-formas de conhecer, o 
conhecimento “por-ouvir-dizer” e o co- 
nhecimento “por-experiência-vaga”: em 
suma, é necessário controlar os desati- 
nos da imaginação. Conhecer, para Espi- 
nosa, é conhecer pela causa. Neste caso, 
também é preciso eliminar um tipo de 
conhecimento tido por racional: o conhe- 
cimento a partir dos efeitos. Conhecer 
pela causa significa descobrir o modo 
pelo qual algo é produzido; trata-se, 
portanto, de um processo genético. 
Dizer-se, por exemplo, que o circulo é 
uma figura na qual todos os pontos eqjui- 
distam do centro, é descrever o circulo. 
em vez de defini-lo. Um circulo é defi- 
nido quando se diz que ele é produto da 
rotação de um segmento em torno de um 
eixo ou de um ponto extremo central. 
Fazer isso é conhecer o circulo genetica- 
mente, isto é, através da causa que O 
produz. 


Uma ética geométrica 


O Tratado da Correção do Intelecto 
formula, assim, uma nova concepção de 
verdade. Nos escolásticos e nos filósofos 
modernos anteriores a Espinosa, a ver- 
dade sempre fora concebida como ade- 
quação do intelecto com a coisa dada ao 
conhecimento. A adequação implica que 
haja uma exterioridade entre a idéia e 
aquilo de que ela é idéia, sendo neces- 
sária uma garantia para a verdade. Em 
Descartes, a garantia é o Deus Veraz, 
nos filósofos empiristas é a experiência. 
Tanto num caso quanto noutro, a garan- 
tia é extríinseca à verdade. Espinosa 
demonstra, revolucionariamente, que a 
verdade é imanente ao próprio conheci- 
mento, não necessitando de qualquer 
garantia externa: conhecer adequada- 
mente uma coisa é conhecer seu modo de 
produção. A verdade é índice de si 
mesma e do falso, não reside na adequa- 
ção da idéia à coisa. Pelo contrário, é 
porque a idéia revela a produção da 
coisa que ela mesma dá a garantia à 


ESPINOSA 


É errônea a imagem que se faz de Espinosa como uma espécie de eremita, 
solitário, pobre e asceta. Depois da excomunhão pela sinagoga de Amsterdam, 
o filósofo manteve permanente contato com os holandeses influentes social e 
culturalmente e manteve atividades políticas como qualquer cidadão. 
(Rembrandt van Rijn: “A Ronda Noturna”; Museu Real de Amsterdam, Holanda.) 


335 


FARBRI 


OS PENSADORES 


A população dos Re das a primeira da Europa a realizar com sucesso 


a revolução contra o mundo 


eudal, iniciando a ordem capitalista na forma 


mercantil. Essa libertação ocorreu com a libertação da tutela do im eo 


espanhole a luta assumiu as formas de guerra religiosa. (O povo ho 


ndês, 


Paisagem de Inverno de H. Avercamp (1585-1634); Museu Real de Amsterdam.) 


adequação. Com Espinosa o raciona- 
lismo ocidental descobriu a imanência 
da verdade ao objeto, graças à demons- 
tração da gênese do objeto. Não são 
necessários critérios para a verdade; é 
ela que julga o falso, e não o contrário. 

A Ética de Espinosa constitui a mais 
completa aplicação dessa nova teoria da 
verdade. O autor procura mostrar de que 
modo Deus se produz a si mesmo, às col- 
sas e ao homem, demonstrando que esse 
modo de autoprodução é o próprio modo 
de produção do real. Com isso, Espinosa 
elimina a principal idéia sustentáculo da 
teologia e da filosofia cristãs: a idéia de 
criação, isto é, de um Deus preexistente 
que tira o mundo do nada. À expressão 
Deus ou Natureza, encontrada a todo 
passo da Etica tem vários significados: 
1) o ato pelo qual Deus se produz é o ato 
pelo qual produz as coisas: 2) Deus é a 
causa de si mesmo e das coisas como 
rausa imanente e não transcendente; 3) a 
produção divina não visa a fim algum, é 


336 


o seu próprio fim, ou seja, entre o ato de 
produção e o produto não há distância a 
separá-los, são uma só e mesma coisa. 
Separar o produtor do produto é aceitar 
a incompreensibilidade divina, o misté- 
rio da criação e o mistério da natureza. 
É ser vítima da superstição. É ter uma 
compreensão alienada da produção, pois 
ao separar o produtor do produto, este 
não permite mais identificar seu produ- 
tor e o homem passa a imaginar o produ- 
tor possível, acabando por chegar ao 
Deus voluntarioso, que tudo governa 
para e segundo seus caprichos. 

A Ética é uma ontologia universal, 
uma lógica e uma antropologia. Uma 
ontologia universal, porque é a teoria do 
Ser; uma lógica, porque a teoria do Ser é 
a explicitação da inteligibilidade deste 
Ser; uma antropologia, porque define o 
ser. humano. Se conhecer é conhecer pela 
causa, o homem só poderá ser conhecido 
se forem explícitas as causas de sua 
essência, de sua existência e de sua 


FABBRI 


ESPINOSA 


Representantes típicos da burguesia 
holandesa da época de Baruch Espinosa 
são estes membros do Conselho da 
Guilda de São Lucas de Haarlem, 
retratados pelo pintor J. de Bray. 


ação. À causa de sua existência singular 
é a existência de outros homens singula- 
res que o produzem. A causa de sua 
essência é Deus: o homem é uma modifi- 
ação (modus) dos atributos divinos. 
pensamento e extensão. À causa de sua 
ação é seu desejo. É no exame do pro- 
blema do desejo, das paixões e da liber- 
dade do homem que o termo Ética se 
esclarece. Para o senso comum, Ética e 
Moral são uma só e mesma coisa: dou- 
trina dos deveres do homem. A primeira 
coisa que espanta o leitor de Espinosa é 
que este separe Ética e Moral, colocando 
esta última junto à Religião e definindo 
ambas, Moral e Religião, como sistemas 
que impõem certos deveres ao homem. A 
Etica nada tem a ver com os deveres: 
aliás, para Espinosa, quem age por 
dever não é autônomo, não é livre, age 
por mandamento. A Ética é a definição 
(ou apresentação genética) do ser do 
homem tal como ele é, e demonstrando 
porque o homem é tal como é. Assim 
procedendo, Espinosa recupera o sentido 
grego de ethos: modo ou maneira de ser. 
No livro IV da Etica o filósofo dirá: 
aqueles que não conseguirem alcançar a 
verdadeira liberdade devem pelo menos 
aceitar as imposições da Moral e da 


Religião para poderem viver Juntos e 
sobreviver. Fica claro, portanto. que. 
para Espinosa, a Ética nada tem a ver 
com a moralidade. É é por esta via que 
se deve ler a teoria espinosana do desejo. 
isto é, sua antropologia. 


Deus ou Natureza 


Espinosa coloca o erro como uma 
abstração. Que significa isso? Em pri- 
meiro lugar que o erro não é uma ausên- 
cia de conhecimento, mas um conheci- 
mento parcial ou mutilado da 
totalidade, isto é. abstrato (separado). 
Em segundo lugar, que 0 erro consiste 
em anexar conhecimentos parciais par: 
querer retirar dai um a 
geral, e este será também abstrato na 
medida em que resulta de uma simples 
Justaposição de parcialidades.'O caso ti- 
pico do conhecimento abstrato é o dos 
universais. Nossa imaginação entra em 
contato com os objetos exteriores e. 
sendo incapaz de controlá-los, não tem 
outro recurso senão o de associá-los por 
semelhanças ou dissociá-los por diferen- 

ças. À partir daí fornece nomes gerais às 
associac ões feitas e passa a tomar esses 
nomes como se fossem conceitos, isto é, 
idéias verdadeiras das coisas particu- 
lares percebidas. Associando por seme- 
lhanças, dissociando por diferenças, jus- 
tapondo por contigiidade espacial e por 
sucessão temporal, a imaginação tece 
uma teia de nomes vazios e abstratos e 
quer com eles explicar a realidade. 

Ora, a realidade é constituida por 
essências e existências particulares e. 
portanto, o conhecimento verdadeiro 
tem que ser um conhecimento que pre- 
serve o particular sem destruí-lo numa 


nomenclatura abstrata. 
A crítica da abstração como conheci- 


mento parcial, como nomenclatura 
geral, unida à concepção genética do 
conhecimento, leva Espinosa a afirmar 
que o conhecimento verdadeiro é o 
conhecimento das feis que produzem as 
coisas singulares e que determinam a 
natureza própria e o lugar próprio de 
cada uma delas no Todo. O conheci- 
mento das leis necessárias do real deve, 
então, partir da idéia que é causa e 
sustentáculo do real, causa das coisas 
smgulares e das relações necessárias 


337 


OS PENSADORES 


que existem entre elas. O conhecimento 
deve, portanto, partir do incondicionado 
rumo àquilo que é determinado por ele — 
ou seja, deve partir de Deus. 

O livro I da Etica trata, portanto, da 
essência de Deus, demonstrando que 
nela há uma identidade absoluta com a 
existência e com a potência. Deus é a 
Substância, ou seja, o Ser que é causa de 
s1, Que existe em si e por si, que é conce- 
bido em si e por si e que é constituído 
por infinitos atributos, infinitos em seu 
gênero e cada um deles exprimindo uma 
das qualidades infinitas da substância. 
“Desses atributos conhecemos dois: o 
pensamento e a extensão. Do livro | 
devem ser destacadas as principais teses 
da ontologia espinosana: 

1) A substância é causa de si mesma. 
Tal afirmação não significa, como na 
teologia cristã e na filosofia cartesiana. 
dizer que Deus é incausado, mas é dizer 
que Deus é autoprodutor. 

2) A substância é causa de si do 
mesmo modo que é causa das coisas. 
Isto significa que o ato pelo qual Deus se 
produz é o ato pelo qual ele produz a 
totalidade da natureza. A causa de st é 
causa imanente. Fica abolida a idéia de 
criação. 

3) Deus é causa eficiente e não causa 
final da realidade. A causa final é uma 
pura projeção antropomórfica na nature- 
za. Os homens estão habituados a consi- 
derar que fazem as coisas com um deter- 
minado fim e consideram a ação divina 
também submetida à finalidade. Neste 
caso, de duas uma: ou Deus age em vista 
de um fim diferente dele próprio e há, 
portanto, algo mais perfeito ou superior 
a Deus a que Ele visa atingir quando pro- 
duz as coisas — isto é, obviamente, um 
absurdo. Ou, então, Deus age tendo 
como fim sua própria satisfação, o que 
significa que Deus precisa das coisas 
para tornar-se satisfeito, isto é, com- 
pleto e perfeito — o que é um absurdo 
anda maior. À causa final, ao antropo- 
morfizar Deus, destrói a divindade como 
ser infinito e, portanto, Absoluto. Faz 
dele um ser carente que procura fora de 
si mesmo aquilo que possa completá-lo. 
A finalidade é um verdadeiro delirio. 

4) O pensamento e a extensão são 
atributos infinitos de Deus. Esta tese é a 
mais chocante: com ela Espinosa afirma 


338 


que Deus é matéria e não um puro espi- 
rito como sempre foi afirmado pela teo- 
logia e pela filosofia. Além disso, o dua- 
lismo cartesiano das substâncias é 
abolido, pois pensamento e extensão não 
são substâncias ao lado da substância 
infinita, mas atributos de uma única 
substância. Espinosa amplia até o ponto 
extremo a idéia de total homogeneidade 
entre Deus e Natureza e, portanto, das 
leis divinas e naturais. Por outro lado, 
ao afirmar que o pensamento é um atri- 
buto de Deus, afirma a total inteligibi- 
lidade do real, não podendo haver nada 
que deixe de ser compreensivel. Entre 
outras coisas, esta afirmação destrói 
definitivamente a noção de milagre e de 
vontade divina. A vontade de Deus é 
idêntica à necessidade e inteligibilidade 
das leis com que produz a realidade. 


Corpo e alma 


Nos quatro livros seguintes da Ética, 
Espinosa examina a produção e produti- 
vidade da natureza humana não como se 
esta fosse uma substância criada pela 
substância divina, mas como um modo 
da substância Única e infinita. O modo é 
a modificação da substância através de 
seus atributos. Assim, o corpo é um 
modo da extensão e a alma é um modo 
do pensamento. A natureza humana re- 
pete de maneira finita a mesma estru- 
tura que possui a substância infinita. A 
alma é idéia do corpo. O corpo é uma 
máquina complexa de movimento e de 
repouso composto por corpos menores, 
que por sua vez são máquinas de movi- 
mento e de repouso. É pelo corpo que 
tomamos contacto com a realidade ex- 
tensa exterior, isto é, com os demais cor- 
pos, com os quais interagimos. A alma, 
idéia do corpo, não é um reflexo do 
corpo, mas a consciência do corpo e de 
sua inteligibilidade, bem como a de ou- 
tros corpos. Corpo e alma são totalmente 
individuais — são individuais no plano 
da existência e no plano da essência. Por 
isso Espinosa repele a tentativa de escla- 
recer o que seja a natureza humana pela 
comparação dos homens entre si. Na 
carta n.º 21, a Blyenbergh, Espinosa 
considera que é um absurdo dizer que 
um cego é imperfeito ou menos perfeito 


ESPINOSA 


As telas de Rembrandt van Rijn, à parte seu valor puramente pictórico, 
constituem excelentes documentos psicológicos e sociais para estudo dos 
indivíduos e das comunidades holandesas de sua época. Entre os inúmeros 

quadros de Rembrandt que representam rofissões e atividades econômicas, 
encontra-se “Os Negociantes de Tecidos”. (Acervo do Museu Real de Amsterdam. ) 


do que um vidente. O cego seria imper- 
feto se a visão fizesse parte de sua 
essência e ele estivesse privado dela. 
Ora, a cegueira não é ausência de visão, 
mas uma forma diferente de existir. A 
essêntia é sempre singular e nunca che- 
garemos a ela se procedermos por 
comparação. Pela mesma razão, não é 
comparando por semelhança e diferença 
que saberemos o que um homem é. “Ob- 
servando a existência de vinte homens, 
não saberei o que é a essência de um 
homem, pois o número vinte nada tem a 
ver com a essência singular de cada 
um.” Espinosa recusa a indução e a 
quantificação como formas para conhe- 
cer o homem. 

A relação entre a alma e o corpo não é 
a da ação e da paixão — a alma ativa e o 
corpo passivo; nem a obscura relação 
cartesiana de uma ação reciproca do 
corpo sobre a alma e vice-versa. A rela- 
ção espinosana é uma relação de corres- 
pondência ou de expressão. Espinosa 
foge de uma explicação de tipo mecani- 
cista: o corpo não é causa das idéias, 


nem as idéias são causa dos movimentos 
do corpo. Alma e corpo exprimem no seu 
modo próprio o mesmo evento. O indivi- 
duo é uma estrutura: isto é, uma organi- 
zação determinada de partes relacio- 
nadas necessariamente entre si e esta 
organização e relacionamento são inteli- 
gíiveis. Desta maneira, Espinosa critica o 
mecanicismo cartesiano: o individuo é 
uma máquina complexa no sentido de 
que essa máquina é um organismo ou 
uma estrutura e não uma soma ou justa- 
posição de partes exteriores umas às 
outras. Há uma unidade e uma inteligi- 
bilidade intrínsecas e que constituem a 
essência de um modo singular. Vemos 
dessa maneira como a causa divina 
enquanto causa imanente vem reapare- 
cer integralmente no modo. de sorte que 
o mecanicismo fundado numa casuali- 
dade externa é substituído por um 
“mecanicismo” fundado numa casuahk- 
dade interna. Esta transformação é 
fundamental para compreender a teoria 
espinosana das afecções da natureza hu- 
mana — isto é, das ações e paixões da 


339 


FABBRI 


OS PENSADORES 


alma e do corpo, de sorte que a alma 
será passiva quando o corpo for passivo, 
e ativa quando ele também for ativo. 


As paixões e os desejos 


O movimento interno do corpo e o 


nexo interno das idéias na alma consti- 
tuem a essência do homem — esta essên- 


cia se denomina conatus, esforço para 
perseverar na existência, poder para 
vencer os obstáculos exteriores a esta 
existência, poder para expandir-se e 
realizar-se plenamente. Ora, cada cona- 
tus está perpetuamente relacionado com 
outros e cada um pode realizar uma ver- 
dadeira guerra contra os demais para 
poder preservar-se, e o mundo exterior 
surge como um conjunto de causas que 
podem aumentar ou diminuir o poder do 
conatus de cada um. À ação consiste em 
apropriar-se de todas as causas exterio- 
res que aumentem o poder do conatus. A 
paixão, em deixar-se vencer por todas 
aquelas que diminuem seu poder. Ora, 
isto significa que na ação o conatus 
(alma e corpo) incorpora o exterior gra- 
ças ao seu próprio poder, enquanto na 
paixão ele se torna incapaz disso. 
Assim, Espinosa definirá ação e paixão 
em termos de causa adequada e de causa 
madequada. * “Somos ativos quando em 
nós ou fora de nós ocorre algo de que 
somos a causa adequada, isto é, quando 
em nós ou fora de nós ocorre algo que 
depende apenas de nosso poder.” 

“Somos passivos, ao contrário, quando 
em nós ou fora de nós ocorre algo de que 
somos causa inadequada, isto é, quando 
o que ocorre em nós ou fora de nós não 
depende de nosso próprio poder.” A ação 
é uma potência positiva, a paixão, um 
declínio da potência. O homem livre não 
é aquele que decide o que quer, como 
quer e onde quer. O homem livre é aque- 
le que, conhecendo as leis da natureza e 
as de seu corpo, não se deixa vencer pelo 
exterior, mas sabe dominá-lo. A partir 
daí, Espinosa definirá a essência huma- 
na pelo desejo. O desejo é a tendência 
interna do conatus a fazer algo que con- 
serve ou aumente sua força. O desejo do 
homem livre é o desejo no qual, entre o 
ato de desejar e o objeto desejado, deixa 
de haver distância para haver união. O 
desejo é a causalidade humana reprodu- 


340 


B. p. Sys* 


PERA 


POSTHUMA, 


Quorum forics po Pre fationem 
txtibernr. 


Em 1677, após a morte de Espinosa, 
os amigos reuniram os manuscritos de 
suas principais obras e fizeram-nos 
publicar, sob o título de Obras 
Póstumas. (Frontispício da edição.) 


zindo no plano dos modos a atividade di- 
vina como atividade imanente. 

A paixão procura bens capazes de 
conservar o conatus, tanto quanto a ação 
o faz, mas é guiada pela imaginação e 
não pelo intelecto. Assim sendo, os bens 
que procura para satisfazer seus desejos 
permanecem exteriores ao conatus, e 
mais ainda, a imaginação os apresenta 
como bens conflitantes e contrários, dei- 
xando o homem numa situação desespe- 
radora, incapaz de decidir-se por um ou 
outro objeto desejado. Esta flutuação 
mterna enfraquece o conatus, que come- 
ça a deixar-se dominar pelas causas 
exteriores. Este enfraquecimento faz 
com que os objetos da paixão sejam 
negativos: tristeza, ódio, medo, ciúme, 
vingança, etc. Mas há pior que isso: o 
mesmo objeto pode ser simultaneamente 
causa das paixões positivas inversas: 


FABBRI 


ESPINOSA 


BENOIT SPINOSA. 
Vea E dd didi ot Mint te 


(rm mm; 


“O amor é a Alegria acompanhada da 
idéia de uma causa exterior... À 
vontade do amante de se unir d coisa 
amada não exprime a essência do Amor, 
mas uma propriedade deste.” 


alegria, amor, coragem, etc. Ser escravo 
das paixões é oscilar permanentemente 
entre os opostos até o aniquilamento do 


conatus. 
A liberdade 


A primeira forma de liberdade não 
consistirá em livrar-se das paixões — 
elas são necessárias, istc é, não depen- 
dem de nossa vontade, mas das leis da 
natureza humana. Ser livre não será, 
portanto, escapar das leis da natureza 
humana, mas, conhecendo tais leis, 
começar a deixar-se vencer apenas pelas 
paixões positivas. E isto também é pos- 
sivel pelas leis da natureza humana. 
Espinosa considera que não é uma ação 
que vence uma paixão, mas uma paixão 
mais forte que vence outra mais fraca. 
Ora, a paixão é forte ou fraca conforme o 
objeto desejado seja forte ou fraco, isto 


mesdiii MELLA — 


é, mais real ou menos real. Uma paixão 
cujo objeto é imaginado como presente é, 
mais forte do que uma paixão cujo obje- 
to é imaginado como ausente; uma pal- 
xão cujo objeto é imaginado mais pró- 
ximo no passado ou no futuro é mais 
forte do que aquela cujo objeto é imagi- 
nado mais distante no passado ou no 
futuro. Sobretudo: uma paixão é mais 
forte quando o objeto é imaginado como 
necessário do que quando é imaginado 
como contingente. Assim, embora seja 
impossível que não sejamos passivos, é 
possível vencer as paixões negativas 
pelas positivas modificando a direção do 
desejo rumo a objetos que destruam a 
oscilação do conatus e aumentem sua 
força. A partir daqui Espinosa começa a 
definir a liberdade humana. Como a 
escravidão, a liberdade depende da 
natureza do objeto desejado, e de causas 
muito definidas que excluem totalmente 


a idéia de livre-arbítrio. 
A primeira tarefa de Espinosa consiste 


em destruir os valores correntes: bem, 
mal, belo, feio, justo, injusto, perfeito, 
imperfeito. São nomes gerais, abstra- 
ções que não se referem a nada concreto. 
Nascem de comparações que os homens 
fazem entre si e entre os objetos. A liber- 
dade nada tem a ver com tais valores ou 
preconceitos. Que é o bem? A cons- 
ciência que temos de nossa alegria. Que 
é o mal? A consciência que temos de 
nossa tristeza. Que é a perfeição? A 
consciência que temos de nossa potên- 
cia. Que é a imperfeição? A consciência 
que temos de nossa impotência. Assim, o 
bem é o que procuramos para aumentar 
nossa potência; o mal, aquilo de que 
fugimos porque diminui nossa potência. 
Que é virtude? É virtú. É vis. É força: é o 
próprio conatus se expandindo. A virtu- 
de, dirá o livro V, não é o preço da felici- 
dade, mas a própria felicidade. A virtude 
ou liberdade consiste em procurar aque- 
le bem que por sua realidade atual e 
necessária realiza plenamente nosso 
desejo: Deus. Por isso a liberdade é defi- 
nida como amor intelectual de Deus. 
Amor: paixão positiva. Intelectual: pai- 
xão guiada pela consciência que temos 
de alcançar a plenitude de nosso ser na 
compreensão de nós mesmos atravês de 
nossa compreensão de Deus, isto é, da 
totalidade. 


341 


OS PENSADORES 


A virtude da alma é conhecer. Ela é 
passiva quando o conhecimento depende 


de causas exteriores — é passiva na 
imaginação. El éativa quando o conhe- 
cimento depende dela própria, de sua 
força própria — é ativa na razão. É ativa 
quando consegue compreender a ordem e 
conexão necessária do real, a produção 
do real e a inserção do homem nessa 
produção. 

Por tudo que foi dito, compreende-se 
que o retrato do homem livre, para Espi- 
nosa, seja o do homem que não faz o mal 
justamente porque o ignora — é o homem 
que age para além do bem e do mal por- 
que age apenas pela força interior de seu 
desejo e de sua compreensão. É o homem 
que não teme, não odeia, nem tem 
remorsos porque domina os objetos 
exteriores em vez de ser uma vítima 
deles. Por isso a sabedoria é uma medi- 
tação sobre a vida e o sábio pensa em 
tudo menos na morte. Dessa maneira, 
Espinosa nega a pregação platônica e 
cristã que considera a sabedoria uma 
preparação para a morte e para a vida 
eterna. Para Espinosa, a eternidade é a 
identidade da essência e da existência — 
a eternidade não está fora da vida pre- 
sente, mas nela mesma, quando alcança- 
mos a identidade de nossa essência e de 
nossa existência numa alegria e num 
amor duradouros, na compreensão e 
aceitação daquilo que somos: modos da 
substância divina, forças em expansão, 
agentes da história e não pacientes dela. 
Quando Espinosa diz que o conheci- 
mento e o amor verdadeiros se dão sub 
specie aeternitatis, é preciso lembrar 
que, para ele, a eternidade nada tem a 
ver com o tempo, mas é ausência de 
tempo. Isto significa que conhecer e 
amar sub specie aeternitatis é: 1) tomar 
um ente na identidade de sua essência e 
de sua existência; 2) portanto, tomar um 
ente em sua necessidade intrínseca; 3) 
portanto, tomar um ente como causa sui 
(Deus) ou como causa adequada 
(homem); 4) portanto, tomar um ente 
cumprindo sua potência ou produtivi- 
dade essencial. O tempo é a maneira de a 
imaginação tentar medir a Duração. 
Nesta, a essência e a existência podem 
ser separadas. Na Eternidade, isto é, no 
não-tempo, a essência e a existência 
mostram a necessidade interna que as 


342 


une; a eternidade é justamente a identi- 
dade da essência e da existência. Pode- 
mos dizer que a existêneia em sua dis- 
persão temporal de acontecimentos é 
uma superficie que precisa ser explica- 
da. A História, entendida como Lógica, 
está do lado da eternidade e não do lado 
do tempo: a História (Lógica) não é o 
conhecimento da sucessão dos aconteci- 
mentos, mas da necessidade interna de 
sua produção. Por isso Espinosa diz que 
a definição do círculo não implica que o 
circulo surja dessa maneira na experiên- 
cia, isto é, não é a experiência dos circu- 
los que nos dá a essência do circulo, mas 
é esta que nos garante que temos expe- 
riência do circulo. À eternidade vincula- 
se à idéia de um Infinito que é Infinito 
não porque não tenha fim (no espaço e 
no tempo), mas porque apresentou a 
total necessidade e inteligibilidade do 
Real. É isto que se denomina Infinito 
Atual, e é esta idéia que leva Hegel ao 
elogio de Espinosa. 


O Estado 


1) O Estado não é resultado da ação 
racional dos homens, mas do choque de 
suas paixões. Sozinhos, os homens não 
podem sobreviver. Ao-se unirem e forma- 
rem um Estado, simplesmente trocam 
seus medos e esperanças individuais por 
um medo e uma esperança comunitários. 

2) Se o Estado nasce e vive da paixão, 
sua essência é a violência. Escrever uma 
ciência política, desejando que a violên- 
cia saia de cena, é escrever ou uma uto- 
pia ou uma sátira, nunca uma teoria. 

3) O Estado, como indivíduo, tem seu 
próprio conatus, que pode ou não estar 
em conflito com o conatus dos indivi- 
duos que o compõem. Se o conflito é tal 
que aniquila os cidadãos, estes natural- 
mente se revoltam. A revolução está ins- 
crita no interior do próprio Estado quan- 
do este é contrário às necessidades da 
comunidade. Assim sendo, o Estado 
menos violento e menos conflituoso só 
pode ser o Estado democrático. 

4) O Estado pode ser destruído inter- 
namente por uma revolução ou externa- 
mente por uma guerra ou invasão. É por 
causa deste segundo perigo que se tende 
a aceitar a militarização do Estado 


ESPINOSA 


A sociedade holandesa, que constituiu o pano de fundo da vida e do pensamento 
de Espinosa, fundava-se na liberdade burguesa e na valorização do trabalho e 
do dio Seus pintores exprimiram essa ideologia, abandonando os temas 

grandiosos e voltando-se para as coisas simples. “A Pequena Rua”, de Vermeer de 

Delft, é um claro exemplo nesse sentido. (Detalhe, Museu Real de Amsterdam.) 


como forma de sua preservação. Ocorre 
que: ou o exército disputa o poder com a 
autoridade civil e aniquila o Estado com 
uma guerra interna; ou, então, O exér- 
cito toma o poder, mas o despotismo 
leva a uma revolução dos súditos. Espi- 
nosa considera que o Estado só pode se 
preservar e se defender externamente se 
o povo puder estar armado, em vez de 
entregar as armas aos mercenários ou a 
uma casta militar. 

5) A sublevação popular pode ocorrer 
ainda por uma outra razão. Quando o 
poder político, para assegurar-se, une-se 
com o poder religioso e usa a supersti- 


ção como arma, tende a censurar a liber- 
dade de pensamento e de expressão. 
Neste caso, a censura gera o desconten- 
tamento e este se expande pouco a pouco 
para a massa, a sublevação acabando 
por vir. Por isso o Tratado Teológico- 
Político afirma que a liberdade de pen- 
sar e falar não é contrária à paz do Esta- 
do, mas sim a condição dessa paz. 
Nota-se que a teoria política de Espi- 
nosa vincula-se diretamente à sua teoria 
da ação e da paixão humanas — o con- 
flito das paixões aniquila o conatus; os 
conflitos no interior do Estado também o 
anigquilam. Assim como uma paixão 


343 


OS PENSADORES 


mais fraca (negativa) é vencida por 
outra mais forte (positiva), também um 
Estado mais fraco (despótico) é vencido 
por outro mais forte (democrático), sem 
que se deva confundir, porém, a liber- 
dade política, puramente passional, com 


a liberdade verdadeira, puramente ra- 
cional. O Estado está sempre sub specie 
durationis, sendo que conhecê-lo sub 
specie aeternitátis é apenas demonstrar 
aquelas cinco teses que apresentamos, 
isto é, apresentar a essência do Estado. 


1632 — Baruch de Espino- 
sa nasce em Amsterdam. 
1639-1650 — Freguúenta os 
cursos da nova escola judai- 
ca, onde aprende o hebreu. 
1646-1650 — Espinosa pre- 
para-se talvez para o rabina- 
to. 

1648 — Declaração da in- 
dependência das sete Pro- 
víncias Unidas. 

1652 — Primeira guerra an- 
glo-holandesa. Espinosa fre- 
quenta os cursos dos ex-je- 
suiítas Van den Enden. 

1653 — Johannes de Witt, 
Pensionário de Dordrecht, 
torna-se Grande Pensioná- 
rio da Holanda. 

1654 — Segunda guerra en- 
tre a Holanda e a Inglaterra 
pela hegemonia marítima. 
1656 — A 27 de julho, o 


CRONOLOGIA 


Conselho dos rabinos publi- 
ca o mandado de excomu- 
nhão de Espinosa. 
1660-1663 — Espinosa en- 
contra-se em Rijnsburg (su- 
búrbio de Leyde). Aí escreve 
o Breve Tratado, o Tratado 
da Correção do Intelecto e a 
Ética, primeira parte da sua 
Filosofia. 

1663 — Espinosa muda-se 
para Voorsburg (subúrbio 
de Haia) e publica os Princi- 
pios. E 
1665 — Interrompe a Etica 
para escrever um tratado so- 
bre a liberdade do pensa- 
mento. 

1667 — Paz entre Breda e a 
Inglaterra. Luís XIV con- 
quista os Países-Baixos es- 


panhóis. 
1668 — De Witt assina a 
BIBLIOGRAFIA 


tripla aliança com a Ingla- 
terra e a Suécia, impedindo 
uma invasão francesa. 

1670 — Espinosa publica, 
anonimamente, o Tratado 
Teológico Político. E obri- 
gado a sair de Voorsburg e 
passa a viver em Haia. 

1672 — As tropas francesas 
invadem a Holanda. A 20 
de agosto, os irmãos De Witt 
são assassinados. 

1673 — Espinosa recusa a 
cadeira de filosofia na Aca- 
demia de Heidelberg. 

1675 — Vai a Amsterdam 
para mandar imprimir a Éti- 
ca, mas desiste da idéia. 
1677 — Falece em Haia, a 
21 de fevereiro. Em novem- 
bro é publicada a maior par- 
te de suas obras, sob o titulo 
de Obras Póstumas. 


ALQUIE, F.: Nature et Vérité dans la Philosophie de Spinoza in Les Cours de la Sorbonne, 


C.D.U., Paris, s.d. 


BRUNSCHVICG, L.: Spinoza et ses Contemporains, Presses Universitaires de France, Paris, 


1951. 


DARBON, A.: Études Spinozistes, Presses Universitaires de France, Paris, 1946. 
DELBOS, V.: Le Spinozisme, Société Française d'Imprimerie et de Librairie, Paris, 1916. 
FRIEDMANN, G.: Leibniz et Spinoza, Gallimard, Paris, 1946. 
HAMPSHIRE, S.: Spinoza, Penguin Books, Londres, 1953. 
LACHIEZE-REY, P.: Les Origines Cartésiennes du Dieu de Spinoza, Alcar, Paris, 1932. 
PARKINSON, G. H. R.: Spinoza's Theory of Knowledge, The Clarendon Press, Oxford, 1954. 
PoLLOCK, F.: Spinoza, his Life and Philosophy, 2.º ed. Ldt. Kogan dont, Londres, 1899. 
ZAC, S.: La Morale de Spinoza, Presses Universitaires de France, Paris, 1959. 

DeLEUZE, G.: Le Problême de [Expression chez Spinoza, Ed. Minuit, 1969. 


GUEROULT, M.: Spinoza, tomo I, Ed. Aubier-Montaigne, 1969. 
Introdução à Leitura de Espinosa (tese de doutoramento), 


CHAUÍ-BERLINCK, M.: 
U.S. P., 1970. 


CHAUÍ-BERLINCK, M.: A Linguagem na Filosofia de Espinosa à guisa de Introdução in 
Discurso n.º 2,U.sS. P., São Paulo, 1972. 


344 


"CNPVRIGUT MIININIAL 1072 — ARRH CA CIUTIHRAL CINMIIQTRIAL — CAN PALUMN — RRAGII 


CAPITULO 25 


OS PENSADORES 


século XVII tem como marcos bem 

nítidos vs anos de 1603 e 1689. 
Em 1603, faleceu Elizabeth JI 
(1533-1603) e a coroa foi colocada na 
cabeça de Jaime Stuart (1566-1625). 
Em 1689, a Revolução Gloriosa fez 
ascender ao trono real Guilherme de 
Orange (1650-1702) e sua esposa Maria 
(1662-1694). Entre aquelas datas, ocor- 
reram os conflitos decorrentes do abuso 
do poder, por parte dos monarcas da 
dinastia dos Stuart, e as tentativas de 
consolidação dos interesses da burgue- 
sia, realizadas pelos seus representantes 
na Câmara dos Comuns. 

No século anterior, o absolutismo dos 
Tudor constituía expressão dos interes- 
ses da burguesia, e, além disso, os prin- 
cipais representantes do absolutismo 
desse período, Henrique VII 
(1491-1547) e Elizabeth I, foram muito 
hábeis em manter seu poder com todas 
as aparências de governo popular. Quan- 
do desejavam decretar medidas de popu- 
laridade duvidosa, recorriam à formali- 
dade de obter aprovação parlamentar; 
quando necessitavam mais dinheiro, sa- 
biam como fazer para que as desapro- 
priações parecessem dádivas voluntá- 
rias dos representantes do povo. 

No século XVII, contudo, a situação 
alterou-se. A burguesia já estava sufi- 
cientemente fortalecida e poderia pres- 
cindir de govemos fortes para solidificar 
seu domínio sobre a nação. Acrescenta- 
va-se a isso o fato de que os soberanos 
Stuart não tinham a mesma habilidade 
que seus antecessores. Jaime I, por 
exemplo, a quem Henrique IV da França 
(1553-1610) chamava “o imbecil mais 
esclarecido da cristandade”, pretendia 
fundamentar a autoridade real no poder 
divino. Seus sucessores caminharam 
pelas mesmas vias e todo o século XVII 
ficou marcado pelos constantes conflitos 
entre a autoridade real e a autoridade do 
Parlamento. Esses conflitos assumiam 
aspectos religiosos, envolvendo protes- 
tantes contra católicos, mas, sobretudo, 
eram expressão de interesses econô- 


À história política da Inglaterra do 


Na página anterior: retrato de John 
Locke, no Kneller. (Galeria 
Nacional de Retratos, Londres.) 


346 


micos divergentes. Além das oposições 
entre a aristocracia medieval e a burgue- 
sia, contrapunham-se os interesses da 
burguesia mercantil, protegida por pri- 
vilégios de monopólio, e de novos seto- 
res que procuravam quebrar esses mono- 
pólios, alterando as relações existentes 
no comércio internacional. Ao lado des- 
sas forças, havia ainda uma nova classe 
de empresários agricolas e novas cama- 
das urbanas, interessadas na expansão 
da indústria de transformação. 

O resultado final dos conflitos foi a 
derrota final do absolutismo com a 
Revolução Gloriosa. Em 1689, a Câma- 
ra dos Comuns triunfou, mandando cha- 
mar Guilherme de Orange e sua esposa 
Maria, que se encontravam refugiados 
na Holanda. Outorgando-lhes o poder 
real, o Parlamento burguês deixava 
claro que esse poder era derivado do seu 
e nele deveria fundamentar-se. 


Médico, filósofo e político 


No navio que transportava Guilherme 
de Orange e sua esposa Maria encontra- 
va-se o filósofo John Locke e isso não 
era obra de simples acaso. Locke parti- 
cipou ativamente do processo revolucio- 
nário realizado em seu país e essa parti- 
cipação poderia ser remontada, até suas 
origens familiares. 

John Locke nasceu a 29 de agosto de 
1632, no seio de uma família de burgue- 
ses comerciantes da cidade de Bristol. 
Quando estourou a revolução de 1648, 
seu pai adotou a causa dos puritanos e 
alistou-se no exército do Parlamento. 

Na mesma época, Locke estudava na 
Westminster School e, em 1652, transfe- 
riu-se para o Christ Church College de 
Oxford, instituição à qual estaria ligado 
até 1684, primeiro como aluno, depois 
como “fellow”. Em Oxford, Locke desen- 
cantou-se com o aristotelismo escolás- 
tico ali ensinado, mas recebeu também 
duas influências fundamentais para o 
curso posterior de seu pensamento: a de 
John Owen (1616-1683), que enfatizava 
a importância da tolerância religiosa, e 
a de Descartes (1596-1650), que o liber- 
tou “do ininteligivel modo de falar” 
dos escolásticos. Seus interesses como 
estudante foram bastante diversificados, 
abrangendo desde a química e a meteo- 


LOCK E 


Na época em que John Locke escreveu suas obras, Londres era uma das maiores 


cidades da Europa, com uma p EA 
habitantes. Grande parte dessa popu 


ulação estimada em 
ação vivia de atividades manufatureiras e 


uinhentos mil 


ligava-se ao extraordinário surto do comércio com as colônias. Tela de John 


Griffier (1656-1718) mostra o porto de Londres. (Galeria Sabauda, Turim.) 


rologia até a teologia. Finalmente, optou 
pela medicina como atividade profissio- 
nal. Datam dessa época suas amizades 
com Robert Boyle (1627- 1691) e Tho- 
mas Sydenham. O primeiro, repudiando 
a teoria aristotélica dos quatro elemen- 
tos (água, ar, terra e fogo), foi o pri- 
meiro a formular o moderno conceito de 
elementos químicos. O segundo revolu- 
cionou a medicina clínica, abandonando 
os dogmas de Galeno (130-200) e outras 
hipóteses especulativas e baseando o 
tratamento das doenças na observação 
empírica dos pacientes. Locke integrava, 
assim, o circulo daqueles que valori- 
zavam a experiência como fonte de 
conhecimento, e sua obra posterior siste- 
matizaria a filosofia empirista. Nesses 
anos, redigiu uma pequena obra em 
latim, Ensaios sobre a Lei da Natureza. 
Embora fortuitamente, sua dedicação 
à medicina experimental também serviu 


para fazê-lo ingressar nos círculos poli- 
ticos da Inglaterra. Em 1666, Locke tor- 
nou-se médico de Anthony Ashley Coo- 
per (1621-1683), posteriormente lorde e 
primeiro conde de Shaftesbury. Como 
obteve sucesso no tratamento, Ashley o 
empregou como médico particular e aca- 
bou por atribuir-lhe outras funções, 
como a de seu assessor. Locke partici- 
pou, assim, da elaboração de uma cons- 
tituição para a colônia de Carolina, 
situada na América do Norte. Em Exeter 
House, residência de lorde Ashley em 
Londres, Locke convivia com os mais 
altos círculos intelectuais e políticos da 
época. Nesse periodo começou a escrever 
uma de suas obras principais, o Ensaio 
sobre o Entendimento Humano, na qual 
trabalharia durante quase vinte anos. 
Com a rápida ascensão de lorde 
Ashley, multiplicaram-se suas ocupa- 
ções políticas. Em 1672, lorde Ashley 


347 


FABBRI 


OS PENSADORES 


recebeu o título de conde de Shaftesbury 
e tornou-se Presidente do Conselho de 
Colonização e Comércio; logo depois, 
ascendeu ao cargo de chanceler. Acom- 
panhando-o, Locke tornou-se Secretário 
para a Apresentação de Beneficios, 
devendo cuidar de todos os problemas 
eclesiásticos. 

Shaftesbury representava, na política 
britânica, os interesses do Parlamento e 
cada vez mais opunha-se às medidas do 
soberano Carlos II (1630-1685), contrá- 
rias a esses interesses e que tentavam 
fortalecer o absolutismo. Em 1675, 
Shaftesbury foi destituído de todos os 
seus cargos e Locke foi também obri- 
gado a abandonar as atividades políti- 
cas. Viajou então para a França, onde 
permaneceria durante três anos e se 
relacionaria com os círculos intelectuais 
de Montpelher e Paris. Em 1679, voltou 
à Inglaterra encontrando-a em grande 
agitação política. Shaftesbury, líder da 
oposição a Carlos II, estivera preso, mas 
voltara a fazer parte do governo, em 
1678, desempenhando as funções de 
Presidente do Conselho Privado. Os ser- 
viços de Locke foram novamente requisi- 
tados, mas suas relações com o governo 
do monarca Carlos II não durariam 
muito tempo. Em 1681, Shaftesbury, 
acusado de chefiar uma rebelião para 
depor o soberano, foi preso e compelido 
a trocar a Inglaterra pela Holanda, onde 
faleceu em 1683. Locke passou a ser 
vigiado pelo partido do rei e também 
acabou procurando refúgio na Holanda, 
onde existia liberdade de pensamento. 


A vitória dos Comuns 


Mesmo na Holanda os agentes de Car- 
los II perseguiam Locke, que se disfar- 
cou, em Amsterdam, sob o nome de dr. 
Van der Linden. Apesar de perseguido, 
conseguiu relacionar-se com Jean Leclerc 
(1657-1736), editor de um periódico 
literário intitulado Biblioteca Universal 
e Histórica. Para essa publicação, Locke 
contribuiria com vários artigos. Contava 
então 54 anos de idade. 

Suas principais obras, contudo, só se- 
riam publicadas entre 1689 e 1690, ao 
voltar à Inglaterra, depois da vitória do 
Parlamento na Revolução Gloriosa e 


348 


consequente ascensão ao trono de Gui- 
lherme de Orange e Maria. Nesses anos, 
Locke publicou a Carta sobre a Tolerán- 
cia, os Dois Tratados sobre o Governo 
Civil e o Ensaio sobre o Entendimento 
Humano. A primeira Carta sobre a Tole- 
ráncia causou muita polêmica e Locke 
escreveu outras três. Nelas, advoga a 
liberdade de consciência religiosa (um 
dos principais temas políticos da época), 
sustentando a tese dé que o Estado deve- 
ria apenas cuidar do bem-estar material 
dos cidadãos e não tomar partido de 
uma religião. O Primeiro Tratado sobre 
o Governo Civil combate, ironicamente, 
a tese de sir Robert Filmer (1588-1653), 
defensor do absolutismo dos Stuart, 
segundo a qual os monarcas reinantes 
remontavam seu poder a Adão e Eva. O 
Segundo Tratado do Governo Civil de- 
senvolve as teses políticas liberais de 
Locke. O Ensaio sobre o Entendimento 
Humano seria sua obra mais impor- 
tante, do ponto de vista estritamente 
filosófico. Além dessas obras, Locke 
publicou Alguns Pensamentos Referen- 
tes à Educação, em 1693, e Racionabi- 
lidade do Cristianismo, em 1695. A pri- 
meira é especialmente importante por 
constituir uma aplicação de sua teoria 
empirista do conhecimento aos proble- 
mas do ensino. Locke sustentava que 
“pode-se levar, facilmente, a alma das 
crianças numa ou noutra direção, como 
a própria água”. 

Os últimos anos da vida de Locke 
foram relativamente calmos, dentro da 
nova situação política criada pela Revo- 
lução Gloriosa. Depois de viver dois 
anos com o modesto cargo de Comis- 
sário de Recursos e recusar oferta para 
desempenhar as funções de embaixador 
em Brandenburgo, passou a residir nas 
terras de sir Francis Mashan. Na resi- 
dência de Mashan, em Oates, recebia a 
visita de seus amigos, entre os quais 
Isaac Newton (1642-1727), um dos cria- 
dores da fisica moderna. 

Em 1696, Locke assumiu o cargo de 
Comissário da Câmara de Comércio, 
sendo obrigado a deslocar-se frequente- 
mente até Londres. Quatro anos depois, 
com a saúde já debilitada, renunciou ao 
cargo, dedicando-se a uma vida de medi- 
tação e contemplação. Morreu no dia 27 
de outubro de 1704. 


LOCKE 


Anthony «Ishley Cooper, primeiro conde de Shaftesbury (tela de J. Greenhall, 
Galeria Nacional de Retratos, Londres), foi uma das principais figuras nas 
lutas entre o Parlamento e o soberano Carlos II, último dos monarcas 
absolutistas da Inglaterra. John Locke trabalhou para Shaftesbury, 
primeiramente como médico particular, depois como assessor político. 


349 


OS PENSADORES 


O primeiro conde de Clarendon foi 
chanceler de Carlos Ile esforçou-se 
para que houvesse equilíbrio entre o 
Parlamento e o rei. (Tela de Hanneman, 
Gal. Nac. de Retratos, Londres.) 


350 


Não há idéias inatas 

Durante toda a vida, Locke participou 
das lutas pela entrega do poder à bur- 
guesia, classe a que pertencia. Na época, 
isso significava lutar contra a teocracia 
anglicana e suas teses legitimadoras: a 
de que o poder do rei seria absoluto e a 
de que esse poder diria respeito tanto ao 
plano espiritual quanto ao temporal, o 
soberano tendo direito de impor à nação 
determinada crença e determinada 
forma de culto. 

Locke insurgia-se contra essas teses 
políticas, vinculando-as a teses filosó- 
ficas mais gerais, fundamentadas, em úl- 
tima instância, numa certa ora do 
conhecimento. As palavras iniciais do 
Ensaio sobre o Entendimento Humano 
são muito claras nesse sentido. Rela- 
tando as circunstâncias da origem da 
obra, o autor diz que o Ensaio resultou 
das dificuldades surgidas para a solução 
de um problema filosófico, abordado em 
discussão fortuita entre amigos; diante 
da dificuldade, Locke sugeriu uma pré- 
via indagação sobre a extensão e o limi- 
te do entendimento humano. A indaga- 
ção proposta acabou por se transformar 
na obra com a qual o pensador pretendia 
“fundamentar a tolerância religiosa e 
filosófica”. 

Papel fundamental no Ensaio é desem- 
penhado pela análise crítica da doutrina 
das idéias inatas. O problema surgiu na 
mente de Locke pela leitura da obra O 
Verdadeiro Sistema Intelectual do Uni- 
verso, de autoria de um dos principais 
animadores da escola platônica de Cam- 
bridge, o filósofo Ralph Cudworth 
(1617-1688). Esse pensador sustentava 
que a demonstração da verdade da exis- 
tência de Deus exige o pressuposto de 
que o homem possui idéias inatas, isto é, 
idéias que se encontram na alma desde o 
nascimento, e que, portanto, não deri- 
vam de qualquer experiência. Para Cud- 
worth, a doutrina empirista, segundo a 
qual “nada está no intelecto que antes 
não tenha estado nos sentidos”, conduz 
diretamente ao ateismo e por isso deve 
ser combatida. 

O livro T do Ensaio de Locke é dedi- 
cado à critica do inatismo defendido por 
Cudworth. Locke procura demonstrar 
que o inatismo é uma doutrina do 


LOCKE 


No período em que aumentou o número de perseguições aos adversários da 


politica absolutista do rei Carlos II, muitos in 
Holanda, onde se gozava de real liberdade inte 


leses Rg ea refúgio na 
ctual e religiosa. 


O filósofo John Locke foi um deles, tendo permanecido por seis anos naquele 
pais. (A. Cuyp: vista do porto sobre o rio Maas, em Dordrecht, Holanda.) 


preconceito, levando diretamente ao 
dogmatismo individual. Se os princípios 
fossem verdadeiramente inatos, consti- 
tuiriam uma certeza irredutível, sem ne- 
nhum outro fundamento a não ser a afir- 
mação do indivíduo. Critica ainda o 
inatismo, afirmando que os princípios 
chamados inatos deveriam encontrar-se 
em todos os indivíduos, como aspectos 
constantes e universais. Mas Isso, entre- 
tanto, não ocorre. Examinando-se os 
indivíduos — diz Locke —, verifica-se 
que apenas uns poucos conhecem, por 
exemplo, os princípios de identidade e 
contradição lógicas. Da mesma forma, 
nem todos conheceriam os princípios da 
vida prática, como “age com relação aos 
outros como gostarias que agissem com 
relação a ti” 

Além de negar que os princípios 
supostamente chamados natos sejam 
universais. Locke afirma que eles não 


têm maior utilidade, pois seria possível 
chegar ao mais exato conhecimento sem 
nenhuma necessidade de se recorrer a 
eles. Para julgar que o doce não é amar- 
go, por exemplo, bastaria perceber o 
doce e o amargo em separado; imediata- 
mente se concluiria que são diferentes. 
Nesse caso, não haveria qualquer neces- 
sidade de se utilizar o princípio de iden- 
tidade lógica, segundo o qual é impos- 
sivel que uma coisa seja distinta de si 
mesma. Analogamente seria possível, 
segundo Locke, provar a existência de 
Deus sem qualquer fundamentação 
numa suposta idéia inata de Deus; ou 
seja, o chamado “argumento ontológi- 
co” não teria nem validade nem Aids 
de. Santo Agostinho (354-430), Santo 
Anselmo 1035-1109), Descartes 
(1596-1650), defensores do inatismo, 
afirmavam a existência no espirito hu- 
mano, antes de qualquer experiência, da 


351 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Henrietta, duquesa de Orléans, tentou 
convencer seu irmão Carlos I 
a aderir à fé católica. Isso originou 
mais um ponto de atrito entre oreie 
o Parlamento. (Gal. Sabauda, Turim.) 


idéia de um ser perfeito; daí concluíam 
sua existência autônoma. Ao contrário, 
segundo Locke, a existência de Deus 
poderia ser demonstrada por uma va- 
riante da prova “por contingência do 
mundo”: a existência do ser contingente, 
que é o homem (conhecimento adquirido 
pela experiência), supõe a existência de 
um ser eterno, todo-poderoso e inteli- 
ente. Além disso, a não universalidade 
da idéia de Deus ficaria comprovada 
pelo fato de que há Feca que seriam 
inteiramente destituídos dessa idéia. 

A crítica ao inatismo, realizada por 
Locke, levou-o a conceber a alma huma- 
na, no momento do nascimento, como 
uma “tábula rasa”, uma espécie de 
papel em branco, no qual inicialmente 
nada se encontra escrito. Chega, então, à 
conclusão de que, se o homem adulto 
possui conhecimento, se sua alma é um 
“papel impresso”, outros deverão ser os 


352 


seus conteúdos: as idéias provenientes — 
todas — da experiência. 

Locke procurou, então, descobrir 
uais seriam os elementos constitutivos 
o conhecimento, quais as suas origens e 

processos de formação, e qual a ampli- 
tude de sua aplicabilidade. Em outras 
palavras, se o homem não possui idéias 
inatas — ao contrário do que afirmavam 
Platão (428/7 — 348/7 a.C.), Agosti- 
nho, Descartes e outros —, pergunta-se: 
como pode o homem constituir um 
conhecimento certo e indubitável e em 
que casos isso é possível? 


Que significa pensar? 


No livro II do Ensaio sobre o Entendi- 
mento Humano, Locke começa por afir- 
mar que as fontes de todo conhecimento 
são a experiência sensível e a reflexão. 
Em si mesmas, a experiência sensível e a 
reflexão não constituiriam propriamente 
conhecimento; seriam, antes, processos 
que suprem a mente com os materiais do 
conhecimento. A esses materiais, Locke 
dá o nome de idéias, expressão que 
adquire, assim, o sentido de todo e qual- 
quer conteúdo do processo cognitivo. 
“Idéia” é, para Locke, o objeto do enten- 
dimento, quando qualquer pessoa pensa; 
a expressão “pensar” é assim tomada no 
mais amplo sentido, englobando todas 
as possíveis atividades cognitivas. In- 
cluem-se no significado da expressão 
“idéia” os “fantasmas” (entendidos, por 
Locke, como dados imediatamente pro- 
venientes dos sentidos), lembranças, 
imagens, noções, conceitos abstratos. 

As idéias de sensação proviriam do 
exterior, enquanto as de reflexão teriam 
origem no próprio interior do indivíduo. 
Nesse sentido, expressões como “amare- 
lo”, “branco”, “quente” designam idéias 
de sensação; enquanto que as palavras 
“nensar”, “duvidar”, “crer”, nomeiam 
idéias de reflexão. Essas duas catego- 
rias de idéias seriam recebidas passiva- 
mente pelo entendimento e Locke lhes dá 
o nome de “idéias simples”. 

A simplicidade das idéias não decor- 
reria de nenhum caráter interior a elas 
mesmas; seriam simples as idéias que 
não se pode ter a não ser mediante expe- 
riências bem concretas, como frio e 
quente, doce e amargo, etc. Essas expe- 


LOCKE 


Depois da ditadura puritana de Oliver Cromwell (1599-1658), foi restaurada a 
monarquia dos Stuart, com a ascensão de Carlos Il ao trono da Inglaterra, em 
1661. Seu reinado foi marcado pelas disputas entre os adeptos do absolutismo 

reale os que defendiam a entrega do poder ao Parlamento. Locke colocou-se 
entre os últimos. (Desenho de Antoine Masson: Carlos II; Museu Magnin, Dijon.) 


353 


FABBRI 


OS PENSADORES 


riências concretas forneceriam idéias 
simples de três tipos: de sensação, de 
reflexão e de ambas ao mesmo tempo. 
Exemplos das primeiras são o quente, o 
sólido, o duro, o amargo, a extensão, o 
movimento; entre as segundas, encon- 
tram-se a atenção, a memória, a vonta- 
de; finalmente, idéias simultaneamente 
de sensação e reflexão seriam as de exis- 
tência, duração, número. 

A noção de idéias simples coloca de 
imediato o problema de saber se elas são 
mesmo representativas, isto é, imagens 
das coisas exteriores ao sujeito que as 
percebe. Para melhor solucionar a ques- 
tão, Locke separa as idéias simples em 
dois grupos. O primeiro é formado por 
idéias “enquanto percepções em nosso 
espírito”; o segundo, “enquanto modifi- 
cações da matéria nos corpos causado- 
res de tais percepções”. Estas últimas 
seriam efeitos de poderes ou potências 
capazes de afetar os sentidos humanos. 

Tal distinção conduz Locke a uma 
outra: entre qualidades primárias e qua- 
lidades secundárias dos corpos exterio- 
res à mente. Assim, Locke transita da 
teoria do conhecimento para a teoria do 
mundo físico. As qualidades primárias 
seriam inseparáveis dos corpos, tais 
como a solidez, a extensão, a figura e o 
movimento; mesmo que um certo corpo 
seja dividido em dois, essas qualidades 
persistiriam nas partes resultantes. As 
qualidades secundárias, ao contrário, 
não persistiriam e não estariam nos 
objetos, senão como poderes para produ- 
zir várias sensações nos sujeitos perci- 
pientes; assim ocorre com os sons, os 
gostos e as cores. 

As idéias simples constituiriam os ele- 
mentos com os quais se formam as idéias 
compostas, que se dividem em dois gru- 
pos. O primeiro é constituído por idéias 
simples combinadas na idéia de uma 
coisa única, como por exemplo a idéia 
de homem ou de ouro. O segundo é for- 
mado por idéias que se reúnem para for- 
mar uma idéia composta, mas que conti- 
nuam representando coisas distintas; é o 
que ocorre com todas as idéias de rela- 


FABBRI 


Depoimentos de seus contemporáneos ção, como a de filiação, que une, sem 
afirmam que Locke era um homem alterá-las, as idéias de pai e filho. 
que detestava a intolerância O primeiro grupo, por sua vez, subdi- 
religiosa e política. (Locke, por J. vide-se em duas classes: idéias de modo 
Greenhill; Gal. de Retratos, Londres.) das coisas que não podem subsistir por 


LOCK E 


ÍHOMAS .SYDENHAM 


Cutreaios naforoa 


FABBRI 


CHYMISTA SCEPTICVS: 
VEL, É 
DVBIA ET PARADOXA 
CHYMICO-PHYSICA, 
CrcaSracyraICORVM Principia, umlçô deita HrrostTATICA, 
Prom proponi Cr propugnari folemt à Turhe 

ALCHYMISTARUM. 
Ci Pars pramictiar 

Alteriuscujuídam Diflertationis ad idem Argumentum fpectans. 
a 4b Honor atifimo 


ROBERTO BOYLE 


Nos:11 ANcLO, é SOCILTATE REGIA- 


GENEVA ; 
Apud SAMVELEM DE TOVRNES. 


«M. DC. LIII 


No século XVII houve grande desenvolvimento das ciências experimentais. 
Dois de seus maiores expoentes foram amigos pessoais de Locke: Thomas 
Sydenham, que revolucionou a medicina, e Robert Boyle, um dos fundadores da 
física. (Sydenham, em gravura de 1716; Bibl. Nac. Braidense e frontispício 

de O Químico Cético, de Boyle; Museu da Ciência e da Técnica, Milão.) 


si mesmas (um triângulo ou um número, 
por exemplo) e as UBE lanciAs que, como 
diz a própria palavra, subsistem por si; 
seria o caso da idéia de homem, entre 
outras. Os próprios modos dividem-se 
em simples e compostos, ou mistos. Nos 
primeiros, a idéia simples combina-se 
consigo mesma, como a idéia de número, 
que resulta da combinação das idéias de 
unidades; ou a de espaço, proveniente da 
combinação das idéias de partes homo- 
gêneas. Os modos compostos, ou mistos, 
derivam da combinação de idéias sim- 
ples heterogêneas, como a idéia de bele- 
za ou de assassinato. 


A substância incognoscível 


Segundo o projeto de Locke, a teoria 
elaborada no Ensaio sobre o Entendi- 
mento Humano possibilitaria encami- 
nhar de outra forma a solução de muitos 
problemas filosóficos, que só as teorias 


inatistas se julgavam capazes de resol- 
ver. Dentre esses problemas, os mais 
importantes, a seu ver, eram os referen- 
tes às noções de infinito, de potência e de 
substância. 

O infinito é concebido por Locke como 
um modo simples, resultante da repeti- 
ção da unidade homogênea de número, 
duração e espaço, distinguindo-se do fi- 
nito tão-somente pelo fato de que tal 
repetição não tem limite. Portanto, é 
falso — diz Locke — considerar o infinito 
como anterior ao finito e que o finito seja 
uma limitação do infinito. Pelas mesmas 
razões, é falso também conceber um infi- 
nito de perfeição, diferente do infinito de 
quantidade. 

A idéia de poder é concebida pelo 
autor do Ensaio como um modo simples, 
formado pela repetida experiência de 
certas modificações comprovadas nas 
coisas sensíveis e no próprio homem. 
Este chega à idéia de poder, quando nota 


3: 


> 


FABBRI 


OS PENSADORES 


que suas idéias se modificam sob in- 
fluência das impressões dos sentidos ou 
por escolha de sua própria vontade. A 
idéia de poder formar-se-ia também 

uando o homem imagina a possibili- 
dade de tais modificações virem a ocor- 
rer no futuro; nesse caso produzem-se as 
idéias de potência ativa, referente áquilo 
que causou a modificação, e de potência 
passiva, que diz respeito áquilo que 
sofre a modificação. Mas, em geral, a 
idéia de potência ativa seria uma idéia 
de reflexão, proveniente das modifica- 
ções produzidas pela vontade do homem 
nas coisas externas; nesse sentido, a 
vontade é uma potência ativa. 

O terceiro problema abordado por 
Locke foi o da natureza da substância. A 
substância sempre foi entendida como 
realidade primitiva, mas filósofo algum 
— pensa Locke — foi capaz de dizer cla- 
ramente o que entendia por esse subs- 
trato de todos os atributos. No Ensaio 
sobre o Entendimento Humano encon- 
tra-se a tese de que as insuficiências das 
doutrinas tradicionais decorrem de 
terem os filósofos erradamente conce- 
bido a substância como uma idéia sim- 
ples, quando, na verdade, se trata de 
idéia composta. Tomando-se como 
exemplo o ouro, de acordo com a tese de 
Locke, sua substância não seria mais do 
que um conjunto de idéias simples, que a 
experiência mostra sempre agrupadas: 
amarelo, dúctil, denso, etc. Nesse caso a 
substância não seria mais do que um 
modo misto, que é também um grupo 
constante de idéias simples denomi- 
nadas por uma só palavra. 

Essa tese de Locke sobre a substância 
não significa, contudo, que ele afirmasse 
a realidade como formada exclusiva- 
mente pelas idéias simples; Locke admi- 
te a existência real das substâncias, mas 
acha que elas não podem ser conhecidas 
em si mesmas. A tese de Locke é, assim, 
referente ao conhecimento e não tem, 
propriamente, um significado metafi- 
sico. À substância ia a uma 
espécie de infinito em ato; existe mas 
não se pode saber o que seja, e a única 


A ascensão de Guilherme de Orange e investigação possível é a pesquisa expe- 
Maria ao trono da Inglaterra foi, em rimental das qualidades que nela coexis- 
larga medida, resultado dos esforços tem. Dessa forma, para conhecer os cor- 
de Charles Montagu, conde de Halifax. pos que compõem a realidade exterior 
(Gal. Nac. de Retratos, Londres.) ao homem, é suficiente considerar a 


356 


LOCKE 


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Numa época em que a cirurgia era ainda muito primitiva, John Locke 
realizou um verdadeiro milagre médico: dirigiu uma operação para remover um 
abscesso no figado de lorde Ashley, inserndo um pequeno tubo através da 
parede do estômago. O acontecimento ocorreu na residência de Lorde Ashley em 
Exeter. (Mapa de Exeter, executado por G. Braun e G. Hogenburg, em 1617.) 


substância como um conjunto de idéias 
simples de sensação. Analogamente, 
deve-se entender a realidade interior 
(alma, na metafísica medieval) como 
conjunto de idéias de reflexão. 


Os fundamentos da certeza 


Depois de analisar os materiais cons- 
tituintes do entendimento humano, o En- 
saio aborda o problema dos limites do 
conhecimento e suas formas legítimas, 
ou seja, a verdade. Para o autor, o 
conhecimento constitui percepção de 
conveniência ou discordância entre as 
idéias e expressa-se através dos juízos. 
Trata-se, portanto, da percepção de vin- 
culos, que podem ser de três tipos: iden- 


tidade (ou diferença), quando se diz que 
A é Bou A não é B; relação, como a 
expressa na frase “João é filho de 
Paulo”, ou qualquer outra referente a 
semelhança e dessemelhança, maior e 
menor, etc; e de coexistência. 

Além desses três tipos de vínculos 
entre as idéias, existiria uma quarta 
classe de conveniência, referente não às 
relações possíveis entre as próprias 
idéias, mas à correspondência que uma 
idéia possa ter com a realidade exterior 
ao espirito humano. Nos termos do pró- 
prio Locke, a quarta classe de conve- 
niência é “a de uma existência real e 
atual que convém a algo cuja idéia 
temos em mente”. A percepção da exis- 
tência — diz Locke — é irredutível à per- 


357 


OS PENSADORES 


cepção de uma relação entre duas idéias, 
em virtude de a existência não ser uma 
idéia como a de doce ou amargo, quente 
ou frio. Existem várias espécies de certe- 
za com relação à existência das coisas. 
Uma primeira espécie é a certeza intuiti- 
va, proveniente da reflexão, que o 
homem tem de sua própria existência. 
Uma segunda espécie seria a certeza 
demonstrativa da existência de Deus. 
Finalmente, uma terceira espécie é a 
“certeza por sensação”, referente aos 
corpos exteriores ao homem. 

A dualidade dos juízos, separando de 
um lado as relações que se podem esta- 
belecer entre as próprias idéias e, de 
outro, aquelas que se referem à exis- 
tência real dos correspondentes às 
idéias, coloca-se também quanto ao pro- 
blema da verdade e de sua contraparte, a 
falsidade. Segundo Locke, há duas cate- 
gorias de juízos falsos. Na primeira 
categoria, a relação expressa pela lin- 
guagem não corresponde à relação per- 
cebida intuitivamente entre as idéias. Na 
segunda, o erro não consiste em perceber 
mal uma relação, mas em percebê-la 
entre idéias não correspondentes a qual- 
quer realidade. No primeiro caso é pos- 
stvel, evitando o erro, formular-se um 
Juízo verdadeiro que, no entanto, nada 
diz respeito à realidade; é o que ocorre 
quando, por exemplo, se diz que cavalo 
alado não é centauro. Somente no segun- 
do caso se pode ter conhecimento real. 
Este, contudo, supõe os dois elementos 
da verdade: a conveniência das idéias 
entre si e das idéias em relação à 
realidade. 

Da distinção entre dois tipos de verda- 
de deduzem-se dois tipos £ disciplinas 
científicas. O primeiro tipo — pensa 
Locke — é constituído pelas matemáticas 
e pelas ciências morais; nelas todo o 
conhecimento é absolutamente certo 
porque seu conteúdo são idéias produzi- 
das pela própria mente humana. Locke 
afirma, por exemplo, que é perfeita- 
mente demonstrável que o homicídio 
deva ser castigado; a certeza dessa 
demonstração seria tão segura quanto a 
de um teorema matemático. O segundo 
tipo é o das ciências experimentais, que 
formariam uma área de conhecimento na 
qual a certeza das ciências ideais (mate- 
máticas e morais) não está presente. A 


358 


certeza, no domínio das ciências experi- 
mentais, dependeria do critério de verifi- 
cação da conveniência entre as idéias 
que estão na mente humana e a realidade 
exterior a ela. 


O poder é de todos 


A teoria do conhecimento exposta no 
Ensaio sobre o Entendimento Humano 
constitui uma longa, pormenorizada e 
hábil demonstração de uma tese: a de 

ue o conhecimento é fundamentalmente 

erivado da experiência sensível. Fora 
de seus limites, a mente humana produ- 
ziria, por si mesma, idéias cuja validez 
residiria apenas em sua compatibilidade 
interna, sem que se possa considerá-las 
como expressão de uma realidade exte- 
rior à própria mente. 

As teses sociais e políticas de Locke 
caminham em sentido paralelo. Assim 
como não existem idéias inatas no espi- 
rito humano, também não existe poder 
que possa ser considerado inato e de ori- 
gem divina, como queriam os teóricos do 
absolutismo. Antes, Robert Filmer 
(1588-1653), autor de O Patriarca, e um 
dos defensores do absolutismo, procu- 
rara demonstrar que o povo não é livre 
para escolher sua forma de governo e 
que os monarcas possuem um poder 
inato. Contra O Patriarca, Locke dirigiu 
seu Primeiro Tratado sobre o Governo 
Civil; depois desenvolveu suas idéias no 
Segundo Tratado. Neles, Locke sustenta 
que o estado de sociedade e, consequen- 
temente, o poder político nascem de um 
pacto entre os homens. Antes desse acor- 
do, os homens viveriam em estado 
natural. 

A tese do estado natural e do pacto so- 
cial também fora defendida por Thomas 
Hobbes (1588-1679), mas o autor de O 
Leviatã tinha objetivos inteiramente 
opostos aos de Locke, pois pretendia 
justificar o absolutismo. A diferença 
entre os dois resultava basicamente do 
que entendiam por estado natural, acar- 
retando diferentes concepções sobre a 
natureza do pacto social e a estrutura do 
governo político. 

Para Locke, no estado natural “nasce- 
mos livres na mesma medida em que 
nascemos racionais”. Os homens, por 
conseguinte, seriam iguais, indepen- 


LOCKE 


Culminando com a entrega da coroa gia a Maria, esposa de Guilherme de 


Orange, a Revolução Gloriosa marcou a anne predominância da burguesia nos 
destinos da nação. O regime liberal resultante inspirou a Revolução 
Francesa e outros acontecimentos que mudaram a face do mundo ocidental. 
(Retrato de Guilherme de Orange, Galeria Nacional de Retratos, Londres.) 


359 


OS PENSADORES 


ES co AI 
PHILOSOPHIQUE 


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HUMARIN, 


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CONNUISA CA ES CERTAINES, ET Eid MaNFERE 
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PA RM. LOCRSE. 


CRADLIE DE LANGLOES PAR M CASE. 


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eco trrados 


ar der atm nte 


UE: 


Credo Nat Dur Lie d 


A AMSTERDAM ETA LEIPZIC. 


Chez ]. SCHREUDER & PIERRE MORTIER Je Jeune, 
MD CC LN. 


As obras de John Locke exerceram grande influência no pensamento 
ocidental do século XVIII. Sobretudo na França, suas idéias serviram 
para fundamentar a maior parte das teorias dos filósofos iluministas. 

(Locke, em gravura de Vanderbank; Biblioteca Nac. de Paris. Frontispício da 
tradução francesa do Ensaio, publicada em 1755; Biblioteca Braidense, Milão.) 


dentes e governados pela razão. O esta- 
do natural seria a condição na qual o 
poder executivo da lei da natureza per- 
manece exclusivamente nas mãos dos 
ndividuos, sem se tornar comunal. 
Todos os homens participariam dessa 
sociedade singular que é a humanidade, 
ligando-se pelo liame comum da razão. 
No estado natural todos os homens te- 
riam o destino de preservar a paz e a 
humanidade e evitar ferir os direitos dos 
outros. 

Entre os direitos que Locke considera 
naturais, está o de propriedade, ao qual 
os Dois Tratados sobre o Governo Civil 
concedem especial destaque. O direito à 


360 


propriedade seria natural e anterior à 
sociedade civil, mas não inato. Sua ori- 
gem residiria na relação concreta entre o 
homem e as coisas, através do processo 
de trabalho. Se, graças a este, o homem 
transforma as coisas — pensa Locke —, o 
homem adquire o direito de proprie- 
dade: “Todo homem possui uma pro- 
priedade em sua própria pessoa, de tal 
forma que a fadiga de seu corpo e o tra- 
balho de suas mãos são seus”. Assim, 
em lugar de opor o trabalho à proprie- 
dade, Locke sustenta a tese de que o tra- 
balho é a origem e o fundamento da 
propriedade. As coisas sem trabalho te- 
riam pouco valor, e seria mediante o tra- 


Depois da queda da ditadura puritana de Oliver Cromwell, a dinastia dos 
Stuart foi restaurada com a ascensão de Carlos Il ao trono da Grã-Bretanha. 
O espírito da corte nos tempos da restauração ficou documentado para a 
posteridade nos quadros do or Peter Le Yo» de origem holandesa. 


(Peter Lely: “Duas Senhoras 


balho que elas deixariam o estado em 
ue se encontram na natureza, tornan- 
o-se propriedades. 

Vivendo em perfeita liberdade e igual- 
dade no estado natural, o homem, contu- 
do, estaria exposto a certos inconve- 
nientes. O principal seria a possível 
inclinação no sentido de beneficiar-se a 
si próprio ou a seus amigos. Como 
consegiiência, o gozo da propriedade e a 
conservação da liberdade e da igualdade 
ficariam seriamente ameaçados. 

Justamente para evitar a concreti- 
zação dessas ameaças, o homem teria 
abandonado o estado natural e criado a 
sociedade política, atravês de um con- 


Família Lake”; Tate Gallery, Londres.) 


trato não entre governantes e governa- 
dos, mas entre homens igualmente li- 
vres. O pacto social não criaria nenhum 
direito novo, que viesse a ser acrescen- 
tado aos direitos naturais. O pacto seria 
apenas um acordo entre indivíduos, reu- 
nidos para empregar sua força coletiva 
na execução das leis naturais, renun- 
ciando a executá-las pelas mãos de cada 
um. Seu objetivo seria a preservação da 
vida, da liberdade e da propriedade, 
bem como reprimir as violações desses 
direitos naturais. Assim, em oposição às 
idéias de Hobbes, Loc acredita que, 
através do pacto social, os homens não 
renunciam aos seus próprios direitos 


361 


OS PENSADORES 


Arguto, modesto, piedoso, prudente e, 
sobretudo, prático. Assim se poderia 
resumir o perfil psicológico de John 
Locke, com base nas fontes deixadas 

pelos que conviveram com ele. 


362 


naturais, favor do poder dos governantes. 

Na sociedade política formada pelo 
contrato, as leis aprovadas por mútuo 
consentimento de seus membros e apli- 
cadas por juízes imparciais manteriam a 
harmonia geral entre os homens. Omútuo 
consentimento colocaria os indivíduos, 
que se incorporam através do pacto, “em 
condições de instalar a forma de governo 
que julguem conveniente” - Consegiente- 
mente, o poder dos governantes seria 
ourtorgado pelos participantes do pacto 
social e, portanto, revogável. Hobbes 
achava que a rebelião dos cidadãos con- 
tra as autoridades constituídas só se jus- 
tifica quando os governantes renunciam 
a usar plenamente o poder absoluto do 
Estado. Contra essa tese, Locke justifica 
o direito de resistência e insurreição, 
não pelo desuso, mas pelo abuso do 
poder por parte das autoridades. Quan- 
do um governante se torna tirano, colo- 
ca-se em estado de guerra contra o povo. 
Este, se não encontrar qualquer repara- 
ção, pode revoltar-se, e esse direito é 
uma extensão do direito natural que 
cada um teria de punir seu agressor. 
Para o homem, a razão de sua participa- 
ção no contrato social é evitar o estado 
de guerra, e esse contrato é quebrado 
quando o governante se coloca contra o 
povo. Mediante o pacto social, o direito 
legislativo e executivo dos individuos 
em estado de natureza é transferido para 
a sociedade. Esta, devido ao próprio 
caráter do contrato social, limita o 
poder político. O soberano seria, assim, 
o agente e executor da soberania do 
povo. Este é que estabelece os poderes 
legislativo, executivo e judiciário. Locke 
distingue o processo de contrato social — 
criador da comunidade — do subse- 
quente processo pelo qual a comunidade 
confia poder político a um governo. 
Esses processos podem ocorrer ao 
mesmo tempo, mas são claramente dis- 
tintos; embora contratualmente relacio- 
nados entre si, os integrantes do povo 
não estão contratualmente submetidos 
ao governo. É o povo que decide quando 
ocorre uma quebra de confiança, pois só 
o homem que confia poder é capaz de 
dizer uai se abusa do poder. 

Com suas idéias políticas, Locke exer- 
ceu a mais profunda influência sobre o 
pensamento ocidental. Suas teses encon- 


LOCKE 


Depois da consolidação da monarquia parlamentar inglesa sob o reinado de 
Guilherme de Orange e sua esposa Maria, a nação foi governada pela rainha 
Anne (1665-1714). Os últimos anos da vida de John Locke transcorreram sob o 
seu reinado. (Tela de sir Godfrey Kneller. representando a rainha Anne e seu 
filho, duque de Gloucester; Galeria Nacional de Retratos, Londres.) 


363 


OS PENSADORES 


tram-se na base das democracias libe- 
rais. Seus Dois Tratados sobre o Gover- 
no Civil justificaram a revolução 
burguesa na Inglaterra. No século 
XVIII, os iluministas franceses foram 
buscar em suas obras as principais 


Francesa. Montesquieu (1689-1755) 
inspirou-se em Locke para formular a 
teoria da separação dos três poderes. A 
mesma influência encontra-se nos pensa- 
dores americanos que colaboraram para 
a declaração da Independência America- 


idéias responsáveis pela Revolução 


1632 — Nasce John Locke, 
em Wrington, no dia 29 de 
agosto. 

1642 - 1646 — Guerra civil 
na Inglaterra: puritanos e 
presbiterianos escoceses 
aliam-se contra o rei Carlos 
I; Oliver Cromwell coman- 
da os rebeldes. 

1649 — Condenado pelo 
Parlamento, Carlos I é exe- 
cutado a 30 de janeiro. 

1651 — Hobbes publica 
sua principal obra: O Levia- 
ta. 

1653 - 1658 — Duração do 
“Protetorado de Cromwell”. 
1656 — Locke bacharela-se 
em artes. 

1658 — Morte de Oliver 
Cromwell. 


CRONOLOGIA 


1660 — Carlos II passa a 
ocupar o trono inglês. 

1662 — Morre Pascal. 

1666 — Dá-se, em Oxford, 
o primeiro encontro entre o 
futuro conde de Shaftesbury 
e Locke. 

1672 — Carlos II concede a 
tolerância religiosa. 

1675 — Locke torna-se se- 
cretário do Conselho de 
Plantações e Comércio. 
1681 — Carlos II dissolve o 
Parlamento. 

1683 — Morre o conde de 
Shaftesbury. Locke refugia- 
se na Holanda. 

1685 — Nasce Bach. Jaime 
II ascende ao trono inglês. 
1686 — Isaac Newton co- 
munica à Royal Society de 


BIBLIOGRAFIA 


CRANSTON, M. W.: John Locke, a Biography, Londres, 1957. 
MACPHERSON, C. B.: The Political Theory of Possessive Individualism, Oxford University 


Press, Oxford, 1962. 


na, em 1776. 


Londres sua hipótese sobre 
a gravitação universal. Leib- 
niz escreve o Discurso de 
Metafísica e o Systema 
Theologicum. 

1688 — Revolução contra 
Jaime II; sobe ao trono Gui- 
lherme de Orange. 

1689 — Locke retorna à 
Inglaterra. 

1689 - 1690 — São publica- 
dos os Dois Tratados sobre 
o Governo Civil, de Locke. 
1690 — Locke edita o En- 
saio sobre o Entendimento 
Humano. 

1702 — Com a morte de 
Guilherme de Orange, sobe 
ao trono sua filha Anne. 
1704 — Locke morre a 28 
de outubro. 


SABINE, G. H.: 4 History of Political Theory, George G. Harrap & Co. Ltd., Londres, 1968. 
AARON, R. I.: John Locke, Oxford at the Clarendon Press, Oxford, 1971. 


Lrroy, A.-L.: Locke: sa Vie, son Oeuvre — avec un Exposé de sa Philosophie, Presses 
Universitaires de France, Paris, 1964. 

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1964. 


364 


e COPYRIGHT MUNDIAL, 1973 — ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL — SÃO PAULO — BRASIL. 


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OS PENSADORES 


um filósofo. Não formulou uma 

teoria do ser, nem uma ética, nem 
uma completa teoria do conhecimento. 
Não é possível, porém, compreender a 
maior parte da reflexão filosófica do sé- 
culo XVIII e seus desenvolvimentos 
posteriores, sem se conhecerem sua fisi- 
ca e sua mecânica celeste. Sua principal 
obra, Princípios Matemáticos da Filoso- 
fia Natural, constitui — no dizer de 
Wilhelm Windelband — “um fundamento 
duradouro das ciências naturais, válido 
para o futuro, com toda perfeição posst- 
vel de uma ciência particular”. Os Prin- 
cípios sintetizam, intima e completa- 
mente, as duas grandes correntes 
metodológicas da ciência moderna — a 
matematização e a experiência —, unin- 
do e superando o empirismo de Francis 
Bacon (1561-1626) e o racionalismo de 
Descartes (1596-1650). 

Galileu (1564-1642) e Kepler 
(1571-1670) — segundo Ernst Cassirer 
— já tinham concebido a idéia de lei 
natural em toda a sua amplitude e 
profundidade, e em sua significação 
metodológica, mas só a aplicaram corre- 
tamente em alguns poucos fenômenos 
particulares, como o movimento dos cor- 
pos em queda livre ou as órbitas dos pla- 
netas. Faltava mostrar que a legalidade 
rigorosa, encontrada nesses casos parti- 
culares, poderia ser estendida para todo 
o universo. À obra de Newton cumpriu 
essa tarefa e o século XVIII com- 
preendeu e admirou o sentido profundo 
de seu trabalho, vendo nele a comprova- 
ção do caminho a ser seguido pelas ciên- 
cias da natureza. Os pensadores do sécu- 
lo XVII veneraram suas qualidades de 
grande investigador experimental e a 
aliança definitiva que estabeleceu entre 
a experimentação e a matematização. 
Kant (1724-1804), o divisor de águas 
entre o pensamento moderno e o contem- 
porâneo, ao propor-se a analisar a estru- 
tura e os limites do conhecimento, 
tomou a fisica e a mecânica celeste ela- 
boradas por Newton, como sendo a pró- 
pria ciência. 


I saac Newton não foi propriamente 


Na página anterior: retrato de 
Isaac Newton, óleo de G. Kneller; 
Galeria Nac. de Retratos, Londres. 


366 


Matemático, físico e teólogo 


Newton nasceu em Woolsthorpe, Lin- 
colnshire, Inglaterra, no Natal do ano 
em que faleceu Galileu: 1642. Aos 18 
anos de idade, ingressou na Universi- 
dade de Cambridge, onde trabalhou 
durante toda a vida. Em 1665 era 
bacharel, em 1668 doutorou-se, e um 
ano depois tornava-se catedrático, com 
apenas 26 anos de idade. 

Suas principais contribuições ara a 
história da ciência foram iniciadas em 
1666, quando a grande peste que asso- 
lou a Grã-Bretanha obrigou a Universi- 
dade de Cambridge a fechar as portas e 
fez Newton refugiar-se em sua casa, na 
zona rural de Woolsthorpe. Nesse perio- 
do, Newton desenvolveu o teorema do 
binômio, que ficaria conhecido pelo seu 
nome, e O metódo matemático das flu- 
xões, que originaria o cálculo diferen- 
cial e integrado, considerado a mais 
importante inovação da história da 
matemática, desde os gregos antigos. O 
método das fluxões considera cada gran- 
deza finita como engendrada por um 
movimento ou fluxo contínuo, tornando 
possivel calcular áreas limitadas, total 
ou parcialmente, por curvas, bem como 
os volumes das figuras sólidas. A essas 
duas contribuições seguiram-se duas 
outras, concebidas também, nos aspec- 
tos essenciais, no retiro forçado em 
Woolsthorpe: uma teoria sobre a natu- 
reza da luz e as primeiras idéias sobre a 
atração gravitacional. A primeira mos- 
tra que a luz branca é constituída pela 
união das chamadas sete cores funda- 
mentais do espectro. A segunda explica 

ue a Lua mantém-se em órbita graças à 
Na gravitacional. 

Essas descobertas, contudo, tiveram 
que esperar aproximadamente vinte 
anos para serem desenvolvidas e conca- 
tenadas num todo sistemático, que velo 
à luz em 1687, sob o título de Princípios 
Matemáticos da Filosofia Natural. 

Dois anos após a publicação dos Prin- 
cípios, Newton foi eleito membro do Par- 
lamento como representante da RA 
sidade de Cambridge, car que 
deixaria, em 1690, com a disso as do 
Parlamento. Em 1701 seria novamente 
eleito, mas sua atuação nos negócios 
políticos não teve qualquer relevo. Ocu- 


NEWTON 


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EEUdIS 


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No Trinity College da Universidade de Cambridge, Isaac Newton estudou e 
tornou-se catedrático aos 26 anos de idade, sucedendo a Isaac Barrow. Este 
foi escolhido para ocupar o cargo de reitor e, durante seu mandato, encarregou 
o cientista e arquiteto Sir Christopher Wren (1532-1723) de projetar e 
construir uma nova biblioteca para o Trinity College (foto acima). 


pações mais importantes foram a dire- 
ção da Casa da Moeda, em 1695, e a 
presidência da Royal Society, desde 
1703 até 1727, data de sua morte. A 
Royal Society papo and Di extre- 
mamente significativo na vida cientifica 
inglesa, congregando todos os elementos 
de relevo nas ciências da época. 

Em 1704, Newton publicou sua Ópti- 
ca, na qual se encontram suas desco- 
bertas experimentais nesse campo e uma 
teoria sobre a natureza da luz. A luz, 
para Newton, seria constituída por cor- 
púsculos emanados pelos corpos lumino- 
sos. Nessa mesma época ocorreram as 
controvérsias sobre a criação do cálculo 
infinitesimal, opondo Newton e Leibniz 
(1646-1716). Muito posteriormente 
ficou comprovado — apesar de Newton 
acusar Leibniz de plagiário — que 


ambos chegaram às mesmas descobertas 
independentemente. 

Nos últimos vinte anos de sua vida, 
Newton não fez mais qualquer contribui- 
ção significativa para a história das 
ciências. Dedicou-se a assuntos teológi- 
cos, chegando mesmo a considerá-los, 
na opinião de muitos historiadores, mais 
importantes do que a física e a matemá- 
tica. Entre os escritos dessa época desta- 
cam-se as Observações sobre as des 
cias de Daniel e do Apocalipse de São 
João, publicadas em 1733. 


As bases da física 


A despeito da importância dada por 
Newton aos assuntos de ordem religiosa, 
seu significado dentro da história do 
pensamento situa-se no terreno da mais 


367 


FABBRI 


FABBRI 


OS PENSADORES 


ESEC ME SR REA 


PHILOSOPHLE 


NATURALIS 


PRINCIPIA 
MATHEMATICA 


Autore 7 S NEWTON, Trin. Coll. Camab. Soc. Mathelcos 
Profeílore Lncafiamo, & Societatis Regalis Sodali 


IMPRIMATUR:. 
SE POMoS: Reg. Se. PRESES. 
Pai 4. 1686. 


e ga LONDINIT, 
Jusiu Socictatis Regieac Typis Jojephi Strester. Proftart Vena- 
lecapod Sam. Smibad inti mia Principais Hill im Cormêtetio 


1 . ' 
| DD. Pants, aliofq; nonnuilos Bibliopolas. 4no MDCLNNNA EL. 


Frontispício da primeira edição 
(Londres, 1687) da principal obra de 
Newton. Nela se encontram as bases 

metodológicas e os elementos 
fundamentais da física moderna. 


rigorosa matemática e da ciência da 
natureza. Suas mais importantes contri- 
buições nesses terrenos foram a criação 
do cálculo infinitesimal, o desenvolvi- 
mento e sistematização da mecânica, a 
teoria da gravitação universal e o desen- 
volvimento das leis de reflexão e refra- 
ção luminosas, além da teoria sobre a 
natureza corpuscular da luz. 

Os Princípios Matemáticos da Filoso- 
fia Natural constituem a primeira gran- 
de exposição e a mais completa sistema- 
tização da fisica moderna, sintetizando 
num todo único a mecânica de Galileu e 
a astronomia de Kepler, e fornecendo os 
PRaLGRIOs e a metodologia da pesquisa 
científica da natureza. 

O núcleo central dos Princípios são as 
três leis fundamentais da mecânica. A 
primeira afirma que “todo corpo perma- 
nece em seu estado de rena. ou de 


movimento uniforme em linha reta, a 


368 


menos que seja obrigado a mudar seu es- 
tado por forças impressas nele”. A 
segunda lei estabelece que “a mudança 
do movimento é proporcional à força 
motriz impressa e se faz segundo a linha 
reta pela qual se imprime essa força”. 
Finalmente, a terceira lei diz que “a uma 
ação sempre se opõe uma reação igual, 
ou seja, as ações de dois corpos um 
sobre o outro são sempre iguais e se diri- 
gem a partes contrárias”. 

Na base dessas leis (e de outras 
proposições gerais do primeiro e segun- 
do livros dos Princípios), Newton pro- 
pôs-se demonstrar todos os demais Enô- 
menos. No terceiro livro dos Princípios 
encontra-se um exemplo disso, quando o 
autor expõe seu sistema do mundo, 
centralizado na lei da gravitação univer- 
sal: a matéria atrai a matéria na razão 
direta das massas e no universo do qua- 
drado das distâncias. No terceiro livro 
dos Princípios, Newton afirma que 
“pelas proposições matematicamente 
demonstradas nos livros anteriores, de- 
rivam-se dos fenômenos celestes as for- 
ças de gravidade pelas quais os corpos 
tendem para o Sol e para os vários 
planetas”. 

Newton não fica somente no exemplo e 
vai muito além, expressando sua fé 
numa concepção mecânica de toda a 
natureza: “Oxalá pudêssemos também 
derivar dos princípios mecânicos os ou- 
tros fenômenos da natureza, por meio do 
mesmo gênero de argumentos, porque 
muitas razões me levam a suspeitar que 
todos esses fenômenos podem depender 
de certas forças pelas quais as parti- 
culas dos corpos, por causas ainda 
desconhecidas, ou se impelem mutua- 
mente, juntando-se segundo figuras re- 
gulares, ou são repelidas e retrocedem 
umas em relação às outras. Ignorando 
essas forças, os filósofos tentaram em 
vão até agora a pesquisa da natureza. 
Espero, no entanto, que os princípios 
aqui estabelecidos tragam alguma luz 
sobre esse ponto ou sobre algum método 
melhor de filosofar”. 

Além de formular uma concepção de 
ciência inteiramente mecanicista, que 
permaneceria incontestável por muito 
tempo, os textos iniciais dos Princípios 
contêm a essência da metodologia new- 
toniana, nos seus aspectos matemáticos. 


NEWTON 


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Numa feira de Woolsthorpe, sua cidade natal, Newton comprou um pequeno 
prisma de vidro, com o qual descobriu o fenômeno da decomposição da luz 
branca nas sete cores do espectro luminoso. Além dessa descoberta, Newton fez 
númeras outras, que se encontram em sua Óptica. À gravura acima, a partir de 
uma tela de Adam Houston, mostra Newton descobrindo o espectro luminoso. 


369 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Descobridor do cometa que leva seu 
nome, Halley incentivou Newton 
a desenvolver as idéias que 
resultariami na publicação dos 
Princípios. (Bibl. Boldleian, Oxford.) 


370 


Os Princípios estruturam-se segundo a 
ordem das idéias em geometria, isto é, 
definições, axiomas, teoremas, etc. Por 
outro lado, Newton desenvolveu o cál- 
culo infinitesimal, como instrumento de 
medida e de descoberta dos fenômenos 
físicos. 

O segundo aspecto da metodologia 
newtoniana consiste na análise indutiva, 
definida claramente numa passagem da 
Óptica que afirma que o método cienti- 
fico consiste em “fazer experimentos e 
observações, e em derivar conclusões ge- 
rais das mesmas mediante indução, e em 
não admitir objeções contra as conclu- 
sões, exceto as que procedem de experi- 
mentos ou de certas outras verdades”. À 
análise indutiva seguir-se-ia a síntese, 

ue consistiria em “assumir as causas 

escobertas e os princípios estabele- 
cidos e, por seu intermédio, explicar os 
fenômenos que procedem deles e de- 
monstrar as explicaçõe s”, 

Papel especialmente importante para 
a história da filosofia é desempenhado 
pelas noções de espaço e tempo absolu- 
tos, tal como Newton as formulou nos 
Princípios. Essas noções não apresentam 
apenas um aspecto físico, tendo conse- 
quências de ordem metafísica. A Fopria 
origem do conceito de espaço absoluto 
em Newton poderia ser encontrada — 
como afirma J. J. C. Smart — nos traba- 
lhos de Henry More (1614-1687), poeta 
e filósofo platônico, e, através deste, nas 
doutrinas cabalísticas. 

No dizer do próprio Newton, “o espa- 
ço absoluto permanece constantemente 
igual e imóvel, em virtude de sua nature- 
za, e sem relação alguma com nenhum 
objeto exterior; o espaço relativo, ao 
contrário, é uma medida ou uma parte 
móvel do primeiro, que nossos sentidos 
assinalam graças à sua situação em 
relação a outros corpos e que, geral- 
mente, se confunde com o próprio espaço 
imóvel, por erro...” 

Segundo alguns autores, a concepção 
do espaço absoluto formulada por New-: 
ton não apresenta relevância do ponto de 
vista da sua teoria mecânica propria- 
mente dita. Não obstante, é possível 
estabelecer uma certa correlação entre a 
noção de espaço absoluto e a de sistema 
mercial. Este último representou uma 
tentativa de Newton para solucionar o 


NEWTON 


Ainda em vida, Newton foi recoberto de honras e glória, 
reverenciado em toda a Europa e apontado como exemplo de grandeza “moderna”, 
contraposta à grandeza “antiga” de Aristóteles. Seu epitáfio na Abadia de 


6 


Westminster afirma: * 


uma honra para o gênero humano que tal homem tenha 


existido”. (Gravura de Hollar: Westminster Hall: Museu Britânico, Londres.) 


seguinte problema: se a aceleração de 
um corpo estiver na dependência do sis- 
tema de referências utilizado, tem-se, 
para cada sistema, um valor de acelera- 
ção. Consequentemente, pela segunda lei 
da mecânica newtoniana, obtêm-se dife- 
rentes valores para a força que produziu 
essa aceleração. Logo, a questão se colo- 
ca em termos da existência de um siste- 
ma de referências em que sejam medidos 
os “verdadeiros” valores da aceleração. 
Para tanto, é necessário supor um siste- 
ma de referências absoluto, ou seja, um 
sistema que forneça correspondência 
real para a aceleração medida. Essa 
correspondência seria medida por uma 
força, por exemplo, a ação de uma mola 
ou a atração gravitacional. O sistema 
inercial normalmente utilizado neste úl- 
timo caso está em repouso em relação às 
estrelas fixas. Essa a razão de não se 
poder utilizar a Terra como sistema 
mercial, pois está acelerada em relação 
ao Sol. Contudo, sendo a Terra o habitat 
de qualquer observador, as medidas por 
ele mesmo realizadas evidenciarão, em 
alguns casos, erros devidos ao movi- 
mento relativo do próprio observador. 
Nesse caso, ou se desprezam os erros 
(desde que sua magnitude não seja rele- 
vante), ou se atribuem a certas “forças 
fictícias” esses erros, isto é, as acelera- 
ções oriundas da própria aceleração do 


sistema. Essas dificuldades de ordem ló- 
gica, contudo, não chegam a obscurecer 
o extraordinário valor operacional das 
leis newtonianas. 

À teoria newtoniana do tempo abso- 
luto liga-se à do espaço absoluto. Tam- 
bém nesse caso, o conceito é tomado 
sobretudo como ferramenta operacional. 
Para Newton, “o tempo absoluto, verda- 
deiro e matemático, por si mesmo e por 
sua própria natureza, flui uniforme- 
mente sem relação com nada extemo; 

or isso mesmo é chamado duração”. O 
ato de não manter “relação com nada 
externo” confere ao tempo absoluto 
caráter de imutabilidade. Em outras 
palavras, as coisas mudam, mas não 
muda o tempo. Isso implica que as 
mudanças ocorrem no tempo e este em 
nada contribui para que tal aconteça. 
Assim, o tempo absoluto não é tomado 
por Newton como uma propriedade de 
cada coisa considerada particularmente, 
mas na medida em que se relaciona com 
todas as outras coisas, na medida em 
que estas durem. 

Apesar da configuração metafísica 
que as teorias do espaço e do tempo 
absolutos possam conferir ao pensa- 
mento de Newton, deve-se sublinhar que, 
na investigação dos fenômenos físicos, o 
autor dos Princípios repele qualquer ine- 
rência de ordem metafísica ou re igiosa. 


371 


FABBRI 


1642 — A 8 de janeiro, 
morre Galileu. Em Wools- 
thorpe, a 25 de dezembro, 
nasce Isaac Newton. 

1655 — Morre o filósofo e 
matemático Pierre Gassen- 
di. 

1661 — Newton matricula- 
se no Trinity College, em 
Cambridge. 

1665 — Obtém o grau de 
Bachelor of Arts. 

1668 — Torna-se Master of 
Arts. Nasce Giambattista 
Vico. 

1669 — É autorizada à re- 
presentação de Tartufo, de 
Moliêre. Morre Rembrandt. 

1670 — Publicação do 
Tractatus Theologico-Politi- 
cus, de Espinosa. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1672 — Newton é eleito 
membro da Royal Society. 
1673 — Publicação do Ho- 
rologium Oscillatorium, do 
físico holandês Christiaan 
Huygens. 

1675 — Newton envia à 
Royal Society suas anota- 
ções sobre a reflexão e as 
cores da luz. 

1684 — Leibniz publica 
Nova Methodus pro Maxi- 
mis et Minimis. 

1685 — São apresentados à 
Royal Society os dois pri- 
meiros livros dos Philoso- 
phiae Naturalis Principia 
Mathematica, de Newton. 
1687 — Primeira edição 
dos Principia, de Newton. 
1689 — Newton ingressa 


BIBLIOGRAFIA 


no Parlamento como depu- 
tado pela Universidade de 
Cambridge. 

1701 — Funda-se, em New 
Haven, a Universidade de 
Yale. Nasce Celsius, criador 
da escala termométrica que 
leva seu nome. 

1703 — Newton é eleito 
presidente da Royal Society. 
1704 — Publica a Óptica. 
1705 — A rainha Ana da 
Inglaterra outorga-lhe o tí- 
tulo de cavaleiro. 

1707 — Escócia e Inglater- 
ra unem-se sob o nome de 
Gra-Bretanha. 

1716 — Morre Leibniz. 
1724 — Nasce Kant. 

17127 — A 20 de março, 
morre Newton. 


Lacey, H. M.: 4 Linguagem do Espaço e do Tempo, Editora Perspectiva. São Paulo, 1972. 
NAGEL, E.: The Structure of Science, Nova York, 1961. 
MorE, L. T.: Isaac Newton, Nova York, 1962. 
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CoHEN, II. B.: Franklin and Newton, Filadélfia, 1956. 
WHITESIDE, D. T.: The Expanding World of Newtonian Research in History of Science, vol. 


1 (1962), 16-29. 


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D'ABRO, A.: The Rise of the New Physics, Nova York, 1951. 
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BurTT, E. A.: The Metaphysical Foundations of Modern Science, Garden City, Nova York, 


1955: 


BuTTERFIELD, H.: The Origins of Modern Science, Nova York, 1958. 
KoyrE, A.: From the Closed World to the Infinite Universe, Nova York, 1958. 
JaMMER, M.: Concepts of Space, Cambridge, Massachusetts, 1957. 


372 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Peses "maqeues 


j: 


Para muitos historiadores, Leibniz representou na filosofia alemã o mesmo 
papel de Bach na história da música: a síntese de todas as tendências. 


Leibniz nasceu em Leipzig, em o 


a igreja de Sto. Tomás compôs Bach algumas 
Igreja de Sto. Tomás; Arquivo Bach, Leipzig.) 


(Pág. ant.: retrato de Leibniz, por A. Scheitz; Herzog August Bibliothek.) 


de suas mais importantes obras. 
a opinião de Wilhelm Dilthey 
N (1833-1911), se a missão suprema 
da filosofia consiste em elevar a 
cultura de uma época à consciência de si 
mesma, Leibniz foi, sem dúvida, quem 
mais completamente realizou tal mis- 
são. Inventor do cálculo diferencial inde- 
endente de Newton, um dos primeiros a 
undamentar o princípio de conservação 
da energia, o primeiro a reconhecer no 
Jogo das representações do subcons- 
ciente o princípio da explicação psicoló- 
ica, um dos pioneiros nos dominios da 
investigação histórica e filológica, Leib- 
niz teria sido o “espírito mais universal 
que os povos modernos produziram 
antes de Goethe”. Ainda segundo Dil- 
they, a atribulada vida política de Leib- 
niz e suas tentativas de conciliação entre 
os diferentes credos religiosos da época 
subordinavam-se ao seu grande objetivo 
de uma cultura humana que abrangesse 
todas as nações. 

Bertrand Russell (1872-1970) pinta 
de Leibniz, um retrato diferente. Para 
Russell, Leibniz foi um dos maiores 
intelectos de todos os tempos, “mas 
como criatura humana não foi admirá- 
vel”. Era diligente, econômico, come- 
dido e honrado, mas “inteiramente desti- 
tuído das virtudes filosóficas superiores, 
tão notáveis em seu contemporâneo 
Espinosa (1632-1677). Enquanto Espi- 
nosa jamais fez qualquer concessão no 
terreno das idéias e por isso foi exco- 


374 


mungado da comunidade judaica de 
Amsterdam e condenado a viver humil- 
demente, Leibniz teria deixado de publi- 
car os melhores trabalhos que escreveu, 
porque não eram apropriados para con- 
seguir popularidade; só trouxe à luz 
algumas obras destinadas a conquistar 
aprovação de príncipes e princesas”. 


Um homem de muitas faces 


Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em 
Leipzig, a 1.º de julho de 1646, filho de 
um professor de filosofia moral. Desde 
muito cedo, teve contato, na biblioteca 
paterna, com filósofos e escritores anti- 
gos, como Platão (428-347 a.C.), Aris- 
tóteles (384-322 a.C.) e Virgílio (c. 
70-19 a.C.), e com a filosofia e a teolo- 
gia escolásticas. Aos quinze anos come- 
çou a ler Bacon (1561-1626), Hobbes 
(1588-1679), Galileu (1564-1642) e 
Descartes (1596-1650), passando a de- 
dicar-se às matemáticas. Ainda aluno da 
Universidade de Leipzig, escreveu, em 
1663, um trabalho sobre o princípio de 
individuação; depois foi para Iena, a fim 
de seguir os cursos do matemático 
Ehrard Wigel. Desde essa época, Leib- 
niz se preocupou em vincular a filosofia 
às matemáticas, escrevendo uma Disser- 
tação sobre a Arte Combinatória. Nesse 
trabalho, procurou encontrar para a filo- 
sofia leis tão certas quanto as matemá- 
ticas e esboçou as premissas do cálculo 


LEIBNIZ 


Em Nuremberg, Leibniz ingressou na 
sociedade secreta Rosa-Cruz, 
dedicada às ciências ocultas 

e dalquimia. (Fachada de Fembohaus, 

Nuremberg, começo do século XVII.) 


diferencial, que inventaria ao mesmo 
tempo que Newton. Por outro lado, no 
estudo da lógica aristotélica, Leibniz 
encontrou os elementos que o levaram à 
idéia de uma análise combinatória filo- 
sófica, vislumbrando a possibilidade de 
criar um alfabeto dos pensamentos 
humanos, com o qual tudo poderia ser 
descoberto. 

Nos anos seguintes, doutorou-se em 
direito na Universidade de Altdorf e, em 
Nuremberg, filiou-se à Sociedade Rosa- 
Cruz. O ingresso nessa Sociedade valeu- 
lhe uma pensão e, ao que tudo indica, 
permitiu que ele se iniciasse na vida 
política. 

A partir de então, a vida de Leibniz, 
segundo o historiador Wilhelm Windel- 
band, apresenta muitas semelhanças 
com a de Bacon: Leibniz sabia mover-se 
agilmente em meio às intrigas da corte a 
fim de realizar seus grandes planos, 
sendo dotado também daquela “ardente 
ambição que levara Bacon à ruína”. 

Em 1667, Leibniz dedicou ao prínci- 
pe-eleitor de Mogúncia um trabalho no 

ual mostrava a necessidade de uma 
ilosofia e uma aritmética do direito e 
uma tabela de correspondência jurídica. 
Por causa desse trabalho, foi convidado 
ara fazer a revisão do “corpus juris 
atini”. 

Em 1670, foi nomeado conselheiro da 
Alta Corte de Justiça de Mogúncia. Com 
esse título, Leibniz foi encarregado de 
uma missão em Paris, em 1672. Preten- 
dia convencer o rei Luís XIV a conquis-- 
tar o Egito, aniquilando, assim, a Tur- 
quia e protegendo a Europa das invasões 
“bárbaras”. Esperava, desse modo, des- 
viar as atenções do rei e evitar que ele 
utilizasse sua potência militar contra a 
Alemanha. Seu projeto foi rejeitado, mas 
os três anos de estada em Paris não lhe 
foram inúteis. Entrou em contato com al- 

uns dos mais conhecidos intelectuais 
a época: Arnauld (1612-1694), Huy- 
gens (1629-1695). Em 1676, Leibniz 
descobriu o cálculo diferencial, situan- 
do-se entre os maiores matemáticos da 
época. 

Fora, no entanto, precedido por New- 
ton, que, desde 1665, já inventara, em- 
bora sob ponto de vista diferente, um 
novo método de cálculo, o método das 
fluxões. Em Newton, as variações das 


375 


OS PENSADORES 


funções são comparadas ao movimento 
dos corpos, sendo, portanto, a idéia de 
velocidade que fundamentava seu cálcu- 
lo. Leibniz, ao contrário, parte de uma 
colocação metafísica, introduzindo a 
noção de quantidades infinitamente pe- 
quenas, o que o leva a empregar o 
algoritmo. 

Em 1676, Leibniz encontra-se em 
Amsterdam com Espinosa, com quem 
discute problemas metafísicos. No 
mesmo ano torna-se bibliotecário-chefe 
em Hanôver. cidade na qual passaria os 
restantes quarenta anos de sua vida. 
Saiu de Hanôver apenas para percorrer, 
durante três anos, a Alemanha e a Itália, 
realizando pesquisas em bibliotecas e 
arquivos destinadas a fundamentar suas 
missões diplomáticas. 

Em 1711, viajou para a Rússia a fim 
de propor ao czar Pedro, o Grande, um 
plano de organização civil e moral para 
o país. Em seguida, esteve em Viena, 
onde conheceu o príncipe Eugênio de 
Savóia, ao qual dedicaria a Monadolo- 
gia. Nessa época. realizou seus princi- 
pais trabalhos filosóficos. 

De volta a Hanôver. Leibniz encon- 
trou diminuído seu prestígio, com a 
morte de sua protetora, a princesa Sofia, 
apesar de ter sido um dos maiores 
responsáveis para que Hanôver se trans- 
formasse em eleitorado e para que fosse 
criada a Academia de Ciências de Ber- 
lim. Relativamente esquecido e isolado 
dos assuntos públicos, Leibniz veio a 
falecer a 14 de novembro de 1716. 


As raizes do saber 


esar de sua intensa e agitada vida 
Ra RD Leibniz deixou uma obra exten- 
sa, em que trata de quase todos os 
assuntos políticos, científicos e filosó- 
ficos de seu tempo. Dentre seus escritos 
destacam-se: Sobre a Arte Combina- 
tória, Monadologia, Discurso de Metafi- 
sica, Novos Ensaios sobre o Entendi- 
mento Humano, Sobre a Origem Radical 
das Coisas, O que é Idéia, Cá ílculo Dife- 
rencial e Integral, Característica Univer- 
sal, Correspondência com Arnauld, Cor- 
respondéncia com Clarke, Sobre o 
Verdadeiro Método em Filosofia e Teo- 
logia, Sobre as Noções de Direito e de 
Justiça, Ensaio de Teodicéia, Considera- 


376 


ções sobre o Princípio da Vida, Sobre a 
Sabedoria, Sobre a Liberdade e Corres- 
pondência com o Padre Bosses. 

Parte considerável da obra de Leibniz 
é constituida por escritos de circuns- 
tância, com os quais — segundo muitos 
historiadores — tentava apenas obter 
favores dos governantes, fazendo todas 
as conciliações possíveis. Dilthey. ao 
contrário. considera que Leibniz perse- 
guia um sincero ideal de síntese de todos 
os conhecimentos e das diferentes confis- 
sões religiosas de seu tempo. Outra 
parte (a volumosissima correspondência 
e os trabalhos publicados somente após 
sua morte) revela — segundo RS 
outros — um pensador bastante diferente 
do Leibniz público. Acrescentando-se a 
essa dupla face de seus escritos o fato de 

ue muitos deles sequer foram conclui- 
E torna-se bastante dificil uma inter- 
pretação da filosofia leibniziana que não 
dê margem a dúvidas e não suscite 
polêmica. 

De qualquer modo — e embora Leibniz 
tenha criado um amplo sistema de idéias 
dotado de “múltiplas entradas” —. po- 
dem-se tomar para ponto de partida da 
compreensão de sua filosofia dois temas 

rovenientes de fontes distintas: um da 
Filosofia de Descartes, outro de Aristó- 
teles e da escolástica medieval. 

Descartes forneceu-lhe o ideal de uma 
explicação matemática do mundo: a 

artir dessa idéia, Leibniz pretendia 
ançar as bases de uma combinatória 
universal, espécie de cálculo filosófico 

ue lhe permitiria encontrar o verda- 
deo conhecimento e desvendar a natu- 
reza das coisas. De Aristóteles e da 
escolástica, Leibniz conservou a concep- 
ção segundo a qual o universo está orga- 
nizado de maneira teleológica, ou seja. 
tudo aquilo que acontece, acontece para 
cumprir determinados fins. 

As duas doutrinas foram sintetizadas 
pela filosofia de Leibniz, aparecendo 
unificadas na concepção de Deus. Para 
Leibniz, a vontade Jo Criador (na qual 
se fundamenta o finalismo) submete-se 
ao Seu entendimento (racionalismo): 
Deus não pode romper Sua própria lógi- 
ca e agir sem razões. pois estas consti- 
tuem Sua natureza imutável. Conse- 
quentemente, o mundo criado por Deus 
estaria impregnado de racionalidade, 


LEIBNIZ 


FABBRI 


Mu itos filósofos do século XVIII, sobretudo os iluministas franceses, não 


pou m criticas a Leibniz, em quem viam o renascimento de concepções 

medievais. ai Sa mais espirituoso inimigo do otimismo leibniziano, 
caricaturando Leibniz na figura do dr. Pangloss, em sua novela Cândido. 

(Casa de Leibniz em Hanóver; Niedersachsische Landesbibliothek, Hanóver.) 


377 


FABBRI 


OS PENSADORES 


A um dos maiores “condottierv” de sua 
época, o príncipe Eugênio de Savóia 
Ma o filósofo Leibniz dedicou a 

Monadologia, uma de suas obras mais 

conhecidas. (Galeria Sabauda, Turim.) 


cumprindo objetivos pela 
mente divina. 

Essa sintese entre o racionalismo car- 
tesiano e o finalismo aristotélico apre- 
senta como núcleo uma série de princi- 
pios de conhecimento, dos quais se 
poderiam deduzir uma concepção do 
mundo e uma ética, dotada inclusive de 
implicações políticas. 

O primeiro desses princípios é o de 
razão. O princípio de razão consiste em 
submeter toda e que quer explicação ou 
demonstração a duas exigências. A pri- 
meira funda-se no caráter não-contradi- 
tório daquilo que é explicado ou de- 
monstrado; é a razão necessária ou 
princípio de não-contradição. A segunda 
exigência consiste em que, além de 
Senlicádo ou demonstrado não ser con- 
traditório (e sendo, portanto, possível 
sua existência), a coisa em questão tam- 
bém existe realmente; é a razão sufi- 
ciente. O princípio de razão afirma, por- 
tanto, que uma coisa só pode existir 
necessariamente se, além de não ser 
contraditória, houver uma causa que a 
faça existir. 


propostos 


378 


Para Leibniz, além da causa eficiente 
que produz as coisas segundo o princi- 
pio E razão (não contradição e suficiên- 
cia), intervêm também nessa produção a 
causa final. A primeira é de tipo mate- 
mático e mecânico, a segunda é diná- 
mica e moral. O fim da produção das 
coisas é a vontade justa, boa e perfeita 
de Deus, que deseja essa produção. O 
finalismo é que sustenta o princípio do 
melhor: Deus calcula vários mundos 
possíveis, mas faz existir o melhor des- 
ses mundos. O critério do melhor é 
sobretudo moral; com ele Leibniz pre- 
tende demonstrar que o mal é a simples 
sombra necessária do bem. O finalismo 
sustenta, desse modo, o otimismo leibni- 
ziano do melhor dos mundos possíveis. 

Além dos princípios de razão (não- 
contradição e suficiência) e do princípio 
do melhor, que dão conta da produção 
das coisas, Leibniz faz com que interve- 
nham também os princípios da continui- 
dade e dos indiscerniveis. 

O princípio da continuidade atirma 
que a natureza não dá saltos; assim 
como não há vazios no espaço, assim 
também não existem descontinuidades 
na hierarquia dos seres. Leibniz afirma, 
por exemplo, que as plantas não passam 
de animais imperfeitos. 

O princípio dos indiscerníveis daria 
conta da multiplicidade e individua- 
lidade das coisas existentes. Leibniz 
afirma que não há no universo dois seres 
idênticos e que sua diferença não é 
numérica nem espacial ou temporal, mas 
intrínseca, isto é, cada ser é em si dife- 
rente de qualquer outro. À diferença é de 
essência e manifesta-se no plano visível 
das próprias coisas. 

Os princípios do melhor, da não-con- 
tradição, da razão suficiente, da conti- 
nuidade e dos indiscerníveis são conside- 
rados, por Leibniz, constitutivos da 
própria razão humana e, portanto, ina- 
tos, embora apenas virtualmente. Nos 
Novos Ensaios sobre o Entendimento 
Humano, Leibniz rejeita a teoria empi- 
rista de Locke (1632-1704), segundo a 
qual a origem das idéias encontra-se na 
experiência, apenas uma “tabula rasa”, 
uma folha de papel em branco. Para 
Leibniz, ao contrário, a experiência só 
fornece a ocasião para o conhecimento 
dos princípios inatos ao intelecto: “Não 


LEIBNIZ 


A maior parte das obras peaG/uç de Leibniz foram escritas nos últimos 
9, 


quinze anos de sua vi 


quando cessaram suas atividades políticas e 


diplomáticas. As últimas missões de Leibniz levaram-no a visitar o czar Pedro, 
o Grande, e o imperador da Áustria. (Gravura do século XVIII, de Jarischa, 
representando o Prater de Viena; Graphische Sammlung Albertine, Viena.) 


se deve imaginar que se possa ler na 
alma, sem esforço e sem pesquisa, essas 
eternas leis da razão, como o édito do 
pretor é lido em seu caderno; mas é bas- 
tante que as descubramos em nós por um 
esforço de atenção, uma vez que as oca- 
siões são fornecidas pelos sentidos”. Os 
empiristas teriam razão ao afirmar que 
as idéias surgem do contato com o 
mundo sensível, mas errariam ao esque- 
cer o papel do espírito. Por isso, Leibniz 
Compléia a fórmula de Locke — “Nada 
há no intelecto que não tenha passado 
primeiro pelos sentidos” — com o aden- 
do “a não ser o próprio intelecto”. 


As mônadas 


Os princípios do conhecimento for- 
mulados por Leibniz levaram-no a uma 
concepção do mundo oposta à carte- 
siana. Enquanto Descartes formula uma 
concepção geométrica e mecânica dos 
corpos, Leibniz constrói uma concepção 
dinâmica. Nesse sentido, explica os 
seres não como máquinas que se movem, 
mas como forças vivas: “Os corpos 


materiais, por sua resistência e impene- 
trabilidade, revelam-se não como exten- 
são mas como forças; por outro lado, a 
experiência indica que o que se conserva 
num ciclo de movimento não é — como 
pensava Descartes — a quantidade de 
movimento, mas a quantidade de força 
viva”. A partir da noção de matéria 
como essencialmente atividade, Leibniz 
chega à idéia de que o universo é com- 
posto por unidades de força, as môna- 
das, noção fundamental de sua metafi- 
sica. Essa noção, contudo, não se esgota 
na adição do atributo força ao conceito 
de matéria, formulado por Descartes. 
Leibniz chega também à noção de môna- 
da mediante a experiência interior que 
cada indivíduo tem de si mesmo e que o 
revela como uma substância ao mesmo 
tempo una e indivisível. 

As notas que caracterizam as môna- 
das leibnizianas são a percepção, a 
apercepção, a apetição e a expressão. 
Pela percepção as mônadas representam 
as coisas do universo; cada uma de per 
si espelha o universo todo. A apercepção 
é a capacidade que a mônada espiritual 


379 


FABHHI 


OS PENSADORES 


ED 


Ahosio a DBO Tgh O: 


SARRO TREINA | 


a ANA 


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e - Am 
MM ps; HE: 


com 088 
agi DRCT gos SEU SUA 
a Ges mê saco dl! 


Leibniz viveu no período da história alemã iniciado pela Paz de Vestfália 
(1648), que assinalou a vitória nominal da França sobre a Áustria e 
reconheceu o crescente poder da Prússia. 4 Alemanha, no entanto, continuou 
dividida entre a Prússia, protestante, ea Áustria, católica. (Aquarela de 
1709: Dresden. Parada na Praça do Mercado; Gabinete de Gravuras, Dresden.) 


tem de auto-representar-se, isto é, de 
refletir; a mônada é consciência. À ape- 
tição consiste na tendência de cada mô- 
nada de fugir da dor e desejar o prazer, 
passando de uma percepção para outra. 
Finalmente, as mônadas. não tendo 
“portas nem janelas”, não recebem seus 
conhecimentos de fora, mas têm o poder 
interno de exprimir o resto do universo, 
a partir de si mesmas; a mônada é um 
ponto de vista. 

Cada representação por parte das mô- 
nadas é um reflexo obscuro, jamais 
havendo consciência clara de todas as 
impressões. Isso se deve ao fato de que o 
universo é múltiplo e infinito, enquanto 

ue toda substância, isto é, toda môna- 

a, com exceção de Deus, é necessaria- 
mente finita. Portanto, não é possível 
“que nossa alma (mônada superior) 
possa atingir tudo em particular”. O 
corpo humano, para Leibniz, é afetado, 
de alguma forma, pela mudança de 
todos os outros; a todos os seus movi- 


380 


mentos correspondem certas “percep- 
ções” ou pensamentos mais ou menos 
confusos da alma. Assim, a alma tam- 
bém tem algum pensamento de todos os 
movimentos do universo. “É verdade”, 
diz Leibniz, “que não nos apercebemos 
distintamente de todos os movimentos 
de nosso corpo, como por exemplo o da 
linfa (...), mas é preciso que eu tenha 
alguma percepção do movimento de 
cada vaga de um rio, a fim de poder me 
aperceber daquilo que resulta de seu 
conjunto, isto é, esse grande ruído que se 
escuta perto do mar.” 

A percepção consciente (apercepção) 
resulta do conjunto das “pequenas per- 
cepções”, como o ruído do choque de 
duas gotas de água, que se deve ouvir 
mesmo sem se ter consciência. Isso 
explicaria a conservação das lembran- 
ças, o trabalho da imaginação nos “bas- 
tidores da consciência”, assim como a 
realidade dos sonhos, mesmo quando 
esquecidos no estado de vigília. Dessa 


FARBRI 


LEIBNIZ 


Leibniz participou ativamente de toda a intricada política da Alemanha, 
dividida entre a Prússia ea Áustria; envidou esforços no sentido de uma 
unificação política ereligiosa e desempenhou papel de conciliador. Uma 


das principais cidades dessa é 


oca era Weimar, cujo castelo é visto 


acima em aquarela do séc. XVIII. (Thúringische Landesbibliothek, Weimar.) 


forma, os estados sucessivos da alma 
estariam ligados uns aos outros e a todo 
o universo. 

O inconsciente seria inerente a todas 
as substâncias criadas e seus diferentes 

aus seriam paralelos aos graus de per- 
Éição dessas substâncias; a continui- 
dade existente entre os seres não anula a 
diferença de natureza entre as simples 
mônadas e os espíritos. Leibniz afirma 
ainda que existem dois tipos de incons- 
ciente: o inconsciente de percepção, pró- 
prio das simples mônadas enquanto são 
apenas “espelhos do universo”, e o 
inconsciente de imitação, pertencente 
apenas aos espíritos enquanto não são 
apenas espelhos, mas do dotados 
de reflexão. A razão dessa diferença 
encontra-se no fato de que as mônadas 
não possuem o mesmo grau de perfeição: 
acima das “mônadas nuas” (corpos bru- 
tos que só têm percepções inconscientes 
e apetições cegas) existem “mônadas 
sensitivas” (animais dotados de aper- 


cepções e desejos) e as “mônadas racio- 
nais”, com consciência e vontade. 


O melhor dos 


mundos possíveis 


O racionalismo leibniziano tende à 
constituição de um saber globalizador, 
de uma mathesis iPad Do ponto 
de vista lógico, o sistema de Leibniz 
estrutura-se como um conjunto de múlti- 
plas séries que convergem e se entrecru- 
zam; cada ponto de uma das séries é 
definido. dentro da complexa teia, por 
seu lugar, sua posição; por conseguinte, 
o conjunto todo organiza-se numa topo- 
logia. A noção de ordem, em Leibniz, as- 
sume feição diferente da que possuía em 
Descartes: desliga-se | da de nexo linear e 
passa a se vincular à noção de “situa- 
ção” (as situações resultantes das diver- 
sas séries que se entrecruzam). O siste- 
ma todo, assim estruturado, conduz à 
possibilidade da tradução de uma ordem 


381 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Os pensadores racionalistas do século XVII tomaram o método das matemáticas 
como modelo da certeza cientifica e construíram grandes sistemas filosóficos. 
Leibniz Res mais do que isso: foi, ele próprio, um matemático 
e inventou o cálculo diferencial ao mesmo tempo que Newton. (Instrumentos 
matemáticos do século XVII; Museu de História da Ciência, Florença.) 


em outra. O pluralismo das séries 
convergentes que constituem o universo 

ode assim apresentar-se como plura- 
RES conciliado e harmônico. Em Leib- 
niz, revive o modelo estóico: o universo 
é concebido à semelhança de um orga- 
nismo pleno, cujas partes convivem 
numa harmonia natural e onde tudo é 
análogo a tudo. 

Para Leibniz, os atos de cada mônada 
foram antecipadamente regulados de 
modo a estarem adequados aos atos de 
todas as outras; isso constituiria a har- 
monia preestabelecida. 

A doutrina leibniziana da harmonia 
preestabelecida sustenta que Deus cria 
as mônadas como se fossem relógios, 
organiza-os com perfeição de maneira a 
marcarem sempre a mesma hora e dá- 
lhes corda a partir do mesmo instante, 
deixando em seguida que seus mecanis- 


382 


mos operem sozinhos. Assim, Deus teria 
colocado em cada mônada, no instante 
da criação, todas as suas percepções, 
criando-as de tal modo que cada uma se 
desenvolve como se estivesse só; seu 
desenvolvimento, todavia, corresponde, 
a cada instante, exatamente ao de todas 
as outras. Graças a essa harmonia prees- 
tabelecida, os pontos de vista de cada 
mônada sobre o universo concordariam 
entre si. Ao mesmo tempo, Deus escolhe 
o melhor dos mundos dentre todos aque- 
les que se apresentam como possíveis. 
Coloca-se então a questão: como expli- 
car a presença do mal no mundo? 
eba tentou responder a esse pro- 
blema, afirmando inicialmente que o 
mal se manifesta de três modos: metafi- 
sico, físico e moral. O mal metafísico 
seria a fonte do mal moral, e deste 
decorreria o mal físico. O mal metafísico 


tABBRI 


LEIBNIZ 


Em Paris, Leibniz teve contato com 
Constantijn Huygens, um dos mais 
versáteis intelectuais da Renascença 
na Holanda. (Retrato de Constantijn 
Huygens; Museu de Hofwyck.) 


é a imperfeição inerente à própria essên- 
cia da criatura, pois se ela não fosse 
imperfeita, seria o próprio Deus. A 
imperfeição metafísica original se defi- 
niria, assim, apenas como uma não-per- 
feição, um não-ser, retomando Leibniz a 
concepção neoplatônica e agostiniana. 
O mal metafísico e a raiz do mal 
moral, pois aquilo que é perfeito pode 
contemplar o Bem, sem possibilidade de 
erro, mas uma substância imperfeita não 
ê capaz de apreender o todo, tem percep- 
ções inadequadas e se deixa envolver 
pelo confuso. Não se deveria, contudo, 
responsabilizar o criador pela exis- 
tência do mal, porque Deus proporciona 
a todos as mesmas praças, mas cada um 
pode se beneficiar delas de acordo com 
sua limitação original. Leibniz afirma 
ue, assim como a correnteza é a causa 
RE movimento do barco, mas não de seu 


atraso, assim também Deus é a causa da 
perfeição da natureza, mas não de seus 
defeitos. Ao produzir o mundo tal como 
ele &, Deus escolheu o menor dos males, 
de tal forma que o mundo comporta o 
máximo de bem e o mínimo de mal. Na 
própria origem das coisas, diz Leibniz, 
exerce-se uma certa matemática divina, 
ou mecânica metafísica, responsável 
pela determinação do máximo de exis- 
tência, tão rigorosa quanto a dos máxi- 
mos e mínimos matemáticos ou as leis 
do equilibrio. 

O mal físico é entendido por Leibniz 
como consequência do mal moral, po- 
dendo ser considerado, ao mesmo tempo, 
como consequência física da limitação 
original e como consequência ética, isto 
é, como punição do pecado. Em decor- 
rência da harmonia preestabelecida, a 
dor fisica seria expressão da dor metafi- 
sica, que a alma experimenta por causa 
de sua imperfeição. Segundo Leibniz, 
Deus autoriza o sofrimento porque este ê 
necessário para a produção de um Bem 
Superior: “Experimenta- se suficiente- 
mente a saúde, sem nunca se ter estado 
doente? Não é preciso que um pouco de 
Mal torne o Bem sensivel, isto é, 
maior?” 

A teoria do mal, formulada por Leib- 
niz, concluiria assim sua tentativa de 
sintese sistemática de uma filosofia que 
concebe o mundo como rigorosamente 
racional e como o melhor dos mundos 
possíveis. Algumas passagens das obras 
do próprio Leibniz, contudo, deixam 
uma réstia de dúvida sobre seu otimis- 
mo: “Pode-se duvidar se o mundo avan- 
ça sempre em perfeição ou se avança e 
recua por períodos (...) Pode-se pois 
questionar se todas as criaturas avan- 
çam sempre, ao menos no final de seus 
períodos, ou se existem também aquelas 
que perdem e recuam sempre, ou, enfim, 
se existem aquelas que realizam perio- 
dos no final dos quais ercebem não ter 
ganho nem pao a mesma forma 
que existem linhas que avançam sempre, 
como a reta, outras que voltam sem 
avançar ou recuar, como a circular, ou- 
tras que voltam e avançam ao mesmo 
tempo, como a espiral, outras, final- 
mente, que recuam depois de terem 
avançado, ou avançam Pepous de terem 
recuado, como as ovais” 


383 


1646 — A 1.º de julho, nas- 
ce Gottfried Wilhelm Leib- 
niz, em Leipzig. 

1666 — Leibniz recebe, em 
Altdorf, o título de Doutor 
em Direito. 

1667 — Filia-se à sociedade 
secreta Rosa-Cruz. 

1670 — É nomeado conse- 
lheiro da Alta Corte do elei- 
torado de Mogúncia. 

1672 — Na qualidade de 
conselheiro, viga a Paris 
com o objetivo de convencer 
o rei Luís XIV a conquistar 
o Egito. 

1673 — Viaja para a Ingla- 
terra onde conhece Olden- 
burg, amigo de Espinosa, e 
o químico Boyle. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1676 — Descobre o cálculo 
diferencial. Nesse mesmo 
ano, vigja a Hanóver como 
bibliotecário-chefe. 

1677 — Morre Espinosa. 


1679 — Morre Thomas 
Hobbes. 

1686 — Leibniz escreve o 
Discurso de Metafísica. 
1689 — Nasce Montes- 
quieu. 


1700 — Leibniz funda, em 
Berlim, aquela que se torna- 
rá a Academia de Ciências 
Prussianas. 

1701-1704 -—- Redige os 
Novos Ensaios sobre o En- 
tendimento Humano, que só 
virão a ser publicados em 
1765. 


BIBLIOGRAFIA 


1705 — Publica as Consi- 
derações sobre o Princípio 
de Vida. 

1710 — Publica Commen- 
tatio de Anima Brutorum, 
De Libertate e Ensaios de 
Teodicéia. 

1711 — Vigja para a Rús- 
sia, com o fito de propor ao 
czar Pedro um plano de or- 
ganização civil e moral para 
o país. 

1712 — Nasce Rousseau. 
1714 — Surgem A Mona- 
dologia e Princípios da Na- 
tureza e da Graça, ambas de 
Leibniz. 

1716 — 4 14 de novembro, 
acometido de uma crise de 
gota, morre Leibniz. 


DiLTHEY, W.: Leibniz e a Sua Época, Armênio Amado, Coimbra, 1947. 
FRIEDMANN, G.: Leibniz et Spinoza, Éditions Gallimard, Paris, 1962. 


RussELL, B.: 4 Filosofia de Leibniz, Companhia Editora Nacional e Editora da Universidade 
de São Paulo, São Paulo, 1968. 

BELAVAL, Y.: Pour Connaitre la Pensée de Leibniz, Bordas, Paris, 1952. 

BELAVAL, Y.: Leibniz, Lecteur de Descartes, Gallimard, 1961. 

COUTURAT, L.: La Logique de Leibniz, Alcan, Paris, 1901. 

GUEROULT, M.: Dynamique et Métaphysique Leibniziennes, Belles-Lettres, Paris, 1934. 
MOoRrEAU, J.: L Univers Leibnizien, Vitte, 1956. 

BRUNNER, F.: Étude sur la Signification Historique de la Philosophie de Leibniz, Librairie 
Philosophique J. Vrin, Paris, 1961. 

JALABERT, J.: La Théorie Leibnizienne de la Substance, Presses Universitaires de France, 
Paris, 1947. 

CosTABEL, P.: Leibniz et la Dynamique, Hermann, Paris, 1960. 


384 


— SAN PAULO — RRAGI 


e COPYRIGHT MUNDIAL 1973 — ARRIL SA CINTURAL FINDUSTRIAI 


OS PENSADORES 


os séculos XV e XVI, a cultura 

européia foi dominada pelos pa- 

drões de sensibilidade e de  pen- 
samento | provenientes da  ltália. 
Os pintores, escultores e arquitetos 
renascentistas italianos criaram novas 
formas de expressão visual e de relacio- 
namento do homem com o espaço e a 
natureza circundante; os filólogos huma- 
nistas reinterpretaram os textos da Anti- 
guidade e trouxeram à tona formas de 
pensar e conceber as coisas que a Idade 
Média tinha sepultado ou relegado ao 
esquecimento; os filósofos da natureza 
lançaram as bases de um novo conheci- 
mento do mundo físico. Tudo isso expan- 
diu-se para os outros paises europeus e 
configurou os primeiros tempos da Idade 
Moderna. 

Essa primazia intelectual e artística 
da lália, no entanto, cederia lugar, 
desde meados do século XVI e, sobretu- 
do, nos séculos XVIl e XVII a outros 
centros culturais, sediados principal- 
mente na França e na Inglaterra. As 
razões para essa decadência encontram- 
se, de um lado, na perda do poder econô- 
mico das cidades italianas dedicadas ao 
comércio internacional e, de outro, no 
triunfo da Contra-Reforma católica e no 
poder do papado sobre a península. 
Momentos das nesse sentido foram 
os anos de 1616 e 1633; no primeiro, a 
nova ciência determinada pela teoria 
heliocêntrica de Copérnico (1473-1543) 
foi condenada pela Igreja Católica; em 
1633, 0 próprio Galileu (1564- 1642) foi 
Censundo e obrigado a retratar-se, por- 
que suas concepções minavam pela base 
toda concepção medieval do mundo 
fisico. 

A partir de então, a Itália foi conde- 
nada a papel inteiramente secundário na 
história das idéias por mais de dois sécu- 
los. Dentro desse panorama negativo, de 
ausência de espírito criador nos domi- 
nios da inteligência, manteve-se, contu- 
do, desperto o interesse científico nos 
seguidores de Galileu e Telésio 
(1509-1588), que se centralizaram em 
Nápoles. Nessa cidade, em 1663, Fran- 


Na página anterior: retrato de 
Giovanni Battista Vico, por Solimena; 


Museu de Roma. (Foto Fabbri.) 


386 


cesco D'Andrea (1625-1698), Tommaso 
Cornelio (1614-1684), Leonardo da 
Capua (1617-1695) e outros fundaram a 
Accademia degli Investiganti, copiando 
o modelo da Accademia del Cimento, 
fundada em 1657 pelos Medici em Flo- 
rença e que desapareceria em 1667. Um 
dos membros da Accademia degli Inves- 
tiganti, Tommaso Cornelio, foi o respon- 
sável pela introdução das obras de Des- 
cartes (1596- 1650) na Itália, em 1649; 
outro membro, Giovanni Borelli 
(1608-1679), preocupou-se em demons- 
trar a afirmação de Descartes, segundo a 
qual os animais são máquinas. Assim, a 
Accademia degli Investiganti difundiu o 
pensamento cartesiano, mantendo o inte- 
resse dos italianos pelas novas conquis- 
tas intelectuais. Posteriormente, Nápo- 
les seria também o centro de difusão da 
filosofia de John Locke (1632-1704). A 
primeira figura expressiva dessa in- 
fluência foi Antonio Genovesi 
(1712- 1769), que tentou harmonizar o 
empirismo de Locke com a teoria leibni- 
ziana das mônadas espirituais. 

Todos esses pensadores, contudo, não 
foram mais do que pálido reflexo de 
idéias produzidas em outros paises, que 
tinham agora a liderança do pensamento 
europeu. A Itália dos séculos XVII e 
XVIII estava muito distante da exube- 
rância intelectual e artística dos tempos 
da Renascença. Paradoxalmente, foi 
nesse cenário inexpressivo que surgiu, 
no consenso da quase unanimidade dos 
historiadores, a maior figura da filosofia 
italiana: Giovanni Battista Vico. 


Um filósofo ignorado 


“O senhor Giambattista Vico nasceu 
em Nápoles no ano de 1670, filho de 
honrados pais, que deixaram muito boa 
fama de si. O pai era de humor alegre, a 
mãe, de temperamento muito melancó- 
lico; assim, ambos concorreram para a 
natureza deste seu filho.” 

Com essas palavras Vico inicia sua 
Autobiografia, escrita entre 1725 e 
1728. Nela encontram-se quase todos os 
elementos essenciais para se conhecer a 
história do desenvolvimento de suas 
idéias, muito embora contenha algumas 
incorreções como, por exemplo, o ano de 
nascimento do autor: segundo os histo- 


Pintura anônima da escola francesa do século XVII mostra um panorama da baia 
de Nápoles, cidade onde Vico nasceu e passou toda a vida. Nápoles era um dos 
mais importantes centros culturais da Itália e, na época de Vico, 
caracterizava-se por manter desperto o espírito científico-natural, iniciado 
por Galileu mas condenado pela Igreja. (Museu de San Martino, Nápoles.) 


riadores, Vico teria nascido em 1668 e 
não em 1670. 

Através da Autobiografia, fica-se sa- 
bendo que o primeiro mestre espiritual 
de Vico foi um filósofo nominalista, o 
padre jesuíta Antonio dal Balzo; depois 
Vico estudou com um seguidor de Duns 
Scot (1266-1309), o padre Giuseppe 
Ricci, também jesuita. Em seguida, a 
Autobiografia relata os nove anos 
(1686-1695) de relativa solidão, que 
Visco passou em Vatolla (Cilento), onde 
foi preceptor do filho do marquês Dome- 
nico Rocca e onde se dedicou ao estudo 
de Platão (428/7-348/7 a.€.), do qual 
admirava o valor metafísico e o caráter 
ético-social de suas doutrinas. Parte 
especialmente importante desse periodo 
passado em Vatolla é o referente aos pri- 
meiros contatos com a filosofia materia- 
lista de Gassendi (1592-1655) e, sobre- 
tudo, com a filosofia cartesiana, então 
em voga em Nápoles. Datam dessa época 
suas primeiras reações contra o cartesia- 


nismo, a partir das quais se constituiria 
o arcabouço metodológico de sua princi- 
pal obra, a Ciência Nova. 

Depois dos nove anos passados em 
Vatolla, Vico voltou a Nápoles e, em 
1699, passou a ocupar o cargo de profes- 
sor de retórica da universidade. Nessa 
função, um de seus deveres era abrir o 
ano letivo com uma dissertação em 
latim; foi a partir de uma dessas lições 
que nasceu Sobre o Método de Estudos 
de Nosso Tempo, publicada em 1709. 
Pela primeira vez, Vico tornava pública 
sua posição anticartesiana, analisando 
uma questão acadêmica e convencional: 
qual a melhor maneira de estudar? a dos 
antigos ou a dos modernos? Vico respon- 
de, condenando a prática, comum em seu 
tempo, de colocar o ensino crítico ou arte 
de julgar antes da “tópica” ou arte da 
invenção; tal costume destruiria a imagi- 
nação e incapacitaria o aluno para a vida 
prática. Vico condena também o método 
geométrico na fisica, o analítico na 


387 


OS PENSADORES 


mecânica, o dedutivo na medicina, e a 
utilização dos métodos das ciências 
naturais no estudo dos problemas huma- 
nos. Defende a união intima entre a eru- 
dição filológica e histórica e, por outro 
lado, entre conhecimento abstrato e 
dedutivo. Em outros termos, para Vico, a 
filosofia não deve isolar-se no plano das 
puras abstrações lógicas; ao contrário, 
deve mergulhar no terreno concreto dos 
produtos culturais humanos, sobretudo 
aqueles gerados pela literatura, no 
amplo sentido da palavra. Essa orienta- 
ção metodológica daria seu primeiro 
fruto em um trabalho publicado em 
1710: Sobre a Antiquíssima Sabedoria 
dos Itálicos, Extrato de Originais em 
Língua Latina. Nessa obra, inspirando- 
se no diálogo Crátilo, onde Platão anali- 
sa o problema da origem e da natureza 
da linguagem, Vico propõe-se a investi- 
gar a mais remota filosofia itálica, atra- 
vês da etimologia de algumas palavras 
eruditas, considerando-se como restos de 
uma civilização extinta. 

Na época em que Vico escreveu Sobre 
a Antiguíssima Sabedoria dos Itálicos, 
começou a amadurecer em seu pensa- 
mento a idéia de conciliar o sistema filo- 
sófico platônico-cristão com uma filolo- 
gia de caráter científico que pudesse 
englobar, a um só tempo, a história das 
línguas e a história das coisas. Uma pri- 
meira expressão desse projeto encontra- 
se na obra Direito Universal, três volu- 
mes publicados entre 1720 e 1722. 

Um ano depois, Vico candidatou-se ao 
cargo de professor catedrático de direito 
civil na Universidade de Nápoles, mas 
foi recusado. O fato amargurou-o pro- 
fundamente. Vico teve que se contentar 
com o cargo modesto que já ocupava — o 
de professor de retórica —, no qual per- 
maneceu até seus últimos dias. 

Desencantado com a carreira universi- 
tária, Vico passou a dedicar-se quase 
exclusivamente à realização do projeto 
cuja primeira versão viera à luz com o 
livro Direito Universal. Em 1725 surgiu 
a primeira edição de sua obra maior, 
Ciência Nova, que seria reescrita diver- 
sas vezes, dando lugar a edições diferen- 
tes, em 1730 (conhecida como Segunda 
Ciência Nova) e em 1744. Em sua 
Autobiografia, escrita entre 1725 e 
1728, e posteriormente completada, 


388 


Vico descreve as circunstâncias de publi- 
cação das diferentes redações que deu à 
Ciência Nova, comentando as polêmicas 
que provocou, criticando com desdém 
seus detratores e revelando orgulhosa- 
mente que todos os homens doutos ti- 
nham por ela a maior admiração. 

Mas, na verdade, apesar de sua impor- 
tância na história das idéias, a obra de 
Vico não despertou qualquer entusiasmo 
durante a vida do autor cujos últimos 
anos transcorreram em relativa solidão. 
Vico faleceu em sua terra natal, a 23 de 
janeiro de 1744. 


A herança de Vico 


Embora ignoradas pela quase totali- 
dade dos pensadores europeus da época, 
as idéias de Vico exerceram influência 
sobre algumas figuras italianas de seu 
tempo. f o caso de Mario Pagano 
(1748-1799), representante da escola 
napolitana, que tentou harmonizar as 
idéias de Vico com a filosofia de Rous- 
seau (1712-1778); é também o caso de 
Gaetano Filangieri (1752-1788), outro 
napolitano, autor de Ciência da Legisla- 
ção, que tinha Vico em alta conta e ofere- 
ceu a Ciência Nova a Goethe 
(1749-1832). Além de Pagano e Filan- 

1eri, Gian Domenico Romagnosi 
(1761-1835), autor de importantes tra- 
balhos sobre filosofia social e teoria 
econômica, tinha grande respeito pelas 
idéias de Vico. Todos esses pensadores 
manifestaram, de uma maneira ou de 
outra, seu débito para com o autor da 
Ciência Nova, mas a verdadeira herança 
de Vico encontra-se em seu filho Genna- 
ro, seu sucessor na cadeira de retórica da 
Universidade de Nápoles e, principal- 
mente, em Vincenzo Cuoco (1770-1823). 
Este último ridicularizou os “ideólogos” 
franceses, então em moda na Itália, e 
desenvolveu as idéias de Vico, salien- 
tando o platonismo da Ciência Nova. Em 
Cuoco a noção de “história eterna” de 
Vico transforma-se em um padrão deter- 
minístico, que dirige o desenvolvimento 
dos homens, como se fossem simples 
Joguetes da providência divina. 

Nos demais paises europeus, durante o 
século XVII, as obras de Vico sequer 
foram lidas, a não ser por alguns poucos, 
como os alemães Johann Hamann 


VICO 


Ao lado daqueles que procuravam difundir as últimas conquistas científicas e 
filosóficas dos demais países europeus, persistia ainda na Itália da época de 
Vico uma tradição de erudição acadêmica de gramáticos e latinistas, que não 
conseguiam superar seus antecessores da Renascença. Vico contrapôs-se tanto a 
uns quanto a outros. (Nápoles, em tela do séc. XVII, Museu San Martino.) 


389 


FABBRI 


390 


OS PENSADORES 


ESA 
be: 


Uma tela de Pieter Paul Rubens, Os Quatro Filósofos, retrata Justus Lipsius 
e seus discípulos, entre os quais se encontra, provavelmente, Hugo Grotius, 
um dos pensadores do século XVII que elaboraram teorias 
abstratas e racionalistas sobre a sociedade. Vico criticou-os por deixarem de 
considerar o homem em sua concreção histórica. (Galeria Pitti, Florença.) 


FABBRI 


VICO 


(1730-1788) e Johann Gottfried Herder 
(1744-1803); a filosofia da história ela- 
borada pelo último chega mesmo a ter 
muitos pontos de contato com a Ciência 
Nova. 

Esse plano secundário a que foi rele- 
gado o filósofo italiano deve-se ao fato 
de que suas teses, em geral, opunham-se 
às principais linhas do Iluminismo. Essa 
corrente de idéias, que dominou o pensa- 
mento europeu no século XVIII, procu- 
rava estudar os fatos humanos de manei- 
ra análoga aos procedimentos das 
ciencias naturais, enquanto a orientação 
metodológica de Vico valorizava a fanta- 
sia poética e o espirito platônico. Por 
essa razão, somente no século XIX, com 
a ascensão do Romantismo alemão, 
criou-se um clima intelectual favorável 
ao seu pensamento. Na Inglaterra, por 
exemplo, escritores como Coleridge 
(1772-1834) e Thomas | Amold 
(1795-1842) admiravam e citavam Vico. 
Na França, o historiador Jules Michelet 
(1798-1874) considerava-o seu mestre e 
divulgou a Ciência Nova, traduzindo 
suas passagens mais importantes. Na 
Alemanha, Karl Marx (1818-1885) 
apontou-o como precursor de muitos 
estudos históricos do século XIX. 

Mas o verdadeiro reconhecimento dos 
méritos dos trabalhos de Vico só ocorreu 
mais plenamente no século XX. O filó- 
sofo Robm George  Collingwood 
(1889-1943) chamou a atenção para sua 
obra e foi profundamente influenciado 
por ela. O mesmo aconteceu com Bene- 
detto Croce (1866-1952), possivelmente 
seu mais Importante intérprete. 


Razão e engenho 


O núcleo metodológico que serve de 
base à filosofia de Vico pode ser esclare- 
cido a partir de sua atitude em relação 
ao cartesianismo. Para o filósofo italia- 
no, a teoria do conhecimento formulada 
por Descartes, orientando-se exclusiva- 
mente pelo conhecimento matemático, 
subordina todas as demais esferas de 
indagação à evidência da razão abstrata. 
Essa pretensão racionalista do cartesia- 
nismo constitui uma pretensão quimé- 
rica, pois, diz Vico, existem certezas 
humanas fundamentais que não podem 
ser logicamente demonstradas e tam- 


pouco são evidentes. Produtos humanos 
fundamentais, como a retórica, a poesia, 
a história e a própria prudência que re- 
gula a vida prática, não se baseiam em 
verdades de tipo matemático, mas ape- 
nas sobre o verossimil. Este constitui 
uma espécie de verdade problemática, 
colocando-se entre o verdadeiro e o 
falso; o verossimil, na maior parte dos 
casos, é verdadeiro, mas de qualquer 
forma sua característica reside na ausên- 
cia de uma garantia infalível de verdade. 

Apesar dessa fragilidade em relação à 
evidência de caráter matemático, a filo- 
sofia não deve ignorar o verossimil ou 
relegá-lo a segundo plano. Vico diz que a 
filosofia não deve cair nesse erro, pois 
ela nunca serviu para outra coisa senão 
para tornar as nações “ativas, despertas, 
capazes, agudas e reflexivas”, e para 
que os homens sejam “dóceis, prontos, 
magnânimos, engenhosos e prudentes”. 
Todas essas funções e qualidades cons- 
troem-se à margem da razão abstrata. O 
“campo dos filósofos” seria, assim, o do 
provável, como o terreno dos matemá- 
ticos é o do verdadeiro. Afirma Vico: o 
fato de Descartes ter pretendido levar a 
filosofia ao plano da verdade demonstra- 
tiva dos geômetras foi tão-somente causa 
de dúvidas e desordem. À razão carte- 
siana, órgão da verdade demonstrativa, 
Vico contrapõe o engenho, faculdade de 
descobrir o verosstmil e o novo; à crítica, 
nova arte cartesiana fundada na razão, 
Vico contrapõe a tópica, arte que disci- 
plina e dirige os procedimentos inventi- 
vos do engenho. 

Vico, porém, não se limita a combater 
o cartesianismo, defendendo a inserção 
do provável no campo da indagação filo- 
sófica. Essa tarefa constitui apenas um 
primeiro momento lógico; sua critica vai 
ainda mais longe e procura mostrar 
como os próprios alicerces da filosofia 
cartesiana padeceriam de defeitos congê- 
nitos. No ensaio sobre a mais antiga 
sabedoria dos itálicos, Vico ataca as três 
premissas fundamentais do cartesia- 
nismo, a saber: o apelo à autocons- 
ciência contido no cogito, ergo sum; a 
crença de que a existência de Deus pode 
ser demonstrada de maneira a priori; eo 
princípio segundo o qual as idéias claras 
e distintas constituem critério universal 
de verdade. 


391 


OS PENSADORES 


FABBARI 


Ed b 
Ê 


Vico foi um piedoso católico e a noção cristã de providência divina desempenha 
papel fundamental em sua filosofia. Apesar disso, defendeu a tese 
de que o homem é o próprio criador do mundo sociale o historiador deve 
estudar os fatos humanos em suas origens, a fim de descobrir o sentido da 
evolucão da humanidade. (Claustro da Cartuxa de San Martino, em Nápoles.) 


392 


VICO 


Vico ocupou o cargo de professor de retórica da universidade de Nápoles desde 
1699e, em 1735, tornou-se historiador oficial de Carlos HI, rei de Nápoles. 
Essa alta posição em nada alterou sua vida, que continuou a ser 
sempre modesta. (Tela de Michele Foschini representa o soberano 
em uma cena de caça ao javali; Museu Nacional de San Martino, Nápoles.) 


O fundamento da crítica de Vico a 
esses princípios da filosofia de Descartes 
encontra-se em sua concepção de que a 
verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito 
são a mesma coisa, e um pode ser con- 
vertido no outro (verum ipsum factum, 
verum et factum convertuntur. Em outros 
termos, só pode ser conhecido de manei- 
ra indubitável aquilo que o próprio 
sujeito cognoscente faz, cria ou produz. 

De acordo com essa premissa metodo- 
lógica + O homem não pode conhecer-se a 
si mesmo, como pretendeu Descartes. O 
cogito, mostra Vico, é apenas a cons- 
ciência do próprio ser € não sua ciência. 
Consciência e ciência constituem coisas 
distintas; a primeira pode ser possuída 
pelo ignorante, mas a segunda não, pois 
trata-se de conhecimento verdadeiro fun- 
dado sobre causas. Assim, o homem não 
conhece a causa de seu próprio ser por- 
que éle não é essa causa, ele não se cria a 
si mesmo. Desenvolvendo essa tese, Vico 
escreve: “... aidéia clara e distinta da 
mente não pode ser critério de outras 
verdades, como também não pode ser 


critério da própria mente, pois, enquanto 
a mente apreende a si mesma, ela não 
produz a si mesma e. por não poder 
produzir-se a si mesma, ela ignora a 
forma ou modo atravês do qual apreende 
a si mesma” 

Por razões análogas, a prova da exis- 
tência de Deus (outro princípio básico da 
metafísica aa be é falsa. 
resultando da “curiosidade impia”. da 
pretensão do homem que se considera 
“deus de Deus” 

O terceiro princípio cartesiano ataca- 
do por Vico é o das idéias claras e distin- 
tas, as únicas que Descartes considerava 
como verdadeiras. À essa tese, Vico obje- 
ta, em primeiro lugar, que muitas propo- 
sições referentes a fatos podem parecer 
claras e indubitáveis numa primeira ins- 
peção, mas, posteriormente, podem reve- 
lar-se falsas. Em segundo lugar, Vico 
concorda com Descartes no sentido de 
que as proposig des matemáticas satisfa- 
zem » critério de auto-evidência das 
idéias claras e distintas, mas discorda de 
que o fundamento da certeza dessas 


393 


FABBRI 


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FABBRI 


Retrato de Carlos III (Museu Nacional 
de San Martino, Nápoles). Na página 
anterior, o soberano em Festa de 
Piedigrotta, de Antonio Joli. (Museu 
Nacional de San Martino, Nápoles.) 


396 


SADORES 


proposições deva ser encontrado na pró- 
pria auto- evidência. Para Vico, as verda- 
des matemáticas são irrefutáveis porque 
constituem partes de um sistema produ- 
zido pelo próprio homem. A matemática 
seria mesmo a melhor prova de que o 
verdadeiro e o feito são idênticos. 

Ainda como consegiiência desse prin- 
cípio, Vico conclui que a pretensão do 
cartesianismo, no sentido de conhecer a 
natureza, é totalmente infundada. So- 
mente Deus pode conhecer os fenômenos 
naturais em sua totalidade, pois ele é seu 
criador. Isso, no entanto, não significa 
que Vico considere a natureza como 
absolutamente fora de qualquer possibi- 
lidade de conhecimento por parte do 
homem. Para o autor da Ciência Nova, o 
homem, ao investigar a natureza, não se 
limita a um papel inteiramente passivo; 
deve, ao contrário, imitá-la, criando e 
recriando as condições em que os fenô- 
menos naturais ocorrem. Em outras 
palavras, para Vico, é possivel um certo 
conhecimento de alguns fenômenos natu- 
rais (aqueles. que podem ser reproduzi- 
dos), mas não é possível apreender a 
natureza como um todo; a verdade só 
pode ser encontrada no domínio das 
abstrações matemáticas é de tudo aquilo 
que o próprio homem produz. 


A verdadeira ciência 


A rigor, o princípio de Vico, segundo o 
qual o verdadeiro e o feito (a verdade e o 
fato) são idênticos, não era uma idéia 
totalmente nova na história da filosofia. 
Uma primeira expressão dessa idéia 
encontra-se num escrito pseudo- hipo- 
crático da Antiguidade, onde o autor in- 
dica as operações que devem ser realiza- 
das para a penetração nos mistérios da 
natureza, afirmando que a chave para 
isso acha-se à disposição dos homens 
“porque eles conhecem o que fazem”. 
Outra expressão no mesmo sentido 
acha-se em Filon de Ra nielmias ou 
Filon, o Judeu (c. 25 a.C. — c. 50), que 
fundamentou a onisciência divina na 
idéia de que Deus é o criador e demiurgo 
de todas as coisas. Uma terceira formu- 
lação do mesmo princípio encontra-se 
em Marsílio Ficino (1433-1499), que, 
comparando a capacidade divina e hu- 
mana de conhecer, atribui a onisciência 


VICO 


A principal obra de Vico, Ciência Nova, procura mostrar como a história 
se desenvolve de maneira cíclica, percorrendo três etapas 
sucessivas: a idade dos deuses, a idade dos heróis e a idade propriamente 
humana. (Pintura de autor anónimo da escola napolitana do século XVIII 
representa uma alegoria da vida humana; Casa Serristori, Florença.) 


a Deus, por ser Ele o próprio autor e 
criador de todas as coisas. Mais próxima 
de Vico situa-se a metodologia de Gali- 
leu, segundo a qual o conhecimento cien- 
tífico da natureza somente pode ser 
alcançado atravês do experimento, ou 
seja, da reprodução dos fenômenos; para 
Galileu, o homem possui as causas que 
são “razões das coisas” e, portanto, 
pode produzir fenômenos que são neces- 
sários e racionais. 

Esses antecedentes históricos, ao que 
tudo indica, não exerceram influência 
sobre o autor da Ciência Nova; Vico for- 
mulou o princípio de que o verdadeiro e 
o feito são idênticos independentemente 
desses precursores. Contudo, o mais 
importante aspecto de sua contribuição 
reside no desenvolvimento e amplitude 
que conferiu ao princípio, chegando a 


consegiiências até então insuspeitadas. 
Elaborada em diametral oposição à epis- 
temologia cartesiana, a idéia de que a 
verdade e o fato se identificam constituiu 
o ponto de partida para uma revolucio- 
nária teoria da história e do desenvolvi- 


mento social. 


A história foi posta pelo cartesianismo 
como um aglomerado confuso de fatos, 
uma miscelânea de absurdos, algo total- 
mente inapto à apreensão de idéias cla- 
ras e distintas, as quais constituiriam a 
base de um verdadeiro conhecimento. 
Para Vico, esse desprezo é infundado e 
tem raizes no erro de admitir um único 
método como válido para todos os domi- 
nios da investigação; além disso, a histó- 
ria pode proporcionar esclarecimentos 
decisivos sobre aquilo que subjaz à prô- 
pria ciência natural e que constitui O 


397% 


FABBRI 


OS PENSADORES 


conhecimento humano. Vico afirma que, 
por mais desenvolvida e engenhosa que 
seja a técnica de exploraçã ão do mundo 
natural, este permanecerá para sempre 
algo exterior ao próprio homem, jamais 
podendo tornar-se um produto de seu 
espírito; com a história ocorre exata- 
mente o contrário: seu campo de ação é 
aquilo que o próprio homem cria. O ob- 
jeto da investigação histórica, escreve 
Vico, resulta da expressão da vontade 
humana, e o próprio historiador, em vir- 
tude de sua humanidade, tem todas as 
condições para apreender seu objeto, de 
maneira total e completa, íntima e 
indubitável. 

Ao formular essa clara distinção entre 
as ciências naturais é o conhecimento 
histórico, Vico estabeleceu um princípio 
metodológico que viria desempenhar 
papel fundamental na história da episte- 
mologia. Mas o autor da Ciência Nova 
não se limitou a criar uma metodologia: 
procurou também investigar como, con- 
cretamente, ocorreu o desenvolvimento 
da humanidade. Nessa tarefa, orientou- 
se pela idéia de que o passado não deve 
ser visto com os olhos do presente, sob 
pena de não se chegar a um verdadeiro 
conhecimento. Em outros termos, o 
historiador não deveria deixar-se levar 
por seus próprios sentimentos, interes- 
ses, atitudes e modos particulares de ver 
as coisas. Ao fazer essa advertência, 
Vico tinha em mente os teóricos que 
desenvolviam teorias abstratas sobre o 
homem, como Grotius (1583-1645), 
Pufendorf (1632-1694) e Hobbes 
(1588-1679). Esses autores modernos 
partiram de pontos de vista estáticos e 
imutáveis, segundo os quais existiria 
uma lei natural ou um cqntrato social 
que estaria na base de todas as transfor- 
mações humanas. Segundo o autor da 
Ciência Nova, tais idéias não passam de 
abstrações criadas pelo estado do desen- 
volvimento do espirito em que essas pró- 
prias idéias vieram à luz. Ao proceder 
assim, os teóricos racionalistas que 
construíram grandes sistemas de inter- 
pretação dos fatos sociais acabaram por 
atribuir, aos homens de épocas anterio- 
res e primitivas, modos de conceber as 
coisas, faculdades mentais e Juízos de 
valor, todos eles característicos do pró- 
prio universo espiritual em que esses 


398 


autores viveram. Rejeitando tais siste- 
mas, que lhe pareciam errôneos, Vico 
sustenta a absoluta necessidade de se 
abordar os fenômenos humanos em suas 
dimensões históricas. 

Esse projeto de investigação implica 
necessariamente uma volta aos modos de 
compreensão das coisas, aos sentimentos 
e às atitudes das comunidades humanas 
primitivas: “toda teoria deve começar 
pelo ponto onde a matéria em questão 
começou a tomar forma pela primeira 
vez”. Para Vico, somente quando o 
investigador se liberta da idéia de que os 
seres humanos sempre se consideraram a 
si mesmos e interpretaram o mundo de 
maneira distinta do modo de ver do pró- 
prio investigador, é que ele se capacita a 
reconhecer os sentimentos, atitudes e 
concepções de outras épocas. 


A chave da ciência 


O pesquisador das coisas humanas, 
liberto dos preconceitos de seu tempo e 
dos sistemas racionalistas e abstratos, 
deve mergulhar — segundo Vico — nos 
aspectos mais concretos da história a fim 
de conhecer verdadeiramente o homem e 
seus produtos. Material para isso Vico 
encontra sobretudo na linguagem, a qual 
conserva em seu seio os mitos, as fábu- 
las, as tradições e expressões do espirito 
humano. Vico procura, assim, uma união 
intima entre filologia e filosofia. 

Para Vico, o papel especialmente 
importante da linguagem reside no fato 
de que os termos empregados pelo 
homem, em sua grande maioria, an- 
clunde os mais teóricos ec abstratos, 
acham-se profundamente enraizados em 
remotas formas de vida e de experiência. 
Assim, estudando-se etimologicamente a 
derivação das palavras, iluminam-se não 
só as condições ambientais de gerações 
anteriores, mas também os efeitos mais 
característicos dessas condições; o dis- 
curso e o pensamento ligam-se intima- 
mente. A linguagem não constitui um 
meio artificial que os homens teriam 
inventado deliberadamente para expres- 
sar idéias preexistentes; pelo contrário, 
ela desenvolveu-se naturalmente, e o 
curso de seu desenvolvimento é insepa- 
rável do curso do espírito humano. 

Analisando a evolução da linguagem, 


Segundo o historiador De Sanctis, a Ciência Nova é uma obra “prenhe de 
ressentimentos, de adivinhações, de idéias científicas, de verdades e 
descobertas; obra de fantasia incitada pelo talento filosófico e solidificada 
pela erudição”. (Desenho de Domenico Antonio Vaccaro, sob direção do próprio 
Vico, para ilustrar o conteúdo da obra; Biblioteca Municipal de Milão.) 


399 


FABBRI 


OS PENSADORES 


ili St-CX 2 


vação so 


“0H, BAPTISTAE VICK 
DB 


JUNIVERSI JURIS. 


UNO PRINCIPIO; ET FINE UNO 
Liber Unus 
AD AMPLISSIMUM VIRUM 
FRANCISCUM 
VENTURAM 
A REGIS CONSILIHS 


Ec Criminum Quacftorem Alterum. 


Excudebet NustótrFelix Muy 
Ex Publica vrizate 


Ano cla Iooc Ex. 


FABBRI 


JOH. BAPTISTAE VICI 


In Recia NEAPOLITANA ACADEMIA 
ELOQUENTIAE PROFESSORIS 


LATINA4E ORATIONES 


Nunc primum colleêtae. 


NEAPOLI MDCCLXVI. 
Excud. JoserHUS RAYMUNDUS. 
AUCTORITATE PUBLICA. 


O filósofo italiano Benedetto Croce, intérprete do pensamento 
de Vico, afirma que a obra deste “assombra e quase espanta, tanta 
energia mental está nela contida”. (Frontispício de edições do século XVIII 
de duas obras de Vico: Sobre o Princípio e o Fim Unicos do Direito Universal 
e Orações Latinas, pertencentes ao acervo da Biblioteca Ambrosiana de Milão.) 


Vico distingue a linguagem mítica da 
linguagem silogíistica. A primeira, me- 
diante o emprego da mimese e da seme- 
lhança, animava toda a natureza, fazen- 
do dela um “vasto corpo” e abreviando o 
hiato final entre o som e a representação 
mental. Em termos da linguistica do sé- 
culo XX, poder-se-ia traduzir à concep- 
ção de Vico pela idéia de que essa lin- 
guagem ainda não se assentara de todo 
no esquema da dupla articulação, pelo 
qual há, no interior do signo, elementos 
minimos, opacos, despidos de sigmifica- 
ção; a palavra mítica, ao contrário, ten- 
dénia a uma estrutura imanentemente 
dotada de significação, assim como o de- 
sejo e o medo, o prazer e a dor, que rece- 
hem, de um só golpe, determinado senti- 
do e valor para o sistema nervoso que os 
experimenta. 


490 


Por outro lado, ao distinguir fala miíti- 
ca e fala siogística, Vico não atribui à 
primeira o caráter de pura e necessária 
ilogicidade; ISSO seria incorrer no erro 
cartesiano de admitir exclusivamente as 
coordenadas opostas do verdadeiro e do 
falso. A proposição de Vico, ao contrá- 
rio, é a de quem descobriu o caráter pró- 
prio da atividade da fantasia, por meio 
do estudo de fábulas e figuras inscritas 
nas linguas antigas. Esse caráter dispõe 
de uma lógica, nada tem de bizarro nem 
de absurdo; & necessário entendê-lo em 
suas leis imanentes. Nesse sentido, Vico 
afirma que a fala heróica foi uma fala 
por semelhanças, imagens, compara- 
ções, nascida da carência de gêneros e de 
espécies necessárias para definir as coi- 
sas com propriedade e, em consequência, 
nascida “por necessidade de natureza 


FABBAI 


VICO 


comum a nações inteiras”. Ao escrever 
essas palavras, Vico intuiu com exatidão 
que a fala mítica constitui uma lingua- 
gem que inclui também um principio 
classificador, o que foi plenamente con- 
firmado pelos estudos de Mareel Mauss 
(1872-1950) e de Claude Lévi-Strauss 
(1908- ) sobre a coerência do pensa- 
mento selvagem. Para o autor da Ciência 
Nova, o processo de nomeação das expe- 
riências singulares faz-se mediante a 
incorporação dos “fantasmas” a proto- 
conceitos, os universais poéticos ou 
analógicos, que correspondem, no seu 
nível, aos universais lógicos dos siste- 
mas reflexivos: “Os homens, ignorantes 
das causas naturais que produzem as 
coisas, quando não as podem explicar 
nem sequer por coisas parecidas, dão às 
coisas a sua própria natureza, como o 
povo. por exemplo, diz que o imã está 
enamorado do ferro... O trabalho mais 
sublime da poesia é dar senso € paixão 
às coisas sem sentido, e é próprio das 
crianças tomar coisas inanimadas entre 
as mãos e, brincando, falar-lhes como se 
seia pessoas vivas”. Assim, para Vico. 

» pelo reconhecimento do lúdico que a 
Ed das constantes adquire sua 
possibilidade. Em outras palavras, a 
mente humana é naturalmente levada a 
deleitar-se no uniforme. É da natureza 
da crianças o processo de, a partir das 
idéias e dos nomes de homens, mulheres 
e coisas que conheceram pela primeira 
vez. apreender e nomear mais tarde 
todos os homens, mulheres e coisas que 
têm com os primeiros alguma seme- 
lhança ou relação. 

Assim, as formas de linguagem e as 
representações empregadas pelo homem 
fornecem valiosas indicações dos proces- 
sos mentais a que estava submetido. No 
entanto, para Vico, esses processos dife- 
rem notadamente no curso do tempo. 
Nesse sentido, Vico se esforçou para 
mostrar que as metáforas utilizadas no 
discurso moderno tinham, nas idades 
primitivas, um significado bastante dife- 
rente: representavam os termos segundo 
os quais o homem apreendia o mundo em 
sua volta e que, desse modo, “fazia sen- 
tido” para sua experiência. Vico insistia 
que a habilidade para empregar pala- 
vras gerais ou abstratas é um desenvol- 
vimento relativamente sofisticado, sendo 


Pd 
6/5 ri 


Durante quase toda sua vida, Vico foi 
um homem triste e amargurado pela 
equena ressonância de sua obra. 
(Retrato do filósofo, feito em 1831; 
Biblioteca Municipal de Milão.) 


que o povo, numa primeira instância. 
comunicava-se por meio de gestos, qua- 
dros ou objetos representativos e, mais 
tarde, pelo que se denomina “ universais 
imaginativos” ou “caracteres poéticos” 

Aquilo que é verdade para a linguagem 
aplica- se igualmente a outras manifesta- 
coes da vida humana e da consciência. 
Quando, por exemplo, se pensa nos even- 
tos descritos pela mitologia como apenas 
ficções extravs agantes, ou quando se 
inclina a tratar ira balhos de poesia ou 
pintura como objetos de prazer ou de 
entretenimento, deve-se tomar cuidado 
em não projetar essas atitudes nos povos 
antigos. Houve períodos em que, longe 
de ser encarada como uma espécie de 
embelezamento dispensável da exis- 
tência civilizada, a poesia era, ao con- 
trário, modo natural e universal da 


401 


FABBRI 


OS PENSADORES 


expressão humana. Do mesmo modo, as 
figuras das lendas e das fábulas senta- 
vam para os homens que as criaram 
fecundas personificações imaginativas 
de verdades que se relacionavam direta- 
mente com suas circunstâncias materiais 
e preocupações: “As fábulas”, escreveu 
Vico, “são as primeiras histórias dos 
povos gentios, e podem ser imensamente 
relevantes, e informativas, desde que 
corretamente interpretadas”. 


Deuses, heróis e homens 


Todo o trabalho de erudição filo - 
lógica foi empregado por Vico com 
a finalidade de investigar o sentido do 
universo humano em seu desenvolvi- 
mento histórico. Assim, partindo da 
idéia de que tudo aquilo que o homem 
sente, pensa e produz, em determinado 
tempo, mantém vinculações entre si, for- 


mando unidades estruturais, e partindo ' 


do princípio de que essas estruturas 
espirituais modificam-se com o correr 
dos tempos, Vico chegou à conclusão de 
que o homem percorre três etapas distin- 
tas em sua evolução: a idade divina, a 
idade heróica e a idade humana. 

Na idade divina, mostra Vico, a sabe- 
doria primitiva do gênero humano era 
uma sabedoria poética. Os homens que 
fundaram a sociedade humana eram 
“néscios, insensatos e horriveis bestas”, 
sem nenhum poder de reflexão, mas 
dotados de sentidos agudos e poderosa 
fantasia. Nas forças naturais que os 
ameaçavam, sentiam e imaginavam di- 
vindades terríveis e castigadoras; por 
temor dessas divindades, começaram a 
refrear os instintos, criando as famílias e 
as primeiras ordens civis. Desse modo, 
constituíram-se o que Vico chama repú- 
bliças monásticas, dominadas pela po- 
testade paterna e fundadas sobre o temor 
a Deus. 

A idade heróica teria surgido como 
resultado de altanças entre os chefes de 
famílias, com a finalidade de, por um 
lado, conter os ataques externos, e, por 


outro, evitar as dissidências internas 
entre os próprios dependentes. Assim, 


estabeleceu-se a oligarquia como forma 
de governo e a sociedade passou a ser 
dividida entre patrícios e servos ou 
escravos, dominados por leis cruéis. Sur- 


402 


giram as cidades, sob hegemonia da 
classe aristocrática, que cultivava as vir- 
tudes heróicas da piedade, da prudência, 
da moderação, da fortaleza e da magna- 
nimidade. Os homens faziam derivar sua 
própria nobreza de Deus e a fantasia 
prevalecia ainda sobre a reflexão. O uni- 
verso da cultura heróica era um universo 
de violência e espanto, de euforia c de 
êxtase, não existindo fronteiras entre 
imaginação e realidade. Na Ilíada ou no 
Antigo Testamento, obras caracteristicas 
da idade heróica, é interminável a lista 
de raptos, cruezas sem nome, deuses que 
exigem hecatombes. 

A idade heróica, segundo Vico, é suce- 
duo pela idade humana, engendrada por 
luta de classes: os plebeus passam a exi- 
gir direitos iguais e, pouco a pouco, os 
obtêm, nascendo, assim, os sistemas 
legais. Depois da metafísica sentida ou 
imaginada dos tempos heróicos, o 
homem passa a explicar o universo 
mediante uma metafísica raciocinada; a 
relação com uma ordem providencial 
toma a forma de reflexão, que procura 
rastrear a idéia de bem, sobre o qual 
todos os homens devem estar de acordo. 
A idade humana é a fase na qual surgiu a 
filosofia platônica, que procurou encon- 
trar no mundo das idéias a conciliação 
entre os interesses privados e o critério 
de uma justiça comum. No entanto, o 
afrouxamento dos laços tradicionais e o 
questionamento dos costumes e dos valo- 
res, resultantes do estabelecimento de 
repúblicas livres e democráticas, acarre- 
tam, segundo Vico, a dissolução e a cor- 
rupção inevitáveis. Assim terminaria um 
ciclo histórico e a sociedade reverteria 
ao barbarismo primitivo de que surgiu, 
amiciando-se novo ciclo. 


A providência divina 


O próprio homem cria os ciclos histó- 
ricos, mas isso, segundo Vico, não signi- 
fica que todas as consequências e desdo- 
bramentos de seus atos estejam em suas 
mãos. É na relação com uma história 
ideal e eterna que a história humana 
adquire seu verdadeiro sentido. Em ou- 
tros termos, Vico vale-se da idéia cristã 
de providência divina a fim de explicar o 
significado mais profundo da história do 
homem. A ação da providência divina, 


VICO 


PRINCIP)] 


SCIÊNZA NUOVA 
GIAMBATTISTA VICO 


D'INTORNO ALLA COMUNE NATURA 
DELLE NAZIONI 


IN QUESTA TERZA IMPRESSIONE 


Dal mcedefimo Autore in un gran numero di luoghi 
Corrctta , Schiarita, e notabilmente Accrefciuta 


AQ I. 


a Vem. pe rima go tu 


a A E 


IN NAPOLI MDCCKLIV. 


NELLA STAMPERIA MUZIANA 
A fpefe di Gaetano, e Stcffano Elia, 


CON LICENZA DH' SUPERIQRI 


Os Princípios de uma Ciência Nova sobre a Natureza Comum das Nações, título 
completo da principal obra de Vico, foram escritos e reescritos diversas 
vezes. O filósofo napolitano dedicou-se ao livro por mais de vinte anos 
e supervisionou cuidadosamente as três edições feitas em sua vida, em 1725, 
1730e 1744. Acima, o frontispício da terceira edição feita pelo autor. 


403 


FABBRiI 


OS PENSADORES 


contudo, não é entendida pelo autor da 
Ciência Nova, como uma intervenção 
exterior, a corrigir milagrosamente as 
orientações e aberrações do homem. A 
história ideal e eterna, com sua ordem 
providencial, não seria transcendente à 
história temporal, não seria estranha e 
externa a ela; se assim fosse, o único 
agente da história seria Deus e não o 
homem. Por outro lado, Vico nega igual- 
mente que a história ideal e eterna seja 
imanente à história temporal humana, e 
que a ordem desta última esteja sempre 
garantida por aquela. Em outras pala- 
vras, a providência não deve ser enten- 
dida como necessidade racional intrin- 
seca aos acontecimentos históricos, 
como uma razão impessoal que atua 
sobre os individuos e coordena suas 
ações. Nesse caso, a reprodução da his- 
tória ideal e eterna nas histórias particu- 
lares de cada nação seria necessária e 
uniforme: nenhuma história particular 
poderia separar-se, em nenhum evento, 
da sucessão providencial dos periodos. 


Em suma, não sendo intervenção mila- 
grosa nem determinação imanente ao 
processo históricp, a providência divina 
é concebida por Vico como valor e norma 
situados além (e nesse sentido é trans- 
cendente) dos acontecimentos particula- 
res: é o valor ideal que sustenta os 
acontecimentos em seu curso ordenado, 
mas ao qual os acontecimentos jamais se 
conformam totalmente. Somente na rela- 
ção com a providência o homem pode 
criar a capacidade de produzir o mundo 
da história e conservá-lo. 

Para Vico, a providência está presente 
no homem, primeiramente. sob a forma 
de sabedoria poética, isto é, de um obs- 
curo mas certo aviso; depois como sabe- 
doria reflexiva, ou seja, como verdade 
filosófica. Mas tanto em um caso quanto 
em outro, trata-se de sabedoria essen- 
cialmente religiosa porque se refere a 
uma ordem transcendente e divina. 
Assim se compreende a apaixonada defe- 
sa da função cívica da religião, que Vico 
faz na conclusão da Ciência Nova. 


1668 — 4 23 de junho, em 
Nápoles, nasce Giambattis- 
ta Vico. 


1694 — Vico | gradua-se 
em direito pela Universidade 
de Nápoles. 


1699 — É indicado para a 
cadeira de eloquência na 
mesma universidade. 

1709 —. Publica Sobre o 
Método dos Estudos de 


CRONOLOGIA 


Nosso Tempo. 

1710 — Vico publica So- 
bre a Antiquissima Sabedo- 
ria dos Italianos a ser com- 
pletado. 

1720 — Publicação de So- 
bre o Princípio e o Único 
Fim Únicos do Direito Uni- 
versal, de Vico. 

1725 — Vico publica os 
Princípios de uma Ciência 


BIBLIOGRAFIA 


Nova sobre a Natureza Co- 
mum das Nações e, no mes- 
mo ano, escreve sua Auto- 
biografia. 

1730 — Surge a 2.º edição 
da Ciência Nova, totalmente 
reescrita. 

1735 — Vico torna-se his- 
toriador real. 

1744 — Morre a 23 de ja- 
neiro, em Nápoles. 


ABBAGNANO, N.: Historia de la Filosofia, tomo II, Montaner y Simon, Barcelona, 1955. 


Ithaca, Nova York, 1944. 


BERLIN, I.: The Philosophical Ideas of Giambattista Vico in Art and Ideas in Eighteenth Cen- 


tury Italy, Roma, 1960. 


Bosi, A.: O Sere o Tempo da Poesia in Discurso n.º 3, USP, São Paulo, 1973. 
CAPONIGRI, À. R.: Time and Idea: The Theory of History in Giambattista Vico, Londres, 


1953. 


Croce, B.: La Filosofia di Giambattista Vico, Laterza, Bari, 1947. 

Giusso, L.: La Filosofia di Giovan Battista Vico e VEtà Barroca, Roma, 1943. 
SABARINI, R.: 1/ Tempo in Giovan Battista Vico, 1954. 
Monpotro, R.: Problemas y Métodos de Investigación en la Historia de Filosofia, Editorial 
Universitaria de Buenos Aires, Buenos Aires, 1960. 


- SÃO PALIO — RRASI 


1074 —- ARRIL GA CUITURAL FINDIISTRIAI 


e COPYRIGHT MUNDIAI 


— CAPÍTULO 29 


Fito BRR 


fia 


— 


natal 


OS PENSADORES 


No Museu de Versalhes encontra-se esta tela, em que Antoine Coypel (1671-1772) 
retratou a última cerimônia presidida por Luís XIV (1638-1715), ao receber o 
embaixador da Pérsia. Montesquieu se teria inspirado no acontecimento para a 
composição das Cartas Persas. Na página anterior: busto de Montesquieu, por Jean 
Baptiste Lemoyne, Museu de Artes Decorativas, Bordeaux. (Foto Fabbri.) 


um dia qualquer do ano de 1719, 
N em Paris, um nobre da Pérsia tra- 

vou conhecimento com uma figura 
que lhe pareceu muito estranha: um geô- 
metra, profundamente absorto a pensar, 
há dias, em determinada questão de 
matemática. Um amigo comum fez as 
apresentações e os três dirigiram-se 
para um café, onde a estranha persona- 
gem foi recebida com muita solicitude 
pelos presentes, chegando mesmo a ser 
alvo de maiores atenções do que alguns 
conhecidos espadachins, que ali beberi- 
cavam. O espanto do persa era cada vez 
maior, pois a conversação do geômetra 
era a mais singular que seu espirito 
oriental jamais tinha ouvido. O geôme- 
tra insistia para que tudo fosse dito com 
exatidão e ofendia-se com a falta de 
rigor de pensamento. Qualquer fato, por 
mais corriqueiro, era explicado ao atô- 
nito persa através de estranhas compa- 
rações. Um violento encontrão entre o 
geômetra e outro homem que passava 


406 


fez com que os dois se projetassem ao 
chão. O geômetra explicou a ocorrência 
como o choque e a deslocação de dois 
corpos, em função de suas respectivas 
massas e velocidades. O persa não 
entendeu a explicação, nem o diálogo 
que se seguiu entre os dois desastrados. 
O outro homem era, por coincidência, 
um velho amigo do geômetra, e tinha 
acabado de publicar uma tradução das 
Odes de Horácio. Aproveitou o encontro 
para contar a novidade, mas obteve 
como resposta a censura severa do geô- 
metra, que considerava inútil tentar 
fazer renascer os ilustres homens do 
passado. As traduções poderiam dar- 
lhes um corpo, mas não seriam sufi- 
cientes para fazê-los viver de novo. O 
arremate da censura, feita pelo geôme- 
tra, assumiu forma de interrogação: por 
que o amigo não se dedicava à tarefa 
mais útil de pesquisar verdades novas, 
que um simples cálculo permitiria des- 
cobrir todos os dias? 


MONTESQUIEU 


isse episódio encontra-se nas Cartas 
Persas de | Montesquieu, e, embora ficti- 
CIO, não é por isso menos característico 
da época em que é situado: o século 
XVI, chamado o Século das Luzes. 


O Século das Luzes 


A filosofia do século XVII inaugu- 
rara as principais vertentes do pensa- 
mento moderno: de um lado. o raciona- 
lismo, que, partindo de Descartes 
(1596-1650), pretendia reduzir todo o 
conhecimento cientifico a idéias clar 
distintas, sob a inspiraç ão das matentaá- 
ticas; de outro, o empirismo inglês, que. 
desde Francis Bacon (1561-1626), mos- 
trava que todas as idéias se originavam 
na experiência sensivel, nada havendo 
no intelecto que antes não houvesse exts- 
tido nos sentidos. Apesar de divergirem 
quanto à origem do conhecimento, essas 
duas correntes concordavam num ponto 
fundamental: a verdade é obra do 
homem. Consequentemente, o critério de 
legitimidade dos conhecimentos seria a 
evidência — inteligível ou sensível —, e 
não a autoridade. O desvendamento dos 
segredos da realidade estaria ao alcance 
das condições humanas, naturais, de 
conhecimento: abolia-se o sentido de 
mistério que envolvera a visão de mundo 
medieval e em seu lugar colocava-se a 
noção de problema, como algo que pode- 
ria ser resolvido desde que para tanto se 
dispusesse do instrumento metodológico 
adequado. O próprio Deus que aparece 
como peça fundamental da construção 
metafísica do cartesianismo é um Deus 
entendido como fundamento último da 
validade do conhecimento científico e 
como garantia para a correspondência 
existente entre as evidências subjetivas e 
a objetividade. 

A confiança na ciência apresenta-se 
como caracteristica do espirito moderno, 
herdeiro de Descartes e de Bacon. Essa 
confiança alimenta uma expectativa que 
passou a animar a modernidade: a de 
que todos os problemas, em quaisquer 
setores, viessem a ser elucidados, escla- 
recidos. iluminados. O av anco da ciência 
— passou-se a acreditar firmemente — 
afastaria todas as sombras e instauraria 
a claridade. a lúcida compreensão. Em 
lugar do mistêrio, das crendices. da cega 


as e 


Avida literária de Montesquieu 
transcorreu durante o reinado de Luis 
XV (1710-1774), acima retratado por 

Lambert Sigisbert Adam (1700-1796). 
(Museu Vitória e Alberto de Londres.) 


40% 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Durante o lon 


submissão à autoridade, seria instalado 
o primado da razão, o reino das luzes. E, 
se no plano do conhecimento isso signifi- 
caria o fim da ignorância e da supersti- 
ção, no plano social e político represen- 
taria a base para a defesa da liberdade e 
da igualdade entre os homens. Um tal 
otimismo é que alimenta a raiz do pen- 
samento do século XVIII, que se tomou 
conhecido como a época do Iluminismo, 
da Ilustração, ou como o Século das 
Luzes. Particularmente na França, na 
Inglaterra e na Alemanha, esse periodo 
histórico caracterizou-se por um estado 
de espírito que se manifesta não apenas 
na reflexão filosófica como também nos 
diversos aspectos da atividade humana. 
O otimismo é o traço fundamental dessa 
generalizada atmosfera cultural: oti- 
mismo que transparece tanto na convic- 
ção de que a razão, em seu progresso, 


408 


o reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que se estendeu de 1643 até 
1715, a cultura clássica francesa atingiu seu ponto culminante. Grandes nomes da 
literatura e das artes plásticas surgiram nesse período. (Quadro a óleo 
executado por Pierre Mignard (1610-1695), retratando Luís XIV com sua filha, 

Mme de Maintenon, o Duque de Borgonha e o Duque D'Anjou.) 


esclarecerá todas as questões, quanto na 
esperança de que seja possivel reorga- 
nizar as bases da sociedade através de 
princípios estritamente racionais. 

O desenvolvimento das ciências natu- 
rais permite aos pensadores da Ilustra- 
ção concluir que o domínio efetivo da 
natureza constitui a tarefa principal do 
homem. Por outro lado, a idéia de pro- 
gresso continuo dos conhecimentos le- 
va-os a considerar a história como relato 
dos erros cometidos pela humanidade — 
erros compreensíveis enquanto signifi- 
cam a precária expansão da razão no 
passado. O Iluminismo — como mostra 
Voltaire em sua critica a Leibniz — não 
advoga um otimismo metafísico; seu oti- 
mismo decorre tão-somente do advento e 
do progresso da consciência que a huma- 
nidade teria de seus próprios erros e 
acertos. E é tal otimismo que transpa- 


ARBORIO MELLA 


MONTESQUIEU 


“Platão agradecia por ter nascido no tempo de Sócrates; e eu rendo-lhe graças por 
me ter feito nascer no governo em que vivo e por ter querido que eu 
obedecesse aos que me fez amar.” Montesquieu nasceu durante o remnado de Luís 
XIV, o Rei Sol, que mandou construir, em 1661, o famoso Palácio de Versalhes, 

visto acima numa tela de Pierre Patel, o Velho (1605-1671). (Museu de Versalhes.) 


rece nos diferentes campos de investiga- 
ção ou de atividade. No aspecto social e 
político manifesta-se através do “despo- 
tismo esclarecido”; no terreno da ciência 
exprime-se no pressuposto de que o 
conhecimento da natureza é o meio para 
sua dominação: no campo religioso e 
moral apresenta-se por intermédio da 
tese de que o esclarecimento das origens 
dos dogmas e das leis seria o único 
recurso para se chegar a uma “religião 
natural”, igual para todos os homens. 


Uma nova razão 


A confiança na razão manifestada 
pelo Iluminismo não significa a simples 
adoção do racionalismo do século XVII. 
Este abriu o caminho para o Século das 
Luzes, mas, na verdade, o século XVIII 
teve sua própria concepção de razão. Em 


primeiro lugar, a Ilustração, em geral, 
valoriza o conhecimento sensível. embo- 
ra admita que a realidade apreendida 
pelos sentidos é. no fundo, racional. Mas 
a razão mesma é entendida de forma 
diferente: no racionalismo cartesiano, ti- 
pico do século XVII, a razão era vista 
como uma faculdade capaz de conduzir 
aos princípios constitutivos da realida- 
de: sua função era fundamentalmente a 
de decompor a complexidade dos dados 
aparentes até atingir seus componentes 
mais simples e a partir deles reconstruir 
a realidade. A razão analítica do carte- 
sianismo é uma razão de alcance metafi- 
sico, que. justamente por isso, opera 
dedutivamente a partir de princípios que 
não estariam fora do sujeito, mas no seu 
próprio interior. como “idéias inatas”. 
Por isso é que Descartes podia prescre- 
ver a sondagem da subjetividade como 


409 


FARBRI 


OS PENSADORES 


Segundo o crítico Ferdinand Brunetieére (1849-1906), o autor do Espírito das Leis 
era um homem de amabilidade seca e beneficência magnánima; até nas 
fórmulas de Ed çã colocava um toque irônico, e existiria algo de 


enigmático e des 


enhoso até em sua arte de agradar. (O Castelo de La Brede 


provinha da família materna de Montesquieu. Alinasceu e viveu toda a vida.) 


caminho de acesso às verdades cientifi- 
cas. Já a razão do Iluminismo é de outro 
tipo: trata-se não de um princípio, mas 
de uma força, de uma faculdade que se 
desenvolve com a experiência. É uma 
razão operativa, que atua sobre dados 
provenientes dos sentidos. É uma razão- 
atividade, não uma razão-substância 
(como a res cogitans de Descartes); é 
uma razão sem metafísica, e que se con- 
verte até num instrumento de combate às 
entidades metafísicas. O racionalismo 
do século XVII tendia a construir siste- 
mas fechados, por via dedutiva: todos os 
conhecimentos decorreriam de princi- 
pios básicos e evidentes, através da pura 
demonstração lógica. Os filósofos do Sé- 
culo das Luzes renunciam a essa preten- 
são sistemática e procuram outro con- 
ceito de verdade e de filosofia, 
entendidas como construções livres e 
móveis, ao mesmo tempo concretas e 
vivas. A razão não é mais concebida 


410 


como repositório de verdades eternas, 
mas antes como fonte de energia intelec- 
tual. Mais que um “fundamento”, a 
razão da Ilustração constitui um “cami- 
nho” que, em princípio, poderia e deve- 
ria ser percorrido por todos os homens. 
As fontes inspiradoras da transfor- 
mação do conceito de razão encontram- 
se nas regras de investigação científica 
contidas na fisica newtoniana. O cami- 
nho trilhado por Newton (1642-1727) 
não é a dedução lógica, mas a observa- 
ção dos fenômenos conjugada à análise 
matemática. Não começa estabelecendo 
determinados princípios ou conceitos ge- 
rais para dirigir-se até o conhecimento 
de cada fenômeno particular, mas proce- 
de de maneira exatamente mversa: os 
fenômenos constituem o dado, enquanto 
os princípios são o inquirido. Os pontos 
de partida do conhecimento da natureza 
são a observação e a experiência, e o que 
se coloca como objetivo final não é o 


FABBRI 


MONTESQUIEU 


fenômeno concreto tal como se dá 
imediatamente, mas sua legalidade ma- 
temática, ou seja, sua estruturação 
segundo número e medida. 

Aliam-se, assim, os dados prove- 
nientes dos fenômenos naturais e os 
princípios e leis matemáticas da razão. 
As duas ordens de coisas implicam-se 
mutuamente, de tal forma que legali- 
dade ou razão não constitui um conjunto 
de regras passíveis de serem captadas e 
enunciadas antes dos fenômenos como se 
fossem elementos apriorísticos, isto é, 
independentes do conhecimento sensível. 
Tampouco os fenômenos podem ser 
apreendidos em estado puro. Consequen- 
temente, a nova lógica procurada pelos 
filósofos do século XVIII não poderia 
mais ser a dos escolásticos — criticada 
como mero jogo de palavras — nem a dos 
conceitos matemáticos puros, mas sim 
uma lógica dos fatos. O espírito — pen- 
sam os filósofos do século XVIII — deve 
abandonar-se aos fenômenos e regular- 
se incessantemente por eles. nos quais 
encontraria sua própria verdade e medi- 
da. Assim seria possível alcançar as 
autênticas correlações entre sujeito e 
objeto, intelecto e realidade, estabele- 
cendo-se entre esses pólos as formas de 
adequação e correspondência que são as 
condições do conhecimento cientifico. 

Herdada da fisica newtoniana e radi- 
calmente diferente do racionalismo dos 
filósofos do século anterior. essa nova 
maneira de conceber a razão caracte- 
rizou 0 pensamento do século XVIII pela 
amplitude que ganhou em todos os 
domínios da reflexão, podendo aplicar- 
se a outros domínios além do dos fenô- 
menos naturais. À confiança na ciência 
passou a alimentar a esperança de que 
todos os problemas poderiam ser resol- 
vidos, “iluminados” 

Expressão característica do 
nismo foi Montesquieu 


Humi- 


Da província até Paris 


Charles Louis de Secondat, Senhor de 
La Brêéde e Barão de Montesquieu, nas- 
ceu no dia 18 de janeiro de 1689, no 
Castelo de La Breêde, arredores de Bor- 
deaux. A mãe chamava-se Marie Fran- 
coise de Pesnel e provinha de família de 
origem inglesa e dedicada à produção de 


EE RAARARASAL! 


au 


om sagas 


Crítico mordaz dos costumes e das 

pessoas, o autor das Cartas Persas 

recebeu o troco numa caricatura de 
Leone Ghezzi. Uma gravura do século 
XVIII o retrata mais simpaticamente. 


41] 


BETTMANN ARCHIVE INC. 


FABBRI 


OS PENSADORES 


vinhos. O pai, Jacques de Secondat. des- 
cendia de familia nobre não muito anti- 
ga, que ganhou maior importância nos 
primeiros anos do século XVL 

O menino Charles Louis aprendeu as 
primeiras letras no próprio lar e, quando 
completou onze anos de idade. foi envia- 
do para o Colégio de Juilly, na Diocese 
de Meaux. A escola abrigava os filhos 
das mais ricas famílias da região e era 
dirigida pelos padres oratorianos. Isso 
foi decisivo para a formação intelectual 
de Charles Louis, pois esses sacerdotes 
orientavam todo o ensino pelas coorde- 
nadas do espirito iluminista. 

Em 1705, com dezesseis anos, Mon- 
tesquieu continuou os estudos na Facul- 
dade de Direito da Universidade de Bor- 
deaux e, três anos depois, encontrava-se 
em Paris adquirindo experiência prática 
na profissão de advogado. Na capital 
estagiou por dois anos, até 1713, quan- 
do foi obrigado a voltar para Bordeaux, 
em virtude da morte do pai. Passou, 
então, a dirigir os negócios da família e, 
dois anos após, contraíia núpcias com a 
jovem Jeanne de Lartigue, que lhe daria 
três filhos, duas meninas e um menino. 
Com a esposa parece ter vivido bem, 
muito embora não fosse um marido 
inteiramente fiel. tendo tido alguns 
casos amorosos fora do casamento. 
Admirava. contudo, a habilidade de 
Jeanne nos negócios, e com isso a fortu- 
na familiar caminhava a contento. Um 
ano após o casamento os bens do casal 
foram aumentados com o falecimento de 
um tio paterno, Jean Baptiste, do qual 
Charles Louis de Secondat herdou consi- 
deráveis propriedades, o cargo de prési- 
dent à mortier do Parlamento de Bor- 
deaux e o título de Barão de 
Montesquieu (o de Senhor de La Brêde 
provinha da mãe). 

Consolidada a posição financeira para 
o resto da vida, o ainda jovem Montes- 
quieu passou a dedicar-se, ao lado da 
administração da fortuna, ao estudo do 
direito romano e às ciências naturais, 
especialmente biologia, geologia e fisi- 
ca, na recém-fundada Academia de Bor- 
deaux. Firmava-se, assim, aquela for- 
mação iluminista, Iniciada no Colégio de 
Juilly, e que procurava aliar o dominio 
das ciências fisicas ao das questões 
humanas. Em Bordeaux, Montesquieu 


412 


redigiu, em 1716, uma Dissertação 
sobre a Política dos Romanos no Domi- 
nio da Religião, e fez múmeras comuni- 
cações sobre assuntos vários. como o 
fenômeno físico do eco e a função das 
glândulas renais. Além disso, projetou 
escrever uma Jistória Física da Terra 
Antiga e Moderna. 


Um crítico mordaz 


Ao lado do cientista, germinava em 
Montesquieu o talento artístico, e, em 
1721, aparece sua primeira obra literá- 
ria: as Cartas Persas. A obra sur- 
preendeu a todos, que não esperavam 
dele tão brilhante humor. 

As Cartas Persas retratam satirica- 
mente toda a civilização francesa, atra- 
vês da suposta correspondência de dois 
viajantes persas em andanças por. Paris 
e desejosos de “instruir-se nas ciências 
do Ocidente”. Em Paris contemplam 
uma cidade onde “as casas são tão altas 
que se as julgaria habitadas por astrólo- 
gos” e tão extremamente povoadas que. 
“quando todo mundo desce para as ruas. 
faz-se uma bela confusão”. 

O rei da França parece-lhes “o mais 
poderoso príncipe da Europa. Não tem 
minas de ouro como o rei da Espanha, 
seu vizinho; mas tem mais riquezas do 
que ele. porque as tira da vaidade dos 
súditos, inesgotável mais que as mi- 
nas... Esse rei é um grande mágico: 
exerce seu império sobre o próprio espi- 
rito dos súditos, fazendo-os pensar como 
quer. Se não tem mais que um milhão de 
escudos em seu tesouro e tem necessi- 
dade de dois, não precisa fazer mais do 
que persuadi-los de que um escudo vale 
dois, e todo mundo acredita”. 

À crítica da autoridade política, ca- 
racterística do Século das Luzes. ajun- 
ta-se a da autoridade religiosa, quando 
os persas encontram “um outro mágico, 
mais forte que o rei e não menos mestre 
de seu próprio espirito quanto do espi- 
rito dos outros. Esse mágico chama-se 
Papa e faz crer aos súditos que três não 
é mais que um, que vinho não é vinho, 
que pão não é pão, e mil outras coisas da 
mesma espécie. Para não dar descanso 
aos súditos e não deixá-los perder o há- 
bito da crença, fomece a eles, de quando 
em quando, certos artigos de fe”. 


MONTESQUIEU 


“O estudo tem-me sido remédio contra todos os dissabores da vida; não tive 


nunca aborrecimento algum que uma hora de estudo não dissi 


E) 
Sse. 


Montesquieu gostava também dos prazeres mundanos, comuns na vida cortesã do 


século XVIII, como os representa 


snos quadros de Antoine Watteau. (Watteau: 


Festas Venezianas, Galeria Nacional da Escócia, Edimburgo.) 


O sarcasmo estende-se aos costumes, 
e Montesquieu põe na boca dos persas 
palavras de admiração ao encontrarem 
mulheres muito habilidosas, que “fazem 
da virgindade uma flor que perece e 
renasce todos os dias. e que se colhe na 
centésima vez mais dolorosamente do 
que na primeira”. Os caprichos da moda 
entre os franceses parecem-lhes sur- 
preendentes, e “não se acreditaria em 
quanto custa ao marido colocar sua mu- 
lher na moda”. 

Assim vai passando pelos olhos admi- 
rados dos viajantes tudo aquilo que 
Montesquieu desejava criticar na socie- 
dade de seu tempo, fossem os costumes 


sociais e políticos, fossem teorias filosó- 
ficas, como a do Leviatã de Hobbes 
(1588-1679), ou as doutrinas teológicas 
da Igreja Católica Romana. 

Ao renome literário, alcançado com 
as Cartas Persas, seguiu-se O êxito so- 
cial nos salões parisienses, e Montes- 
quieu passou a frequentar os círculos da 
corte, nos quais foi introduzido pelo 
Duque de Berwick, que já conhecera 
antes como governador militar de Bor- 
deaux. O salão de Mme de Lambert o 
teve como figura proeminente, e no 
Clube do Entresol conheceu o Marquês 
D'Argenson e o político, notável orador e 
historiador Bolingbroke (1678-1751). 


413 


OS PENSADORES 


O Cardeal Dubois proibiu as Cartas 
Persas, quando primeiro ministro de 
Luís XV. (Estátua funerária esculpida 


ue 
e Paris.) 


por Guillaume Coustou, 
se encontra na Sainte Église 


AA 


FABBRI 


A Academia de Bordeaux continuava 
a merecer suas atenções e, em 1725, ah 
revelou alguns fragmentos de um Trata- 
do Geral dos Deveres, primeira manifes- 
tação de suas intenções no sentido de 
dedicar-se a trabalhos de grande fôlego. 
Enquanto isso não se concretizava, redi- 
giu, em 1725, um pequeno ensaio sobre 
erotismo, intitulado O Templo de Gnido. 

Um ano depois, desinteressou-se pelas 
rotineiras tarefas no Parlamento de Bor- 
deaux. Voltou, então, a Paris, a fim de 
tentar o ingresso na Academia Francesa. 
Apesar da oposição do Cardeal Fleury, 
por causa de algumas passagens das 
Cartas Persas em que a Igreja era criti- 
cada, conseguiu eleger-se, e tomou posse 
de sua cadeira em 24 de janeiro de 
1728, seis dias após completar, 39 anos 
de idade. 

Apesar de não ser mais um jovem, 
Montesquieu acreditava ser necessário 
completar sua formação, e passou a via- 


jar com esse objetivo. A primeira etapa 


foi cumprida em abril de 1728, em 
Viena, acompanhado apenas por Lorde 
Waldegrave. Da capital austriaca pre- 
tendia partir para uma expedição às 
minas da Hungria, juntamente com o 
Principe Eugênio. Em seguida, percor- 
reu as cidades italianas e tomou contato 
com as obras do filósofo Giambattista 
Vico (1668-1744) e do historiador Pre- 
tro Giannone (1676-1748). Da Itália se- 
guiu para a Alemanha e a Holanda, até 
chegar à Inglaterra, onde permaneceu 
até 1731, num dos mais férteis periodos 
de sua vida. Ah foi admitido como mem- 
bro da Academia Real e entrou em con- 
tato com os escritores  Walpole 
(1717-1797), Swift (1667-1745) e Pope 
(1688-1744). Relacionou-se  ampla- 
mente com os círculos políticos da capi- 
tal britânica, tornou-se maçom e recebeu 
todo o importante influxo do pensa- 
mento inglês, característico do Ilumi- 
nismo. 

Completado o círculo de viagens a que 
se propusera para enriquecer o conheci- 
mento das coisas e dos homens, voltou 
ao Castelo de La Brêde, passando a se 
dedicar, durante dois anos, exclusiva- 
mente às atividades literárias. Fruto 
desse recolhimento foi um pequeno tra- 
tado sobre 4 Monarquia Universal, 
publicado em 1734, um ensaio sobre a 


MONTESQUIEU 


Constituição inglesa, que só veio à luz 
em 1748, e as Considerações sobre as 
Causas da Grandeza e Decadência dos 
Romanos, impressas em 1734, obra em 
que atingia a maturidade intelectual. 
Não foi o mesmo retumbante êxito de 
público que as Cartas Persas, mas confe- 
riu reputação de grande seriedade ao 
autor; especialistas viram no trabalho 
uma brilhante tentativa de aplicação do 
método científico ao estudo dos fatos 
históricos. 

O maior fruto dessa seriedade, entre- 
tanto, ainda não tinha sido produzido, 
mas estava em germe há muito tempo no 
espírito de Montesquieu. A constante 
vivência e meditação sobre as leis e a 
política pouco a pouco fizeram crescer 
em sua mente o projeto de uma grande 
obra. Logo depois da publicação das 
Considerações, dispôs-se a realizá-la. 
Para tanto, formulou extenso programa 
de leituras sobre direito, história, econo- 
mia, geografia e teoria política, e con- 
tratou uma equipe de secretários (as 
vezes, seis trabalhavam simultanea- 
mente), como leitores e amanuenses, que 
deveriam preparar parte do material. 
Por volta de 1740, o plano geral estava 
pronto e boa parte já redigida; em 1743 
o texto estava completo, faltando ainda 
uma demorada revisão, que se estendeu 
até 1746. Em novembro de 1748, final- 
mente, a obra foi publicada pelo editor 
suíço J. Barrillot, com um extenso titu- 
lo: Do Espírito das Leis ou Das Relações 
que as Leis Devem Ter com a Constitui- 
ção de Cada Governo, Costumes, Clima, 
Religião, Comércio, etc. 


Um homem trangjiiilo 


O êxito da obra foi tão grande ou 
maior do que a extensão dos assuntos 
tratados. O público, que não esperava 
um tratado comparável à Política de 
Aristóteles, foi tomado de surpresa. 
Todavia, reações contrárias logo come- 
caram a aparecer, e o autor viu-se ataca- 
do por todos os lados. Extenso número 
de panfletos e artigos na imprensa foram 
escritos, e as denúncias sucediam-se na 
Sorbonne e entre o clero francês, para 
culminar em Roma com a colocação da 
obra no index dos livros proibidos, em 
1951. 


CETIRES 
RSANES, 


Par M pe MoNTESQULIrL. 
NOUVEILLE EVITION, 
AUGMENTEE DE DOUZE LEI TRLA 


QUI NT SF TROUVENT POINT DANS 
LES PRÉCLDENTES, 


E: dunc Table des Maticros, 


4 AMSTERDAM ET A LEIPSICA, 
Clos AnxstTirrTMerors. 


aro vo se VE mm + ereta meee:s rem 
me mr em 1 cam 2 er emma 


Mo DOC LNiv, 


As Cartas Persas, primeira obra 
publicada por Montesquieu, em 1721, 
constitui uma sátira aos costumes da 
época. (Frontispício das Cartas 
Persas, Biblioteca Ambrosiana, Milão.) 


Montesquieu respondeu à onda de 
protestos com o mais brilhante de seus 
escritos, a Defesa do Espírito das Leis, 
em 1750. 

Como resultado, aumentou ainda mais 
a fama e as solicitações dos círculos cul- 
tos de Paris, onde possuia amigos e 
admiradores. Frequentava os concor- 
ridos salões de Mme de Geoffrin, Mme 
du Tencn e Mme du Deffand, onde se 
deliciava com os prazeres da sociedade e 
mantinha relações no mundo das letras. 

Os editores da Encyclopédie ou Dic- 
tionnaire Raisonné des Sciences solicita- 
vam-lhe a colaboração; quando convi- 
dado por D'Alembert para escrever 
sobre assuntos políticos. declinou do 
convite e propôs-lhe um artigo sobre o 
gosto. Seria sua última obra. 

Os últimos anos passou em La Brêde, 


415 


FABBRI 


OS PENSADORES 


embora viajando constantemente. Nas 
terras que sempre amou com especial 
carinho, vivia tranquilamente a cuidar 
das vinhas, cujo produto sabia vender 
muito bem. A única coisa que o preocu- 
pava era o lento enfraquecimento da 
visão, que aos poucos o tornaria cego. 
Faleceu em Paris a 10 de fevereiro de 
1755, com sessenta e seis anos de idade. 

Em 5 de junho do mesmo ano, Mau- 
pertuis pronunciou um elogio fúnebre na 
Academia Real de Ciências de Berlim, 
retratando com precisão o que fora o 
homem Montesquieu: “Sempre inclinado 
à brandura e à humanidade, reccava 
mudanças das quais os maiores gênios 
nem sempre podem prever as consequên- 
cias. Esse espírito de moderação, com o 
qual via as coisas na calma de seu gabi- 
nete, aplicava-o a tudo e conservava-o 
no tumulto da sociedade e no ardor das 
conversações. Encontrava-se sempre o 
mesmo homem com todos os tons. Pare- 
cia então ainda mais maravilhoso do que 
em suas obras: simples, profundo, subli- 
me. encantava, instrula e nunca ofen- 
dia... Foi muito negligente em seus há- 
bitos e desprezou tudo o que estava além 
do asscio. Só vestia os tecidos mais sim- 
ples e nunca acrescentava ouro ou prata. 
A mesma simplicidade encontrava-se em 
sua mesa e em todo o resto de sua 
economia...” 


O caminho da ciência 


Os ataques a Montesquieu, logo após 
a publicação do Espírito das Leis, foram 
em muito maior numero e mais contun- 
dentes do que os que sofrera ao publicar 
as Cartas Persas. A preocupação dos 
adversários tinha razão de ser. Nas Car- 
tas a destruição dos valores tradicio- 
nais, embora inteligente e espirituosa, 
não vai muito além da superficie das coi- 
sas. O Espírito das Leis, ao contrário, 
procura análisar extensa e profunda- 
mente a estrutura € a conexão intema 
dos fatos humanos e formular um rigo- 
roso esquema de interpretação do 
mundo histórico, social e político. Isso 
foi sentido como capaz de abalar os ali- 
cerces do sistema social e político, de 
maneira muito mais perigosa, do que a 
simples crítica sarcástica. Era uma ati- 
tude de ciência teórica diante do uni- 


416 


“CONSIDERATIONS 
SUR LES CAUSES 
DE LA 


RANDEUR 


CATAR DES 


RQMAIN S 


T DE LEUR 


“DECADENCE 


à é de Nas Fr. 
Dar M ba Progudere de Monmigaaa 


TO A AMSTERDAM, 
«Quer JAQUES DESBORDES, 


ui. MDCCXXXIEV aa aan 
+ 
Anos de pre ração fc foram gastos para 
a redação das Considerações, que são 


como que prolegómenos ao Espirito das 
Leis. (Frontispício das Considerações 
na primeira edição, feita em 1734.) 


verso político que estava nascendo. Seu 
objeto são “as leis, costumes e os diver- 
sos usos de todos os povos da terra”, 
assunto evidentemente imenso, pois 
abarca “todas as instituições humanas”. 


O mais importante, contudo, não resi- 
de na extensão dos assuntos abordados, 
mas na maneira pela qual o autor os tra- 
tou. À mais significativa originalidade 
de Montesquieu consiste na revolução 
metodológica representada pelo Espírito 


das Leis. 


O método de Montesquieu comporta 
dois aspectos inter-relacionados, mas 
que podem ser distinguidos com sufi- 
ciente clareza. O primeiro exclui da 
ciência social toda perspectiva religiosa 
ou moral: o segundo afasta o autor das 
teorias abstratas e dedutivas e o dirige 


FABBRI 


MONTESQUIEU 


Toda a carreira literária de Montesquieu transcorreu durante o reinado de Luís 
XV, neto de Luis XIV e seu sucessor imediato. Antes que fosse proclamada a sua 
maioridade em 1723, a França foi governada pelo regente Duque de Orleans, e 


como tutor foi nomeado o então Bis 


Fleury. (Um pintor anónimo 


cês do 


século XVIII retratou uma aula do jovem Luís XV; Museu Carnavalet de Paris.) 


para a abordagem descritiva e compara- 
tiva dos fatos sociais. 

Quanto ao primeiro, constituía um 
solapamento do finalismo teológico e 
moral que ainda predominava na época. 
segundo o qual todo o desenvolvimento 
histórico do homem estaria subordinado 
ao cumprimento de desígnios divinos, tal 
como Santo Agostinho (3514-430) tanha 
expressado na Cidade de Deus e Bossuet 
(1627-1704) repetia, em suas linhas 
essenciais, na História Universal. Mon- 
tesquieu, ao contrário. reduz as institui- 
ções a causas puramente humanas e não 
leva em consideração a providência divi- 
na. Segundo ele, introduzir princípios 
teológicos no domínio da história, como 
fatores explicativos, é confundir duas 
ordens distintas de pensamento e con- 
fundir duas disciplinas. Como conse- 


quência. tanto uma quanto outra perma- 
neceriam para sempre na infância. O 

ropósito de Montesquieu não é contri- 
Eure para isso, fazendo-se de teólogo. 
Deliberadamente dispõe-se a permane- 
cer nos estritos domínios dos fenômenos 
políticos, e jamais abandona tal projeto. 

Assim como o religioso é excluído 
como fator determinante dos fatos so- 
ciais, da mesma forma o juizo moral 
deve ser eliminado na apreciação do 
mundo histórico. Já nas primeiras pági- 
nas do Espírito das Leis adverte o leitor 
contra um possivel mal-entendido no que 
diz respeito à palavra “virtude”. que 
emprega amiúde com significado exclu- 
sivamente político e não moral. 

Em suma, para Montesquieu, o corre- 
to conhecimento dos fatos humanos só 
pode ser realizado cientificamente na 


41% 


OS PENSADORES 


medida em que eles sejam visados como 
são e não como deveriam ser. Enquanto 
não forem abordados como indepen- 
dentes de fins religiosos e morais, ja- 
mais poderão ser compreendidos. As 
ciências humanas deveriam libertar-se 
da visão finalista, como já haviam feito 
as ciências naturais, que só progrediram 
realmente quando se desvencilharam do 
finalismo aristotélico-escolástico. 

Hobbes e Spinoza (1632-1677) apre- 
sentam pontos comuns com Montesquieu 
na medida em que, como ele, estabe- 
lecem como princípio preliminar à ciên- 
cia política o não Julgar a história 
segundo critérios religiosos e morais. 
Opinam que a religião e a moral, ao 
contrário, devem ser inseridas no con- 
junto dos fatos humanos que podem ser 
tratados cientificamente. 

O projeto e a linguagem de Montes- 
quieu, por um lado, e de Hobbes e Spi- 
noza, por outro, são idênticos. Diferem, 
contudo, na maneira de abordar o objeto 
da ciência social. O autor das Cartas 
Persas parte dos fatos, tais como se dão 
concreta e particularmente, e tenta 
extrair hipotéticas leis que os gover- 
nam; Hobbes e Spinoza procedem de 
maneira abstrata e dedutiva. O Espírito 
das Leis almeja ser uma obra de ciência 
positiva; o Leviatã de Hobbes e o Trata- 
do Teológico Político de Spinoza são 
construções teóricas sobre a essência da 
sociedade. 


Lei e totalidade 


“Recusando submeter-se aos princípios 
religiosos e morais, e distanciando-se do 
racionalismo abstrato do século XVII, 
Montesquieu deu início ao estudo descri- 
tivo e comparativo dos fatos humanos, 
formulando um novo conceito de lei, que 
constitula, então, uma inovação teórica e 
representava sua principal contribuição 
para a formação da ciência social. Até 
então, O significado da noção de lei esta- 
va impregnado de finalismo. O pensa- 
mento antigo, tanto quanto o medieval, 
ao utilizar a noção de lei, supunha seres 
humanos, ou semelhantes a eles, aos 
quais a lei se aplicaria como manda- 
mento. Supondo uma vontade legisla- 
dora e o respeito de súditos a ela, a lei se 
definiria em termos de alvos a serem 


418 


atingidos de maneira obrigatória, pos- 
suindo, assim, estrutura de ação humana 
consciente. 

Montesquieu afasta-se radicalmente 
de tal concepção e aproxima-se delibe- 
radamente dos criadores da metodologia 
das ciências físicas. Lei, para ele, é uma 
relação necessária que deriva da natu- 
reza das coisas, de tal forma que “cada 
diversidade é uniformidade, cada modi- 
ficação é constância”. Nesse sentido, 
“todos os seres têm suas leis: a divinda- 


de... o mundo material... as imteli- 
gências superiores ao homem... os ani- 
mais ...os homens...” 


Tendo cada domínio de seres suas pró- 
prias leis, elas não podem ser apreen- 
didas senão a partir dos próprios fatos, 
pela comparação e pesquisa, pelo tateilo, 
e não pela intuição de essências. Mon- 
tesquieu não pretende extrair princípios 
de preconceitos, mas da natureza mesma 
das coisas. 

O projeto de investigação das coisas 
humanas em sua legalidade especifica 
foi o caminho que levou Montesquieu a 
outra inovação, que se articula com a 
noção de lei: a categoria de totalidade. 
Ela se encontra nos capítulos do Espírito 
das Leis dedicados à distinção entre 
natureza e princípio dos Estados e prefi- 
gura a concepção dialética da história, 
que só no século XIX será levada até 
suas últimas consequências pelo filósofo 
Hegel (1770-1831). 

Para, Montesquie »u, natureza de um 
Estado é aquilo que ele é (república, 
monarquia, despotismo), ou seja, é uma 
certa forma. Principio é uma disposição 
dos homens no sentido de realizar uma 
determinada forma e não outra: é, por- 
tanto, uma paixão especifica. Na repú- 
blica essa paixão é a virtude (entendida 
em sentido político, e não moral); na 
monarquia é a honra; e no governo des- 
pótico é o temor. 

Os elementos que configuram as for- 
mas e os princípios componentes do Es- 
tado vinculam-se entre si, não de manei- 
ra somatória, mas como totalidade viva. 
O Estado, para Montesquieu, é uma 
totalidade real, em que todos os porme- 
nores da legislação, instituições e costu- 
mes são efeitos e expressões de uma uni- 
dade interna. Isso significa dizer que o 
desenvolvimento histórico das socieda- 


MONTESQUIEU 


A aristocracia francesa do século X VIII, à qual Montesquieu pertencia e 
cujas funções sociais eram defendidas por ele, vivia nos cenários criados pela 
arquitetura barroca. Um de seus melhores exemplos é o Palácio Lambert, 
projetado por um dos maiores expoentes da arte francesa do século XVII, 
que foi Louis Le Vau (1612-1670). A decoração do teto é de Le Brun e Le Suer. 


des não tem como motor este ou aquele 
fator particular. mas decorre da diná- 
mica própria ao conjunto do sistema. 
Analisando a dinâmica interna desses 
sistemas, Montesquieu chegou a algu- 
mas generalizações que, do ponto de 
vista da ciência social dos dias de hoje, 
parecem primárias. Alguns desses fato- 
res — segundo o autor do Espírito das 
Leis — podem predominar sobre os 
demais. A dimensão geográfica, entre 
outros: quanto maior o território domi- 
nado por um Estado, tanto maiores as 
possibilidades de vir a configurar um 
governo despótico. Quanto menor, tanto 
mais tenderá a ser uma república. A 
monarquia fica no meio termo. Outro 
fator fisico é o clima: quanto mais vio- 
lento e cruel, tanto mais condicionaria o 
surgimento de governos despóticos. Um 
terceiro fator é o tipo de solo (monta- 


nhoso ou plano, continental ou insular) e 
sua maior ou menor fertilidade. 

Tais fatores físicos, embora predomi- 
nantes, não seriam, entretanto, elemen- 
tos que possam determinar completa- 
mente a natureza do Estado. Fatores 
puramente sociais, como a religião, as 
leis, as tradições, os costumes, teriam o 
poder de corrigi-los. 

Montesquieu nunca perde, assim, a 
visão da totalidade unitária de todos os 
fatores como princípio científico funda- 
mental para o estudo das sociedades. O 
conceito de totalidade permite com- 
preender um momento da existência de 
um Estado, mostrando a vinculação 
interna dentro da aparente diversidade 
de suas leis e mstituições. 

As totalidades políticas, ou unidades 
forma-princípio, no surgimento e desen- 
volvimento dos Estados, são classifi- 


419 


OS PENSADORES 


RA 
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Es 


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“Sua figura modesta e desembaraçada 
assemelhava-se à sua conversa; seu 
porte era bem proporcionado”: elogio 
fúnebre feito por Maupertuis. 
(Montesquieu, numa gravura.) 


cadas por Montesquieu em três tipos: 
república. monarquia e governo despó- 
tico. Abandona, assim, a tradicional 
divisão aristotélica em monarquia, aris- 
tocracia e democracia, muito embora 
restassem algumas semelhanças de 
forma. Não eram, contudo, as formas 
políticas o que mais interessava a 
Montesquieu, mas os espíritos corres- 
pondentes. Por outro lado, a classifi- 
cação resultava de uma inspeção histó- 
rica muito mais ampla do que a 
realizada. na Antiguidade, por Aristó- 
teles (384-322 àa.C.). 

O autor do Espírito das Leis dá o 
nome de república aquelas sociedades 
encontradas no mundo grego e itálico da 
Antiguidade, caracterizadas pela orga- 
nização em cidades-Estados, e acres- 
centa a elas as cidades italianas medie- 


420 


BETTMANN ARCHIVE. INC. 


vais. Tanto umas uanto outras 
caracterizam-se EAN ante pela 
pequena extensão do território sob do- 
mínio, não podendo estender-se para 
além desses estreitos limites. Os cida- 
dãos da república são todos iguais 
(salvo nas transformações que dão lugar 
à aristocracia), formando um conjunto 
cujos elementos são da mesma natureza 
e justapostos sem hierarquia. Todos cui- 
dam igualmente do bem comum, e 
mesmo os magistrados componentes do 
corpo de direção não são superiores. 
pois desempenham seu papel apenas 
temporariamente. Mesmo na vida priva- 
da os magistrados não são muito dife- 
rentes dos demais, na medida em que é 
princípio da república uma certa igual- 
dade de recursos materiais entre os cida- 
dãos. A igualdade politica supõe igual- 
dade econômica. Cada cidadão, devendo 
ter a mesma felicidade, pode fruir os 
mesmos prazeres e formar as mesmas 
expectativas; coisa impossível de ser 
alcançada, a não ser com a frugalidade 
geral. A divisão de trabalho entre os 
membros da república é reduzida à 
expressão mínima, e o comércio. que 
supõe para Montesquieu desigualdade 
econômica, é pouco desenvolvido. 

As monarquias seriam, historica- 
mente, características da Europa e te- 
riam surgido quando os povos germã- 
nicos invadiram o Império Romano e 
partilharam seus despojos. Em termos 
de extensão geográfica, encontram-se a 
meto caminho entre as repúblicas e os 
governos despóticos. As funções públi- 
cas tanto quanto as da vida privada são 
nelas divididas entre os membros das 
diferentes classes sociais. Uns são agri- 
cultores, outros artífices e outros comer- 
ciantes. Alguns dedicam-se a fazer leis, 
outros a executá-las. Ninguém pode 
recusar-se a cumprir suas funções espe- 
cificas e interferir nas dos outros. Por 
essa razão as monarquias podem ser 
definidas como governo de um só, no 
sentido de que cada um é responsável 
por suas tarefas e tem sobre elas todo o 
poder. Esse poder, contudo, estaria 
condicionado a relações fixas e constan- 
tes, que não podem ser mudadas pelos 
governantes. Isso significa dizer que 
existem ordens constituídas que impõem 
limites ao exercício do poder. As leis 


MONTESQUIEU 


DE L[ESPRIT 


DES 


LOIX. 


Ou DO RePrORT QuE LES Lotr porrenT svom 4 Ec LA Coxa 
riturion DE catcue Gocrraxem: vTr, LES Mosvan 
28 ºCrimear, 24 Razicios, 15 ComMincs, &c. 


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A ANSTERDAM. 


Chez. Zacuanta CuaTELALA. 


MDCCXxLIX. 


“Ele exerceu ação profunda e 
perdurável no seu tempo, e contém 
muitos ensinamentos o nosso : 

A. Sorel escrevendo sobre Montesquieu. 
(Frontispício do Espírito das Leis.) 


possuem força própria. A sociedade 
monárquica é, para Montesquieu, como 
um organismo vivo, cujos elementos, 
segundo suas naturezas, exercem fun- 
ções diferentes; nela a divisão orgânica 
do trabalho é levada ao máximo desen- 
volvimento, ao contrário do que ocorre 
nas repúblicas. As classes, órgãos do 
corpo social, não só limitam a autori- 
dade do príncipe, como limitam-se reci- 
procamente. Cada uma delas, estando 
impedida de crescer ao infinito, pode 
desenvolver sua natureza particular sem 
quaisquer obstáculos. 

O princípio que constitui a fonte de 
energia das monarquias seria diferente 
do encontrado nas repúblicas. Não é o 
sentimento da pátria comum que ocupa 
os indivíduos, mas o de classe. Cada 
classe social tende a desenvolver-se ao 


FABBRI 


máximo e a fortuna pessoal adquire 
grande importância. Na monarquia exis- 
tem graus diferentes de honras, dignida- 
des, riquezas e poder, de tal forma que 
cada membro tem diante de si uma 
ordem superior que almeja alcançar. A 
diversidade das funções é responsável 
pela coesão, na medida em que a vonta- 
de que move as ordens e os indivíduos é 
responsável também pelo aperfeiçoa- 
mento de cada um. Assim, todos contri- 
buem para o bem geral, embora acredi- 
tem visar apenas às vantagens pessoais. 

O princípio animador das monarquias 
é a honra, segundo Montesquieu. Desig- 
na os anseios especificos dos individuos 
e das classes. A honra não permite ao 
seu possuidor aceitar diminuição em sua 
categoria e pode tornar-se um defeito 
quando origina o excessivo amor de si 

hos 
próprio. 

O governo despótico seria uma espé- 
cie de monarquia, na qual todas as or- 
dens teriam sido abolidas, e não subsis- 
tisse a divisão do trabalho; ou então 
uma democracia em que todos os cida- 
dãos se tornassem iguais tão-somente na 
servidão a um chefe de Estado. O gover- 
no despótico é como um ser monstruoso 
no qual subsiste com vida apenas a cabe- 
ça, por ter usurpado para si todas as for- 
cas das partes restantes. Seu princípio é 
o temor. 

Além das formas precedentes, Mon- 
tesquieu descreve um quarto tipo de 
sociedade, encontrado entre os povos 
caçâdores ou de pastoreio. Caracteriza- 
se pelo restrito número de seus mem- 
bros, pela mexistência de propriedade 
de terra, pela ordenação da vida social 
através dos costumes e não das leis, e 
pela autoridade dos mais velhos. Essas 
sociedades constituem uma espécie de 
democracia inferior. Montesquieu desig- 
na-as pela expressão “povos selvagens”, 
quando seus membros estão dispersos 
em pequenas comunidades, e “povos 
bárbaros”, quando se reúnem num todo. 


A opção política 


Ao pintar o quadro dos tipos de socie- 
dade e de organização política, Montes- 
quieu procura manter a maior fidelidade 
possível ao projeto que se propusera de 


421 


OS PENSADORES 


Os salões mantidos pelas grandes damas do século XVIII francês tiveram muita 
influência na vida política, intelectual e artística. Entre outros, o mais 
fome o: o da célebre Madame Pompadour. Como favorita de Luís XV, empregou 
todo o seu prestígio para a proteção dos intelectuais, entre os quais Voltaire 
e Montesquieu. (Retrato por Maurice Quentin-La Tour, Museu do Louvre, Paris.) 


422 


FABBRI 


MONTESQUIEU 


fazer uma rigorosa ciência positiva, 
limitada aos fatos humanos tais como 
realmente aconteceram. Apesar disso, 
seu pensamento transita aos poucos do 
puramente fático para o normativo, e 
desenha-se um projeto político no Espí- 
rito das Leis. Quando descreve os siste- 
mas republicanos, monárquicos e despó- 
ticos, sente-se sua simpatia pelos 
segundos. Mas é na famosa teoria da 
separação dos poderes que vem à luz 
mais claramente sua opção política. 

A teoria da separação dos poderes 
encontra-se no livro XI do Espírito das 
Leis (concebido muito depois dos dez 
primeiros livros), e foi inspirada pelo 
sistema político constitucional, conhe- 
cido quando de sua viagem à Inglaterra, 
em 1729. Ali encontrou um regime cujo 
objetivo principal era a liberdade. 

A partir dessa experiência, Montes- 
quieu formulou a tese que viria a ser 
integrada na Constituição americana e 
expressa no artigo 17 da Declaração 
Universal dos Direitos do Homem e do 
Cidadão. Desde então, a teoria da sepa- 
ração dos poderes passou a ser panCo 
político de todos os governos que sofre- 
ram a influência da Revolução Francesa. 

Essa teoria estabelece a separação 
dos poderes Legislativo, Executivo e 
Judiciário, cada um com seus órgãos 
específicos e compostos por pessoas 
dna Essa separação não é, contu- 
do, tão rígida como pode parecer à pri- 
meira vista. Montesquieu admite o 
poder de veto do monarca sobre as deci- 
sões do Legislativo; por outro lado, o 
Legislativo invade as atribuições do 
Judiciário, quando o autor estabelece 
que os nobres só poderão ser julgados 
pelos seus pares e nunca por magis- 
trados populares. 

Assim, a separação dos poderes é 
relativa, e o mais importante dos aspec- 
tos da teoria é a relação de forças entre 
os detentores do poder: o rei, os nobres e 
os burgueses. Aqui se atinge todo o 
significado do projeto político de Mon- 
tesquieu e sua inserção dentro do quadro 
dos conflitos sociais por ele vividos. O 
autor do Espírito das Leis opta clara- 
mente pelos interesses da nobreza, quan- 
do põe a aristocracia a salvo tanto do rei 
quanto da burguesia. Do rei, quando a 
teoria da separação dos poderes impede 


o Executivo de penetrar nas funções 
Judiciárias; dos burgueses, quando esta- 
belece que os nobres não podem ser jul- 
gados por magistrados populares. 

Montesquieu sonha com o renasci- 
mento daquelas monarquias primitivas 
da Europa germânica, em que os reis 
eram eleitos entre os nobres e tinham 
seu poder limitado por eles. Esse tipo de 
monarquia moderada foi transformada 
desde os fins da Idade Média, vindo a 
constituir as monarquias absolutistas, e 
ê contra estas que Montesquieu se opõe, 
limitando o âmbito de ação dos monar- 
cas através do princípio de separação 
dos poderes. 

Por outro lado, como autêntico aristo- 
crata, desagradava-lhe a idéia de o povo 
todo possuir poder. Por isso estabeleceu 
a necessidade de uma Câmara Alta no 
Legislativo, composta por nobres. A 
nobreza, além de contrabalançar o poder 
da burguesia, era vista por ele como 
capacitada, por sua superioridade natu- 
ral, a ensinar ao povo que as grandezas 
são respeitáveis e que a monarquia 
moderada é o melhor regime político. 

Montesquieu não foi, portanto, o 
arauto disfarçado da burguesia que 
deveria triunfar na Revolução Francesa, 
como chegou a ser interpretado. Suas 
criticas profundas ao despotismo abso- 
lutista visam à restauração do espírito 
das primitivas monarquias, e a separa- 
ção de poderes que teorizou constitui 
expressão daquela ordem que sempre 
admirou nas monarquias medievais. 
Conservador por temperamento e condi- 
ção social, esteve sempre a serviço de 
sua classe. 

Paradoxalmente, foi a nostalgia do 
passado que fez dele um dos instru- 
mentos para a Revolução Francesa. Cri- 
ticou a ordem vigente do despotismo em 
nome dos valores da monarquia mode- 
rada primitiva, e a crítica serviu como 
um dos estopins para a revolução que 
instauraria a forma republicana e bur- 
guesa, que ele sempre desprezou. 

O importante, contudo, foi a contri- 
buição que deixou para o estudo da his- 
tória e da sociedade, em termos cientifi- 
cos, ao mostrar o caminho a ser seguido: 
a inspeção das relações necessárias 
entre os fatos humanos e sua compreen- 
são em termos de totalidades. 


423 


1689 — Montesquieu nasce 
no Castelo de La Brêde, per- 
to de Bordeaux. 

1690 — Huyghens escreve 
o Tratado da Luz e Purcell 
compõe King Arthur. 

1694 — Aparece o Dicioná- 
rio da Academia Frencesa € 
La Fontaine escreve as Fá- 
bulas. 

1695 — Vem a luz o Dicio- 
nário Histórico e Crítico de 
Bayle. 


1705 — A bula Vineam Do- 


mini condena o jansenismo 
1715 — Montesquieu casa- 
se com Jeanne de Lartigue, 
moça protestante. Morte de 
Luís XIV e consequente as- 
censão de Luis XV. 

1716 — Montesquieu herda 
o título de Barao de Montes- 
quieu. 

1719 — Daniel Defoe pu- 
blica Robinson Crusoé. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1521 — Montesquieu publi- 
ca as Cartas Persas. Fun- 
da-se a primeira loja maçó- 
nica na França. 

1722 — Vem à luz o Trata- 
so de Hurmonia de Rameau 
e Bach compõe O Cravo 
Bem Temperado. 

1725 — Montesquieu publi- 
ca Templo de Gnido. Vico 
escreve os Princínios de Fi 
iosofia da História. 

1726 — Montesquieu deixa 
o cargo que ocupava no 
Harlamento de Bordegux. 
Eernouilli publica o Tratado 
das Leis de Comunicação 
do Movimento, Vico a Ciên- 
cia Nova e Jonathan Swift 
As Viagens de Gulliver. 
1728 — Montesquieu é elei- 
to para a Academia France- 
sa e inicia um periodo de 
viagens peia Europa. 

1734 — Publica as Consi- 


BIBLIOGRAFIA 


SoREL, A.: Montesquieu, Hachette, Paris, 1888. 
BARKHAUSEN, H.: Montesquieu: ses Idées et ses Oeuvres d'aprês les Papiers de La Breêde, 


Paris. 1907. 


KEMPLERER, V.: Montesquieu, 2 volumes, 1911-1913. 
DEDIEU, J.: Montesquieu, Paris, 1913. 


CARCASSONNE, E.: Montesquieu 


XVIII Siecle, Paris, 1927. 


derações sobre as Causas da 
Grandeza e Decadência dos 
Romancs. 

1742 — E publicado o Tra- 
tado de Dinâmica de 
D'Alembert. 

1747 — Franklin descobre 
o princípio do para-raios. 
1748 — Montesquieu publi- 
ca O Espirito das Leis. Des- 
cobrem-se as ruínas de 
Pompéia e Euler torna pú- 
blica a Introdução à Análise 
dos Infinitos. 

1750 — Montesquieu escre- 
ve a Defesa do Espírito das 
Leis. 

1751 — Surge o primeiro 
volume da Enciclopédia. 
1754 — Condillac publica 
o Tratado das Sensações. 
1755— Montesquieu falece 
em curis, no dia 10 de feve- 
reiro, com sessenta e seis 
anos de idade. 


et le Problême de la Constituition Française au 


CASSIRER, ERNST: Filosofia de la Iustración, Fondo de Cultura Económica, México e Bue- 
nos Aires, 1950 (original aler.ão: 1932). 
LANson, G.: Montesquieu, 1)32. 

SEIGNOBOS, CHARLES: La Séparativn des Pouvoirs (Études de Politique et d'Histoire), Paris; 


1934. 


VAUGHAN, C.: Studies in the History of Poiitical Philosophy, wmo I, Manchester, 1939. 
HAZARD, PAUL: La Pensée Européenne au XVIII Siécle. De Montesquieu à Lessing, Paris, 


1956. 


Leroy, MAxIME: Histoire des Idées Sociales en France, Gallimard, Paris, 1946. 
GROETHUYSEN, BERNARD: Montesquieu, Introduction à un Choix de Textes, collection Les 
Classiques de la Liberté, Trois Collines, Genebra, 1947. 
VIDAL, E.: Saggio su Montesquieu, Milão, 1950. 
STAROBINSKY, J.: Montesquieu par Lui-même, Le Seuil, Paris, 1953. 


CorTTA, S.: Montesquieu e la Scier:za della Societá, Turim, 1953 


DURKHEIM, E.: Montesquieu et Rousseau.Précurseurs de la Socivlogie, Riviére, Paris, 1953. 
ALTHUSSER, LOUIS: Montesquieu, la Politiçue et [' Histoire, P.U.F., Paris, 1959. 
STARK, W.: Montesquieu, Pioreer of the Sociology of Knowledge, 1960. 


424 


O COPYRIGHT MUNDIAL 1973 — ARRILS A CLITURAL FINDUSTRIAL — SAO PAULO — RRASII 


OS PENSADORES 


pe George Berkeley, no começo do século AGO pa fan com 


refutar na filosofia e na ciência de sua época todas as i 


éias que pudessem 


conduzir ao materialismo e ao ceticismo, o contemporáneo William Hogarth 
(1697-1764) retratava satiricamente os costumes populares. 
(William Hogarth: “Cena de uma Taverna”, Museu Sir John Soane, Londres.) 
Na página anterior: George Berkeley, bispo de Cloyne, 
retrato executado por J. Snibert. (Galeria Nacional de Retratos, Londres.) 


corge Berkeley nasceu em Kil- 
( kenny, Irlanda do Sul, em 12 de 

março de 1685. Estudou na escola 
da cidade natal, por cujos bancos tinha 
passado, alguns anos antes, o autor das 
Viagens de Gulliver, o conhecido sati- 
rista Jonathan Swift (1667-1745). Os 
estudos superiores foram feitos no Tri- 
nity College de Dublin, onde Berkeley 
tornou-se fellow em 1707, quando pas- 
sou a lecionar hebraico, grego e teolo- 
gia. Nessa época, lia muito os filósofos 
(especialmente Locke, Newton e Male- 
branche) e anotava observações, reuni- 
das sob o título de Comentários Filosófi- 


426 


cos, hoje de grande importância para a 
compreensão de sua obra posterior. 

Seu sistema filosófico foi concebido e 
realizado quando ainda relativamente 
jovem. Em 1709, aos vinte e quatro anos 
de idade, Berkeley publicou o Ensaio 
para uma Nova Teoria da Visão. Um ano 
depois, surge o Tratado sobre os Princt- 
nios do Conhecimento Humano e, em 
1713, os Três Diálogos entre Hilas e 
Filonous, nos quais retoma e desenvolve 
as teses e argumentos do Tratado. 

Trata-se, portanto, de uma obra intei- 
ramente estruturada nos começos do sê- 
culo XVIII, quando as ciências naturais 


BERKELEY 


se desenvolviam libertas do finalismo 
aristotélico e escolástico e capacitadas a 
explicar os fenômenos de maneira autô- 
noma, sem qualquer intervenção de fato- 
res sobrenaturais. A natureza era vista 
como um conjunto de fatos explicáveis 
por si mesmos, cabendo ao homem tão- 
sonente decifrar a ordem matemática 
merente a eles. 

Tal maneira de ver a natureza condu- 
zia a uma concepção materialista do 
universo, Pelo menos foi o que aconteceu 
historicamente, dada a ausência da 
necessidade de conceitos como “espiri- 
to” e outros análogos. Nesse sentido 
foi importante a concepção dualista for- 
mulada por Descartes (1596-1650), se- 
gundo a qual existem duas substâncias 
independentes (pensante e extensa), 
cada uma com seus dominios próprios. 
Minava-se, assim, a visão cristã medie- 
val de uma natureza criada por Deus e 
subsistindo apenas em função dele. Não 
bastasse isso, Descartes desenvolveu 
muito mais a parte de suas obras refe- 
rentes à substância extensa e criou as 
coordenadas de uma fisica matemática, 
que se propunha a explicar os fenômenos 
fisicos de maneira autônoma. 

Na Inglaterra, Newton (1642-1727) 
caminhava no mesmo sentido e mostrava 
a verdadeira via para o conhecimento 
dos fenômenos físicos: a união entre a 
matemática e a experimentação. Tho- 
mas Hobbes (1588-1679) formulou um 
rígido sistema materialista e John Locke 
(1632-1704) desenvolveu uma teoria 
empirista do conhecimento que — pensa- 
va Berkeley — conduzia diretamente ao 

materialismo e ao ceticismo. 


Uma filosofia imaterialista 


Dentro desse panorama, Berkeley dis- 
pôs- se a restabelecer o primado do espi- 
rito, investigando “as principais causas 
do erro e das dificuldades nas ciências e 
os fundamentos do ceticismo, do ateismo 
e da irreligião” (subtítulo do Tratado 
sobre os Princípios do Conhecimento 
Humano). Para alcançar esses objetivos, 
tomou como ponto de partida a filosofia 
de Locke, admitindo o essencial da teo- 
ria do conhecimento empirista, mas che- 
gando a resultados inteiramente diferen- 
tes e até certo ponto paradoxais. 


Berkeley foi influenciado por Locke 

(acima) e foi grande amigo de Swift, 

autor das Viagens de Gulliver, cujo 
Cd Gg da edição de 1726 é 
visto abaixo. (Museu Britânico.) 


Ermure GULETVER'S 


TRAVELS 


INTO SrvERAL 


Remote Nations 


CC: TUE 


WORLD. 


Compendionfly methodized, for publick Be- 
nei; with Obfervations and Explanatory 
Note» throughont. 


The Minp of the Fronrismece. 
Abrve, the Lilhputiun-Seme fervey; 

Fencab, fic Elimnap, by bis Wand, besr fr, 
RR e a ea a aa ea 
LONDON: 

Panel am the Ver Mnccxav 


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427 


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FABBRI 


OS PENSADORES 


Johrr Locke tinha desenvolvido, no En- 
saio sobre o Entendimento Humano, a 
concepção de que todo conhecimento se 
origina da experiência sensível e não 
existem idéias no intelecto humano pro- 
duzidas exclusivamente pelo próprio 
intelecto. Não existiriam as chamadas 
“idéias inatas”, admitidas por Descar- 
tes. As idéias matemáticas de quanti- 
dade, por exemplo, não constituem, para 
Locke, formas impressas na mente antes 
do aparecimento das funções sensíveis 
na criança. Quando o homem nasce, sua 
mente seria como um papel em branco. 
Sobre esse papel, os contatos fisicos, 
estabelecidos pelos cinco sentidos, im- 
primiriam aos poucos os caracteres que, 
depois de múltiplas experiências do 
mesmo tipo, formariam as idéias gerais. 
Exemplificando, se o homem tem em sua 
mente uma idéia geral de árvore (que 
não deve ser confundida com a represen- 
tação mental desta ou daquela árvore em 


particular), essa idéia é apenas o resul- 
tado final das inúmeras e sucessivas 
impressões de árvores particulares, que 
foram produzidas ada vez que esse 
homem viu árvores concretamente exis- 
tentes na natureza. Assim, todas as 
idéias que o homem possui em sua mente 
seriam o resultado de um processo que 
se inicia com uma sensação particular 
(pela visão, tato, olfato, paladar ou 
audição), repetida muitas vezes. 

Essa teoria supunha, consequente- 
mente, que as coisas exteriores à mente 
humana possuiriam qualidades objeti- 
vas, capazes de provocar o aparecimento 
das sensações subjetivas da mente hu- 
mana e as idéias resultantes. Chegava- 
se, assim, à concepção de que o mundo 
exterior é constituido por algumas qua- 
lidades primárias, à soma das quais os 
filósofos da natureza deram o nome de 
matéria, ou substância material. Essa 
substância material não poderia ser 


“Não argumento contra a existência das coisas que podemos apreender pelos 
sentidos ou pela reflexão. Em absoluto, não ponho em dúvida que as coisas que 


vejo com meus olhos e toco com minhas mãos existam e existam realmente.” 


Uma 


das coisas que Berkeley viu e tocou foia Casa da Velha Guarda de St. James 
Park, representada por Canaletto. (Coleção Malmesbury, Basingstoke.) 


428 


FABBRI, 


BERKELEY 


“Dado que a filosofia não é outra coisa senão o estudo do saber e da verdade, 
deveria supor-se fundadamente que os que dedicaram muito tempo e esforços a 
ela deveriam gozar maior calma e serenidade de pensamento . . . Na realidade, 


porém, vemos, ao contrário, quea grande massa iletrada da humanidade .. 


vive 


em sua maioria trangúila .. .” (Berkeley, gravura de W. Skeldon,  Decutada 
sobre um quadro pintado por Vanderbank, Biblioteca Nacional de Paris.) 


revelada diretamente aos sentidos, re- 
sultando seu conhecimento de um pro- 
cesso de inferência puramente intelec- 
tual. Em outros termos, a matéria — 
diferentemente das coisas materiais — 
não pode ser vista, ouvida, cheirada, etc. 
Esses processos sensoriais só ocorre- 
riam com as coisas constituídas a partir 
da matéria. 

Berkeley concorda com as linhas ge- 
rais da teoria empirista de John Locke, 
mas não admite a passagem do conheci- 
mento dos dados fornecidos pelos senti- 


dos para o conceito abstrato de subs- 
tância material. Aderindo ao mais 
completo empirismo. afirma que essa 
substância material não pode ser conhe- 
cida em si mesma. O que conhecemos do 
mundo exterior resume-se às qualidades 
reveladas no processo de percepção e 
nada mais, de tal forma que é orçoso 
concluir pela afirmação de que a exis- 
tência das coisas não é mais do que um 
feixe de sensações. Em poucas palavras. 
“ser é ser percebido” (“esse est perci- 
pi”). Dizendo o mesmo de maneira mais 


429 


OS PENSADORES 


concreta, a cor dos objetos não seria 
mais do que algo visto; o som, algo ouvi- 
do; a forma, algo visto ou sentido pelo 
tato e assim por. “diante. Todo o mundo 
corpóreo seria sempre o sensorial, um 
conjunto de fatos existentes unicamente 
nos sujeitos que conhecem. Não existiria 
qualquer possibilidade de conhecer-se 
uma existência independente, determi- 
nada pela estrutura das próprias coisas, 
como queriam Locke e os filósofos da 
natureza do século XVII. 

Não se tratava, portanto, de negar a 
existência das coisas materiais que 
constituem o meio ambiente do homem. 
O que Berkeley pôs em questão foi a 
idéia abstrata, então corrente, de maté- 
ria como uma substância fundamental, 
constitutiva de todas as coisas e radical- 
mente diferente da substância pensante, 
segundo a terminologia cartesiana. 

A teoria berkeleiana de que “ser é ser 
percebido” não significa, contudo, que o 
mundo se reduz à mente de cada indivt- 
duo, pois Berkeley ajunta um comple- 
mento essencial para evitar todo subjeti- 
vismo — individualista. Trata-se da 
postulação da existência de uma mente 
cósmica, superior à mente de cada 
homem. Essa mente cósmica é Deus, 
concebido como sujeito cognoscente ab- 
soluto, no espírito do qual todas as coi- 
sas seriam percebidas. O mundo é, por- 
tanto, concebido por Berkeley como um 
conjunto de coisas corpóreas existentes 
na mente divina e tendo nela toda sua 
razão de ser. 


Um homem idealista 


Berkeley tentou salvar o espírito e a 
religião com suas obras filosóficas. Se 
alcançou o objetivo almejado, ou apenas 
substituiu a idéia abstrata de matéria 
por outra não menqs abstrata, a de 
Deus, é assunto discutível. Não se discu- 
te, contudo, que foi um homem piedoso e 
idealista (no sentido moral da palavra) 
até os últimos dias de sua vida. 

Depois de concluido o essencial de sua 
filosofia imaterialista, em 1713, quando 
contava apenas 28 anos de idade, viajou 
para Londres, onde manteve contatos 
com os poetas Joseph Addison 
(1672-1719) e Alexander | Pope 
(1688-1744), o escritor Richard Steele 


430 


(1672-1729) e Jonathan Swift, e escre- 
veu alguns artigos contra os livres-pen- 
sadores. Numa segunda estada na capi- 
tal inglesa, de 1716 a 1721, escreveu 
um pequeno ensaio em latim, Sobre o 
Movimento, no qual critica a filosofia da 
natureza de Newton e a teoria da força 
de Leibniz (1646-1716). 

Em 1724 tomou-se deão em Derry (Ir- 
landa) e, na mesma época, projetou a 
fundação de um colégio nas Bermudas, 
onde pretendia educar, para o ministério 
evangélico, não só os filhos dos colonos 
americanos, mas também negros e indi- 
genas. Procurou ajuda financeira e par- 
tiu para Rhode Island, nos Estados Uni- 
dos, onde planejava estabelecer 
fazendas para prover o colégio de ali- 
mentos. Depois de algum tempo, cansa- 
do de esperar pelo apoio que acabou não 
vindo, abandonou o projeto e voltou 
para Londres, em 1731. Nesse meio 
tempo escreveu uma obra sob forma de 
diálogos, Alciphron, contra os livres- 
pensadores e, no periodo de 1732 a 
1734, redigiu O Analista, no qual criti- 
cava o cálculo diferencial e integral de 
Newton, e Uma Defesa do Livre Pensa- 
mento em Matemática. 

Em 1734 foi escolhido para o cargo 
de bispo de Cloyne, região isolada e 
pobre da Irlanda, onde encontrou pro- 
blemas que o fizeram refletir sobre os 
assuntos econômicos. O resultado disso 
foi O Questionador, obra na qual apre- 
senta uma série de questões econômicas 
e sociais, como a pobreza e a ociosidade, 
propondo algumas soluções, atravês de 
trabalhos públicos e educação. Preocu- 
pou-se também com problemas de saúde 
pública e entusiasmou-se com os valores 
medicinais da água de alcatrão, na qual 
acreditou ter encontrado uma verdadeira 
panacéia universal. Escreveu então sua 
última obra, Siris ou Reflexões e Inves- 
tigações Filosóficas sobre as Virtudes da 
Água de Alcatrão, na qual se aproxima 
de doutrinas do antigo Heoplatomamo e 
analisa as causas dos fenômenos físicos, 
achando que elas devem ser explicadas 
pela ação divina. 

Siris foi publicada em 1744 e, dessa 
data em diante, pouco se sabe sobre a 
vida de George Berkeley, a não ser que 
em 1752 se estabeleceu em Oxford, onde 
faleceu no ano seguinte. 


BERKELEY 


“A existência da matéria ou de corpos não percebidos não só tem sido o 
principal apoio de ateistas e fatalistas, mas também a idolatria em suas 
várias formas depende do mesmo princípio. Se os homens considerassem que o 
Sol, a Lua, as estrelas e quaisquer objetos sensíveis não têm outra existência 
senão ser percebidos, nunca adorariam as próprias idéias, mas dirigiriam a sua 
homenagem ao Eterno Espírito . . .” (Retrato de Berkeley, Coleção Mansell.) 


431 


1685 — George Berkeley 
nasce em Kilkenny, Irlanda, 
o 12 de março. Nascimento 
de Bach, Hándel e do pintor 
J.M. Nattier. 

1687 — Malebranche publi- 
ca Colóquios sobre a Meta- 
física e Newton, os Princí- 
pios de Filosofia Natural. 
1690 — Vem a luz o Ensaio 
sobre o Entendimento Hu- 
mano de John Locke. 

1700 — Berkeley ingressa 
no Trinity College de Du- 
blin. 

1701 — Funda-se, na Ingla- 
terra, a Sociedade para Fo- 
mento do Conhecimento 
Cristão. 

1702 — Funda-se o primei- 
ro diário inglês, o Daily 
Courant. - 

1707 — Berkeley torna-se 
professor no Trinity College 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


de Dublin. Denis Papin 
constrói um barco a vapor. 
1709 — Berkeley publica o 
Ensaio para uma Nova Teo- 
ria da Visão. 

1710 — Surge o Tratado 
sobre os Princípios do Co- 
nhecimento Humano de 
Berkeley. Leibniz publica a 
Teodicéia. 

1713 — Berkeley cuida da 
publicação dos Três Diálo- 
gos entre Hilas e Filonous e 
começa um período de via- 
gens, que se estende até o 
ano seguinte. 

1716 — Novo período de 
viagens que se prolonga até 
1720. 

1721 — Publica um peque- 
no ensaio Sobre o Movi- 
mento, no qual critica New- 
ton e Leibniz. 

1724 — Torna-se deão de 


BIBLIOGRAFIA 


Derry (Irlanda). Nasce o fi- 
lósofo Emanuel Kant. 

1728 — Berkeley casa-se e 
vai morar em Newport, 
Rhode Island, nos Estados 


Unidos. 

1732 — Novamente em 
Londres, Berkeley publica 
Alciphron. 


1734 — É escolhido para o 
cargo de bispo de Cloyne 
(Irlanda) e publica O Ana- 
lista. 

1735 — Publica Uma Defe- 
sa do Livre Pensamento em 
Matemática e O Questiona- 
dor. Surge o Ensaio sobre o 
Homem de Alexander Pope. 
1744 — Berkeley publica 
Siris. Nasce Lamarck. 

1752 — Berkeley transfere- 
se para Oxford. 

1753 — Falece em Oxford, 
no dia 14 de janeiro. 


Moore, G. E.: Refutation of Idealism in Philosophical Studies, Londres, 1922. 
JOHNSTON, G. A.: The Development of Berkeley 's dade 1923. 

Hicks, G. DAWES: Berkeley, Londres, 1932. 

Luce, A. A.: Berkeley and Malebranche, Londres, 1934. 
Luce, A. A.: Berkeley 's Immaterialism, 1945. 

Luce, A. A.: The Life of George Berkeley, Bishop of Cloyne, Londres, 1949. 

WILD, J.: George Berkeley, a Study of his Life and Philosophy, Nova York, 1936 e 1962. 
HEDEMIS, I.: Sensationalism and Theology in Berkeley 's Philosophy, 1936. 

BALADI, N.: La Pensée Religieuse de Berkeley et |'Unité de sa Philosophie, 1945. 
WARNOCK, G. J.: Berkeley, Pelican Books, 1953. 
GuEROULT, MARTIAL: Berkeley, Quatre Études sur la Perception et sur Dieu, Aubier, Édi- 


tions Montaigne, Paris, 1956. 


SILLEM, E. A.: George Berkeley and the Proofs for the Existence of God, Londres, 1957. 
Leroy, A. L.: George Berkeley, Presses Universitaires de France, Paris, 1959. 

ARMSTRONS, D. M.: Berkeley 's Theory of Vision, Melbourne, 1961. 

Modern Studies in Philosophy: Locke and Berkeley, editado por C. B. Martin e D. M. Arms- 
trong, Ed. Macmillan, Londres e Melbourne. 


432 


OS PENSADORES 


avid Hume nasceu na Escócia, em 
[Dsimbureo. no dia 7 de maio de 

1711. Seu pai residia na aldeia de 
Chimside, a uns 15 km do rio Tweed, 
onde tinha uma pequena propriedade 
rural, chamada Ninewells. Catherine, a 
mãe, era filha de Sir David Falconer, 
presidente do Supremo Tribunal da 
Escócia. David passou a infância em 
Ninewells, até que, ao completar doze 
anos de idade; foi estudar no college de 
Edimburgo, junto com o irmão John. 
Durante quatro anos fez sólidos estudos 
clássicos. Isso, mais a tradição familiar 
materna, fez com que os parentes o 
orientassem no sentido de estudar advo- 
cacia, mas a disposição do adolescente 
era bem outra. Em 1726 abandonou a 
universidade e voltou para Ninewells, 
onde se dedicou a ler Cicero, Virgílio, 
Horácio, os escritores ingleses da época 
(Swift, Milton, Pope) e os filósofos Clar- 
ke e Bayle. 

David não era, contudo, apenas um 
intelectual em germe; como um jovem 
qualquer, procurava se divertir e ligou- 
se a Anne Galbraith, que o acusaria de 
ser pai de um terceiro filho, que ela tive- 
ra fora do casamento. Mas além das 
aventuras amorosas, David pretendia 
viver também a aventura do mundo 
desconhecido e aceitou então um empre- 
go, junto a um mercador das Índias 
Ocidentais. Esperava correr o mundo, 
mas nada aconteceu como planejara e os 
sonhos de “expansão geográfica” acaba- 
ram modestamente do outro lado do 
canal da Mancha: primeiro em Reims, 
depois em Anjou, no território francês. 

O mundo não foi desbravado, mas em 
compensação o jovem David encontrou 
tranquilidade e atmosfera intelectual no 
famoso colégio de La Fléche, onde Des- 
cartes estudara com os jesuítas. Na 
França permaneceu por dois anos e reve- 
lou o primeiro fruto de suas inquietações 
intelectuais: as duas primeiras partes de - 
um Tratado da Natureza Humana, obra 
que permaneceria, para os especialistas, 
seu principal trabalho, embora escrito 
na juventude. 


ARBORIO MELLA 


Retrato de David Hume por autor De volta a Londres em 1737, cuidou 
desconhecido. Na página anterior: da publicação do Tratado, ao mesmo 
Hume, pelo pintor escocês Allan tempo que se dedicava à composição 
Ramsay (1713-1784), acervo da da terceira parte e a uma cuidadosa revi- 
Galeria Nacional Escocesa de Retratos. são de todo o texto, a fim de não chocar 


434 


“ 


HUME 


EE pr sLas 4 


“O puro filósofo é An que o mundo em geral não acolhe muito bem, 


por julgar que ele 


não contribui nada para o proveito ouo prazer da 


sociedade; enquanto ele, por seu lado, vive afastado do contato humano, 
absorvido em princípios e idéias alheios à compreensão humana.” Não foi o caso 
de Hume quando participou da vida mundana na corte de Viena, cidade acima 
representada por Bellotto (1721-1780). (Museu de História da Arte, Viena.) 


os “donos” da filosofia oficial e as auto- 
ridades religiosas. Dois anos depois a 
obra veio à luz, sem receber, contudo, a 
recepção triunfal que o ambicioso Ilume 
esperava. Ninguém lhe deu maior aten- 
ção e o autor retirou-se decepcionado 
para Ninewells, em busca do conforto 
dos Retigos: Entre eles estava Adam 
Smith (1723-1790). posteriormente fa- 
moso como principal figura da economia 
política clássica. 


Filósofo e embaixador 


Apesar de aborrecido com o insucesso 
da primeira obra, [lume continua a 
escrever e publica, em 1741, os Ensaios 
Morais e Políticos. O estilo elegante faz 

obra bem recebida, mas não o sufi- 
ciente para satisfazer a ambição do 
autor. Hume tenta, então, outro cami- 
nho, apresentando-se como candidato ao 
"argo de professor da cadeira de ética da 
Universidade de Edimburgo. Nova de- 


cepção o espera: é recusado sob a acusa- 
ção de heresia, ateismo e por ser “notó- 
rio infiel” 

Os planos ambiciosos do homem de 


letras e filósofo não davam certo. Parte 
então para outros afazeres, que não 
serão menos infelizes. Passa algum 


tempo como tutor do Marquês de Annan- 
dalle e, logo depois, torna-se secretário 
do General Saint-Clair numa expedição 
militar contra a França. O ataque foi 
totalmente malogrado e todos voltam 
humilhados para a Inglaterra. No ano 
seguinte acompanha o mesmo general, 
agora numa embaixada pacífica, até as 
cortes de Viena e Turim. Com o pomposo 
título de marechal-de-campo, tem a 
incumbência de auxiliar Saint-Clair no 
sentido de reforçar a aliança entre Ingla- 
terra, Áustria e Piemonte contra a Fran- 
ça. O papel não lhe cabia muito bem; 
segundo uma testemunha da época, 
parecia desajeitado e canhestro dentro 
de suas vestimentas escarlates. 


435 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Ao estudarmos com atenção a vaidade da vida humana e ao voltarmos todos os 
nossos pensamentos para o vazio e o transitório das riquezas e honras, outra 
coisa não fazemos, talvez, senão lisonjear a nossa indolência natural...” 
Quando escreveu esse pensamento, David Hume, provavelmente, tinha em mente 
manifestações de indolência comuns em sua época, como a representada pelo 
pintor Van Loo (1705-1765) em “Pausa na Caça”. (Museu do Louvre, Paris.) 


Se a aparência tem alguma coisa de 
ridículo, o cérebro, no entanto, conti- 
nuava ativo e sério. Em 1748 publica os 
Ensaios Filosóficos sobre o Entendi- 
mento Humano, titulo posteriormente 
mudado para Investigação sobre o En- 
tendimento Humano. No mesmo ano 
publica uma edição aumentada dos 
Ensaios Morais e Políticos. Além dessas 
obras teóricas, escreve um Diário de 
Viagem, em que se revela excelente 
observador dos modos de vida e econo- 
mia dos povos visitados, e sabe observar 
com leve humor os traços picantes da 
vida na corte vienense. 


436 


Terminada a viagem em 1749, Hume 
retorna a Ninewells e põe-se a reescrever 
a terceira parte do Tratado da Natureza 
Humana, que lhe causara tanto desgos- 
to. Desse trabalho de revisão resulta a 
Investigação sobre os Princípios da 
Moral, publicada em 1751. Escreve 
também os Discursos Políticos e projeta 
uma continuação das Viagens de Gulli- 
ver de Swift, com a qual pretende ridicu- 
larizar os padres. O projeto não é levado 
a cabo, mas começa a redigir os Diálo- 
gos sobre a Religião Natural, só publi- 
rados após sua morte, pois se o fizesse 
antes correria sérios riscos. 


FABBRI 


HUME 


Perigo não corre, entretanto, a fama 
há tanto desejada. A celebridade chega e 
o essencial de sua” mensagem filosófica 
está em letra de forma. Nãó é uma men- 
sagem muito a gosto das autoridades, e 
uma tentativa para ocupar a cátedra de 
lógica na Universidade de Glasgow 
resulta em novo fracasso, sob a acusação 
de ateísmo. No entanto, tem muitos ami- 
gos no partido deista, que conseguem 
colocá-lo no posto de conservador da 
Biblioteca dos Advogados, em Edimbur- 
go» Cercado por trinta mil volumes e 
imúmeros manuscritos de importantes 
documentos, resolve dedicar-se à histó- 
ria. O fruto desse trabalho é uma Histó- 
ria da Inglaterra, cujos volumes apare- 
ceram entre 1754 e 1762. Além disso, 
publica a Dissertação sobre as Paixões, 
onde se encontra reescrita a segunda 
parte do Tratado da Natureza Humana, 
concluindo assim a revisão da tão Infor- 
tunada obra da juventude. 


O encontro com Rousseau 


Os tempos agora são bem melhores. 
James Boswell (1740-1795), biógrafo 
escocês, considera-o “o maior escritor 
vivo da Grã-Bretanha” e as traduções de 
suas obras começam a aparecer na Fran- 
ca e na Alemanha. Os inimigos, entre- 
tanto, continuam à espreita e acham 
demasiado graves algumas expressões 
mais vivas da História da Inglaterra, 
quando Hume fala de fanatismo e 
superstição religiosa. Além disso, acu- 
sam-no de introduzir livros licenciosos 
na Biblioteca. Em consequência, Hume 
demite-se e volta à diplomacia. 

Começa então o periodo mundano de 
sua vida. As amizades com a mais alta 
intelectualidade européia são muitas e 
enriquecedoras. Figuram entre elas o 


escritor e naturalista Buffon 
(1707-1788), o administrador Turgot 
(1690-1751), o escritor Jean François 


Marmontel (1723-1799), o filósofo Hel- 
vetius (1715-1771) e principalmente 
D'Alembert (1717-1783), a quem Hume 
deixará uma herança. Une-se também a 
Rousseau (1712-1778), que se encontra 
em plena fase de delírio de perseguição 
e, apesar de abrigá-lo na Inglaterra, 
Hume é maltratado e acaba por cansar- 
se das suspeitas do amigo neurótico. 


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as Rad 
DA, qm a Broisy E 


E DAVID HUME ESQ" 


David Hume (acima, em gravura de uma 
edição de suas obras) procurou rever 
cuidadosamente o texto final do 
Tratado da Natureza Humana para não 
chocar as autoridades; pensava, 
especialmente, no bispo Jose ce Butler 


(1692-1 752) (ilustração abaixo), 
cujo patrocínio pretendia obter. 


437 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Publica, então, toda a correspondência 
entre os dois e um Relato Conciso e 
Genuíno das Relações entre os Senhores 
Hume e Rousseau, colocando um ponto 
final nas relações com “o mais sombrio e 
horroroso vilão que existe no mundo” 

Compensando os infortúnios da ami- 
zade com Rousseau, em Paris Hunte é 
admirado pela extensão de seus conheci- 
mentos, profundidade de pensamento e 
elegância de estilo, além de ser conside- 
rado um homem bondoso e alegre. As 
mulheres não o deixam em paz, apesar 
de sua desgraciosa figura. Frequenta os 
mais famosos salões das senhoras pari- 
sienses e liga- se principalmente a Hyp- 
polite de Saujon, mulher bonita e muito 
inteligente. 

Depois de algum tempo, acaba por 
cansar-se e volta à tranquilidade de 
Edimburgo. Encontra ainda energia 
para escrever uma Vida de David Hume, 
Escrita por Ele Mesmo, toma as últimas 
providências com relação à herança e es- 
pera lúcido e tranquilo os momentos 
finais. Em 25 de agosto de 1776 falece e 
no dia seguinte é enterrado na colina de 
Carlton: Hill, que domina Edimburgo e o 
Firth of Forth. Um ano depois, a auto- 
biografia é publicada juntamente com 
uma carta do amigo Adam Smith, que 
afirma ter Hume se aproximado tão 
“perto da idéia do perfeito sábio e 
homem virtuoso, quanto o permite a 
fragilidade da natureza humana” 


Empirismo e ceticismo 


A teoria do conhecimento de David 
Hume encontra-se na primeira das três 
partes do Tratado da Natureza Humana, 
escrito aos vinte e cinco anos; resumida 
num Sumário do mesmo, opúsculo polê- 
mico publicado logo após; e na Investi- 
gação sobre o Entendimento Humano, 
vinda à luz dez anos depois. O primeiro 
tem a preferência dos especialistas, por 
ser o mais extenso e completo de todos 
os livros, mas o próprio autor o repu- 
diou, alegando considerá-lo demasiado 
Juvenil e sempre recomendou a leitura 
do último. Por esta razão e pela extrema 
clareza expositiva, a Investigação deve 
ser preferida para uma primeira tomada 
de contato com o essencial da doutrina 
de Hume. 


438 


O ponto de partida é uma classifi- 
cação de tudo aquilo que se dá a conhe- 
cer como sendo de dois tipos: impres- 
sões e idéias. As impressões são os 
dados fomecidos pelos sentidos, sejam 
internas — como a percepção de um esta- 
do de tristeza —, sejam externas, como a 
visão de uma paisagem ou a audição de 
um ruido. As idéias são representações 
da memória e da imaginação e resultam 
das impressões como suas cópias modi- 
ficadas; podem ser associadas por seme- 
lhança, contigúidade espacial e tempo- 
ral e causalidade. Em suma, trata-se de 
um novo passo em relação à teoria de 
John Locke, segundo a qual a mente é 
uma tabula rasa, uma folha de papel em 
branco, em que são impressos caracteres 
através dos mecanismos da experiência 
sensivel. Cegos ou surdos dé nascença 
não possuem esses caracteres, ou seja, 
não têm idéias correspondentes às cores 
ou ags sons, e um ser completamente 
desprovido dos sentidos jamais seria 

capaz de qualquer conhecimento. 

essa concepção dá-se o nome de 
empirismo psicológico, por constituir 
uma teoria do conhecimento baseada na 
análise das funções subjetivas nele en- 
volvidas. Uma consequência é o chama- 
do empirismo lógico, desenvolvido por 
filósofos posteriores, mas cujas bases já 
se encontram em David Hume. O empi- 
rismo lógico consiste na afirmação de 
que as palavras só têm significado na 
medida em que se referem a fatos con- 
cretos. Dai decorre a eliminação de 
todos os conceitos da metafísica, pois 
estes pretendem referir-se a realidades 
exteriores ao sujeito pensante, sem qual- 
quer traço de experiência sensivel. 
Dizer, por exemplo, que existem duas 
substâncias no universo, a matéria e o 
espírito, seria enunciar juízos sem signi- 
ficado, pois o conceito de substância 
nada tem a ver com a experiência sensi- 
vel. A metafísica não seria, assjm, mais 
do que um grandioso jogo de palavras. 

Os conteúdos do conhecimento são, 
para Hume, matérias de fato. Mas não 
se reduzem a isso. São também relações 
entre as ideias. Estas podem ser manti- 
das como puros entes de razão e suas 
relações lógicas desdobram-se em ou- 
tras mediante inspeção racional. A idéia 
de triângulo plano, por exemplo, impli- 


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humano que pouca satisfação se pode esperar neste particula 


“do própria. 


alimento e nutriç 
do retrato pintado por Allan Ramsay, 


“O homem é um ser dotado de raz 


quer da extensão das aquisições. 


439 


OS PENSADORES 


Não há homem, por mais jovem e inexperiente, que não tenha formado, pela 


posa muitos preceitos gerais e justos sobre os assuntos humanos . 


«mas 


é preciso confessar que o homem que vem a pô-los em prática corre grandes 
perigos de errar, enquanto o tempo e novas experiências não tiverem ampliado 


esses preceito Sa 


“ Alguma coisa sobre os assuntos humanos Hume aprendeu em 


Paris, onde certamente participou de passeios nos jardins do palácio real, 
como o representado pela gravura acima, hoje no Museu do Louvre, Paris. 


ca a de igualdade dos ângulos internos a 
dois retos, da mesma forma como a idéia 
de movimento conduz às de espaço e 
tempo, pouco importando saber se exis- 
tem ou não as realidades concretas 
correspondentes. Apenas nesse puro 
nível de signific ados, sem relação com a 
experiência sensível. é possível o conhe- 
cimento demonstrativo, Isto é, o dominio 
da dedução lógica. Segundo Hume, esse 
nível restringe-se às idéias de quanti- 
dade da matemática 

Por outro lado, os fatos concretos 
revelados pela experiência sensivel mos- 
trar-se-iam ao sujeito do conhecimento 
tais como são, sem quaisquer relações 
lógicas; deveriam ser aceitos como são 
dados. Que as margaridas sejam bran- 
cas. o chumbo seja pesado e o fogo quei- 
me — seriam fatos fechados em si mes- 
mos e logicamente estéreis. Poderiam 
ser diferentes do que são e isso não 
implicaria contradição alguma, ao con- 
trário dos conceitos matemáticos. O 
triângulo plano não pode ser concebido 
sem a idéia de soma dos ângulos igual a 
dois retos, mas as margaridas poderiam 


440 


ser amarelas. Os fatos concretos não se- 
riam passíveis de conhecimento demons- 
trativo: não seria possivel. portanto, 
provar que o mundo deve ter esta ou 
aquela estruturação. 


Causas e efeitos 


Não é até esse ponto que a teoria de 
Hume é mais original, pois. com algu- 
mas diferenças, ela já se encontra em 
Locke. A partir dai, Hume traça um 
caminho próprio, desenvolvendo uma 
doutrina da causalidade, especialmente 
importante porque os conceitos de causa 
e efeito constituem um dos núcleos das 
metafísicas racionalistas. Estas conce- 
bem a relação causal como conexão 
necessária entre os fatos. mas. analisan- 
do-se os fenômenos sensíveis, verifica-se 
a inexistência de qualquer impressão a 
ela correspondente. Se, por exemplo - — 
diz Hume —, toma-se o Juízo causal * 
pedra esquenta porque os raios de e 
incidem sobre ela”, constata-se que a 
primeira e a última partes (“a pedra 
esquenta” e “os raios de sol incidem 


FABBRI 


HUME 


sobre ela”) têm como origem duas 
inquestionáveis impressões sensíveis, 
uma tátil e outra visual. O mesmo não 
acontece com a vinculação expressa na 
palavra “porque”. Qual seria, então, a 
origem desta última? 

Para Hume a resposta encontra-se 
numa habitual associação entre o poste- 
rior e o anterior. O fato de um fenômeno 
ser sempre seguido por outro, no tempo, 
faz com que os dois sejam relacionados 
como se houvesse conexão causal entre 
eles. Causa e efeito, enquanto impres- 
sões sensíveis, não seriam mais que o 
anterior e o posterior de uma sucessão 
temporal, transformados em elos de uma 
vinculação necessária. Isso ocorre subje- 
tivamente e seu fundamento encontra-se 
no sentimento de crença, algo muito 
diferente dos processos intelectuais de 
inferência lógica. Quando se vê um copo 
air, não se deduz logicamente que ele 
vá quebrar; espera-se. porém, que isso 
aconteça e, sobretudo, acredita-se firme- 
mente que isso vá ocorrer em seguida. 
Como conseguência. não é possível ter 
conhecimento cientifico da natureza, se 
por essa expressão entende-se certeza e 
demonstração, Isto é, prova. As ciências 
da natureza, para Hume, correspondem 
a uma necessidade interior de colocação 
de ordem nas coisas, a fim de que a 
sobrevivência do homem seja garantida. 
Seus fundamentos seriam, portanto, ir- 
racionais, pois a crença que está na base 
de todo o conhecimento natural não tem 
qualquer estruturação lógica. Esta en- 
contra-se apenas nos domínios da mate- 
mática, cujas verdades são apodíticas, 
necessárias e invariáveis. 

Ê preciso salientar, no entanto, para 
que não se perca o verdadeiro signifi- 
ado da teoria do conhecimento de 
Hume, que seu objetivo não era destruir 
pura e simplesmente o trabalho dos cien- 
Listas. A análise e a crítica que formulou 
dos fundamentos do conhecimento eram 
endereçadas às grandes concepções me- 
tafísicas tradicionais. Elas afirmavam 
uma certa ordem no mundo, determi- 
nada pelo criador. A existência deste 
seria provada, seja pelo argumento de 
que todas as coisas têm uma causa e, 
portanto, deve haver uma primeira, seja 
pela análise da idéia de perfeição. O pri- 
meiro raciocinio supõe a lei da causali- 


Uma tempestuosa relação ligou os 
filósofos David Hume e Jean-Jacques 
Rousseau. (Gravura representando 
Rousseau em Ermenonville, 
Biblioteca Nacional de Paris.) 


OS PENSADORES 


David Hume não foi um filósofo limitado à penumbra das bibliotecas e à 
abstração teórica; soube viver os prazeres mundanos e observar a vida das 
pessoas simples, como as que conheceu ao viajar pela Áustria e Itália em 
missão diplomática. Na Itália, esteve em Turim, cuja ponte sobre o rio Pó foi 


represen ta 


dade como imerente ao mundo físico, o 
segundo está fundado, como em Descar- 
tes, na existência de idéias inatas, isto é, 
originadas na própria razão. Para 
Hume, os dois tipos de argumentos são 
falsos, pois a causalidade não é mais do 
que uma crença baseada na ação do há- 
bito sobre a imaginação, e as idéias têm, 
todas, origem na experiência sensivel. 
Todos os outros raciocínios da metafi- 
sica apresentariam os mesmos defeitos. 
Tomam como expressões da realidade 
concreta conceitos na verdade vazios, 
porque não referentes a impressões 
sensíveis. Por outro lado, utilizam pro- 
cedimentos demonstrativos válidos ape- 
nas para as matemáticas, cujas idéias 
não precisam ser supostas como expres- 
sões de coisas concretamente existentes. 


Moral e política 


A mesma luta contra as pretensões da 
razão no sentido de criar uma concepção 


442 


por Bernardo Bellotto (1721-1780). (Pinacoteca Sabauda, Turim.) 


indubitável do mundo, encontra-se na 
análise da moralidade, feita por Hume 
na terceira e última parte do Tratado da 
Natureza Humana e na Investigação 
sobre os Princípios da Moral, versão 
posterior da primeira obra e preferida 
pelo próprio autor, como sendo de todos 
os seus livros “incomparavelmente o 
melhor” 

Assim como a crença na causalidade, 
os princípios da moral não teriam funda- 
mento na razão, mas no sentimento. 
Para Hume, não existe uma faculdade 
especial como uma razão moral, nem 
tampouco um bem supremo ao qual deva 
se conformar o comportamento humano. 
A moralidade seria apenas um conjunto 
de qualidades aprovadas pela generali- 
dade das pessoas. Essas qualidades se- 
riam aprovadas conforme sua utilidade, 
ou O prazer que proporcionam. 

A utilidade define-se como a aptidão 
ou tendência natural para servir a um 
fim, desde que este seja visto como bom. 


FABBRI 


HUME 


Assim, a Justiça, entendida como res- 
peito pelo direito de propriedade, deve- 
ria todo seu mérito .à utilidade pública, 
pois conduz ao bem-estar da ocedade 
Ela não teria qualquer necessidade lógi- 
ca imterna e seria desnecessária, se a 
bondade do homem fosse  uficientas 
mente grande para fazer com que todos 
se sentissem bem, sem necessidade do 
roubo. Dois fatores condicionariam a 
Justiça: um externo, constituído pela 
distinção da propriedade, e outro inter- 
no, o apreço pelo bem público. Quando 
essas condições são cumpridas, a justiça 
surge tão naturalmente que não pode ser 
classificada como meramente convencito- 
nal. A forma institucionalizada da justi- 
ca é o direito e sua forma mais natural 
encontra-se na benevolência. A última 
opera nos indivíduos em esferas mais 
amplas que a propriedade. 

De acordo com Hume, um segundo 
grupo de qualidades morais, ao lado da 
Justiça e da benevolência, caracteriza-se 
pela utilidade em relação aos próprios 
possuidores: é o caso da diligência e da 
frugalidade, por exemplo. A aprovação 
dada a elas não decorre do interesse pes- 
soal, pois são também estimadas nos 
outros. Algumas virtudes, como a hones- 
tidade e a sinceridade, são apreciadas 
tanto pela utilidade para o próximo, 
quanto por serem convenientes para os 
individuos que as possuem. Outras, 
como a coragem e a alegria, repousam 
não na utilidade, mas no agrado ou 
conveniência para o eu ou para os seme- 
lhantes. Diferentemente das anteriores, 
virtudes como a modéstia e as boas 
maneiras têm como fundamento o agra- 
do proporcionado a todas as pessoas. 

A ênfase dada aos outros faz da dou- 
trina moral de Hume um utilitarismo 
altruísta, muito próximo do eudemo- 
nismo, isto é, centraliza-se na idéia da 
felicidade do eu e dos semelhantes. 
Assim, Hume esteve sempre preocupado 
com o homém em geral, muito ao contrá- 
rio do que pensaram seus detratores cle- 
ricais, para os quais era um “monstro”, 
pronto para devorá-los ou conduzi-los 
ao inferno. O que Hume não admitia era 
que a moral pudesse fundar-se em verda- 
des eternas. 

A mesma visão utilitarista foi apli- 
cada por Hume aos problemas teóricos 


da política. Contrário aos conservadores 
tories, não aceitou a monarquia de direi- 
to divino. Por outro lado, não aceitava a 
teoria liberal de Locke e a idéia de que a 
sociedade funda-se num contrato social 
primitivo. À seu ver, isso implicaria a 
possibilidade de revogação do contrato 
e, portanto, a aceitação incondicional do 
direito de sublevação. Hume inverte os 
termos do problema político tal como se 
configurava então, e não procura a legi- 
timidade do governo em suas origens, 
mas na utilidade que o governo possa ter 
no presente. As origens do governo são 
dificilmente conhecidas e muito frequen- 
temente sua legitimação se faz através 
da violência. Considerado o govemo 
do ponto de vista de sua utilidade, seria 
possivel. porém, modificá-lo de maneira 
racional. 


A importância do filósofo 
na história 


Em síntese, David Hume foi um filó- 
sofo empirista quanto ao problema da 
origem do conhecimento, cético em rela- 
ção à metafísica e utilitário altruísta em 
assuntos morais e políticos. Concebeu a 
filosofia como ciência indutiva da natu- 
reza humana e chegou à conclusão de 
que o homem é muito mais um ser prá- 
tico e sensitivo do que racional. Desem- 
penhou papel relevante dentro da histó- 
ria do pensamento, ao levar às últimas 
consequências a tradição intelectual ori- 
ginada e desenvolvida principalmente na 
Inglaterra, desde os nominalistas da es- 
cola de Oxford, no século XIH, passando 
por Francis Bacon (1561-1626), até sua 
formulação mais completa com John 
Locke. 

Como consequência, despertou Kant 
(1724-1804) de seu “sono dogmático” e 
o fez criar a filosofia crítica, a partir da 
devastadora análise do conceito de 
causalidade. Foi fator essencial na for- 
mulação do positivismo de Augusto 
Comte (1798-1857), no utilitarismo de 
Jeremy Bentham (1748-1832) e influiu 
ainda mais profundamente no pensa- 
mento de John Stuart Mill (1806-1873). 
No século XX, os positivistas lógicos 
devem muito aos fundamentos que 
Hume lançou para o desenvolvimento de 
uma teoria da significação. 


443 


1711 — David Hume nasce 
a 7 de maio em Edimburgo, 
Escócia. 

1723 — Hume ingressa na 
Universidade de Edimbur- 
go. Nasce Holbach, o siste- 
matizador do materialismo 
francês. 

1734 — Hume viaja para a 
França onde, nos três anos 
seguintes, escreverá o Trata- 
do sobre a Natureza Huma- 
na. Voltaire publica as Car- 
tas Inglesas. 

1739 — Hume publica, na 
Inglaterra, os dois primeiros 
volumes do Tratado da Na- 
tureza Humana, sem ne- 
nhum éxito. Frederico II, 
imperador da Prússia, publi- 
cao Anti Maquiavel. 

1741 — A publicação dos 
Ensaios Morais e Políticos 
traz algum renome a Hume. 
1744 — É recusado ao ten- 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


tar obter a cátedra de filoso- 
fia moral da Universidade 
de Edimburgo. 

1746 — Hume participa de 
uma fracassada missão mili- 
tar em território francês, co- 
mo secretário do General 
Saint-Clair. 

1748 — Hume acompanha 
o General Saint-Clair em 
missão diplomática na corte 
de Viena e publica Três En- 
saios sobre Moral e Política 
e Investigação sobre o En- 
tendimento Humano. Surge 
o Espírito das Leis de Mon- 
tesquicu. 

1751 — Hume publica In- 
vestigação sobre os Princi- 
pios da Moral. Surge o pri- 
meiro volume da Enciclopé- 
dia. 

1752 — Hume torna-se 
conservador da Biblioteca 
dos Advogados de Edimbur- 


BIBLIOGRAFIA 


go e edita os Discursos 
Políticos. 

1754 Surge o primeiro 
dos quatro volumes de sua 
História da Inglaterra. 

1757 — Publica Quatro 
Dissertações. 

1761 — Todas as obras de 
Hume são colocadas no In- 
dex dos livros proibidos.. 
1763 — Hume passa a resi- 
dir em Paris como secretá- 
rio da embaixada inglesa. 
1766 — Retorna a Londres 
e protege Rousseau, do qual 
se afastará pouco depois. 
1769 — Hume volta a resi- 
dir em Edimburgo. Nascem 
Napoleão Bonaparte c o na- 
turalista Alexandre de 
Humboldt. 

1776 — Hume redige A Vr- 
da de David Hume Escrita 
por Ele Mesmo e morre no 
dia 25 de agosto. 


HenDEL, C. W.: Studies in the Philosophy of David Hume, Princeton, 1925. 
Leroy, ANDRE-Louis: La Critique et la Religion chez Devid Hume, Paris, 1930. 
LErOY, ANDRE-LOUIS: Hume, Presses Universitaires de France, Paris, 1953. 
GRrEIG,J. Y. T.: David Hume, 1931. 


LAIRD, J.: Hume's Philosophy of Human Nature, Londres, 1932. 


Price, H. H.: Hume's Theory of the External World, Oxford, 1940. 
HEINEMANN, F. H.: David Hume, the Man and his Science of Man, Hermann & Cie., Paris, 


1940. 


SmirH, N. K.: The Philosophy of David Hume, Macmillan, Londres, 1941. 
DaL PrA,M.: Hume, Bocca, Milão, 1949. 


GLATHE, ALFRED B.: Hume's Theory of Passions and Morals, University of California Press, 
Berkeley c Los Angeles, 1950. 

Mac NABB, D.G.C.: David Hume, Londres, 1951. 

PASSMORE,J. A.: Hume's Intentions, Cambridge, 1952. 

MossnER, E. C.: The Life of David Hume, Londres, 1954. 

ZABEEH, FARHANG: Hume: Precursor of Modern Empiricism, The Hague, 1960. 

FLEw, ANTONY: Hume's Philosophy of Belief, Londres, 1961. 

STEWART, JOHN B.: The Moral and Political Philosophy of David Hume, Columbia Univer- 
sity Press, Nova York e Londres, 1963. 

Human Understanding: Studies in the Philosophy of David Hume, editado por Alexander 
Sesonske e Noel Fleming, Belmont, 1965. 

Modern Studies in Philosophy: Hume, editado por V. C. Chappell, Ed. Macmillan, Londres 
e Melbourne, 1968. 


444 


e COPYRIGHT MUNDIAL, 1973 -- ABRIL S.A. CULTURAI FINNDUSTRIAL — SÃO PALIO — RRAGuU 


OS PENSADORES 


al 
“ 


arrimo im era 


TELTEEL! 


1 


A formação de Voltaire se fez na cidade de Paris, onde sentiu as diferenças 
sociais entre nobreza e burguesia, de Rota pi eclosão da Revolução 


Francesa. Para ela, Voltaire contribuiu com seu 


rilhante espírito polêmico. 


(O porto real de Paris, no Sena, por Lespinasse, Museu Carnavalet, Paris.) 
Na página anterior: busto de Voltaire, executado por Houdon. (Foto Fabbri.) 


7o dia 28 de setembro de 1752, 
encontra-se reunido um grupo de 
intelectuais na sala de refeições do 

castelo real, na capital da Prússia. Em 
suas conversações, decidem escrever um 
dicionário contra os preconceitos, a 
superstição e O fanatismo. 

Um dos participantes entusiasma-se 
mais do que os outros e. nos dias seguin- 
tes, redige alguns verbetes: Abraão, 
alma, ateu, batismo. Juliano, Moisés... 
Enquanto isso, os companheiros esque- 
cem-se do projeto e ele fica sô, 0 que tal- 
vez lhe tenha aumentado ainda mais o 
estímulo para levar a cabo a tarefa, pois 
é um homem bastante exclusivista. De- 
mora alguns anos na redação do livro: 


apesar de ser escritor fecundo e rápido, 


outros afazeres ocupam seu tempo e só 
em 1764 consegue publicar o primeiro 
volume. Intitula-se Dicionário Filosó- 


416 


fico Portátil e obtém um êxito extraordi- 
nário: é colocado debaixo das portas. 
pendurado nos cordões das campainhas 
e frequentemente os bancos dos passeios 
públicos estão repletos de exemplares. À 
razão do sucesso residia, à primeira 
vista, no fato de que era o primeiro livro 
de bolso da história, mas o motivo mais 
importante era seu conteúdo, que consti- 
tuta um sólido alimento intelectual para 
todos os descontentes com a ordem so- 


“cial então vigente. Em suma, tratava-se 


de um poderoso instrumento revolucio- 
nário e não foi sem motivo que seu autor 
foi celebrado como glória nacional. 
algumas décadas depois, quando o Ter- 
ceiro Estado tomou o poder na França. 

O autor do Dicionário chamava-se 
François Marie Arouet. mas era mais 
conhecido pelo pseudônimo de Voltaire. 
Tinha nascido em 1694, em Paris. e era 


FABBRI 


VOLTAIRE 


filho de Marguerite Daumard, descen- 
dente de uma família da pequena nobre- 
za de Poitou. O pai era tabelião, paga- 
dor das especiarias e recebedor das 
multas na Câmara das Contas; possuia 
pequena fortuna e desejava ver o filho 
estudando direito para tornar-se advo- 
gado do rei. Com esse objetivo coloca o 
menino no colégio Louis, le Grand, onde 
ele estuda com os jesuitas, revelando-se 
“rapaz de talento mas patife notável”. 
segundo as palavras de um relatório dos 
professores. 


Aventuras precoces 


Na mesma época, seu padrinho, o 
abade de Cháãteaunecuf, introduziu-o nos 
círculos literários de Paris e no salão dez 
famosa cortesã Nímon de Lenclos. Vol- 
taire é ainda um menino e já conhece os 
meios desregrados, onde o modo de viver 
é comandado por epicuristas volup- 
tuosos e poetas galantes. 

O pai não vê com bons olhos aqueta 
vida e providencia-lhe uma ocupação 
mais séria, logo que o jovem completa o 
curso no colégio. Voltaire torna-se 
pajem do Marquês de Chãteauneuf, em 
missão diplomática na Holanda. Nessa 
época, Ra se por Olympe Dunoyer 
(Pimpette) e trama para que a moça vá 
morar com ele na França. Como Pim- 
pette é protestante, a solução é conven- 
cer o padre Toumemine e o bispo de 
Evreux de que se trata de obra predosa 
fazê-la voltar ao seio da Igreja Católica, 
mas para isso ela precisaria estar na 
Franca. Os padres. no entanto, não se 
deixam enganar pelo astuto apaixonado 
e o romance chega ao seu ponto final: 
Voltaire é mandado de volta à casa 
paterna. 

Triste e desolado. põe-se a escrever 
versos. Compõe uma ode a Luis XIII. 
submete-a a concurso na Academia 
Francesa, mas é vencido por um concor- 
rente. Vinga-se compondo uma sátira 
contra o rival e o resultado é uma briga 
espalhafatosa, que o obriga a fugir de 
Paris. 

Não seria a primeira briga nem a pri- 
meira fuga. Voltaire começa a tornar-se 
conhecido como turbulento e um relató- 
rio policial o descreve como um moço 
magro, lábios finos e apertados, sem 


O pintor Nicolas de Larguilliêre 
retratou Voltaire, quando era apenas 
o brilhante poeta que encantava as 
damas e satirizava os grandes da 
época. (Coleção Furstenberg.) 


barba, olhos vivos e perspicazes. jeito de 
sátiro, terrivelmente malicioso, encanta- 
dor e muito bem tratado com perfume de 
essência de cravo. 

Torna- se amante de Susanne de Liv ry. 
frequenta os salões mundanos, agrada à 


jovem Rainha Maria Leczinska, faz ver- 


sos galantes para as damas e pequenos 
poemas satíricos. Pretensioso ao extre- 
mo, quer tornar-se o grande trágico do 
século, em substituição a Comeille e 
Racine. Escreve. então, uma peça. 
Édipo, em Iil5. e compõe um poema 
épico sobre a Liga e Henrique IV, a 
Henriada. 

Em 1717, algumas anedotas contra o 
regente, Duque de Orléans. são atri- 
buíidas a Voltaire e valem-lhe uma pri- 
meira passagem pela Bastilha. Na 
mesma época, começa a aparecer como 
homem de negócios, nem sempre muito 


44% 


OS PENSADORES 


Luis XV governou a França 
durante a maior parte da vida de 
Voltaire. Os dois não se davam múito 
bem, mas apesar disso o autor do 
Cândido tornou-se historiógrafo real. 


honesto. Com o sucesso do Édipo faz 
investimentos financeiros. empresta di- 
nheiro a nobres arrumados. torna-se for- 
necedor dos exércitos e rouba no abaste- 
cimento. Financia todo tipo de tráfico. 
inclusive o de escravos. excelente negó- 
cio na época. 

No entanto, não passava de um bur- 
guês e as distâncias sociais precisavam 
ser mantidas na França absolutista. Mas 
ele não as mantém e um Incidente com o 
Duque de Sully. cavaleiro de Rohan. 
resulta numa surra comandada pelo pró- 
prio duque. No dia seguinte o poeta bur- 
guês desafia o aristocrata para um 
duelo. mas um nobre não cruzava armas 
com qualquer um e. além do mais. tinha 
poderes para mandar os inimigos para a 
Bastilha. ou desterrá-los. Voltaire prefe- 
re o exílio e dias depois está na 
Inglaterra. 

O acontecimento é decisivo para sua 
formação intelectual. Frequenta as reu- 


448 


niões no salão de Walpole (1717-1759). 
é recebido pelo Principe de Gales e rela- 
ciona-se com os poetas Edward Young 


(1683-1765) e Alexander Pope 
(1688-1744). o escritor Swifi 
(1667-1745) e os filósofos Berkeley 


(1685-1753) e Clarke (1675-1729). En- 
tusiasma-se com a tolerância religiosa e 
com a relativa igualdade política entre 
burgueses e nobres. Essas experiências. 
vividas durante três anos, farão dele o 
principal propagandista do pensamento 
inglês no continente. fato de profundas 
consequências especialmente na França. 
Através de intensa correspondência, di- 
funde principalmente a teoria empirista 
de John Locke (1632-1704) e a nova 
visão do mundo revelada pelo método 
experimental-matemático de Newton 
(1642-1] 727). Essa correspondência 
seria posteriormente publicada na Fran- 
ca sob o título de Cartas Filosóficas e 
constituiria um acontecimento escanda- 
loso. Condenadas à fogueira. por desres- 
peito. às autoridades e por serem contrá- 
rias à religião e aos bons costumes, as 
Cartas fazem Voltaire sentir de novo a 
possibilidade de ser preso na Bastilha. 
Mas ele escapa a tempo, refugiando-se 
no castelo de Cirey. propriedade da 
Marquesa de Chátelet, Emilie de Bre- 
teuil, sua amante. 


Uma 


Antes que Isso aconteça, entre 1729 e 
1734. escreve e encena as peças Brutus. 
Eriphyle e Zaire e redige a História de 
Carlos XII, obra de grande sucesso. 

Em Cirey. a partir de 1734, passa a 
maior parte dos quinze anos seguintes 
estudando física, metafísica história. 
sempre acompanhado pela Marquesa de 
Chátelet. mulher culta. tradutora de 
Newton e que deseja fazer de Voltaire 
um adepto de Leibniz (1646-1710). 
que lhe parecia detestável. Escreve Alzi- 
re, Mérope, O Filho Pródigo, Maomé, e O 
Mundano. Aos poucos retoma os conta- 
tos com Paris e, protegido por Madame 
Pompadour (I721-1764). favorita de 
Luís XV (1710-1774). acaba por ser 
nomeado historiógrafo real e. em I716. 
é eleito para a Academia Francesa. 

Nesse meio tempo. as relações com a 
e ada de Chátelet tornam-se dificeis 

Voltaire acaba por atender aos insis- 


vida inconstante 


VOLTAIRE 


Frederico II, da Prússia, um dos 
“déspotas esclarecidos” do Iluminismo, 
foi grande amigo de Voltaire. (Os 
dois numa gravura antiga pertencente 
a Raccolta Stampe Bertarelli, Milão.) 


tentes convites de Frederico Il, da Prús- 
sia. a fim de que se transferisse para 
Potsdam e integrasse o círculo de inte- 
lectuais que viviam na corte. Sua função 
principal seria dar aulas de francês ao 
monarca. 


A tarefa não lhe agrada, mas o amável 
tratamento dispensado pelo rei faz com 
que Voltaire continue na corte. Não 
deixa, contudo, de realizar seus negó- 
cios nem sempre impecáveis, o que desa- 
grada Frederico IH. À situação torna-se 
irremediável quando o filósofo polemiza 
com Maupertuis. presidente da Acade- 
mia de Berlim, e publica o panfleto Dia- 
tribe do Dr. Akakia (1752). sem conheci- 
mento do soberano. Isso era intolerável e 
o escrito é condenado à fogueira. Vol- 
taire é obrigado a deixar a Prússia. 

Em Paris estava proibido de entrar. 
Passa, então, mais de um ano em Col- 
mar, 


ARBORIO MELLA 


até encontrar asilo em Genebra, . 


onde adquire uma residência chamada 
“As Delícias”. Ai completa suas duas 
maiores obras históricas: O Século de' 
Luis XIV e o Ensaio sobre os Costumes e 
o Espírito das Nações. Vive em boas 
relações com os pastores evangélicos da 
cidade e entra em contato com os 
enciclopedistas, que desejavam sua co- 
laboração. Escreve alguns artigos para a 
Enciclopédia e inspira o verbete Gene- 
bra, redigido por D'Alembert, que suge- 
re a construção de um teatro na cidade. 
Isso é considerado um verdadeiro escân- 
dalo e provoca certa turbulência. da 
qual participa ativamente Rousseau, 

contrário à sugestão. O resultado foi a 
ruptura entre Rousseau e Voltaire e a 
permanência deste em Genebra torna-se 
impraticável. 

Retira-se, então, para Ferney, onde 
viveria quase até o fim da vida, cuidando 
de sua propriedade rural. escrevendo 
muito e combatendo incessantemente as 
injustiças, como a condenação do ino- 
cente Jean Calas (1762) e os casos de 
Sirven (1764) e do cavaleiro de La Barre 
(1766). todos vítimas do fanatismo cle- 
rical. Defende suas idéias liberais no 
Tratado sobre a Tolerância (1763) e 
publica o Dicionário Filosófico, uma de 
suas muitas armas para “esmagar a 
infame” (Igreja Católica). O mesmo alvo 
têm as novelas satíricas Cândido (1759). 
O Ingênuo (1767), O Homem de Qua- 
renta Escudos (1767) e o poema herói- 
co-cômico 4 Donzela (1755-1771). 

O resultado de todas essas criticas e 
lutas pelos ideais da razão e da liber- 
dade foi a glória pública. Em 1778 é 
recebido entusiasticamente em Paris, ao 
ser representada sua última peça teatral, 
a tragédia Irene. É coroado de louros 
pelo ator Brizard e intensamente aplau- 
dido pela assistência. Dois meses de- 
pois, no dia 30 de maio, falece aos 84 
anos de idade. 


Crítico e defensor 
de filosofias 


A rigor, Voltaire não foi propriamente 
um filósofo. Detestava toda especulação 
abstrata e suas obras não contêm maior 
originalidade como reflexão analítica; 
limitam-se à exposição e defesa do pen- 
samento de outros. Isso, no entanto, ele 


449 


OS PENSADORES 


o faz de maneira brilhante: tem o dom de 
apaixonar o leitor, fazê-lo compreender 
as idéias mais complexas e convertê-lo 
às suas opiniões. Desempenhou, assim, 
um papel importante dentro da história 
das idéias. 

Seu desenvolvimento intelectual teve 
um momento decisivo quando viveu na 
Inglaterra. Anteriormente, Voltaire 
tinha aderido à dúvida metódica carte- 
siana, ao ceticismo de Montaigne 
(1533-1592), ao epicurismo dos segui- 
dores de Gassendi (1592-1655), e ao 
espírito crítico de Pierre  Bayle 
(1647-1706). Contudo, foi o contato 
com a atmosfera social, política e inte- 
lectual inglesa o fator determinante na 
articulação final de seu pensamento. As 
Cartas Filosóficas ou Cartas Inglesas 

expressam nitidamente essa influência e, 
de um ponto de vista estritamente filosó- 
fico, as mais ricas de conteúdo são as 
referentes a Newton, John Locke e Pas- 
cal (1623-1662). 

Com relação ao primeiro, os princi- 
pios metodológicos da fisica fundada na 
observação e experimentação encora- 
jaram Voltaire a criticar todas as teorias 
e hipóteses puramente especulativas. 
Por outro lado, a lei da gravitação: uni- 
versal inspirou seu permanente temor 
pela grandeza dos céus, em comparação 
com a pequenez da terra, e sua crença na 
existência de um ser supremamente mte- 
ligente e criador do Universo. 

Mais significativas são as opiniões de 
Voltaire sobre Locke e a teoria empirista 
do conhecimento. Louva-lhe a análise 
“paciente dos processos de formação do 
conhecimento, a negação da existência 
de idéias inatas independentes da expe- 
riência e a afirmação das limitações da 
mente finita, ao pretender o conheci- 
mento do universo infinito. Locke for, 
para Voltaire, o homem que, modesta- 
mente, escreveu a história da alma. 
Antes do filósofo inglês, uma “multidão 
de raciocinadores”, desde Anaxágoras 
até Malebranche (1638-1715), teria 
feito apenas o romance da alma. 

Na carta sobre Pascal, delineiam-se 
os elementos essenciais do pensamento 
ético e social de Voltaire. Ele critica 
Pascal por ter este encontrado valor nos 
sofrimentos da existência terrena do 
homem como preparação para as glórias 


450 


da vida futura. Para Voltaire, os Pensa- 
mentos de Pascal foram escritos com o 
intuito de mostrar o homem sob uma luz 
odiosa, pintando-o como um ser malva- 
do e infeliz, para sempre condenado em 
virtude do pecado Qupina!; Voltaire 
insurge- se contra isso e toma o partido 
da humanidade. ue assegurar que 
não somos tão malvados nem tão infeli- 
zes”. Deseja apresentar um programa de 
melhorias sociais para o aprimoramento 
do homem e, para isso, acha necessário 
combater as doutrinas defendidas por 
Pascal: pecado original, graça, predesti- 
nação,providência divina. 


A metafísica é uma quimera 


A partir das Cartas Filosóficas, Vol- 
taire foi o grande divulgador de algumas 
doutrinas correntes no século XVIII 
francês, tornando-as acessíveis a um pú- 
blico muito numeroso: o empirismo, o 
ceticismo, o deismo, a religião natural e 
o humanismo ético. 

O empirismo voltairiano não ultra- 
passa os limites da teoria do conheci- 
mento formulada por Locke, consistindo 
apenas na crença de que todo conheci 
mento provém da experiência. 

O ceticismo não chega a ser, em Vol- 
taire, uma doutrina sistemática, como a 
desenvolvida pelos céticos da Antigui- 
dade greco-latina ou, mais moderna- 
mente, por David Hume (1711-1776). É 
antes uma atitude espiritual] e refere-se, 
sobretudo, à impossibilidade de conhe- 
cimento em matéria de metafísica. Para- 
doxalmente, ele, que escreveu um Trata- 
do de Metafísica, não acredita ser 
possivel chegar .ao desvendamento dos 
segredos últimos do Universo. “Como 
pensamos”, “por que os pés e as mãos 
obedecem aos ditados da vontade” ou “o 
que é a matéria” seriam questões insolú- 
veis. Sobre a alma, Voltaire afirma 
numa carta a Boswell: “Você parece 
apreensivo com rela cão aessa coisa cha- 
mada alma. Devo declarar que nada sei 
dela; nem se ela existe, nem o que ela é, 
tampouco o que virá a ser. Jovens sábios 
e padres sabem tudo isso perfeitamente: 
de minha parte, não sou mais que um 
camarada muito ignorante” A metafi- 
sica, para Voltaire, é é feita “de duas coi- 
sas: a primeira, aquilo que todas as pes- 


VOLTAIRE 


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Frederico IL, imperador da Prússia, reunia em sua corte os maiores sábios e 
artistas da época. Ele mesmo escreveu o Anti-Maquiavel e compôs dezenas de 
sonatas para, flauta. Admirava muito Voltaire, ao qual se referia como “o 
mator gênio de todos os séculos”. (Jantar em Sans-Souci, vendo-se Frederico, 
ao centro, e Voltaire, s segundo a sua direita, Museu do Estado, Beriim.) 


OS PENSADORES 


Maurice Quentin de La Tour retratou 
Voltaire em 1736, dois anos após a 
publicação das Cartas Inglesas, obra 
que causou escândalo em Paris e foi 
proibida. (Museu de Versalhes.) 


452 


ARBORIO MELLA 


soas de bom senso sabem: a segunda, 
aquilo que jamais saberão”. Em suma, 
todo conhecimento seria quimérico, a 

não ser o resultado do cálculo da medida 
e da observação, vale dizer, o que se re- 
fere ao mundo físico. 

Não obstante todo o ceticismo metafi- 
sico, expresso frequentemente em suas 
obras, Voltaire acredita numa certa 
ordem inerente à natureza, na qual 
encontram-se objetivos e desígnios; ela 
não é caótica. Dessa ordem Voltaire 
deduz como válidas as três provas da 
existência de Deus, formuladas por 
Santo Tomás de Aquino (c. 1224-1274): 
primeira causa, motor imóvel e inteli- 

ência suprema. Voltaire é, assim, um 
filósofo teista. pois acredita na exis- 
tência de um ser supremo, criador de 
todas as coisas, mas não aceita os de- 
mais atributos que a tradição judaico-, 
cristã confere a Deus. Para ele, o criador 
de todas as coisas fez o mundo e abando- 
nou-o à própria mercê.. 

A negação da providência divina e o 
questionamento da bondade de Deus 
encontram-se no Poema sobre o Desastre 
de Lisboa e no Cândido. Ambos atacam a 
teoria da harmonia preestabelecida e o 
otimismo de Leibniz e Pope. Da mesma 
forma, Voltaire não aceita o dogma do 
pecado origmal e a doutrina cristã 
segundo a qual Deus deixou o homem 
livre para escolher entre o bem e o mal. a . 
fim de testar sua alma. Se assim fosse, 
pergunta o filósofo, como se pode expli- 
car que, no terremoto de 1755. só a ci- 
dade de Lisboa tenha sido destruida? E 
que inocentes tenham sido punidos jun- 
tamente com culpados? 

Voltaire, no entanto, não foi um pessi- 
mista, como se poderia pensar à pri- 
meira vista. Ele combate apenas o oti- 
mismo metafísico, segundo o qual o 
homem vive no melhor dos mundos pos- 
siveis e dentro do qual exclui-se a exis- 
tência do mal. Ao contrário. o mal esta- 
ria sempre presente. mas seria possível 
superá-lo através das luzes da razão e 
através do trabalho. 

O mal que é preciso combater e o bem 
que deve ser preservado são esvaziados 
pelo autor do Cândido de todo signifi- 
cado metafísico e tornam-se realidades 
sociais. A ética de Voltaire, como em 
geral a de seus contemporâneos, é uma 
ética social. Seus valores são humanits- 


VOLTAIRE 


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Em Ferney, Voltaire tornou-se um fidalgo rural, que sabia cuidar, com métodos 
modernos, de suas terras e tirar delas os maiores lucros. Ao lado dessas 
atividades, continuou a escrever incessantemente até seus últimos dias. 

polemizando contra as injustiças, o fanatismo religioso ea Igreja Católica. 
(Gravura representando o castelo de E erney, Biblioteca Nacional, Paris.) 


ticos e a felicidade do individuo dentro 
da sociedade, sua principal preocupa- 
cão. Às virtudes teologais da fé. espe- 

rança e caridade são substituídas pela fe 
na capacidade de o homem resolver seus 
problemas, pela esperança de uma socie- 
dade melhor e pelo amor ao semelhante. 

Entretanto, o valor pelo qual Voltaire 

lutou toda a vida foi a Justiça, que é para 
ele o concomitante necessário da liber- 
dade intelectual. A idéia de Justiça foi 
LA pd a base de seus pr incipios et COS € 
a paixão principal de sua vida. Batia-se 
por todas as causas que pudessem colo- 
cá-la em risco é odiava a Intolerância, a 
superstição e o fanatismo. Defendeu o 
protestante Jean Calas, não descansou 
enquanto não conseguiu a absolvição de 
Sirven e lutou pela reforma dos procedi- 
mentos judiciais, como essencial ao pro- 
gresso da civilização. Nesse sentido 
escreveu um comentário ao Ensaio sobre 
os Delitos e as Penas de Cesare Beccaria 
(1738-1794), que é sempre publicado 


com a obra principal e ajudou a promo- 
ver reformas judiciárias nas Américas e 
em vários reinos europeus. 

A mesma preocupação humanística 
encontra-se nos trabalhos históricos de 
Voltaire. A História de Carlos XII, além 
de construir uma inovação do ponto de 
vista me todológico. procura mostrar 
como ambições políticas causam 
desastres às nações, mesmo quando se 
trata de governantes excepcionais. O Sé- 
culo de Luís XIV desenvolve o tema de 
que os verdadeiros benfeitores da huma- 
nidade não são os generais mas os filó- 
sofos, cientistas e poetas. O Ensaio 
sobre os Costumes eo Espírito das 
Nações: nverte totalmente a concepç ão 
da História Universal de Bossuet 
(1627-1704). mostrando como o cristia- 
nismo teria herdado dos hebreus a 
superstição, o fanatismo e a hipocrisia e 
teria causado mais guerras e feito jorrar 
mais sangue do que qualquer outra 
religião. 


as 


ARBORIO MELLA 


1694 — Voltaire nasce em 
Paris. 

1702 — Guerra de Suces- 
são da Espanha. 

1704 É publicado o Tra- 
tado de Ótica de Newton. 
I710 — Voltaire publica 
sua primeira obra, Imitação 
da Ode de R. P. Lejay sobre 
Santa Genoveva. sob o no- 
me de François Arouet. 


1715 — Morte de Luis 
XIV. 

1716 — Voltaire é exilado 
em Sullv-sur-Loire. 

1717 — É encarcerado na 
Bastilha. 


1718 — Adota o: pseudôni- 
mo de Voltaire. 

1726 — É novamente preso 
na Bastilha. Segue-se o exi 
lio na Inglaterra. 

1729 — Regressa à França. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1733 — Liga-se à Marque- 


“ sa de Chátelet. 


1734 — Expede-se um man- 
dado para sua captura, devi- 
do ao escândalo provocado 
pelas Cartas Filosóficas. 
1735 — Obtém autorização 
para retornar a Paris. 

1738 — Concorre, junto 
com a Marquesa de Cháte- 
let, ao prêmio da Academia 
de Ciências acerca da “na- 


tureza do fogo”. Perdem 
ambos. 
I741 — A França toma 


parte na Guerra de Sucessão 
da Áustria. Voltaire começa 
a escrever o Ensaio sobre os 
Costumes. . 

1745 — E nomeado histo- 
riógrafo real. 

1746 — E eleito membro da 
Academia Francesa. 


BIBLIOGRAFIA 


1747 — É impressa, na Ho- 
landa, a primeira versão de 
Zadig, de Voltaire. 

1752 Inicia o projeto do 
Dicionário Filosófico. 

1755 — Começa a escrever 
o Poema sobre o Desastre 
de Lisboa. 

1756 — Tem início a Guer- 
ra dos Sete Anos: a Inglater- 
ra declara guerra à França. 


1758 — Voltaire escreve 
Cândido, impresso no ano 
seguinte. 

1760 — Recebe uma carta 


insultuosa de Rousseau, que 
implica a ruptura entre am- 
bos. 

1761 — Destruição da Igre- 
ja de Ferney. Voltaire é acu- 
sado de sacrilégio. 

1778 — Voltaire morre em 
Paris, no dia 30 de maio. 


VOLTAIRE: Oeuvres Completes, Ed. Beuchot, 72 vols., Paris, 1829-1834. 
PomEeAU, RENE: La Religion de Voltaire, Paris, 1956. 
CRESSON, ANDRE: Voltaire, sa Vie, son Oeuvre, sa Philosophie, Presses Universitaires de 


France, Paris, 1948. 


LANSON, GUSTAVE: Voltaire, Paris, 1910, reimpresso em 1960. 


TORREY, NORMANI: The Spirit of Voltaire, Nova York, 1938, reimpresso em Oxford, 1962. 


CARRE,J. R.: Consistance de Voltaire, le Philosophe, Paris, 1938. 


WADE, I. O.: Studies on Voltaire, Princeton, 1941. 
CASSIRER, ERNEST: Filosofia de la Iustración, Fondo de Cultura Económica, México e Bue- 
nos Aires, 1950 (original alemão: 1932). 


PAPPAS, JOHN N.: Voltaire and D 'Alembert, Blomington, 1962. 


BOTTIGLIA, W. F.: Voltaire's “Candide”: Analysis of a Classic, Genebra, 1959. 
LyjuBLINSKU, W. S.: Voltaire-Studien in Coleção de Escritos do Grupo de Estudos de História 
do Huminismo Francês e Alemão n.º 14, Academia Alemã de Ciência, Berlim, 1961. 


CAPÍTULO 33 


OS PENSADORES 


Os salões das grandes damas do século XVIII desempenharam papel fundamental 
na difusão das idéias do Iluminismo e por eles circularam os artigos da 
Enciclopédia. Na tela acima, de Lemonnier, vê-se D'Alembert lendo um desses 
artigos no salão da Sra. Geofjrin. (Museu de Belas Artes, Ruão.) Na Ega 
anterior: Diderot, por Michel van Loo, Museu do Louvre. (Foto Fabbri.) 


s obras de Voltaire, assim como as 

de Montesquieu e Rousseau, de- 

sempenharam um papel de pri- 
meiro plano na transformação social, 
política e intelectual do mundo europeu 
no século XVII. Não menos importante 
foi a obra coletiva da qual esses filó. 
sofos participaram juntamente com 
D'Alembert (1717-1783). Quesnay 
(1694-1774), Turgot (1727-1781), 
Marmontel (1723-1799). Holbach 
(1723-1789) e outros: a Enciclopédia ou 


456 


Dicionário Razoado das Ciências, Artes 
e Ofícios. Seu principal redator foi Denis 
Diderot, talvez a personagem mais 
revolucionária entre todos os franceses 
da época. 

Diderot nasceu na pequena cidade de 
Langres, no dia 8 de outubro de 1713, 
filho de um simples cuteleiro chamado 
Didier e de Angélica, sua esposa. Desde 
cedo é dE intado para o sacerdócio, em 
virtude de possuir, do lado materno, vá- 


r IOS clérigos como parentes. A ssim 


FaABBRI 


DIDEROT 


sendo, ingressa no colégio jesuíta da ci- 
dade natal, onde se revela brilhante 
aluno, sobretudo em latim e matemática. 
Com apenas treze anos de idade recebe a 
tonsura, veste a sotaina e é chamado se- 
nhor abade. Os parentes ficam muito 
contentes, pensando que ele estivesse 
disposto a seguir a carreira eclesiástica, 
mas logo se desiludem. Diderot quer 
apenas estudar e para isso dirige-se a 
Paris e ingressa no Colégio Louis, le 


Grand, onde Voltaire estudara anos 
antes. Aprofunda-se em lógica, física, 


moral, matemática e metafísica, disci- 
plinas vestidas convenientemente, no en- 
sino da época, em roupagem aristotélica 

e teológica. Em 1732 torna-se “maitre 
des arts” pela Universidade de Paris e 
mostra-se possuidor de considerável 
erudição em grego, italiano e inglês, 
adquirida autodidaticamente. 

As necessidades da vida prática, con- 
tudo, precisavam ser satisfeitas e a fami- 
lia opunha-se a sustentar um intelectual. 
Diderot torna-se então procurador, mas 
a profissão lhe é tão desagradável que a 
abandona depois de dois anos. Passa 
fome, pede dinheiro emprestado e não 
paga, dá algumas aulas de matemática e 
redige sermões para sobreviver. Em 
1741, encontra Antolnette, atraente mu- 
lher de 31 anos de idade, filha de uma 
pequena comerciante de roupas feitas. 
Casa-se. apesar dos protestos do pai, 
que chega a solicitar sua prisão. Em 
1744, nasce uma filha, Angélica, e os 
problemas de subsistência continuam a 
atormentá-lo. O abismo entre o casal é 
cada vez maior: Antolnette representa o 
prosaico, a ordem, a limpeza, a ignorân- 
cia, enquanto Diderot é boêmio. desor- 
denado e inteligente. 

Para piorar ainda mais a situação, 
Diderot arranja uma amante, a Sra. de 
Puissieux. também atormentada por 
problemas econômicos. 


Uma enciclopédia 
abala a França 


A salvação veio sob a forma de um 
convite dos livreiros Briasson, Durand e 
David para que Diderot traduzisse do 
original inglês a Cyclopédia de 
Ephraim Chambers, publicada em 1728. 
Pagar-lhe-iam cem libras mensais. Di- 


derot aceita e põe-se a trabalhar, proje- 
tando refazer a obra totalmente. Procura 
obter o apoio oficial do rei, mas conse- 
gue apenas a boa vontade do censor das 
publicações, desde que os artigos sobre 
religião, metafísica e filosofia fossem 
fiscalizados por um teólogo. Diderot 
convida D'Alembert para ocupar o cargo 
de co-diretor para os assuntos cientlicos 
e reúne a intelectualidade francesa na 
casa da Sra. Deffand. a fim de distribuir 
tarefas. Rousseau encarrega-se da parte 
de música, Dumarsais fica com a gramá- 
tica, ao abade Mallet reserva-se a teolo- 
gia. O próprio Diderot incumbe-se da 
história da filosofia, ofícios, artes técni- 
cas e de tudo aquilo para o qual não 
achasse redator. Além disso, escreveria 
o Prospecto, ficando para D'Alembert o 
Discurso Preliminar. 

Ao lado do trabalho da Enciclopédia, 
cuja história seria longa e cheia de vicis- 
situdes, Diderot dedica-se a outras tare- 
fas, em parte porque as cem libras pagas 
pelos editores não permitiam satisfazer 
os encargos com Antoinette e a Sra. 
Puissieux, mas sobretudo porque suas 
inquietações intelectuais e artísticas 
exigiam outros meios de expressão. 
Escreve e publica, em 1746. os Pensa- 
mentos Filosóficos, que lhe rendem cin- 
quenta luíses e provocam sua condena- 
ção pelo Parlamento de Paris. O autor 
sustenta, nessa obra, os direitos da 
razão e da critica diante da fé e da reve- 
lação, e isso parecia altamente perigoso 
as autoridades. Mas Diderot está dis- 
posto a enfrentar os inimigos. Escreve O 
Passeio do Cético e é perseguido pela 
policia, que acaba confiscando-lhe o 
manuscrito. Não se amedronta e redige a 
Suficiência da Religião Natural e As 
Jóias Indiscretas, obra que causa escân- 
dalo, mas vende bem. Tantas são as ert- 
ticas, que desiste de imprimir a alegoria 
priápica O Pássaro Branco, Conto Azul. 
Entretanto isso de nada adianta e as 
perseguições sucedem-se, culminando 
pela prisão no castelo de Vincennes. 

Sô em agosto de 1749. cessa sua 
incomunicabilidade e Diderot passa a 
receber a esposa e os amigos. No mesmo 
ano publica a Carta sobre os Cegos para 
Uso Daqueles que Vêem, onde coloca um 
problema de especial interesse para a 
teoria empirista do conhecimento: pode 


451 


OS PENSADORES 


um cego de nascença, que recupere a 
visão, perceber a tridimensionalidade do 
espaço? A Carta conclui por um ceti- 
cismo relativista, mas contém em germe 
o materialismo organicista posterior- 
mente desenvolvido por Diderot e que 
constitui o traço distintivo e original de 
seu pensamento dentro da filosofia do 
século XVIIT. 

Enquanto isso não acontece, Diderot 
retoma a direção da Enciclopédia e redi- 
ge seu Prospecto, em 1750, alguns 
meses depois de ter sido solto. No ano 
seguinte, é publicado o primeiro tomo, 
contendo o Discurso Preliminar de 
D'Alembert. Começa a perseguição à 
obra. O segundo tomo surge em 1752 eo 
Conselho de Estado o proibe. Em 1753, 
a proibição é suspensa e publica-se o 
terceiro tomo, seguindo- se a programa- 
ção normal até 1757, quando surge o 
sexto volume. Nesse ano a tranquilidade 
desaparece outra vez, logo após um 
atentado contra o Rei Luis XV. O gover- 
no adota medidas rigorosas contra todas 
as publicações consideradas subversi- 

vas. Os redatores assustam-se com a 
repressão e abandonam a Enciclopédia 
aos poucos. Em 1759, proibe- se que ela 
circule, sob as acusações de “destruir a 
religião e inspirar a independência dos 
povos” 

Diderot. contudo, não desiste e conse- 
gue do editor a promessa de que a obra 
continuaria a ser editada no estrangeiro. 
Nos anos seguintes, o trabalho estará 
totalmente nas mãos de Diderot e os úl- 
timos tomos serão entregues regular- 
mente aos assinantes, até 1766. Nem 


N 
tudo, entretanto, chegaria aos leitores. 
na redação original do diretor, pois o 


impressor-chefe, Le Breton, assustado 
com as perseguições » alterou sub-repti- 
ciamente vários artigos mais controver- 
tidos. Atê hoje não se completou a 
recomposição dos textos originais. 

Com a ajuda inclusive da famosa Ma- 
dame Pompadour, amante de Luís XV, 
os 36 volumes da Enciclopédia acaba- 
ram de ser publicados em 1772. Apesar 
de todos os problemas, tinha chegado ao 
seu fim uma das mais importantes obras 
para a compreensão do pensamento do 
século XVIII e das transformações que 
culminaram com a Revolução Francesa. 
Nela encontram-se textos fundamentais 


458 


de Diderot, D'Alembert, Rousseau, Vol- 
taire, Turgot, Marmontel, Montesquieu, 
Quesnay e Holbach, sem contar mais de 
uma centena de outros autores menos 
conhecidos. 


Filosofar é descrer 


Apesar de tomar grande parte de seu 
tempo, a atividade de Diderot não se li- 
mita à Enciclopédia. Da mesma época, 
datam peças de teatro (O Filho Natural e 
O Pai de Família), novelas (A Religiosa 
e O Sobrinho de Rameau) e outros escri- 
tos como Carta sobre os Surdos-Mudos, 
Pensamentos sobre a Interpretação da 
Natureza, Discurso sobre a Poesia Dra- 
mática e os Salões. Em 1769 escreve 
Diálogo entre D'Alembert e Diderot, O 
Sonho de D'Alembert, e a Continuação 
do Diálogo. Na década seguinte, conti- 
nua a extensa obra: Suplemento à Via- 
gem de Bougainville, Diálogo de um 
Filósofo com a Marechala, Ensaios 
sobre os Reinados de Cláudio e Nero, 
Lamentações sobre o meu Velho Cham- 
bre, Colóquios de um Pai com seus 
Filhos, Paradoxo sobre o Comediante; 
Jacques, o Fatalista e Elementos de 
Fisiologia. 

Além do trabalho na Enciclopédia e 
da redação desse extenso número de 
obras (e a lista não inclui tudo, tendo 
boa parte permanecido inédita atê o sé- 
culo passado), Diderot viaja bastante e 
mantém muitas relações de amizade fora 
da França. Em 1772, passa pela Holan- 
da e dirige-se para São Petersburgo, 
onde é muito bem recebido pela Impera- 
triz de Todas as Rússias, Catarina, a 
Grande. A imperatriz compra sua biblio- 
teca (que só deveria ser entregue após 
sua morte) e o encarrega de redigir um 
programa para a organização das uni- 
versidades russas e uma edição abre- 
viada da Enciclopédia. 

Quando Diderot regressa, em I774. 
encontra bem mudada a atmosfera da 
França, com a ascensão de Luis XVT ao 
trono. Procura, então, viver mais tran- 
quilamente, refugiando-se no ambiente 
campestre. Corresponde-se com a última 
amante, Sophie Volland, e as cartas for- 
mam um conjunto extremamente interes- 
sante, do ponto de vista do pensamento 
de seu tempo. 


DIDEROT, 


Catarina II, a Grande (1729-1796), governou a Rússia de 1762 até sua morte. 
Discípula dos enciclopedistas, continuou a ocidentalização iniciada por 
Pedro, o Grande (1672-1725) e foi grande amiga de Diderot, do qual adquiriu 
toda a biblioteca e encarregou de fazer uma edição especial da Enciclopédia. 
(Catarina II, tela de Erichsen Vigilius, Museu de Belas-Artes, Chartres.) 


459 


OS PEN 


A morte de Sophie, em 1784, abate-o 
rofundamente. E, cinco meses depois, 
no dia 30 de julho, morre ao sofrer um 
ataque de apoplexia. Um dia antes, no 
apartamento que tinha sido colocado à 
sua disposição pela imperatriz Catari- 
na, afirmara a um dos amigos que viera 
visitá-lo: “O primeiro passo para a filo- 
sofia é a incredulidade” 


O que é o mundo? 


A frase de Diderot, contudo, não sig- 
nifica que ele tenha sido, dentro da his- 
tória da filosofia, um representante das 
doutrinas céticas. Seu pensamento inse- 
re-se dentro das correntes materialistas 
resultantes do desenvolvimento das ciên- 
cias naturais. Estas, por sua vez, têm 
suas origens nos fins da Idade Média, 
quando o homem europeu deixava de 
organizar-se exclusivamente em torno 
da idéia de Deus e voltava suas atenções 
para o mundo material. 

Como consequência, renovou-se o m- 
teresse pelas teorias dos antigos atomis- 
tas gregos, Leucipo (séc. V a.C.), Demó- 
crito (c. 460-370 a.C.) e Epicuro (c. 
341-270 a.€.), e formularam-se as dou- 
trinas materialistas de Pierre Gassend: 
(1592-1655) e de Thomas: Hobbes 
(1588-1679). Na época de Diderot o 
materialismo sistematizou-se nas obras 
de Julien Oflroy de La Metrie 
(1709-1751) e do Barão de Holbach 
(1723-1789). O primeiro publicou, em 
1742, Uma História Natural da Alma e 
seis anos depois, O Homem Máquina; do 
segundo é o Sistema da Natureza, surgi- 
do em 1770. Em todas essas obras 
encontra-se reafirmada — e desenvolvida 
com elementos científicos novos — a tese 
encontrada nos atomistas gregos, segun- 
do a qual todos os fenômenos, incluin- 
do-se os espirituais, dependem e são 
resultados de processos fisicos. O mode- 
lo cientifico de Holbach e La Metrie é, 
assim, o encontrado na física newto- 
niana. Em outros termos, eles concebem 
toda a realidade (material e psíquica) 
como um conjunto de fenômenos de 
movimento puramente mecânico. O 
homem não é mais do que uma máquina. 

Diderot teria colaborado na redação 
do Sistema da Natureza de Holbach. 
Desenvolve, no entanto, uma concepção 


460 


SADORES 


ENCYCLOPEDIE, 


o 
DICTIONNAIRE RAISONNE 
DES SCIENCES, 
ES ARTS ET DES METIERS, 


PAR UNE SOCIETE DE GENS DE LETTRES. 


Mus en crdre & pobim: pos M DIDEROT, de CA cadomse Ros ab: des Senior & de Ho 
Eerres de Proud, & quan a lo Paste Marmemarigar, pe M 1 MEMBER, 
de E Academia Royale des Sire de Pare, de cola da Proao, o de Lu Game Rossato 
de Londres. 

Toma frios pualleragãs polis, 
TN Tema de medos fumpus aceder homes! MORAT. 
4 
y TOME PREMIER. 


A PARES. 


esa ON, me ine fa cute, é do Simé. 
: DAVID rá. ne Sim laço, é do Poe dos 
Cha JLESKETOS. Impome cadezes de Roso ed de dino 
CRANDO mes Dq Mendes md Td 


M DC Cc EI 
ADEC APPRUBATIVN ET PRIEILLCE DE RM 


Madame Pompadour (tela de Quentin de 
La Tour, Louvre) auxiliou muito a 
publicação da Enciclopédia. 
(Frontispício do tomo I, editado em 
1751, Biblioteca Nacional, Paris.) 


FABBRI 


DIDEROT 


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A Enciclopédia, dirigida por Diderot, não serviu apenas aos assuntos 
filosóficos, mas também para a difusão de novos conhecimentos científicos, 
como as notações químicas, feitas por Lavoisier, Dalton e Priestley, 
abandonando a alquimia antiga. Uma gravura da Enciclopédia representa um 
laboratório e uma tabela de elementos. (Bibl. Nacional Braidense, Milão.) 


materialista própria, que integra concei- 
tos explicativos das ciências biológicas 
e se afasta da fisica. Em vários escritos 
seus encontra-se essa concepção, espe- 
cialmente na Carta sobre os Cegos, 
Pensamentos sobre a Interpretação da 
Natureza e Sonho de D'Alembert. 

A principal idéia de Diderot é a da 
existência de uma organização na natu- 
reza, que a faz compor um verdadeiro 
sistema, isto é, um conjunto onde tudo 
está unido, constituindo uma cadeia con- 
tinua, desde as formas mais primitivas 
de organização da matéria até as mais 
complexas, nos domínios do humano. 

Esse “sistema da natureza” estaria 
animado por um fluxo, tal como aquele 
concebido por Heráclito de Éfeso (séc. 
V1I-V a.C.) na Antiguidade. O Universo é, 


assim, visto por Diderot como obediente 
as leis formuladas por Descartes para a 
matéria: é dinâmico e está em perma- 
nente transformação. em vez de estático 
e criado como um conjunto de coisas 
fixas, como concebia a tradição aristoté- 
lica e escolástica cristã. 

Diferentemente de Descartes, que 
supõe o movimento como algo ajuntado 
a matéria (cuja essência seria a exten- 
são), Diderot esposa a tese de John To- 
land (16702-1722) de que o movimento 
constitui a própria essência da matéria. 
Aproveita, assim. a teoria idealista de 
Leibniz sobre as mônadas e confere-lhe 
um significado positivo. Os corpos não 
seriam movimentados por forças exte- 
riores, mas os próprios átomos conte- 
riam forças internas, ou seja, uma espé- 


461 


OS PENSADORES 


Os aristocratas da geração que precedeu a Revolução Francesa gostavam de 
se deliciar com os prazeres da mesa farta. (Acima, J. F. Troy: “O Almoço das 
Ostras”.) Os filósofos não ficavam atrás, como mostra a água-forte de Isuber, 
abaixo, onde se vêem Voltaire, o padre Adam, oa ade Mauri, 
D'Alembert, Condorcet, Diderot e La Harpe. (Biblioteca Nacional, Paris.) 


462 


DIDEROT 


cie de energia cinética ou potencial, 
responsável maior pelas transformações 
de toda a natureza. 

Todos os seres — afirma Diderot, 
aproximando-se de Heráclito — carre- 
gam dentro de si elementos de oposição, 
o ser € o não-ser são partes de todos os 


conjuntos. “Em vida” — escreve Diderot 
—. “eu ajo e reajo como uma massa: 


morto. eu ajo e reajo sob a forma de 
moléculas. Nascimento. vida. deca- 
dência são apenas mudanças de forma.” 

Dentro de tal concepção. é perfeita- 
mente dispensável a postulação da exis- 
tência de um criador ou qualquer ser 
sobrenatural] para explicar os fenômenos 
materiais. Todas as transformações, 
desde o caos até a ordem, deveriam ser 
explicadas como interação de particulas 
materiais elementares. O que se perc ebe 
como ordem natural não seria mais que 
a apreensão das leis do movimento, tal 
como aparecem representadas pelos cor- 
pos materiais. 

Diderot não interpreta a natureza 
como um sistema puramente fisico 
(como os demais materialistas de sua 
época), mas como um sitema orgânico e 
biológico, dentro do qual é fundamental 
a hipótese de sensibilidade da matéria. 
Tanto a matéria imorgânica quanto a 
organizada, Isto €. OS Seres vivos. são 
vistas como capazes de sensibilidade. 
Postulando o movimento e a sensibili- 
dade como inerentes a toda matéria, 
Diderot supunha que se poderia explicar 
toda a cadeia de fenômenos naturais. 
tanto físicos quanto mentais. Fudo que a 
natureza contém seria produto de maté- 
ria em movimento, submetida a proces- 
sos de fermentação produzidos pelo 
calor. 

Em toda essa concepção geral do Uni- 
verso está implícita uma teoria da evolu- 
ção biológica. Diderot, ao contrário de 
seus contemporâneos. soube integrar em 
sua visão do mundo os primeiros resul- 
tados de estudos científicos que funda- 
mentariam as teorias evolucionistas do 
século seguinte. Entre os diversos reinos 
da natureza, Diderot não vê abismos 
inexplicáveis. “Como D'Alembert distin- 
gue-se de uma vaca” — escreve Diderot 
— “eu não posso compreender inteira- 
mente. Mas um dia a ciência explicará.” 
Enquanto esse dia não chegava, tentou 


traçar a história do Universo desde o 
inconsciente até a vida espiritual. 


Onde encontrar a Justiça? 


O materiiiismo organicista de Dide- 
rot fundamenta uma ética cujos princi- 
pios podeni ser encontrados também no 
Sonho de D'Alembert. Nessa obra afirma 
que vontade e livre arbítrio são concei- 
tos sem sentido, meras abstrações que só 
servem para obscurecer os fatos. À von- 
tade no homem desperto. tanto quanto 
naquele que está sonhando. não seria 
mais do que o último impulso do desejo 
e da aversão. Em outros termos. seria o 
último resultado de tudo aquilo que o 
individuo experimentou desde o momen- 
to de seu nascimento. A vontade e o livre 


arbítrio seriam, portanto, rigorosamente 


determinados pelo sistema natural de 
que o homem faz parte. 


Da mesma forma, as noções de justiça 
e injustiça seriam relativas e a conduta 


justa ou injusta, assim como os atos da 


vontade. teria como fundamento causas 
fisicas. Para Diderot “é possível encon- 
trar em nossas necessidades naturais. 
em nossa vida, em nossa existência, em 
nossa organização e em nossa sensibili- 
dade, que nos expõe à dor. uma base 
eterna do justo e do injusto”. Sendo de 
natureza física os últimos motores da 
conduta humana, não existe. para Dide- 
rot, nenhuma solução de continuidade 
ertre os seres inferiores e as ações 
morais. Conceber a conduta moral como 
negação das necessidades naturais mais 
profundas seria um erro. 


Segundo Diderot, o erro tem um 
responsável: são as convenções sociais. 
que desnecessariamente restringem as 
bases biológicas da conduta humana. 
Um século antes de Freud. Diderot mos- 
trou os perigos da repressão sexual. 
tema desenvolvido no Sonho de 
D'Alembert e na novela 4 Religiosa 
Toda filosofia que “tende a manter o 
homem em uma espécie de embruteci- 
mento e em uma mediocridade de praze- 
res e de felicidade” seria contrária à 
natureza e, portanto, absurda. O esplen- 
dor das ciências. das artes liberais e das 
artes mecânicas, em suma, o grau de 
desenvolvimento mental de uma nação. 


163 


OS PENSADORES 


dependeria de uma legislação que favo- 
recesse o desejo e a liberdade de fruir. 

A civilização do país a que pertencia 
Diderot não favorecia os ideais de seu 
humanismo naturalista. Por isso ele 
construiu uma obra polêmica que mina- 


francesa do século XVIIL O caráter 
extremamente revolucionário de seus 
escritos fez com que uma grande parte 
tivesse sua publicação impedida e. dessa 
forma, somente as gerações seguintes 
começariam a tomar contato com toda a 


va as bases intelectuais da 


1713 — Diderot nasce em 
Langres, a 5 de outubro. 
1726 Diderot recebe a 
tonsura. 

1728 — É publicada, na In- 
glaterra, a Cyclopaedia de 
Chambers. 

1732 — Diderot torna-se 
“maitre des arts” pela Uni- 
versidade de Paris. 

1741 — Encontra Antoinet- 
te. Hume escreve os Ensaios 
Morais e Políticos. 


1742 —- Diderot inicia sua 
amizade com Rousseau. 
1743 — Casa-se com An- 
toinette. 


1746 — Diderot é convida- 
do a traduzir a Cyclopaedia 
de Chambers. 

1747 — Redige o Passeio 
do Cético, que será publica- 
do em 1830. 


sociedade 


CRONOLOGIA 


1748 — Publica Jóias In- 
discretas. Surge O Espírito 
das Leis de Montesquieu. 
1749 — Diderot publica 
Carta sobre os Cegos. 4 24 
de julho é encarcerado. 

1750 — O Prospecto da En- 
ciclopédia é levado ao co- 
nhecimento do público. 

17951 — Publicação do pri- 
meiro tomo da Enciclopé- 
dia. 

1752 — Primeira condena- 
ção da Enciclopédia. 

1754 — Diderot publica os 
Pensamentos sobre a Inter- 
pretação da Natureza. Surge 
o Discurso sobre a Origem 
da Desigualdade de Jean- 
Jacques Rousseau. 

1756 — Nasce Mozart. Ini- 
cio da Guerra dos Sete 
Anos. 


BIBLIOGRAFIA 


dimensão de seu gênio. 


1760 — Diderot escreve A 
Religiosa. 

1762 — Supressão da or- 
dem dos jesuítas na França. 
O Emilio de Rousseau é 
condenado. 

1769 — Diderot termina O 
Sonho de D'Alembert. 


1770 — Nascimento de 
Beethoven. 
1773 — Diderot escreve 


Jacques, o Fatalista. Viaja 
para a Rússia. 

1774 — Deixa Petersburgo 
e retorna a Paris. Morte de 
Luis XV e ascensão de Luís 
XVI. 

1775 — Início da guerra de 
independência americana. 
1776 — Diderot publica o 
Colóquio de um Filósofo 
com a Marechala. 

1784 — Falece em Paris. 


DiperOT, DENIS: Oeuvres Completes, Ed. J. Assezat e M. Tourneux, 20 vols., Paris, 


1875-1877. 


WILSON, ARTHUR M.: Diderot: the Testing Years (1713-1759), Nova York, 1957. 
CROCKER, LESTER G.: Diderot, the Embattled Philosopher, Ann Arbor, Michigan, 1954. 


FABRE, J.: Deux Définitions du Philosophe: Voltaire et Diderot in Lumiêres et Romanticisme. 
Energie et Nostalgie de Rousseau à Mickiewicz, Paris, 1963. 

CASSINI, P.: Diderot “Philosophe”, Bari, 1962. 

Mauzi, R.: L Tdée du Bonheur dans la Littérature et la Pensée Française au XVIII £ Siecle, 
Paris, 1960. 

NIKLAUS, R.: Le “Méchant” selon Diderot in Saggi e Ricerche di Letteratura Francese, vol. 
II, Milão, 1961. 

DIECKMANN, H.: Cing Leçons sur Diderot, editado por J. Pommier, Genebra e Paris, 1959. 
LEFÉBVRE, H.: Diderot, Paris, 1951. 

GORDON, D. H. e TORREY, N. L.: The Censoring of Diderot's Encyclopédie and the Re-esta- 
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KEMPF, R.: Diderot et le Roman, ou le Démon de la Présence, Paris, 1964. 


464 


O -COPYRIGHT MUNDIAL, 1973 — ABRIL S. A. CULTURAL E INDUSTRIAL — SÃO PAULO — BRASIL 


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OS PENSADORES 


Allan Ramsay (1713-1784) retratou 
Rousseau em roupas de armênio. (Gal. 
Nac. da Escócia). Na pág. anterior: 


busto de Rousseau, por Houdon, 
Museu Fabre, Montpellier. (Fabbri). 


466 


SNARK INTERNATIONAL 


uma tarde do ano de 1749, um 
N homem caminhava pela estrada 

entre Paris e Vincennes. São treze 
quilômetros de terra batida, as árvores 
estão desfolhadas e distanciam-se muito 
umas das outras. Quase não há sombra 
alguma para suavizar o calor excessivo 
do verão, e o homem cansa-se fazendo o 
percurso a pé, pois não tem dinheiro 
para alugar um fiacre. É relativamente 
moço, com seus trinta e sete anos de 
idade, e procura apressar o passo para 
chegar mais cedo. Carrega consigo um 
exemplar do Mercure de France para 
distrair-se e lê ao acaso o que lhe cai sob 
os olhos. Num desses momentos, tem a 
atenção despertada por uma notícia 
sobre o concurso da Academia de Dijon 
para o ano seguinte. Os interessados 
deveriam escrever sobre o tema: “Se o 
progresso das ciências e das artes con- 
tribuiu para corromper ou apurar os 
costumes” 

A notícia deixa-o subitamente trans- 
tomado. Toma-se de um entusiasmo 
como jamais sentira e divisa um outro 
universo mental. Sente a cabeça tonta 
como se estivesse embriagado e o cora- 
ção bate com violência, dificultando a 
respiração e o andar. Arroja-se debaixo 
da primeira árvore que oferece sombra e 
al fica mais de meia hora em intensa 
agitação interior. Ao levantar-se, fica 
surpreso com a roupa toda molhada de 
lágrimas, sem ter sentido derramá-las. 
Imediatamente põe-se a tomar notas 
para responder à questão proposta e re- 
dige uma pequena dissertação. 

Nascia, assim, a primeira de uma 
série de obras de pensamento em que a 
mesma carga emocional estaria sempre 
presente, compondo um conjunto de 
idéias radicadas profundamente na vida 
do autor e da qual não podem ser 


desligadas. 
O despertar da imaginação 


Chamava-se Jean-Jacques Rousseau e 
nascera em Genebra, a 28 de junho de 
1712, filho de Isaac Rousseau, cujos 
antepassados protestantes provinham da 
região de Paris e da Sabóia e se refugia- 
ram na cidade de Calvino, durante as 
guerras religiosas na França do século 
XVI. O primeiro desses antepassados 


ROUSSEAU 


“Nasci quase morto; poucas esperanças tinham de me salvar. Trazia comigo o 
germe duma enfermidade que os anos pioraram e que, agora, não me dá descanso 
sendo para deixar-me, com maior crueldade, sofrer de outro modo. Uma irmã de 

pa «.. cuidou tanto de mim que conseguiu salvar-me.” (Genebra, cidade 


nata 


chamava-se Didier e obtivera o direito 
de cidadania em Genebra no ano de 
1555. Quase todos eram relojoeiros e 
alcançaram relativa fortuna, mas nunca 
chegaram a pertencer à aristocracia; 
enquadravam-se dentro dos limites da 
burguesia média. 

Isaac Rousseau não fugia à regra, 
mas era um pouco mais pobre do que os 
demais parentes em virtude de ter que 
partilhar a herança com catorze irmãos. 
Casou-se com Suzanne Bernard, filha do 
pastor da localidade, e logo depois do 
nascimento do primeiro filho, partiu 
para Constantinopla a fim de tornar-se 
relojoeiro num harém. Deixou a esposa 
sozinha em Genebra e Suzanne, mulher 
de grande beleza e encantos espirituais, 
passou a ser assediada por outros 
homens. Era, contudo, uma mulher 
extremamente fiel e amava Isaac desde a 
meninice. Não suportando a separação e 
temendo as constantes investidas dos 
admiradores, implorou ao marido para 
que voltasse sem demora. Isaac não se 


de Rousseau, numa gravura; Civica Raccolta Stampe Bertarelli, Milão.) 


fez esperar e abandonou o harém: dez 
meses depois, nascia fraco e doentio o 
filho Jean-Jacques e a mãe falecia do 
parto. 

Durante muito tempo, pai e filho vive- 
ram do culto a Suzanne e os dois “devo- 
raram” uma grande coleção de romances 
que ela deixara. Liam sem parar após a 
ceia e assim passavam a noite. Os 
romances esgotaram-se logo, deixando 
traços marcantes no caráter do menino: 
imaginação exacerbada e visão profun- 
damente dramática das relações huma- 
nas. Quando Jean-Jacques tinha sete 
anos de idade e os livros da mãe se esgo- 
taram, os dois passaram a ler a biblio- 
teca do pai de Suzanne, onde encon- 
traram outro tipo de obras: História da 
Igreja e do Império, de le Suer; Dis- 
curso sobre a História Universal, de 
Bossuet; Homens IHustres, de Plutarco; 
Metamorfoses, de Ovídio; Us Mundos, de 
Fontenelle; e algumas peças de Moliêre. 


O rumo dessa educação foi interrom- 
pido por um incidente cujas conse- 


467 


OS PENSADORES 


“Enfim chego: vejo a Sra. de Warens. Esta época de minha vida determinou 
meu caráter . . . Estava na plenitude dos meus dezesseis anos.” Tornando-se 
protetora de Rousseau, a Sra. de Warens exerceu profunda influência sobre 
ele, acompanhando-o durante sua adolescência. (Encontro de Rousseau com 
a Sra. de Warens, ilustração das Confissões, Biblioteca Nacional de Paris.) 


quências tiveram influência decisiva na 
vida do menino. O pai era um homem 
instável e despreocupado e às vezes dei- 
xava-se tomar por reações violentas. 
Numa dessas ocasiões desentendeu-se 
com um certo capitão Gauthier e este, 
para vingar-se, acusou-o de desembai- 
nhar a espada dentro da cidade. Procu- 
rado para ser preso, Isaac, invocando a 
lei, exigiu que o acusador também fosse 
preso, até que a questão viesse a julga- 
mento. Não o conseguindo e afirmando 
que assim ficavam comprometidas a 
honra e a liberdade dos cidadãos, prefe- 
riu expatriar-se pelo resto da vida, não 
participando mais da vida do filho. 

Jean-Jacques ficou sob a tutela do tio 
Bernard, que o enviou para Bossey a fim 
de estudar com o ministro Lambercier. 
Em Bossey, viveu os prazeres de estar 
em contato com a natureza e ligou-se 
afetivamente ao primo Abraham, além 
de fazer amizade com a filha do ministro 
Lambercier. 

A estada em Bossey estendeu-se até 


468 


1724, quando Jean-Jacques completava 
doze anos de idade. De volta a Genebra, 
passa dois ou três anos na casa de um 
tio, aprendendo desenho em companhia 
do primo. Sonha com ser ministro evan- 
gélico, achando bela a tarefa de pregar, 
mas os recursos econômicos deixados 
pela mãe não permitiam a continuação 
dos estudos nesse sentido, e o sentimento 
de inferioridade social começa a se fazer 
sentir como um dos fatores determi- 
nantes de seu caráter. Enamora-se da 
Srta. de Vulson, que tem o dobro da sua 
idade. Apaixona-se também pela Srta. 
Goton, que brincava de professora com 
ele. É enviado à casa do notário Masse- 
ron para aprender o oficio de moço de 
recados, mas não mostra qualquer voca- 
ção para esse tipo de trabalho. O tabe- 
lião considera-o preguiçoso e idiota, e 
acaba dispensando seus serviços. Outra 
tentativa profissional não tem melhores 
resultados, quando vai aprender o ofício 
de gravador com um certo Sr. Ducom- 
mun. Passa a maior parte do tempo a cu- 


SNARK INTERNATIONAL 


ROUSSEAU 


nhar medalhas para os amigos, é acusa- 
do de fabricar dinheiro falso e degenera 
moralmente, tomando-se medroso, dis- 
simulador e ladrão, roubando de tudo, 
menos dinheiro. Desanimado com a 
situação na oficina, volta aos prazeres 
da leitura, alugando livros de uma 
senhora chamada La Tribu. Em um ano 
esgota toda a sua biblioteca. 


Além dos livros, Jean-Jacques encon- 
tra consolo nos passeios pelo campo. 
Isso, no entanto, só podia ser feito nos 
domingos e fora dos muros da cidade. 
Nessas ocasiões, esquecia-se completa- 
mente de voltar e acabava encontrando 
fechadas as portas da cidade. Num pri- 
meiro atraso, foi repreendido severa- 
mente pelo mestre; no segundo, os casti- 
gos corporais fizeram-se acompanhar de 
ameaças de que uma terceira vez não 
seria tolerada. O terceiro atraso aconte- 
ceu e com isso teve início outro período 
na vida de Jean-Jacques. 

Na noite de 15 de março de 1728, dor- 
miu na esplanada externa das portas da 
cidade, jurando partir para sempre 
quando raiasse o dia. Partia animado 
pelos mais belos sonhos. Livre e senhor 
de si mesmo acreditava poder fazer tudo 
o que quisesse. Entrava com a maior 
segurança no mundo, onde julgava poder 
encontrar festins, tesouros, aventuras, 
amigos e amantes. 

Mas nada ocorreu como esperava e 
Jean-Jacques logo sentiu as angústias 
da fome. Procurou então o cura de Con- 
fignon, Senhor de Pontverre, que se 
dedicava à tarefa de reconduzir ao seio 
da Igreja Romana os jovens calvinistas 
de Genebra. Jean-Jacques orienta logo a 
conversa nesse sentido, pois era uma 
maneira fácil de resolver problemas de 
subsistência, e o cura, pretendendo 
arrancar mais uma alma à heresia, suge- 
riu-lhe dirigir-se a Annecy: “Lá encon- 
trareis uma senhora muito caritativa” 


Protestante ou católico? 


A Sra. de Warens não era uma velha 
devota como imaginara. Tinha 28 anos 
de idade, um belo rosto, olhos azuis ple- 
nos de doçura, cor de pele maravilhosa e 
um pescoço encantador. Jean-Jacques 
tornou-se imediatamente prosélito catô- 
lico, pois, para ele, uma religião prega- 


Nesta casa de campo — chamada Les 
Charmettes e de propriedade da Sra. 
de Warens — Rousseau viveu dos vinte 
aos vinte e oito anos, lendo muito 
e escrevendo alguns poemas. 


da por missionária tão encantadora não 
poderia deixar de conduzir ao paraíso. A 
Sra. de Warens quis conservá-lo junto a 
si, mas por prudência achou melhor 
enviá-lo a Turim, onde havia um asilo 
destinado a catecúmenos. Chamava-se 
Asilo do Espírito Santo e causou a pior 
impressão no jovem Jean-Jacques. Su- 
portou, contudo, os aspectos negativos e 
representou o papel de catecúmeno por- 
que não via como safar-se. 

Foi declarado converso, fizeram-lhe 
uma coleta que rendeu vinte francos: es- 
tava livre para novas aventuras. 

Os vinte francos acabaram logo e 
Jean-Jacques viu-se obrigado a procurar 
trabalho. Ofereceu seus conhecimentos 
como gravador à Sra. Basile, com a qual 
ficou pouco tempo, e depois trabalhou 
como secretário da condessa de Vercel- 
lis, da qual roubou uma fita cor de rosa, 
pondo a culpa na camareira. Com o fale- 
cimento da condessa, três meses depois, 
passou a ser empregado do conde de 
Gouvon. Enamorou-se da jovem nora do 


469 


OS PENSADORES 


O rei Luís XV entusiasmou-se com a 
ópera de Rousseau O Adivinho da Aldeia 
e quis conhecê-lo. (Luís XV, por 
Maurice Quentin de La Tour (1704- 
1788), Museu do Louvre, Paris.) 


conde, e estudou latim com o filho do 
dono da casa, que era padre e o fez ler 
obras de Virgílio. 

Ávido de aventuras, deixou a casa do 
conde de Gouvon, ao encontrar um velho 
conhecido de Genebra, chamado Bácle, 
com o qual perambulou algum tempo até 
resolver voltar para a companhia da Sra. 
de Warens, como melhor aa de man- 
ter a subsistência. De novo em Annecy, 
ajuda a protetora em trabalhos de medi- 
cina e alquimia e principalmente lê 
muito: Puffendorf, Samt Evremond, a 
Henríada de Voltaire, Bayle, La Bruyére 
e La Rochefoucauld. Estuda música e 
esforça-se por decifrar as cantatas de 
Clérambault, até que a Sra. de Warens 
resolve enviá-lo para um seminário, 
onde deveria melhorar os conhecimentos 
de latim. Mais importante, contudo, 
foram os estudos de música na casa do 
Sr. Le Maitre, no invemo de 1729/30, 
que lhe permitiram ficar sabendo o sufi- 
ciente para apresentar-se como profes- 
sor de música. Com isso, conseguiu ga- 


470 


FABBRI 


nhar o sustento nos meses seguintes, 
quando, na ausência da Sra. de Warens, 
perambulou por Lausanne e Neuchâtel e 
chegou a visitar Paris, onde permaneceu 
poucos dias. 


De volta à casa da Sra. de Warens, 
agora instalada em Chambéry, aí viveu 
vários anos, lendo muito e começando a 
escrever. Em 1740, tornou-se preceptor 
de dois filhos do Sr. de Mably e malo- 
grou totalmente, mas não eso de 
aproveitar a experiência, escrevendo um 
Projeto de Educação de M. de Sainte- 
Marie e acumulando conhecimentos 
para a futura grande obra pedagógica 
que seria o Emílio. 

Dois anos depois, chega a Paris dis- 
posto a conquistar a cidade. Leva consi- 
go um novo sistema de notação musical, 
uma ópera, uma comédia e uma coleção 
de poemas. Procura a fama e o sucesso, 
mas os resultados não são nada anima- 
dores: o sistema de notação musical é 
friamente recebido pela Academia de 
Ciências e por Rameau (1683-1764) e o 
bailado As Musas Galantes, que conse- 
gue fazer apresentar na ópera de Paris, 
atrai pouquíssima atenção. Não fosse 
isso suficiente, sofre a humilhação de 
não ser correspondido no amor pela Sra. 
Dupin, e um resumo que faz para uma 
ópera composta por Rameau e Voltaire 
(1694-1778) é apresentado em Versa- 
lhes sem que seu nome seja citado. Tem 
melhor sorte, entretanto, na amizade 
com o filósofo Condillac (1715-1780) e 
com Denis Diderot (1713-1784), que 
lhe encomenda artigos sobre música 
para a Enciclopédia. 

Em 1745, liga-se a Thérêse Levas- 
seur, com a qual teria cincofilhos, todos 
entregues a orfanatos, porque achava 
que não poderia cuidar deles sendo 
pobre e doente. O remorso por isso será 
seu companheiro para o resto da vida; 
para livrar-se dele preocupou-se sempre 
em encontrar justificativas. 


Finalmente, a glória 


Em 1749, Diderot publica sua Carta 
sobre os Cegos, na qual expressa clara- 
mente posições ateistas. Por esse motivo 
foi preso durante três meses em Vincen- 
nes, onde Jean-Jacques visita o amigo 
quase todos os dias. Foi numa dessas 


ROUSSEAU 


FABBRI 


“Oh! virtude, ciência sublime das almas simples! Serão necessários, então, 
tanta pena e tanto aparato para conhecer-te? ... não bastará para a render tuas 
leis, voltar-se sobre si mesmo e ouvir a voz da consciência no silêncio das 
paixões? Aí está a verdadeira filosofia ...” (Gravura representando a Rua 
Saint Denis, Paris, em 1745, Civica Raccolta Stampe Bertarelli, Milão.) 


tardes que entreviu o caminho a ser tri- 
lhado pelo seu pensamento inquieto, ao 
responder negativamente à questão 
sobre se o progresso das ciências e das 
artes tinha contribuído para aprimorar 
os costumes. 

No ano seguinte recebeu o primeiro 
prêmio nesse concurso e com ele veio 
também a fama, há tanto esperada, e 
sobretudo a possibilidade de ser ouvido 
por circulos mais amplos. Dois anos 
depois, um intermezzo operístico de sua 
autoria, O Adivinho da Aldeta, é levado 
à cena em Fontamebleau e lhe é ofere- 
cida uma pensão real, que orgulhosa- 
mente recusa. Publica a Carta sobre a 
Música Francesa, na qual defende o esti- 
lo italiano; visita Genebra, onde retoma 
a fê protestante que abjurara e escreve 
dois discursos Sobre a Origem da Desi- 
gualdade e Sobre a Economia Política, o 
último por encomenda de Diderot para a 
Enciclopédia. 

Em 1756, passa a morar no Ermitage, 
uma enorme casa em Montmorency, 


posta à sua disposição pela Sra. 
d'Epinay. Ali põe-se a escrever o roman- 
ce epistolar 4 Nova Heloísa, obra bem 
típica de sua personalidade romântica. É 
a estória de um homem que conhece o 
amor mais pela imaginação do que na 
realidade. Os cuidados exteriores de que 
cerca o trabalho não são menos signifi- 
cativos: usava o mais belo papel doura- 
do, pó de ultramarino e de prata para 
secar a tinta e fita azul para costurar os 
cadernos. Ao mesmo tempo, apaixona-se 
pela Sra. d'Houdedot, briga com o 
amigo Diderot por achá-lo implicado em 
intrigas com a referida senhora e apre- 
senta os primeiros sinais claros da 
mania de perseguição, que se torna cada 
vez mais doentia nos anos seguintes. 

Em 1757, deixa o Ermitage e passa a 
viver em Montlouis, onde permanece 
durante cinco anos muito produtivos e 
felizes. Escreve a Carta sobre os Espetá- 
culos, em que critica um artigo de 
D'Alembert sobre Genebra, publicado na 
Enciclopédia, e opõe-se ao estabeleci- 


471 


OS PENSADORES 


mento de um teatro na cidade natal. 
Completa 4 Nova Heloisa e redige as 
duas obras teóricas que marcarão toda a 
história da teoria política e da pedago- 
gia: o Emílio e o Contrato Social. 


Perseguição e loucura 


Os dois livros, imediatamente depois 
da publicação em 1762, são conside- 
rados altamente ofensivos às autori- 
dades e, assim, inicia-se o período mais 
negro da vida do autor. Os problemas 
agora não são mais com os amigos e as 
amantes, mas com as autoridades e a 
opinião pública. Ordena-se sua prisão e 
Rousseau vê-se obrigado a deixar a 
França, refugiando-se em Neuchátel, 
então sob domínio de Frederico II da 
Prússia. Passa a usar roupas armênias 
para disfarçar-se e escreve a Carta a 
Cristophe de Beaumont, na qual ataca o 
arcebispo de Paris por ter condenado o 
Emílio. O mesmo sentido têm as Cartas 
Escritas na Montanha, réplica a J. B. 
Tronchin, que ordenara a queima do 
Emílio e do Contrato Social. Em 1764 
prepara um inacabado Projeto de Cons- 
tituição para a Córsega, a pedido de 
Matteo Buttafuoco. 

Ainda em 1764, toma conhecimento 
de um panfleto anônimo que circula em 
Paris sob o título de O Sentimento dos 
Cidadãos, no qual é atacado como hipó- 
crita, pai sem coração e amigo ingrato. 
O panfleto tinha sido escrito por Vol- 
taire e feriu profundamente Rousseau. 
Pôs-se então a escrever as Confissões, 
onde, em quase mil páginas, procura 
explicar toda sua vida e seu pensamento. 
Com isso, o livro tornou-se uma sintese 
completa do autor como homem, roman- 
cista, filósofo e educador. 

Os infortúnios não pararam aí. 
1765, atacado pelos protestantes de 
Neuchâtel, que chegam a jogar pedras 
em sua casa, abandona Môtiers e dirige- 
se para a ilha de Saint-Pierre, onde é 
im pedido de ficar. Aceita a oferta de 
re gio na Inglaterra, feita pelo filósofo 
David Hume A 1711-1776). Chega a Lon- 
dres e vai viver em Wootton. As relações 
com o amigo Hume, no entanto, seriam 

rejudicadas por uma carta que circu- 

ava em Paris. Endereçada a Rousseau e 
assinada por Frederico II (1712-1786) 


472 


Em. 


— na verdade escrita por Horace Walpo- 
le (1717-1797) —, criticava ironica- 
mente sua conduta e Rousseau supôs que 
Hume tivesse alguma coisa a ver com 
ela. Com delirios de perseguição, imagi- 
nava um vasto complô contra ele. A 
polêmica com Hume divertiu toda a Eu- 
ropa culta e, por fim, Rousseau acabou 
por deixar a Inglaterra. 

De novo na França, publicou o Dicio- 
nário de Música, no qual trabalhava há 
anos. Deixa-se dominar outra vez por 
crises de pânico. Casa-se com Thérêse 
Levasseur e procura defender-se contra 
os imaginários conspiradores. Tenta 
Justificar-se diante do mundo, lendo 
extratos das Confissões nos Silocs pari- 
sienses e escrevendo os Diálogos e Rous- 
seau, Juiz de Jean-Jacques. A última 
obra técnica seria Considerações sobre o 
Governo da Polônia, a pedido do conde 
Wielhorski, que desejava conselhos para 
reforma das instituições políticas de seu 
país. 

Nos últimos dois anos de vida, os sin- 
tomas psicóticos diminuem de intensi- 
dade e Rousseau pode escrever a mais 
serena e delicada de suas obras, Deva- 
neios de um Caminhante Solitário, que 
contém descrições da natureza e dos 
sentimentos humanos feitas com admirá- 
vel suavidade e beleza. Em 2 de Julho de 
1778, falece em Ermenonville e é enter- 
rado na ilha dos Choupos. Refugiava-se 
por fim na natureza, a “mãe comum”, 
em cujos braços buscou subtrair-se “aos 
ataques de seus filhos”. 


Natureza ou civilização? 


O chamado à natureza e o “evitar os 
ataques de seus filhos” constituem os 
motivos fundamentais do pensamento de 
Rousseau e a fonte de sua contribuição 
original para a história da filosofia. 
Essa contribuição não compõe um con- 
junto sistemático e a riqueza e variedade 
da obra, as frequentes contradições, a 
repugnância pela sistematização concei- 
tual e a permanente vinculação entre as 
idéias e os conflitos pessoais vividos 
pelo autor tomam extremamente dificil 
uma exposição sintética de sua obra. 
Contudo, é possível desenredar essa teia 
intrincada e trazer à tona alguns ele- 
mentos estruturais privilegiados e certos 


ROUSSEAU 


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Acima, retrato de Rousseau; abaixo, 
frontispício do Adivinho da Aldeia, 
ópera de Rousseau que obteve grande 
sucesso em Fontainebleau, em 1752. 
(Biblioteca Pública de Genebra.) 


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FABBRI 


ARBORIO MELLA 


temas dominantes: relações entre natu- 
reza e sociedade, moral fundada na 
liberdade, primazia do sentimento sobre 
a razão, teoria da bondade natural do 
homem e doutrina do contrato social. 

O primeiro desses elementos estrutu- 
rais — raiz de toda a filosofia rousseau- 
niana — encontra-se nos discursos Sobre 
as Ciências e as Artes e Sobre as Origens 
da Desigualdade. Neles Rousseau desen- 
volve a antítese fundamental entre a 
natureza do homem e os acréscimos da 
civilização. As obras posteriores levam 
às últimas consequências esse pensa- 
mento que, mais do que simples idéia 
abstrata, é um sentimento radical. 

Em síntese, a civilização é vista por 
Rousseau como responsável pela dege- 
neração das exigências morais mais pro- 
fundas da natureza humana e sua substi- 
tuição pela cultura intelectual. A 
uniformidade artificial de comporta- 
mento, imposta pela sociedade às pes- 
soas, leva-as a ignorar os deveres huma- 
nos e as necessidades naturais. Assim 
como a polidez e as demais regras da 
etiqueta podem esconder o mais vil e 
impiedoso egoísmo, as ciências e as 
artes, com todo seu brilho exterior, 
frequentemente seriam somente másca- 
ras da vaidade e do orgulho. 

A vida do homem primitivo, ao 
contrário, seria feliz porque ele sabe 
viver de acordo com suas necessidades 
matas. Ele é amplamente auto-suficiente 
porque constrói sua existência no isola- 
mento das florestas, satisfaz as necessi- 
dades de alimentação e sexo sem maio- 
res dificuldades, e não é atingido pela 
angústia diante da doença e da morte. As 
necessidades impostas pelo sentimento 
de autopreservação — presente em todos 
os momentos da vida primitiva e que im- 


pele o homem selvagem a ações agressi- 


vas — são contrabalançadas pelo mato 
sentimento de piedade que o impede de 
fazer mal aos outros desnecessaria- 
mente. Desde suas origens, o homem 
natural, segundo Rousseau, é dotado de 
livre arbítrio e sentido de perfeição, mas 
o desenvolvimento pleno desses senti- 
mentos só ocorre quando estabelecidas 
as primeiras comunidades locais, basea- 
das sobretudo no grupo familiar. Nesse 
periodo da evolução, o homem vive a 
idade de ouro, a meio caminho entre a 


473 


OS PENSADORES 


“Conheço meu coração e conheço os 
homens. Não sou da mesma massa 
daqueles com que lidei; ouso crer que 


2, 


não sou feito como os outros. 
(Rousseau em seu quarto, na ilha de 
Saint-Pierre, Bibl. Nacional, Paris.) 


brutalidade das etapas anteriores e a 
corrupção das sociedades civilizadas. 
Esta começa no momento em que surge a 
propriedade privada. 


A crítica às sociedades civilizadas e a 
idealização do homem primitivo, mani- 
festadas a todo passo nas obras de Rous- 
seau, foram vistas por muitos intér- 
pretes como expressão de um desejo de 
retorno à animalidade. Alguns o aproxi- 
maram dos cínicos gregos, especial- 
mente de Diógenes (c. 413-327 a.C), 
que admirava os animais e celebrava os 
rituais antropofágicos da mitologia. 
Voltaire, entre outros, fez essa aproxi- 
mação, certamente com ironia, ao dizer 
do autor do Contrato Social que “ninguém 
jamais pôs tanto engenho em querer nos 
converter em animais” e que ler Rous- 
seau faz nascer “desejos de caminhar em 
quatro patas”. Tal interpretação é sem 
dúvida incorreta e deve ser entendida 
apenas como expressão do sarcasmo 
voltairiano. O que Rousseau sempre pre- 


474 


SNARK INTERNATIONAL 


tendeu não foi exaltar a animalidade do 
selvagem, porém sua mais profunda 
humanidade em relação ao homem civi- 
lizado. A dignidade da natureza humana 
frente ao animal é constantemente ex- 
pressada pelo autor do Emílio: “Que ser 
aqui embaixo, exceto O homem, sabe 
observar os outros, medir, calcular. pre- 
ver seus movimentos, seus efeitos, e 
unir, por assim dizer, o sentimento da 
existência comum ao de sua existência 
individual? ... Mostrem-me outro anil- 
mal sobre a terra que saiba fazer uso do 
fogo e admirar o Sol... Eu posso obser- 
var, conhecer os seres e suas re a 
posso sentir o que é a ordem, a beleza, : 

virtude; posso contemplar o Universo e 
elevar-me até a mão que o govema; 
posso amar o bem e fazê-lo; e me compa- 


raria com os animais?... que coisa 
maior poderia eleger do que ser 
homem?” 


O homem, para Rousseau, não se 
regenera pela destruição da sociedade e 
com o retorno à vida no meio das flores- 
tas. Embora privado, no estado social, 
de muitas vantagens da natureza, ele 
adquire outras: capacidade de desenvol- 
ver-se mais rapidamente, ampliação dos 
horizontes intelectuais, enobrecimento 
dos sentimentos e elevação total da 
alma. Se os abusos do estado social civi- 
lizado não o colocassem abaixo da vida 
primitiva, o homem deveria bendizer 
sem cessar o instante feliz que o arran- 
cou para sempre da animalidade e fez de 
um ser estúpido e limitado uma criatura 
inteligente. O propósito visado por 
Rousseau é combater os abusos e não 
repudiar os mais altos valores humanos. 

Os abusos centralizam-se, para ele, na 
perda de consciência a que é conduzido 
o homem pelo culto dos refinamentos, 
das mentiras convencionais, da ostenta- 
ção da inteligência e da cultura, nas 
quais se busca mais a admiração do pró- 
ximo do que a satisfação da própria 
consciência. Rousseau, em uma palavra, 
não pretende queimar bibliotecas ou 
destruir universidades e academias; re- 
conhece a função útil das ciências e das 
artes, mas não quer ver os artistas e 
intelectuais submetidos aos caprichos 
frivolos das modas passageiras. Pelo 
contrário, glorifica os esforços laborio- 
sos da conquista intelectual verdadeira, 


ROUSSEAU 


E: 
a 


Cs 


“O que há de mais cruel ainda é que, todos os progressos da espécie humana 
distanciando-a incessantemente de seu estado primitivo, quanto mais 
acumulamos novos conhecimentos, tanto mais afastamos os meios de adquirir o 
mais importante de todos, e ainda que, num certo sentido, à força de estudar 
o homem, tornamo-nos incapazes de conhecê-lo.” (Gravura do séc. XVIII mostra 
Ermitage, uma das casas em que Rousseau viveu; Museu Rousseau, Montmorency.) 


que se realiza na luta contra os obstá- 


culos e na atividade criadora do espirito 
livre de pressões. 

O retomo à pureza da consciência 
natural é o dever fundamental de todo 
homem, segundo Rousseau. Com isso, 
ele retoma de certa forma, o “conhece-te 
a ti mesmo” socrático. Em Sócrates, no 
entanto, a análise da consciência tem 
significado completamente diverso, inse- 
rindo-se em outro quadro de referências. 
Diante dos filósofos anteriores que se 
preocupavam em descobrir a constitui- 
ção fundamental do mundo da matéria, 
Sócrates reivindicou como centro do 
pensar filosófico o próprio homem e os 
valores que orientam sua conduta. Mas a 
diferença maior entre Sócrates e Rous- 
seau não reside nisso mas no fato de que 
o “conhece-te a ti mesmo” socrático é ta- 
refa intelectual a cargo da razão e Rous- 
seau, ao contrário, vê no intelecto uma 
faculdade que conduz o homem para 
fora de si mesmo. Rousseau aponta o 


sentimento, essa “outra faculdade infini- 
tamente mais sublime”, como o verda- 
deiro caminho para a penetração na 
essência da interioridade. 


O sentimento como instrumento de 
penetração na essência da interioridade 
é outro dos elementos estruturais do 
pensamento de Rousseau. Núc! » central 
de todo pensar filosófico, constituiria a 
chave com que se pode compret..der 
toda a natureza e alcançar misticamente 
o próprio infinito. Deixar de lado as 
convenções da razão civilizada e imergir 
no fundo da natureza através do senti- 
mento significa elevar-se da superficie 
da terra até a totalidade dos “seres, ao 
sistema universal das coisas, ao ser 
incompreensível que a tudo engloba” 
Perdido o espírito nessa imensidão, o 
individuo não pensa, não raciocina, não 
filosofa, mas sente com voluptuosidade, 
abandona-se ao arrebatamento, perde-se 
com a imaginação no espaço e lança-se 
ao infinito. Essa imersão mística no infi- 


OS PENSADORES 


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“Supõe-se que as crianças em liberdade podem colocar-se em más posições e 
efetuar movimentos suscetíveis de prejudicar a boa conformação de seus 
membros. Trata-se de um desses raciocínios gratuitos de nossa falsa sabedoria 
e que jamais uma experiência confirmou.” (Ilustração para o Emilio, Bibl. 
Nac. de Paris e gravura de Moreau, o Jovem, para À Nova Heloisa.) 


nito da natureza equivale a penetrar na 
própria interioridade, alcançar a cons- 
ciência da liberdade e atingir o senti- 
mento íntimo da vida, com e qual o 
homem teria consciência de sua unidade 
com os semelhantes e com a universa- 
lidade dos seres. No relacionamento 
místico com a natureza, segundo Rous- 
seau, não se desfruta nada extemo ao 
próprio indivíduo e sua existência; 
durante o lapso de tempo em que ocorre 
a relação, o homem basta-se a si mesmo, 
como se fosse Deus. 

A idéia de que o sentimento místico da 
natureza não pode ser separado do senti- 
mento de interioridade pessoal constitui 
aquilo que se costuma chamar o espírito 
“romântico” de Rousseau. Vendo a natu- 
reza como fonte da felicidade humana, 
relevando ao máximo a carga mística de 
sua vivência e formulando a concepção 
de que ela só pode ser compreendida 
pelo sentimento e não pela razão, Rous- 
seau desempenhou papel original dentro 
da filosofia do século XVIII. Os contem- 
porâneos enciclopedistas, tanto quanto 


476 


ele, também fizeram da natureza o ponto 
central de suas teorias. Continuando o 
movimento do método indutivo de Bacon 
(1561-1626), da metodologia experi- 
mental-matemática de Galileu 
(1564-1642), da fisica de Newton 
(1642-1727) e do empirismo de John 
Locke (1632-1704), os enciclopedistas 
do século XVIII tomavam a natureza 
como fonte de conhecimentos e faziam 
dela critério de julgamento de idéias e 
instituições, além de arma de luta contra 
a tradição escolástica. A natureza, no 
entanto, é concebida por eles essencial- 
mente como matéria e movimento mecá- 
nico, inteiramente exterior ao sujeito 
humano. Holbach (1723-1789) e Helve- 
tius (1715-1771), por exemplo, objeti- 
vam o sujeito cognoscente e reduzem o 
espírito à natureza e a interioridade à 
exterioridade. Para Rousseau, ao con- 
trário, a natureza palpita dentro de cada 
ser humano, como íntimo sentimento de 
vida. Tomou partido contra os “filóso- 
fos” e jamais quis ser chamado assim: 
“Vi muitas pessoas que filosofavam 


ARBORIO MELLA 


ROUSSEAU 


muito mais doutamente do que eu; mas 
sua filosofia parecia, por assim dizer, 
estranha ... Estudavam o universo como 
teriam estudado qualquer máquina que 
tivessem visto por curiosidade. Estuda- 
vam a natureza humana para poder falar 
sabiamente dela, não para conhecerem- 
se a si mesmos” 


Defendendo a 
pureza infantil 


Rousseau desloca, assim, duplamente 
o centro de gravidade da reflexão filosó- 
fica. Em primeiro lugar, não é a razão 
mas o sentimento o verdadeiro instru- 
mento de conhecimento; em segundo 
lugar, não é o mundo exterior o objeto a 
ser visado mas o mundo humano. Ambos 
os aspectos vinculam-se intimamente e 
implicam a passagem da atitude teórica 
para o plano da valorização moral. 
Dessa forma, o traço mais significativo 
do pensamento de Jean-Jacques Rous- 
seau passa a residir nos caminhos práti- 
cos que ele procurou apontar para o 
homem alcançar a felicidade, tanto no 
que se refere ao indivíduo quanto no que 
se relaciona à sociedade. No primeiro 
caso, formulou uma pedagogia, que se 
encontra no Emílio; no segundo, teori- 
zou sobre o problema político e escreveu 
o Contrato Social, além de outras obras 
menores. 

O Emílio é um ensaio edasteiso sob 
forma de romance e nele Rousseau pro- 
cura traçar as linhas gerais que deve- 
riam ser seguidas com o objetivo de 
fazer da criança um adulto bom. Mais 
exatamente, trata dos princípios para 
evitar que a criança se torne má, já que o 
pressuposto básico do autor é a crença 
na bondade natural do homem. Outro 
pressuposto de seu pensamento consiste 
em atribuir à civilização a responsabi- 
lidade pela origem do mal. Consequente- 
mente, os objetivos da educação, para 
Rousseau, comportam dois aspectos: o 
desenvolvimento das potencialidades na- 
turais da criança e seu afastamento dos 
males sociais. 

A educação deve ser progressiva, de 
tal forma que cada estágio do processo 
pedagógico seja adaptado às necessi- 
dades individuais do desenvolvimento. A 


PLESSNER INTERNATIONAL 


“Se a natureza fez bem ou mal quando 
quebrou a forma em que me moldou, é o 
que poderão julgar somente depois que 
me tiverem lido.” (Languelliére: 
Rousseau, Gal. degli Uffizi, Florença.) 


477 


OS PENSADORES 


DU 
CONTRACT SOCIAL; 
OU, 


PRINCIPES 


DU 
DROIT POLITIQUE. 
Par JL ROUSSFAU, 


CITOTEN DE GENLTIE 


— fuleris aquas 


sErcid. xt 


Dicamus teses. 


k AMUSTERDAR!, 
Chz MARC MIChHMA:! 
MDCCELNIL 


REIS 


FABBRI 


Quando publicado, em 1762, o Contrato 
Social suscitou a ira das autoridades 
eo autor passou a ser condenado 
veementemente. (Frontispício da 1.º 
edição, Centro Francês de Milão.) 


primeira etapa deve ser inteiramente 
dedicada ao aperfeiçoamento dos órgãos 
dos sentidos, pois as necessidades 1in1- 
ciais da criança são principalmente fisi- 
cas. Incapaz de abstrações, o educando 
deve ser orientado no sentido do conhe- 
cimento do mundo através do contato 
com as próprias coisas; os livros só 
podem fazer mal, com exceção do 
Robinson Crusoé, que relata as expe- 
riências de um homem livre, em contato 
com a natureza. 

Liberta da tirania das opiniões huma- 
nas, a criança, por si mesma e sem ne- 
nhum esforço especial, identifica-se com 
as necessidades de sua vida imediata e 
torna-se auto-suficiente. Vivendo fora do 
tempo, nada precisando das coisas arti- 
ficiais e não encontrando qualquer des- 
proporção entre desejo e capacidade, 
vontade e poder, sua existência vê-se 


478 


livre de toda ansiedade com relação ao 
futuro e não é atormentada pelas preocu- 
pações que fazem o homem adulto civili- 
zado viver fora de si mesmo. 

É necessário, contudo, prepará-la 
para o futuro. Isso porque ela tem uma 
enorme potencialidade, não aproveitada 
imediatamente. A tarefa do educador 
consiste em reter pura e intata essa ener- 
gia até o momento propício. Nesse senti- 
do é particularmente i importante evitar a 
excitação precoce da imaginação, por- 
que esta pode tomar-se uma fonte de 
infelicidade futura. Outros cuidados 
devem ser tomados com o mesmo obje- 
tivo e todos eles podem ser alcançados 
ensinando-se a lição da utilidade das 
coisas, ou seja, desenvolvendo-se as 
faculdades da criança apenas naquilo 
que possa depois ser-lhe útil. 

Até aqui, o processo educativo preco- 
nizado por Rousseau é negativo, limi- 
tando-se áquilo que não deve ser feito. A 
educação positiva deve iniciar-se quan- 
do a criança adquire consciência de suas 
relações com os semelhantes. Passa-se, 
assim, do terreno da pedagogia propria- 
mente dita aos dominios da teoria da 
sociedade e da organização política. 


A liberdade é 


o supremo bem 


Em todas as obras de Rousseau, os 
processos educativos, tanto quanto as 
relações sociais, são sempre encarados 
do ponto de vista centralizado na noção 
de liberdade, entendida por ele como 
direito e dever ao mesmo tempo: “.. .to- 
dos nascem homens e livres”; a lhber- 
dade lhes pertence e renunciar a ela é 
renunciar à própria qualidade de 
homem. Ao reformular tal princípio e 
dar-lhe o papel fundamental na moral e 
na política, Rousseau elevou-se muito 
acima dos contemporâneos e dos precur- 
sores. Ninguém como ele afirmou o prin- 
cípio da liberdade como direito inalie- 
nável e exigência essencial da própria 
natureza espiritual do homem. 

Com isso, levou às últimas conse- 
quências a linha de pensamento iniciada 
pelo humanismo renascentista e sobre- 
tudo pela reforma protestante. Esta últi- 
ma, especialmente, expressava as neces- 


ROUSSEAU. 


SNARK INTERNATIONAL 


“A natureza manda em todos os animais, ea besta obedece. O homem sofre a 
mesma influência, mas considera-se livre para concordar ou resistir, e é 
sobretudo na consciência dessa liberdade que se mostra a espiritualidade de 


sua alma. 


” (Monumento funerário de Rousseau nas Tulherias, tela a óleo 


do pintor francês Hubert Robert (1733-1808), Museu Carnavalet, Paris.) 


sidades e aspirações das coletividades 
que reivindicavam o valor da intimidade 
e os direitos da consciência religiosa de 
cada um, frente ao princípio católico da 
autoridade. Essa corrente de idéias 
desenvolveu-se depois com as teorias do 
direito natural do século XVII e princi- 
palmente com Spinoza (1632-1677) e 
John Locke, que prenunciam Rousseau. 
O caminho que será trilhado pelo autor 
do Contrato Social é anunciado por 
Locke ao formular a teoria do estado da 
natureza como condição da liberdade e 
da igualdade e com a afirmação da pes- 
soa humana como sujeito de todo direito 
e, portanto, fonte e norma de toda les. 
Contudo, Locke admite a perda da liber- 
dade quando afirma que “o homem, por 
ser livre por natureza, ...não pode ser 
privado desta condição e submetido ao 
poder de outro sem o próprio consenti- 


mento”. O princípio da liberdade torna- 
se, assim, apenas uma questão de fato e 
deixa de ter o valor humanista e a força 
renovadora da vida social que lhe foram 
dados por Rousseau. 

Com ele, o princípio da liberdade 
constitui-se como norma, e não como 
fato; como imperativo, e não como 
comprovação. Não é apenas uma nega- 
ção de impedimentos, mas afirmação de 
um dever de realização das aptidões 
espirituais. Na consciência da liberdade 
revela-se a espiritualidade da alma 
humana; por isso é a exigência ética 
Aindamental e renunciar a ela é renun- 
ciar à própria qualidade de homem e 
“aos direitos da humanidade” 

Ao fazer tal afirmação, Rousseau 
distancia-se de todo individualismo, 
pois este supõe uma antítese entre cada 
um e a coletividade e estabelece o valor 


479 


OS PENSADORES 


Rousseau não suportava o racionalismo dos “filósofos”, especialmente de 
Voltaire, cujo sarcasmo ferino muitas vezes teve como alvo o romântico autor 
da Nova Heloísa. Apesar disso, uma gravura do século XVIII une-os no 
caminho do templo a glória e da imortalidade, em louvor da participação 
intelectual de ambos na Revolução Francesa. (Biblioteca Nacional de Paris.) 


do indivíduo enquanto indivíduo e não 
enquanto homem. Rousseau, ao contrá- 
rio, reivindica a consciência da digni- 
dade do homem em geral e ilumina o 
valor universal da personalidade huma- 
na, cuja consciência moral não se traduz 
no sentimento particularista do amor 
próprio mas na universalidade do amor 
de si. No pensamento de Rousseau, o 
amor de si, constituindo a interioridade 
por excelência e a força expansiva da 
alma que identifica o indivíduo com seus 
semelhantes, é a ponte que liga o eu 
individual ao eu comum, a vontade par- 
ticular à vontade geral. Assim é que 
todos os cidadãos “poderão chegar a 
identificar-se, por fim, com o Todo 
maior, sentir-se membros da pátria, 
amá-la com esse sentimento delicado 
que todo, homem separado só tem para si 
à 

mesmo”. 

A realização concreta do eu comum e 
da vontade geral implicam necessaria- 
mente um contrato social, ou seja, uma 
livre associação de seres humanos inteli- 

entes, que deliberadamente resolvem 
Re um certo tipo de sociedade, à 
qual passam a prestar obediência. O 


480 


contrato social seria, assim, a única 
base legítima para uma comunidade que 
deseja. viver de acordo com os pressu- 
postos da liberdade humana. 

necessário, contudo, resolver o pro- 
blema de encontrar uma forma de asso- 
ciação que continue a respeitar essa 
mesma liberdade que lhe dá origem. 
Muito embora o homem seja natural- 
mente bom, ele é constantemente amea- 
cado por forças que não só o alienam de 
si mesmo como podem transformá-lo em 
tirano. ou escravo. Rousseau procura 
uma forma de associação na qual “cada 
um unindo-se a todos obedece, porém, 
apenas a si mesmo e permanece livre” 
como antes de estabelecer o contrato. 
Cada um por si mesmo, dando-se para 
todos, não se dá a ninguém. As possibili- 
dades de desigualdade e injustiça entre 
os cidadãos são evitadas mediante a 
“total alhenação de cada associado, com 
todos os seus direitos, em beneficio da 
comunidade”. Não sendo total essa alie- 
nação, o indivíduo ficará exposto à 
dominação pelos outros. Em caso con- 
trário, o cidadão não obedece a interes- 
ses de apenas um setor do conjunto 


ROUSSEAU 


is tivera de escolher o or de meu nascimento . 


Reign o direito de legis 
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[= 
Es 
x 
[ea 
«< 
pra 
(o) 


. teria procurado um país 


ação fosse comum a todos os ci adãos, pois quem 


or do que eles pode saber quais as condições em que lhes convém viver 
juntos numa mesma sociedade?” (Guache do pintor Moretti, representando o 
moinho e os jardins de Ermenonville, onde Rousseau terminou os seus dias.) 


social, mas à vontade geral, que é “uma 
força real, superior à ação de qualquer 
vontade particular”. Essa obediência ja- 
mais suscita qualquer apreensão, pois a 
vontade geral, segundo Rousseau, é 
sempre dirigida para o bem comum. 

A alienação total ao Estado envolve 
igualdade ainda noutro sentido, na me- 
dida em que a vontade geral não é auto- 
ridade externa ER a pelo individuo 
a despeito de si mesmo, mas corporifi- 
cação objetiva de sua própria natureza 
moral. Aceitando a autoridade da vonta- 
de geral, o cidadão não só passa a per- 
tencer a um corpo moral coletivo, como 
adquire liberdade obedecendo a uma lei 
que prescreve para si mesmo. É por 
intermédio da lei que ele ultrapassa os 
limites da vida apetitiva para seguir os 
ditames da razão e da consciência. A 
submissão à vontade geral, possuidora 
de “inflexibilidade que nenhuma força 
humana pode superar”, conduz a uma 
liberdade que “resguarda o homem do 
vício” e a uma moralidade que “o eleva 
ate a virtude”. O indivíduo é, assim, 
investido de uma outra espécie de bonr 
dade, aquela virtude genuína do homem, 


que não é um ser isolado mas parte de 
um grande todo. Liberto dos estreitos 
limites de seu próprio ser individual, 
encontra plenitude numa verdadeira ex- 
periência social de fraternidade e igual- 
dade, junto a cidadãos que aceitam o 
mesmo ideal. 

A concepção rousseauniana do direito 
político é, portanto, essencialmente de- 
mocrática, na medida em que faz depen- 
der toda autoridade e toda soberania de 
sua vinculação com o povo em sua tota- 
lidade. Além disso, a soberania é malhe- 
nável e indivisível e, como base da pró- 
pria liberdade, é é algo a que o povo não 
pode renunciar ou partilhar com os 
outros, sob pena de perda da dignidade 
humana. À soberania pode, contudo, ser 
delegada em suas funções executivas, 
segundo formas diversas; nascem, 
assim, os governos monárquicos, aristo- 
cráticos e republicanos, cada um deven- 
do corresponder a circunstâncias histó- 
ricas e geográficas especificas. 

Para Rousseau, a lei, como ato da 
vontade geral e expressão da soberania, 
é de vital importância, pois determina 
todo o destino do Estado. Assim os legis- 


481 


-OS PENSADORES 


ladores têm relevante papel no Contrato 
Social, sendo investidos de qualidades 
quase divinas. É deles que o cidadão 

“recebe, de certa forma, sua vida e seu 
ser” e transforma-se superando a exis- 
tência independente, que usufrui no esta- 
do natural, e penetrando na vida moral 
como um ser comunitário. Esse novo 
modo de existência não lhe é imposto de 
fora, mas resulta de uma vontade prove- 
niente do fundo de seu ser interior. Os 
legisladores devem, assim, assemelhar- 
se aos deuses, mas perseguindo sempre o 
objetivo de servir às necessidades essen- 
ciais da natureza humana. 

Nos últimos capítulos do Contrato 
Social, Rousseau acrescenta um con- 
junto de sanções rigorosas que acredi- 
tava serem necessárias para a manuten- 
ção da estabilidade política do Estado 
por ele preconizado. Propõe a introdu- 
ção de uma espécie de religião civil, ou 
profissão de fé cívica, a ser obedecida 
pelos cidadãos que, depois de aceita- 
rem-na, deveriam segui-la sob pena de 
morte. Nisso se viu algo de extrema- 
mente chocante, mas é preciso não 
esquecer que Rousseau jamais foi um 
liberal no sentido político do termo. Ele 
não acredita na possibilidade de qual- 
quer rígida separação entre o indivíduo e 
o Estado — como queriam os teóricos 
liberais — e acha inconcebível o desen- 
volvimento da plena vida moral sem 
ativa participação do indivíduo no corpo 
inteiro da sociedade: por outro lado, 
estabelece que a unidade e permanência 
do Estado depende da integridade moral 
e da lealdade indivistvel de cada cida- 
dão. A profissão de fé cívica formulada 
por Rousseau reduz-se a alguns poucos 
dogmas simples que todo ser racional e 
moral deveria aceitar: crença num ser 
supremo, vida futura, felicidade dos jus- 
tos, punição dos culpados. A esses dog- 
mas positivos deve-se acrescentar ape- 
nas um negativo: a rejeição de todas as 
formas de intolerância. 


A herança de Rousseau 


Jean-Jacques Rousseau não terá sido 
um filósofo no sentido mais estrito do 
termo. Seu forte não era o encadeamento 
lógico das idéias nem a fundamentação 
rigorosamente racional dos princípias 


482 


que formulou, nem a penetração analí- 
tica dos problemas. Seu pensamento 
procede antes pela expressão de intui- 
ções resultantes da paixão permanente 
com que viveu todos os problemas da 
existência mais comum, como também 
os da cultura no nível superior das 
idéias. Mas soube como poucos expres- 
sar essas intuições e defendê-las apaixo- 
nadamente. As idéias correspondentes a 
essas intuições não são conceitos abstra- 
tos mas realidades vividas intensamente 
e valores morais imersos na mais nervo- 
sa sensibilidade. Opor-se aos filósofos 

não foi para ele apenas assunto teórico, 
mas questão de honra pessoal. 

Toda essa carga emocional e a capaci- 
dade de expressão estética que possuia 
deram força incomum ao seu pensa- 
mento e fizeram dele um marco revolu- 
cionário dentro da história da cultura. 
Sua influência estendeu-se aos mais 
diversos campos. Os princípios de liber- 
dade e igualdade política, formulados 
por ele, constituíram as coordenadas 
teóricas dos . setores mais radicais da 
Revolução Francesa (Robespierre era 
seu fervoróso seguidor) e inspiraram sua 
segunda fase, quando foram destruídos 
os restos da monarquia e foi instalado o 
regime republicano, colocando-se de 
lado os ideais do liberalismo de Voltaire 
e Montesquieu (1689-1755). As teorias 
políticas do idealismo alemão do século 
XIX — que glorificaram o Estado como 
Deus na história — também devem a 
Rousseau. quando passam de sua dou- 
trna de que o Estado é legalmente oni- 
potente para a exaltação absolutista do 
mesmo. Isso, apesar de Rousseau ter 
afirmado claramente que a maioria 
deveria ser limitada por restrições mo- 
rais, e insistido no direito do povo de 
derrubar o governo quando este deixasse 
de ser expressão da vontade geral. 

Por outro lado, a valorização rous- 
seauniana do mundo dos sentimentos, 
em detrimento da razão intelectual. e da 
natureza mais profunda do homem, em 
contraposição ao artificialismo da vida 
civilizada, encontra-se precisamente na 
base do amplo movimento romântico 
que caracterizou a primeira metade do 
século XIX e permanece vigorando até 
os dias de hoje, como uma das formas 
básicas de sentir e pensar o mundo. 


ROUSSEAU 


SNARK INTERNATIONAL 


“O verdadeiro fundador da sociedade... foio primeiro que, tendo cercado um 
terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou e soas ... simples para 
acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios ... não pouparia ao gênero 
humano aquele que... tivesse gritado .. .: Defendei-vos de ouvir esse impostor. 
os frutos são de todos... ea terra não pertence a ninguém!"” (Jeaurat 
de Bertry: Alegoria em Roni de Rousseau, Museu Carnavalet, Paris.) 


483 


1712 Jean-Jacques Rous 
seau nasce em Genebra, 
no dia 28 de junho. 


1719 — É publicado o Ro- 
binson Crusoé de Daniel 
Defoe, que expressa um dos 
traços fundamentais do pen- 
samento de Rousseau. 

1722 — Rousseau passa a 
estudar na casa do ministro 
Lambercier, em Bossey. Ra- 
meau publica o Tratado de 
Harmonia e Bach compõe o 
Cravo Bem Temperado. 
1728 — Rousseau foge de 
Genebra, encontra a Sra. de 
Warens e converte-se ao ca- 
tolicismo em Turim. 

1740 — Torna-se precep- 
tor, mas não consegue bons 
resultados como pedagogo. 
Richardson publica o ro- 
mance Pamela e Sata. 

1742 — Rousseau chega a 
Paris, em busca de sucesso. 
D'Alembert redige o Trata- 
do de Dinâmica. 

1745 — Rousseau liga-se 
a Thérêse Levasseur, com a 
qual passará toda a vida e 
terá cinco filhos. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1749 — Rousseau redige o 
Discurso sobre as Ciências 
e as Artes. 

1752 — O “intermezzo” 
operístico de Rousseau, O 
Adivinho da Aldeia, é ence- 
nado em Fontainebleau. A 
Enciclopédia, dirigida por 
Diderot, é condenada pela 
primeira vez. 

1754 — Rousseau | visita 
Genebra e volta ao protes- 
tantismo. O filósofo Condil- 
lac publica o Tratado sobre 
as Sensações. 

1755 — Rousseau publica 
os discursos Sobre a Origem 
da Desigualdade e Sobre a 
Economia Política. 

1756 — Passa a morar no 
Ermitage e começa a escre- 
ver o romance A Nova 
Heloisa. 

1757 — Escreve o Emílio 
e o Contrato Social. 4 ma- 
nia de perseguição começa a 
apresentar os primeiros sin- 
tomas. 


1762 — O Contrato So- 


cial e o Emilio são condena- 
dos pelas autoridades, e 


BIBLIOGRAFIA 


Rousseau é perseguido, re- 
jfugiando-se em Neuchátel. 
1764 — Redige um Proje- 
to de Constituição para a 
Córsega e as Confissões. 
1765 — É obrigado a dei- 
xar Neuchátel e refugia-se 
na Inglaterra, junto a David 
Hume; desconfia do amigo e 
sente-se cada vez mais alvo 
de conspirações. Ê 
1767 — Volta à França, 
casa-se com Thérêse Levas- 
seur e publica o Dicionário 
de Música. ; 

1771 — Escreve as Consi- 
derações sobre o Governo 
da Polônia. Para justificar- 
se de ataques, alguns reais, 
outros imaginários, compõe 
os Diálogos — Rousseau, 
Juiz de Jean-Jacques. 

1776 — Escreve os Deva- 
neios de um Caminhante 
Solitário. 

1778 — Falece em 2 de ju- 
lho e é enterrado na ilha dos 
Choupos, em Ermenonville. 
Durante a Revolução Fran- 
cesa, seus restos mortais se- 
rão colocados no Panteão. 


Masson, P.A.: La Religion de J. J. Rousseau, 3 volumes, Paris, 1916. 
ScHINZ, ALBERT: La Pensée Religieuse de J. J. Rousseau et ses Récents Interprêtes, Paris, 


1927. 


SCHINZ, ALBERT: La Pensée de J. J. Rousseau, Alcan, Paris, 1929. 
ScHINZ, ALBERT: Etat Présent des Travaux sur J. J. Rousseau, Nova York e Paris, 1941. 
WRIGHT, E. H.: The Meaning of Rousseau, Oxford, 1929. 


HôrrDING, HARALD:J. J. Rousseau and his Philosophy, 1930. 


HENDEL, C. W.: J.J. Rousseau, Moralist, 2 volumes, Nova York e Oxford, 1934. 

GUEHENO, JEAN: Jean-Jacques, 3 volumes, Bernard Grasset, Paris, 1948/52. (Em 1962 foi 
publicada nova edição com o subtítulo Histoire d'une Conscience.) 

DERATHE, ROBERT: Le Rationalisme de J. J. Rousseau, Presses Universitaires de France, 


Paris, 1948. 


DERATHE, ROBERT: J.J. Rousseau et la Science Politique de son Temps, P.U.F., Paris, 1950. 
MoRNET, DANIEL: Rousseau, L "Homme et L 'Oeuvre, Paris, 1950. 

BURGELIN, PIERRE: La Philosophie de [Existence de J. J. Rousseau, P.U.F., Paris, 1952. 
CASSIRER, ERNST: The Question ofJ. J. Rousseau (original alemão), Nova York, 1954. 
STAROBINSKI, JEAN: J. J. Rousseau, la Transparence et ['Obstacle, Paris, 1957. 

MonpvoLro, Roporro: Rousseau v la Conciencia Moderna (original italiano), Editorial 
Universitaria de Buenos Aires, 1962. 


484 


OS PENSADORES 


vida tão despida dos elementos 
ue geralmente se encontram nas 
biografias das grandes personalidades 
quanto Immanuel Kant. Nascido numa 
pequena cidade da Prússia, Kônigsberg, 
no dia 22 de abril de 1724, Kant era 
filho de um artesão humilde, que traba- 
lhava com artigos de couro. Estudou no 
Colégio Fridericianum e na Universi- 
dade de Kônigsberg; nesta última tor- 
nou-se professor catedrático, depois de 
alguns anos como preceptor de filhos de 
familias ricas. Kant não casou nem teve 
filhos. Faleceu a 12 de fevereiro de 
1804, sem jamais ter saído da cidade em 
que nasceu. Era um homem extrema- 
mente metódico, de pequena estatura e 
físico frágil. 

Outros acontecimentos relatados 
sobre sua vida (a impressão causada 

ela leitura das obras de David Hume, 
(1711-1776), a admiração incontida 
pelo pensamento de Rousseau 
(1712-1778), a timidez ao proferir a 
primeira aula) são todos episódios com 
um único denominador comum: um cére- 
bro que passou a vida investigando o 
universo espiritual do homem, à procura 
de seus fundamentos últimos, necessá- 
rios € universais. 

Ponto de convergência do pensamento 
filosófico anterior, a obra de Kant cons- 
titui, ao mesmo tempo, fonte da qual 
brota a maior parte das reflexões dos sé- 
culos XIX e XX. 

O universo espiritual, submetido por 
Kant ao crivo da análise crítica, compu- 
nha-se de elementos variados e contradi- 
tórios; apesar dessa dificuldade, esses 
elementos podem ser sintetizados em 
torno de duas grandes questões, a partir 
das quais se desdobram inúmeras ou- 
tras. 

A primeira dessas questões diz res- 
peito ao conhecimento, suas possibili- 
dades, seus limites, suas esferas de apli- 
cação. Com relação a esses problemas, a 
filosofia do século XVIII defrontava-se 
com duas ciências que se apresentavam 
como conjuntos de conhecimentos certos 


P ouquíssimos filósofos tiveram uma 


Na página anterior: Retrato de 
Immanuel Kant; Coleção Bertarelli, 
Milão. (Plessner International.) 


486 


e indiscutíveis: a matemática e a fisica. 
A matemática tivera grande desenvolvi- 
mento a pes do Renascimento — 


sobretudo devido à criação da peoretDE 
analítica por Descartes (1596-1650) e 
do cálculo infinitesimal por Newton 


(1642-1727) e Leibniz (1646-1716) —, 
constituindo-se no próprio modelo do 
conhecimento científico, graças a seu 
caráter absolutamente necessário e unil- 
versal. A fisica matemática, embora 
fosse uma disciplina jovem (não tinha 
mais de dois séculos), triunfara de 
maneira completa com a sistematização 
realizada por Newton, também se cons- 
tituindo num conjunto de proposições 
necessárias e universais. Seus resultados 
no estudo do movimento dos corpos e na 
astronomia indicavam o caminho a ser 
seguido por todos que pretendessem 
conhecer os fenômenos naturais. Ao lado 
da matemática e da fisica, persistiam 
ainda no pensamento ocidental os gran- 
des sistemas metafísicos — na Alemanha 
de Kant, imperava o sistema leibniziano 
na versão de Christian Wolff 
(1679-1754) — que pretendiam dar res- 
postas para os problemas da realidade 
última das coisas. A metafísica, contu- 
do, não era matéria pacífica, capaz de 
oferecer soluções aceitas unanimemente, 
apesar de tentar demonstrações rigoro- 
sas. Kant foi “despertado do sono meta- 
fisico” pelo pensamento de David Hume 
cujas análises, especialmente do con- 
ceito de causalidade, demoliam as pre- 
tensões do dogmatismo metafísico de 
afirmar verdades eternas a respeito da 
essência última de todas as coisas. 


A segunda grande questão que sinte- 
tiza o universo das idéias ao tempo de 
Kant é o problema da ação humana, ou 
seja, o problema moral. Tratava-se de 
saber não o que o homem conhece ou 
pode conhecer a respeito do mundo e da 
realidade última, mas do que deve fazer, 
de como agir em relação a seus seme- 
lhantes, de como proceder para obter a 
felicidade ou alcançar o bem supremo. 
Essa área da reflexão filosófica e sua 
oposição à razão apenas cognitiva foi 
revelada a Kant sobretudo pelas obras 
de Rousseau, que formulou uma filosofia 
da liberdade e defendeu a autonomia e o 
primado do sentimento sobre a razão ló- 
gica. Por outro lado, Kant, embora 


' 


A Guerra dos Sete Anos (1756/1763) envolveu Prússia e Inglaterra, de um lado, 
e Austria e França, de outro. Com ela, a Prússia, sob liderança de Frederico, 
o Grande, conseguiu aumentar seu poderio e consolidar sua liderança sobre a 
Europa central, em detrimento da Austria. (Festa comemorativa da paz de 1763, 
no Palácio de Versalhes; Civica Raccolta Stampe Bertarelli, Milão.) 


vivendo na distante Kônigsberg, longe 
de Paris e dos grandes centros, sempre 
teve plena consciência dos problemas 
sociais e políticos da época e tomou par- 
tido favorável à Revolução Francesa, na 
qual via não apenas um processo de 
transformação econômica, social e poli- 
tica, mas sobretudo um problema moral. 

A essas duas grandes questões alia- 
ram-se no espírito de Kant os problemas 
da apreciação estética e das formas de 
pensamento da biologia, cujas peculiari- 
dades em relação ao problema do conhe- 
cimento e ao problema da moral articu- 
lou numa visão sistemática das funções e 
dos produtos de razão humana. Todos 
esses problemas foram analisados por 
Kant em inúmeras obras, redigidas e 
publicadas desde 1746 até 1798. Entre 
elas destacam-se: História Geral da 
Natureza e Teoria do Céu (1755), O 
Unico Argumento Possível para uma 
Demonstração da Existência de Deus 
(1763), Sonhos de um Visionário, Inter- 


pretados Mediante os Sonhos da Metafi- 
sica (1766). Dissertação sobre a Forma 
e os Princípios do Mundo Sensível e do 
Mundo Inteligível (1770), Prolegó- 
menos a Qualquer Metafísica Futura que 
Possa Vir a Ser Considerada como Ciên- 
cia (1783), Fundamentação da Rio 
sica dos Costumes (1785). Mas foi 
sobretudo em três obras que todas as 
questões filosóficas compareceram dian- 
te de um tribunal, especialmente forma- 
do para julgar a razão: a crítica. O pro- 
blema do conhecimento é examinado na 
Crítica da Razão Pura (1781); a Crítica 
da Razão Prática (1788) analisa o pro- 
blema moral; e a Crítica da Faculdade 
de Julgar (1790) estuda a beleza natural 
e artística e o pensamento biológico. 


Que é conhecer? 
Analisando a faculdade de conhecer, 


na Crítica da Razão Pura, Kant distin- 
gue duas formas de conhecimento: o 


487 


ARBÓRIO MELLA 


OS PENSADORES 


A obra de Kant À Religião dentro dos Limites da Simples Razão sofreu severa 
censura por parte de Frederico Guilherme II, rei da Prússia. Segundo um 
decreto real, o livro desfigurava a essência do cristianismo e o autor não 

deveria mais abordar questões religiosas, oralmente ou por escrito. 

(Biblioteca de Frederico Guilherme II, no castelo de Charlottenburg, Berlim.) 


488 


FABBRI 


KANT 


empírico ou a posteriori, e o puro ou a 
priori. O conhecimento empírico, como 
diz a própria expressão, reduz-se aos 
dados fornecidos pelas experiências sen- 
síveis. Quando se diz, por exemplo, “a 
porta está aberta”, expressa-se um 
conhecimento que não pode ser desvin- 
culado de uma impressão dos sentidos. 
O conhecimento puro ou e priori, ao 
contrário, não depende ualquer 
land sensivel, distin Fá se do 

trico pela Universalida e e necessi- 

des Tal é o caso da proposição “a 
Ns reta é a distância mais curta entre 
dois pontos”. Nessa proposição nada se 
afirma a respeito de determinada linha 
reta, mas de qualquer linha reta (univer- 
salidade); por outro lado, não se declara 
que a linha reta é a mais curta em certas 
condições, mas em quaisquer condições 
(necessidade). A experiência sensível 
por si só — mostra Kant — Jamais produz 
Juízos necessários e universais, de tal 
forma que todas as vezes que se está 
diante de juízos desse tipo tem-se um 
conhecimento puro ou a priori. 

Ao lado da distinção entre a posteriort 
ou empírico, e a priori ou puro, impõe-se 
— segundo Kant — distinguir entre Juízo 
analítico e Juízo sintético. No primeiro, 
o predicado já está contido no sujeito, de 
tal forma que o juízo em questão con- 
siste apenas em um processo de análise, 
através do qual se extrai do sujeito aqui- 
lo que Já está contido nele. Para Kant, o 
Juízo “os corpos são extensos” é desse 
tipo, pois o predicado “extensos” está 
contido implicitamente no sujeito *cor- 
pos”. Isso significa que não é possível 
pensar o conceito de corporeidade sem 
pensar, ao mesmo tempo, o conceito de 
extensão. Os Juízos sintéticos, ao con- 
trário, unem o conceito expresso pelo 
predicado ao conceito do sujeito, consti- 
tuindo o Único tipo de Juizo que enri- 
quece o conhecimento. À esse tipo per- 
tence o juizo “todos os corpos se 
movimentam” 

Feitas as distinções entre a priori ea 
posterior, e entre analítico e sintético, 
pode- se classificar os juízos em três 
tipos: analítico, sintético a posteriori e 
sintético a priori. Os Juízos analíticos 
não teriam maior interesse para a teoria 
da ciência, pois, embora universais e 
necessários, não representam qualquer 


enriquecimento do conhecimento, na me- 
dida em que são tautológicos. Os] Juízos 
sintéticos a posteriori também carecem 
de importância porque são todos contin- 
gentes e particulares, referindo-se a 
experiências que se esgotam em si mes- 
mas. Portanto, o verdadeiro núcleo da 
teoria do conhecimento situar-se-ia no 
terreno dos ) juizos sintéticos a priori, os 
quais, ao mesmo tempo, são universais e 
necessários, enriquecendo e fazendo pro- 
gredir o conhecimento. 

Kant vinculou essa conclusão ao fato 
de que a matemática e a física apresen- 
tavam-se constituídas por verdades in- 
discutíveis, enquanto a metafísica pre- 
tendia a mesma validez. Assim, o 
asp do conhecimento foi formu- 

do por Kant em torno de três questões: 

“como são possíveis Os Juízos sintéticos 
a priori na matemática?”: “como são 
ada os juízos sintéticos a priori na 
isica?”; “são possíveis Os juízos sintê- 
ticos a priori na metafísica?”. 

Kant pretendeu solucionar esses pro- 
blemas mediante uma revolução (com- 
parável à de Copérnico (1473-1543) na 
astronomia) no modo de encarar as rela- 
ções entre o conhecimento e seu objeto. 
A revolução consistiria em, ao invês de 
admitir que a faculdade de conhecer se 
regula pelo objeto, mostrar que o objeto 
se regula pela faculdade de conhecer. A 
filosofia deveria investigar a possível 
existência de certos princípios a priori, 
que seriam responsáveis pela síntese dos 
dados empíricos. Estes, por sua vez, 
deveriam ser encontrados nas duas fon- 
tes de conhecimento, que seriam a sensi- 
bilidade e o entendimento. 

A primeira parte da Crítica da Razão 
Pura investiga os rincípios, aprioris- 
ticos da Bida de, intitulando-a 
“Estética Transcendental?. Pela pri- 
meira expressão Kant entende não uma 
teoria do belo, mas uma teoria da sensi- 
bilidade; com o termo “transcendental”, 
Kant denomina todo conhecimento que, 
em geral, se ocupa não tanto com obje- 
tos, mas com o modo de conhecê-los, na 
medida em que esse conhecimento deva 
ser possível a priori. Na “Estética Trans- 
cendental” encontram-se os  funda- 
mentos apriorísticos da matemática. 
Uma segunda parte da Crítica da Razão 
Pura, a “Analítica Transcendental, 


489 


pe RE E PE EE 


OS PENSADORES 


ar == cv co compor analisa os elementos apriorísticos do 
, A Lei * * entendimento e traz à luz a estrutura do 
[al . . . 
” po da ' 4 | À [gu conhecimento na fisica. Finalmente, a 
A E E cm Le: E 
É Vara E Dialética Transcendental” | ocupa-se 


com o uso que à razão pode fazer com as 


é e categorias do entendimento, criando a 
ç t ! t | f metafísica. 
der Espaço e tempo 


4 Na “Estética Transcendental”, Kant 
pracíi (d (| Eru Í define a sensibilidade como uma facul- 
: dade de intuição, através da qual os 
objetos são apreendidos pes sujeito 

1 


sa E cognoscente. Ê necessário stinguir na 

sensibilidade — mostra Kant — dois ele- 

3 m na nuct Sant mentos constitutivos: um, material e 
e . % 


receptivo; outro, formal e ativo. A maté- 
ria do conhecimento são as impressões 
que o sujeito recebe dos objetos exterio- 
res, enquanto a forma exprime a ordem 
na qual essas i RR são colocadas. 
São duas as formas da sensibilidade: 
o espaço e o tempo. Kant analisa-as deti- 
damente, procurando demonstrar como 
são formas apriorísticas e, portanto, 
independentes da experiência sensivel. 
Para Kant, não é porque o sujeito 
cognoscente percebe as coisas como 
exteriores a si mesmo e exteriores umas 
às outras que ele forma a noção de espa- 
ço; ao contrário, é porque possui o espa- 
Blerte Unflage -. co como uma estrutura inerente à sua 
sensibilidade que o sujeito cognoscente 
pode perceber os objetos como relacio- 
, nados espacialmente. Kant mostra ainda 
Riga, que é possível abstrair todas as 'coisas 


6cy Gobanu Sricdriá Gartinog, Rs estão no espaço, não se podendo 
azer o mesmo com o próprio espaço. 


179%. A argumentação kantiana com relação 
ao tempo é fundamentalmente a mesma: 
a simultaneidade das coisas e sua suces- 
são não poderiam ser percebidas se a 


, representação do tempo não lhes ser- 
é visse de fundamento; acrescente-se a 
Aos E 1sso o fato de que todas as coisas que se 
.. enquadram dentro do tempo podem 


desaparecer, mas o próprio tempo não 
pode ser suprimido. 
Espaço e tempo seriam, assim, duas 


FABBRI 


Kant revolucionou o estudo dos condições sem as quais é impossível 
problemas morais com a publicação da conhecer, mas o conhecimento universal 
Critica da Razão Prática. e necessário não se esgota neles. Ê preci- 
(Frontispício de uma edição de 1797; so também o concurso dos elementos 


Bibl. Nacional Braidense, Milão.) apriorísticos do entendimento. 


490 


KANT 


- 0) ee Sm. 


Sobre sua vida pessoal, Kant que nada deixou para os historiadores. 


Com relação aos primeiros anos 


vida, o filósofo afirmava que o homem que 


sente nostalgia da infância jamais saiu dela. Seus biógrafos afirmam que ele 
sentia angústia e terror, quando se voltava para os anos de “escravidão 
juvenil”. (Casa de Kant, segundo gravura de 1845; Museu de Koônigsberg.) 


Categorias do entendimento 


Para encontrar os elementos aprio- 
rísticos do entendimento, Kant parte, na 
“Analítica Transcendental” da Crítica 
da Razão Pura, dos diferentes tipos de 
Juízo, classificados pela lógica tradicio- 
nal, desde Aristóteles (384-322 a.€.). 
Essa classificação apresenta doze tipos 
de ] Juízos, agrupados em quatro grupos 
de três: quantidade (universais, particu- 
lares, singulares); qualidade (afirmati- 
vos, negativos e indefinidos); relação 
(categóricos, hipotéticos, disjuntivos); e 
modalidade (problemáticos, assertórios, 
apodíticos). As categorias correspon- 
dentes seriam, respectivamente: unida- 
de, pluralidade, totalidade, realidade, 
negação, limitação, substância, causa, 
comunidade (ou ação recíproca), possi- 
bilidade, existência e necessidade. 

A demonstração da legitimidade des- 
sas categorias constitui o núcleo da 
“Analítica Transcendental”. Kant desig- 


na-a pela expressão “dedução transcen- 
dental”, usando a palavra “dedução” no 
antigo SS de justificação ou 
prova legal. O primeiro argumento de 
Kant em favor da legitimidade das cate- 
gorias é o de que as diversas representa- 
ções formadoras do conhecimento neces- 
sitam ser sintetizadas, pois de outra 
forma não se poderia falar de propria- 
mente conhecimento. Tal sintese pode 
ser estudada desde o ponto de vista da 
atividade do sujeito. Sua premissa fun- 
damental é a consciência da diversidade 
no tempo, a qual produz, por um lado, a 
consciência de um eu unificado (não 
metafísico ou empírico, mas transcen- 
dental) e, de outro lado, a consciência de 
algo que constitui o objeto, enquanto ob- 
jeto de conhecimento. O trânsito da 
diversidade à unidade realizar-se-ia de 
três modos: mediante síntese da apreen- 
são na Intuição ou consciência da simul- 
taneidade e não sucessividade de vários 
elementos; mediante síntese de reprodu- 


491 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Kant considera a metafísica como 
resultado do uso indevido da razão 
teórica. O sistema de Christian Wolff 
(acima) é um modelo do dogmatismo 
metafísico que o filósofo critica. 


ção na imaginação, que possibilita nova 
apresentação das representações; e, fi- 
nalmente, mediante sintese de reconheci- 
mento do conceito, que permite reconhe- 
cer a persistência dos mesmos 
elementos. Todos esses modos teriam 
suas raízes numa condição fundamental, 
chamada por Kant “apercepção trans- 
cendental ou pura”, que se distingue da 
“apercepção empírica”. Esta é própria 
de um sujeito que possui um sentido 
interno do fluxo das aparências. Já a 
apercepção transcendental seria a pura 
consciência original e inalterável, não 
uma realidade propriamente, mas aquilo 
que torna possivel a realidade enquanto 
realidade para um sujeito. Trata-se, por- 
tanto, de condição de toda percepção: 
“O eu penso deve poder acompanhar 
todas as minhas representações (...), 
caso contrário, algo seria representado 
em mim que não poderia ser pensado, e 
isso equivale a dizer que a represen- 
tação seria impossível ou, pelo menos, 


492 


que não seria nada para mim”. 

A apercepção transcendental, núcleo 
de todas as sínteses do entendimento, 
não tem caráter subjetivo; pelo contrá- 
rio, é totalmente objetiva no sentido de 
que representa a condição de toda possi- 
vel dbinvidade Assim, a dedução 
transcendental, nela fundamentada, 
mostra as condições a priori da expe- 
riência possível em gere: como condi- 
ções da possibilida e dos objetos da 
experiência. À dedução transcendental 
nada impõe de subjetivo à realidade, 
nem é constituída por uma indução a 
partir dos dados da experiência. É antes 
um modo de mostrar como se constitui o 
objeto como objeto de conhecimento, na 
medida em que esse objeto em geral 
encontra-se ligado aos objetos reais 
empíricos. 

A teoria transcendental das categorias 
a priori do entendimento como funções 
sintetizadoras do sujeito cognoscente, 
tal como justificadas pela dedução 
transcendental, não pareceu contudo 
suficiente a Kant para dar conta do pro- 
blema das relações entre o entendimento 
e as intuições do espaço e do tempo. Por 
isso, o filósofo desenvolveu na Crítica da 
Razão Pura a teoria do esquematismo 
transcendental, cujas dificuldades ele 
mesmo põe em relevo ao afirmar que “se 
trata de uma arte oculta nas profundi- 
dades da alma humana, cujos modos 
reais de atividade a Natureza não nos 
permite jamais descobrir”. 

O problema poderia ser colocado nos 
seguintes termos: como é possivel que 
duas coisas heterogêneas, como são as 
categorias, por um lado, e os fenômenos, 
por outro, possam ligar-se entre si? Em 
outras palavras, qual o elemento inter- 
mediário existente entre os conceitos e a 
realidade? 

A resposta deveria ser encontrada em 
algo que fosse, por um lado, sensível e, 
por outro, inteligível. Esse elemento 
intermediário, que Kant chama “es- 
quema transcendental”, é fornecido pelo 
tempo, o qual, por um lado, é homogê- 
neo ao sensível por ser a própria condi- 
ção do sensível e, por outro lado, é uni- 
versal e necessário, enquanto conceito. 
O esquema transcendental é sempre pro- 
duto da imaginação, não se tratando, 
porém, de imagem propriamente dita; é 


KANT 


Segundo o historiador Ernst Cassirer, as forças verdadeiramente orig inais 
da Prússia do século X Ve Rabi Kant, Winckelmann e Herder. Winckelmann 


interessou-se sobretudo pela arte clássica e seus trabalhos exerceram 
influência nas idéias estéticas que Kant formulou em sua obra Critica da 
Faculdade de Julgar. (4. Marcon: Winckelman; Schlossmuseum, Weimar.) 


493 


FABBRI 


OS PEN 


FABBRI 


SADORES 


Herder, inicialmente seguidor do filósofo, Ps se depois radicalmente à 


filosofia transcendental de Kant. Klopstock, 


uscando inspir ação nas fontes 


nacionais, foi um dos precursores do romantismo alemão. Kant não gostava de 
sua poesia, por achá-la carente de força plástica. (Retrato de 
Herder, por A. Frafj, e de Klopstock, por Jens Juel; Museu de Halberstadt.) 


antes “idéia de um procedimento univer- 
sal da imaginação” que torna possível 
uma imagem do conceito. Enquanto a 
imagem é produto da faculdade empírica 
da imaginação reprodutiva, o esquema 
dos conceitos sensíveis é um produto e, 
por assim dizer, um monograma da pura 
imaginação a priori, mediante o qual 
tornam-se possiveis as imagens. O es- 
quema da substância, por exemplo, é a 
permanência do real no tempo; o esque- 
ma da causalidade é a sucessão tempo- 
ral da diversidade, de acordo com uma 
regra. 

Em síntese, a teoria desenvolvida por 
Kant na “Estética” e na “Analítica” 
transcendentais mostra que todo conhe- 
cimento é constituido por sinteses dos 
dados ordenados pela intuição sensível 
espaço- temporal, mediante as catego- 
rias apriorísticas do entendimento. Por 
conseguinte, não seria possível conhecer 
O noumenon, as coisas em si mesmas, 
mas tão somente o fenômeno, as aparên- 


494 


cias, ou seja, os objetos tais como resul- 
tam das sinteses apriorísticas do próprio 
ato de conhecer. A matemática e a fisica, 
por se constituírem dentro dessas con- 
dições, podem arrogar o título de disci- 
plinas científicas. O problema colocado 
em seguida por Kant (na “Dialética 
Transcendental”) foi o de saber se o 
mesmo direito poderia ser pretendido 
pela metafísica. 


As idéias da razão 


A metafísica analisada por Kant é a 
disciplina que sempre pretendeu dar res- 
postas últimas e definitivas para os vá- 
rios problemas, procurando conhecer as 
coisas em si mesmas. Nesse sentido a 
metafísica tradicional afirma a imortali- 
dade da alma humana; diz o que é o uni- 
verso enquanto totalidade; procura pro- 
var, de maneiras diversas, a existência 
de um ser supremo. Todas essas afirma- 
ções, segundo Kant, não são legítimas 


FABBRI 


KANT 


O matemático Leonard Euler contestou a teoria segundo a qual o espaço e o 
tempo originam-se da experiência sensível e, ao mesmo tempo, a doutrina 
leibniziana de que espaço e tempo são conceitos ideais. As teses de Euler 
desempenharam importante papel na a da teoria do conhecimento de Kant. 
Reto de Euler, por J. F. Darbes; Museu de Arte e História, Genebra.) 


495 


FABBRI 


OS PENSADORES 


porque resultam de um emprego do 
entendimento humano fora dos limites 
definidos nas partes anteriores da Crí- 
tica da Razão Pura. A metafísica, ultra- 
passando esses limites — tentando atin- 
gir o absoluto e tratando de objetos que 
não são apreendidos empiricamente —, 
não seria, portanto, uma forma de 
conhecimento. Nos domínios da metafi- 
sica é possível “pensar”, mas não é pos- 
sivel “conhecer” 

Tratando da psicologia racional (dis- 
ciplina metafísica que tem como objeto a 
alma e sua imortalidade), Kant diz que 
ela repousa, desde Descartes, na propo- 
sição “eu penso”, cuja verdade é incon- 
testável. Não se pode, contudo, tirar 
dela a consequência de que o eu exista 
como um objeto real. Para a apreensão 
de um objeto é necessária uma intuição e 
no caso em questão se está diante unica- 
mente da forma do pensamento. Pelas 
mesmas razões, não seria legítimo re- 
correr ao conceito de substância e afir- 
mar a alma como substância pensante, 
pois o conceito de substância, para se 
aplicar a um objeto, também supõe uma 
intuição. Em outras palavras, não há 
coisa alguma no espaço e no tempo que 
possa ser considerado alma, não haven- 
do, portanto, nenhuma percepção sensi- 
vel, e esta é uma das condições funda- 
mentais do conhecimento. 

As mesmas dificuldades, além de 
outras, encontram-se na cosmologia ra- 
cional, parte da metafísica que se ocupa 
da totalidade do universo. Nesse caso, 
Kant procura mostrar como a razão é 
conduzida a afirmativas antitéticas, a 
antinomias resultantes do fato de ela 
ultrapassar os limites da intuição sensi- 
vel espaço-temporal e de sua síntese 
pelas categorias do entendimento. Quan- 
do especula sobre a totalidade do uni- 
verso, a razão tanto pode chegar à con- 
clusão de que o universo tem um 
princípio no tempo e limites no espaço, 
quanto pode afirmar exatamente o con- 
trário: o universo é infinito no tempo e 
no espaço. Assim pensando metafisica- 
mente, poder-se-ia dizer que o universo 
teve necessariamente um -começo no 
tempo porque, caso contrário, não teria 
sentido aquilo que o homem chama 
“acontecer”, ou seja, o fato de que tudo 
começa a existir num certo momento e 


496 


cessa de existir num outro momento. A 
antitese, contudo, tem a mesma força ló- 
gica: se o universo teve um começo no 
tempo, o que existia antes dele? Para 
que o universo tenha vindo a existir é 
necessário que tenha existido algo antes 
dele, mas esse algo obviamente faz parte 
do universo, porque o universo é totali- 
dade das coisas. 

A segunda antinomia da razão refere- 
se à estrutura do universo no espaço. 
Sua tese diz: tudo quanto existe no uni- 
verso é composto de elementos simples e 
indivisíveis; a antítese afirma que o uni- 
verso é composto de elementos infinita- 
mente divisíiveis. O adepto da tese argu- 
mentaria que se algo existe e é divisível, 
como realmente as coisas são, a divisão 
desse algo deveria cessar num certo 
momento. sem Oo que se chegaria à 
absurda conclusão de que esse algo é 
uma soma de nadas. Por outro lado, o 
adepto da antítese poderia argumentar, 
com a mesma força lógica, que as parti- 
culas, supostamente finais da divisão, Já 
que constituem partículas espaciais, 
possuem uma certa dimensão e nesse 
caso são divisiveis. 

Ao mesmo resultado contraditório 
chegam as afirmações sobre uma pri- 
meira causa do universo (terceira anti- 
nomia) e sobre a existência ou não exis- 
tência de um ser necessário, dentro ou 
fora do universo. 

Tanto quanto a psicologia e a cosmo- 
logia racionais, a teologia racional (ter- 
ceira disciplina DEU) padeceria 
dos mesmos defeitos. Kant analisa as 
provas da existência de Deus elaboradas 
no curso da história do pensamento cris- 
tão, agrupando- as em três argumentos 
principais: o argumento ontológico, o 
cosmológico e o fisico-teológico. 

O argumento ontológico, encontrado 
em Santo Anselmo (1033-1109) e em 
Descartes, afirma que o homem tem 
idéia de um ser perfeito, que necessaria- 
mente deve existir porque se não exis- 
tisse não seria perfeito. Kant mostra que 
a existência é uma das categorias a prio- 
ri do entendimento e como tal não tem 
qualquer validez (como já demonstrara 
na Analítica”) a não ser quando apli- 
cada à intuição espaço-temporal. 

O argumento cosmológico para pro- 
var a existência de Deus consiste na 


KANT 


As obras de Kant que tratam dos problemas morais não abordam os costumese as 
ações humanas, tais como elas ocorrem de fato. O filósofo buscou os 
princípios necessários e universais das ações humanas enquanto produtos da 
razão pura em sua dimensão prática. (Tela de Daniel Chodowieck: “Reunião 
Campestre no Tiergarden de Berlim”; Museu de Artes Plásticas, Leipzig.) 


497 


FABBRI 


OS PENSADORES 


enumeração de causas dos fenômenos 
até se chegar a uma causa não causada, 
que seria Deus. Para Kant o erro dessa 
argumentação é óbvio: não há motivo 
algum para se cessar a aplicação da 
categoria de causalidade. 

Finalmente, o argumento fisico-teo- 
lógico (todos os seres da natureza cum- 
prem algum fim, servem para alguma 
coisa, logo deve haver um fim último: 
Deus) utiliza indevidamente o conceito 
de fim. Kant mostra que se trata de um 
conceito metodológico, empregado para 
descrever a realidade, mas do qual não 
se pode extrair qualquer outra conse- 
quência, como fazem os teólogos. Não é 
lícito, sem se sair dos limites da expe- 
riência, tirar da adequação a finalidades 
quaisquer conclusões referentes a um ser 
superior. 

Em síntese, a metafísica ultrapassaria 
todas as limitações inerentes ao ato de 
conhecer (tal como definido na “Estéti- 
ca” e na “Analítica” transcendentais), 
fazendo afirmações inteiramente Iegiti- 
mas. Ela aplica as categorias a priori do 
entendimento fora dos limites da intui- 
.ção sensível; os juízos sintéticos com os 
quais se apresenta são na verdade falsos, 
porque são sinteses no vazio. À metafi- 
sica pretende conhecer as coisas-em-si e 
essa é uma pretensão contraditória: o 
ato de conhecer, pela sua própria natu- 
reza, transforma as supostas coisas-em- 
si em fenômenos, isto é, aparências. 

A metafísica, contudo: existia há sé- 
culos e Kant se pergunta quais teriam 
sido as razões des fato. É perfeita- 
mente legítimo indagar se não haveria 
um outro fundamento que pudesse, não 
validá-la como forma de conhecimento 
teórico, pois isso é impossível, mas dar 
conta de sua existência. Com essas ques- 
tões, transita-se para o segundo grande 
problema que preocupou o filósofo: o 
problema moral. 


O imperativo categórico: 


Na parte final da Crítica da Razão 
Pura, Kant afirma que a razão não é 
constituída apenas por uma dimensão 
teórica, que busca conhecer (e ultra- 
passa os limites do conhecimento), mas 


498 


também por uma dimensão prática, que 
determina seu objeto mediante a ação. 
Nesse sentido, a razão cria o mundo 
moral e é nesse domínio que podem ser 
encontrados os fundamentos da metafi- 
sica. Para dar conta do problema da 
moral, Kant escreveu, depois da Crítica 
da Razão Pura, a Fundamentação da 
Metafísica dos Costumes (1885) e a Crí- 
tica da Razão Prática, suas obras mais 
importantes nesse terreno. 

Na Fundamentação da Metafísica dos 
Costumes, Kant afirma a necessidade de 
se formular uma filosofia moral pura, 
despida, portanto, de tudo que seja 
empírico. Repetia, assim, no que diz res- 
peito à ação humana, as linhas mestras 
do projeto que formulara ao abordar o 
problema do conhecimento. Dentro 
dessa perspectiva, a moral é concebida 
como independente de todos os impulsos 
e tendências naturais ou sensíveis; a 
ação moralmente boa seria a que obede- 
cesse unicamente à lei moral em si 
mesma. Esta somente seria estabelecida 
pela razão, o que leva a conceber a liber- 
dade como postulado necessário da vida 
moral. A vida moral somente é possível, 
para Kant, na medida em que a razão 
estabeleça, por si só, aquilo que se deva 
obedecer no terreno da conduta. 


Na Crítica da Razão Prática, o méto- 
do kantiano é invertido, em relação à 
Fundamentação da Metafísica dos Cos- 
tumes. Nesta, a vida moral aparece 
como forma através da qual se pode 
conhecer a liberdade, enquanto na Crí- 
tica da Razão Prática a lhberdade é 
investigada como a razão de ser da vida 
moral. Na Crítica da Razão Prática, 
Kant demonstra que a lei moral provém 
da idéia de liberdade e que, portanto, a 
razão pura é por si mesma prática, no 
sentido de que a idéia racional de liber- 
dade determina por si mesma a vida 
moral e com isso demonstra sua própria 
realidade. Em suma, o incondicionado e 
absoluto (inatingível pela razão no ter- 
reno do conhecimento) seria alcançado 
verdadeiramente na esfera da morali- 
dade; a liberdade seria a coisa-em-si, o 
noumenon, almejado pela razão. Nesse 
sentido, a razão prática tem primazia 
sobre a razão pura. 

A Crítica da Razão Prática foi divi- 
dida por Kant da mesma forma que a 


KANT 


Prolegomena 


ciner jedem 
Funftigen Metaphnfie 
als Biffenfãaft 
mirb auftretem fórmen, 


a se. 


Immanuel 


&ant 


Riga, 
bey TFobann Gricdrid QGartinog. 


FABBRI 


Grunblegung 


que 


Metapbyfir. 


der Sitren 


Immanuel Rant 


Bierte Auflage. 


fra A — 


dranffure und Seipaia, 
1794. 


Os Prolegômenos a Qualquer Metafísica Futura que Possa Vir a Ser Considerada 
como Ciência explicitaram para um público mais amplo o conteúdo da Critica da 


Razão Pura. 4 Fundamentação 
constitui um estudo p 
da Razão Prática. 


Crítica da Razão Pura, mas não se 
encontra nela uma “Estética”. Isso se 
deve ao fato de que, enquanto as funções 
de conhecimento têm como fundamento 
a sensibilidade espaço-temporal, a fa- 
culdade prática e a atividade moral 
opõem-se a toda determinação sensível. 
O elemento sensível no comportamento 
moral não pode ser pressuposto, mas, ao 
contrário, deve ser deduzido da raciona- 
lidade pura. Esse é o objeto da parte da 
Crítica da Razão Prática intitulada 
“Analítica” 

A “Analítica” da Crítica da Razão 
Prática distingue, inicialmente, as máxi- 
mas morais das leis morais. As primei- 
ras seriam subjetivas, contendo uma 


a Metafísica dos Costumes, por outro lado, 
aratório SM PrRcdl obra de Kant sobre moral, a Crítica 
rortisale Biblioteca Nacional Braidense, Milão.) 


condição considerada pelo sujeito como 
válida somente para sua vontade. As leis 
morais, ao contrário, seriam objetivas, 
contendo uma condição válida para a 
vontade de qualquer ser racional. Feitas 
essas distinções, Kant demonstra que 
todos os princípios práticos que pressu- 
põem um objeto ou matéria do querer 
são empíricos e não podem proporcionar 
leis práticas. Esse objeto material do 
querer é a felicidade e ela depende da 
natureza empírica de cada sujeito parti- 
cular. Por conseguinte, as leis práticas 
só podem ser formais. Uma vontade 
determinada apenas pela forma da lei e, 
por consequência, independente de todo 
estímulo empírico é livre; por isso a 


499 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Um dos maiores poetas alemães, 
Schiller dedicou-se também à 
filosofia, terreno no qual foi 
influenciado por Kant. (Tela de Jack 
Friedz Wecherlin; Museu de Marbach.) 


200 


FABBRI 


liberdade e a lei prática incondicionada 
mantêm entre si uma correspondência 
reciproca. Essa lei é chamada por Kant 
“imperativo categórico”, e ele o distin- 
gue dos “imperativos hipotéticos”. Estes 
enunciam um mandamento subordinado 
a determinadas condições (se queres 
sarar, toma remédio), enquanto o impe- 
rativo categórico é inteiramente desvin- 
culado de qualquer condição. O impera- 
tivo categórico formula-se nos seguintes 
termos: “Age de tal maneira que o moti- 
vo que te levou a agir possa ser conver- 
tido em lei universal”. Segue-se do 
imperativo categórico que, assim como 
ele contém apenas a forma da razão 
(universalidade sem contradição), a 
razão pura nele implicada é por si 
mesma prática, dando ao homem uma lei 
universal de conduta, que se chama lei 
moral. Em suma, o imperativo categó- 
rico afirma a autonomia da vontade 
como único princípio de todas as leis 
morais e essa autonomia consiste na 
independência em relação a toda a maté- 
ria da lei e na determinação do livre 
arbítrio mediante a simples forma legis- 
lativa universal de que uma máxima 
deve ser capaz. 

A seguir, Kant, na Crítica da Razão 
Prática, ocupa-se com estabelecer o con- 
ceito da razão pura enquanto prática, 
isto é, o objeto que seja um efeito possi- 
vel da liberdade, do ponto de vista 
moral. Kant encontra-o no “bem”, Is 
deve ser distinguido do “agradável”. ( 
bem deve ser SRD ns 
mente, isto é, independentemente de 
todo conteúdo empírico em que se reve- 
le; não deve, pois, ser determinado antes 
da lei moral, mas só depois dela e 
mediante ela. Da hberdade, postulado 
da razão prática e seu princípio puro, 
deve-se deduzir toda atividade moral. 

A terceira parte da “Analítica” da Crí- 
tica da Razão Prática é dedicada ao es- 
tudo dos motivos morais, ou seja, aos 
motivos subjetivos determinantes da 
vontade moral. Os motivos devem ser 
empíricos, sem contudo terem origem 
empírica e natural, tais como o proveito 
pessoal e a felicidade. Assim, o motivo 
fundamental da moralidade, segundo 
Kant, só pode ser o respeito pela lei em 
si mesma. Esse sentimento de respeito é 
produzido por um princípio intelectual e 


KANT 


“Silenciemos a respeito de nós 
mesmos.” Kant encontrou essa máxima 
latina em Bacon e adotou-a como regra 

permanente de conduta. (Retrato o 
filósofo; Biblioteca Nac. de Paris.) 


é o único que se pode conhecer a priori e 
cuja necessidade pode ser compreen- 
dida. Poder-se-ia dizer que o respeito 
pela lei não é apenas um motor da vonta- 
de, mas a própria moralidade, conside- 
rada subjetivamente como motivo. 

A “Dialética” da Crítica da Razão 
Prática estabelece que o sumo bem é o 
sujeito completo e absoluto da “razão 
pura prática”. O sumo bem, definido 
como o acordo entre a felicidade e a vir- 
tude, contém uma antinomiá: por um 
lado, o desejo de felicidade deve ser a 
causa motora para a máxima da virtude, 
o que é impossível, conforme demonstra 
a “Analítica” da razão prática; por 
outro lado, a máxima da virtude deve 
ser a causa eficiente da felicidade, o que 
também é impossível porque no mundo 
rema uma conexão de causas e efeitos, 
que não se conforma com as intenções 
morais da vontade. A solução só pode 
ser encontrada admitindo-se a primazia 
da razão prática, mediante a fé moral na 
imortalidade da alma e a existência de 
Deus, que ressurgem, assim, no sistema 
kantiano, como postulados da “razão 
pura prática”. A fé moral na imortali- 
dade da alma é necessária para que se 
conceba uma vida supra-sensível na qual 
a virtude possa receber seu prêmio. A 
existência de Deus, por outro lado, é 
necessária enquanto afirma um ser cuja 
vontade e cujo intelecto criam um 
mundo no qual não há abismo algum 
entre o real e o ideal, entre o que é e o 
que deve ser. 


O belo e as formas 


A Crítica da Razão Pura e a Crítica da 
Razão Prática opõem a razão teórica à 
atividade moral, o mundo sensível ao 
reino do inteligível, o real ao ideal. 
Poder-se-ia afirmar que constituem dois 
momentos antitéticos de um processo 
dialético. A Crítica da Faculdade de Jul- 
gar constituiria o momento de síntese, 
no qual Kant investiga o sentimento de 
prazer e desprazer como uma terceira 
faculdade fundamental, indagando se 
ela, como as demais, possui princípios a 
priori. Na Crítica da Faculdade de Jul- 
ar, Kant quer ainda saber se existem 
ormas universais e necessárias de su- 
bordinação do mundo natural, dominado 


501 


OS PENSADORES 


pela necessidade, ao mundo da liberda- 
de, no qual domina a idéia de fim, tal 
como almeja a razão prática. 

Kant distingue na faculdade de julgar 
dois tipos de Juízos: o Juízo “determi- 
nante” e o Juízo “reflexionante”. Este úl- 
timo, à diferença do primeiro, Pefetes se à 
representação de um objeto, não a um 

conceito; refere-se às exigências e esta- 

dos subjetivos do homem. O sentimento 
de prazer e desprazer constitui a fonte 
do juízo reflexionante, que concilia a 
faculdade de conhecer e a de desejar, na 
medida em que subordina um conteúdo 
representativo a um fim. 

Para Kant, existem duas espécies de 
Juízos reflexionantes: os teleológicos e 
os estéticos. Nos teleológicos, o objeto é 
considerado, segundo as exigências da 
razão, como correspondendo a uma fina- 
lidade objetiva; adaptando-se áquelas 
exigências, suscita um sentimento de 
prazer. Nos Juízos estéticos, o objeto ê 
relacionado com um fim subjetivo, ou 
seja, com o sentimento de eficácia senti- 
do pelo homem diante desse objeto. 

Depois de estabelecidas essas distin- 
ções. Kant passa, na primeira parte da 
Crítica da Faculdade de Julgar, a anah- 
sar os Juízos estéticos. Em primeiro 
lugar, distingue o belo do agradável e do 
tis mostrando que o sentimento rela- 
tivo a estes últimos tem como condição 
uma correspondência entre o objeto e um 
interesse meramente individual e contin- 
gente ou puramente racional. Ao contrá- 
rio, no sentimento do belo, não ocorre 
esse tipo de condicionamento: a finali- 
dade a que corresponde o objeto deve ser 
inteiramente desprovida de qualquer 
intenção e consistir simplesmente no 
efeito que produz no modo de considerar 
as coisas, prescindindo da realidade 
empírica dó objeto. O que importa no 
sentimento do belo é apenas a forma da 
representação, na qual se realiza a plena 
harmonia entre as funções cognoscitiva, 
sensível e intelectual. Como essa harmo- 
nia é inteiramente independente do con- 
teúdo empírico da representação e dos 
condicionamentos individuais, o senti- 
mento do belo resultante é apriorístico e, 
como tal, fundamenta a validez univer- 
sal e necessária dos juízos estéticos. Por 
isso também, segundo Kant, o senti- 
mento do belo é comunicável, embora 


502 


não possa ser passível de demonstração. 

A beleza pura ou livre de todo inte- 
resse pode ser obtida, segundo Kant, 
somente num jogo de formas em que se 
realiza a harmonia do pensamento com o 
sentimento, por si mesmo e sem nenhum 
significado: nas flores, nos arabescos, na 
natureza idílica. 

Depois de analisar o belo, Kant estu- 
da o sublime, pelo qual entende um esta- 
do subjetivo determinado por um objeto 
cuja infinidade se alcança com o pensa- 
mento, mas não se pode captar pela 
intuição sensível. Essa discrepância hu- 
milha o homem enquanto ser sensível, 
mas o sublima enquanto ser racional, 
dando-lhe consciência do triunfo do 
supra-sensível sobre o sensível. O subli- 
me, tanto quanto o belo, é fonte de senti- 
mento de prazer e é universal. 

A obra de arte é concebida por Kant 
como produção consciente de objetos 
que geram a impressão de terem sido 
produzidos sem intenção. Sua faculdade 
específica é o gênio que atua consciente- 
mente, com necessidade semelhante à 
das formas naturais, sempre de maneira 
original e distinguindo-se da atividade 
científica. 

A segunda parte da Crítica da Facul- 
dade de Julgar trata do juízo teleoló- 
gico, segunda forma de ligação do sensi- 
vel ao mteligível, do real ao ideal, da 
necessidade à liberdade, do teórico ao 
prático. Aqui também Kant indaga quais 
as condições de possibilidade a priori de 
tais Juízos, examinando a exigência 
racional que leva o homem a considerar 
a natureza do ponto de vista da finali- 
dade. Para Kant, entre o conhecimento a 
pr iori da natureza, dado pela matemá- 
tica e pela física, e o conhecimento dos 
fenômenos particulares, dado pela expe- 
riência, existe uma correspondência fi- 
nalista. Contudo, conhecer de modo uni- 
versal e necessário o processo pelo qual 
se realiza tal correspondência somente 
seria possível por uma inteligência cria- 
dora das formas e, ao mesmo tempo, do 
conteúdo de suas representações, em vez 
de receber o conteúdo como um dado. 
existência de tal espírito não pode ser 
demonstrada; trata-se de postulado da 
razão prática que formula um Juizo 
teleológico geral, solucionando a anti- 
tese entre mundo sensível e lei moral na 


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“Nosso século é particularmente o século da crítica... A religião, alegando 
sua santidade, e a legislação, invocando sua majestade, querem a ela escapar; 
mas então excitam contra elas próprias justas reservas e não podem pretender 

merecer essa estima sincera que a razão oferece somente dquilo que pode 
suportar exame livre e público.” (Manuscrito de Kant; Biblioteca Nac. Braidense.) 


503 


FABBRI 


OS PENSADORES 


totalidade da natureza e subordinando o 
primeiro à segunda. 

Os juízos teleológicos particulares 
(nos quais se afirma a adequação de um 
fenômeno particular a determinado fim) 
somente são possiveis com relação a 
objetos nos quais o próprio fim seja ima- 
nente a eles. Isso significa que se trata 
de objetos de criação humana. Contudo, 
embora na natureza: domine em geral o 


mecanicismo, existem os fenômenos bio- 
lógicos que se apresentam “como se” a 
ideia de todo, enquanto fim, determi- 
nasse a estrutura de cada parte do ser 
vivo. O conhecimento cientifico deveria 
investigar até onde é possível o nexo 
causal entre os fenômenos biológicos, 
mas o fato inexplicável da vida em geral 
imporia, segundo Kant, a passagem ao 
Juizo teleológico. 


1724 — Immanuel Kant 
nasce a 22 de abril em Kôó- 
nigsberg, Prússia. 

1727 — Morre Isaac New- 
ton. 

1738 — Publicação do Tra- 
tado sobre a Natureza Hu- 
mana, a principal obra de 
David Hume. 

1762 — Nasce Johann Got- 
tlieb Fichte. 

1763 — Publicação de O 
Único Argumento Possível 
para uma Demonstração da 
Existência de Deus, de 
Kant. 

1766 — Publicam-se os So- 
nhos de um Visionário, In- 


CRONOLOGIA 


terpretados Mediante os So- 
nhos da Metafísica, de 
Kant. 

1770 — Kant apresenta à 
Universidade de Kônigsberg 
a Dissertação sobre a For- 
ma e os Princípios do Mun- 
do Sensível e do Mundo In- 
teligível. Nasce George Wi- 
lhelm Friedrich Hegel. 

1781 — Kant publica a pri- 
meira edição da Critica da 
Razão Pura. 

1783 — Publica os Prolego- 
menos a Qualquer Metafisi- 
ca Futura que Possa Vir a 
Ser Considerada como 
Ciência. 


BIBLIOGRAFIA 


1785 — Kant publica os 
Fundamentos da Metafísica 
dos Costumes. 

1788 — Publica a Critica 
da Razão Prática. 

1789 — A 14 de julho, eclo- 
de a Revolução Francesa: o 
povo toma a Bastilha. 

1790 — Publicação da Cri- 
tica da Faculdade de Julgar, 
de Kant. 

1793 — Kant publica A 
Religião dentro dos Limites 
da Simples Razão. 

1798 — Publica O Conflito 
das Faculdades. 

1804 — Morre a 12 de 
fevereiro. 


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PASCAL, G.: Pour Connaiítre la Pensée de Kant, Êditions Bordas, Paris, 1957. 

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CASSIRER, E.: El Problema del Conocimiento, 4 vols., Fondo de Cultura Económica, Méxi- 


co-Buenos Aires, 1956. 


WoLFF,R.P.: Kant's Theory of Mental Activity, Cambridge, 1963. 

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GREGOR,M.J.: Laws of Freedom, Oxford, 1963. 
VLEESCHAUWER, H. J, DE: La Déduction Transcendentale dans [Oeuvre de Kant, 3 vols., 


Antuérpia, 1934-1937. 


DaAvaL, R.: La Métaphysique de Kant, Paris, 1951. 


204 


CAM Rm ITas 


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SE 


ESIGUgI 
E SRS 


OS PENSADORES 


a manhã de 14 de julho de 1789, 0 

povo francês invadiu a Bastilha e 

libertou todos os prisioneiros poli- 
ticos que ali se encontravam; na noite do 
mesmo dia, acenderam-se fogueir as por 
toda a cidade, para comemorar o aconte- 
cimento. Estourava, assim, a Revolução 
Francesa, “primeiro triunfo prático da 
filosofia”, no dizer de Friedrich von 
Gentz (1764-1832). 

Na Alemanha, os estudantes da Uni- 
versidade de Góttingen cantariam em 
coro a Marselhesa, Friedrich Schlegel 
(1772-1829) proclamaria ser a revolu- 
ção uma das “linhas mestras de nosso 
tempo” e Goethe (1749-1832) saudaria, 
nos versos de Hermann e Dorotéia, o 
advento do primado da justiça e da 
liberdade. 

Entre os entusiastas encontrava-se um 
moço de 27 anos, Johann Gottliebe Fich- 
te, que escreveu e publicou, em 1793, as 
Contribuições para a Retificação dos 
Juízos do Público sobre a Revolução 
Francesa, onde procurava demonstrar a 
verdadeira natureza do processo revolu- 
cionário. Para ele, a Revolução Francesa 
constituia expressão dos vínculos indis- 
solúveis entre o direito à liberdade e a 
própria existência do homem, enquanto 
ser ativo e inteligente. 

A idéia de liberdade, como raiz mais 
profunda da essência humana, há muito 
tempo vinha sendo cultivada por Fichte. 
Desde muito antes ele próprio vivia a 
experiência da liberdade pessoal, sofria 
as consequências de sua incansável pro- 
cura e fazia dela o cerne de sua vida e de 
seu pensamento. Na adolescência, quan- 
do aluno do colégio de Pforta, gravou 
para sempre no espírito uma frase de 
Lessing (1729-1781): “Ser livre não é 
nada, tornar-se livre, eis o céu”. Forma- 
do em teologia pela Universidade de 
Leipzig, aos 22 anos de idade, Fichte 
recusou-se a seguir a carreira do sacer- 
dócio e, por causa disso, perdeu a pen- 
são que recebia de sua tutora. Passou 
então a viver como um pobre preceptor e 
chegou a passar fome. Impedido de 
publicar uma obra intitulada Crítica de 


Na página anterior: retrato de 
Fichte, gravura de A. Schultheiss. 
(Archiv fúr Kunst und Geschichte.) 


206 


toda a Revelação, escrita em 1791 e 
dedicada a Kant, indignou-se e redigiu a 
Reivindicação pela Liberdade de Pensar, 
que lhe valeria a reputação de jacobino. 
Quando já era professor famoso na 
Universidade de Jena, em 1799, redigiu 
um artigo sobre O Fundamento de Nossa 
Crença em uma Divina Providência e foi 
acusado de ateismo e conspiração contra 
o regime; respondeu com um Apelo ao 
Público e foi obrigado, pelas autorida- 
des, a abandonar a cidade. No inverno de 
1807-1808, quando as tropas napoleô- 


nicas ocupavam Berlim, ergueu em 
praça pública sua voz inflamada, pro- 
nunciando seus Discursos à Nação 


Alemã. Denunciou Napoleão como trai- 
dor dos ideais de liberdade da Revolu- 
ção e como Instaurador do primado da 


autoridade. 
Institurr a autoridade como critério 


da vida moral e da verdade teórica, 
destruindo, assim, a espontaneidade do 
euea liberdade que nele se radica, cons- 
titui, aos olhos de Fichte, uma imorali- 
dade: equivale a negar a própria essên- 
cia do homem. Animada pelo mais 
radical idealismo ético, a filosofia fich- 
tiana procura ser uma “demonstração 
científica da liberdade”, nas palavras do 
historiador Emile Bréhier. 


Kant indica o caminho 


O itmerário dé Fichte, no sentido de 
construir um sistema filosófico da hber- 
dade, começou com a descoberta do pen- 
samento de Kant. A investigação da 
natureza do conhecimento, realizada 
por Kant nos Prolegómenos a toda 
Metafísica Futura que Queira se Apre- 
sentar como Ciência e na Crítica da 
Razão Pura, mostrara que só é válido, 
enquanto conhecimento objetivo, aquele 
que resulta da aplicação das formas e 
categorias aprioristicas do sujeito aos 
dados empíricos. Como consequência, 
Kant demonstrara também que a metafi- 
sica não poderia pretender validez teóri- 
ca, em virtude de passar por cima das 
formas da sensibilidade e aplicar as 
categorias do entendimento diretamente 
à colsa-em-st. Segundo a Crítica da 
Razão Pura, não é possível provar teori- 
camente a existência de Deus, a imorta- 
lidade da alma e a liberdade. Quando 


FICHTE 


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Depois de expulso de Jena, sob acusação de ateísmo e conspiração contra o 
Estado, Fichte residiu em Berlim de 1800a 1806. Nesse período, publicou O 
Estado Fechado, obra na qual combate o mercantilismo e defende a idéia de um 
Estado com economia de tipo socialista. (Universidade de Berlim no início 
do século XIX, gravura de Laurens e Dietrich, segundo um original de Calau.) 


tenta fazer isso. a razão é conduzida a 
antinomias insolúveis, sendo possível 
provar tanto essas teses quanto as suas 
contrárias: o próprio mundo é eterno, a 
alma é tão mortal quanto o corpo, etc. 
Trazendo à tona a verdadeira natu- 
reza das elaborações teóricas da metafi- 
sica, ou seja, de todas as abordagens da 
coisa-em-si e da essência última da rea- 
lidade, e mostrando a falta de solidez de 
tais construções, Kant procurou, contu- 
do, outros fundamentos para a metafi- 
ca. Essa tarefa é realizada na Crítica 
da Razão Prática, obra em que Kant 
procura mostrar como toda metafísica é 
resultado das exigências práticas, Isto é, 
morais, do homem. Diante da imensidão 
do mundo, o homem reconhece sua pró- 
pria incapacidade de compreender-se 
dentro do todo, utilizando apenas os 
conhecimentos científicos. Engendra 


então explicações para a coisa-cm-si: 
Eai inter pret ações da estrutura da 

alidade em si mesma e tenta ultra 
E a o mundo meramente tona ico 

Em sintese, segundo Kant, não é a 
metafísica — uma certa concepção do 
que seja o mundo e todas as coisas que 
se encontram nele — o fundamento da 
ordem moral. Pelo contrário, são as 
exigências da razão prática que geram a 
metafísica e constituem seus postulados. 
Consegientemente, a filosofia kantiana 
estabelece que a razão prática, o mundo 
moral por ela instituído e, sobretudo, a 
liberdade que está em suu essência são 
independentes da teorização produzida 
pela razão pura. Manifestam, além 
disso, a própria raiz do homem. 

A idéia da autonomia moral formu- 
lada por Kant foi saudada por Fichte, 
com o entusiasmo peculiar à sua perso- 


507 


ARCHIV FÚR KUNST UND GESCHICHTE 


OS PENS 


JADORES 


Johann Wolfgang Goethe foia grande figura alemã da época de Fichte. Embora 


não fosse propriamente um filósofo, 


tem importância na história da filosofia por 


suas idéias sobre a natureza como um grande todo, a se manifestar em um 
numero infinito de formas em constante evolução. (“Goethe Ditando suas 


Memórias” 


nalidade. Rant parecia indicar-lhe o 
“aminho a ser seguido para à fundamen- 
tação teórica de seus anseios concretos 
de liberdade. Com base em kant. pare- 
cia possivel construir um sistema de 
idealismo ético. Para realizar tal proje- 
to. Fichte procurou solucionar as duali- 
dades que per sistiram na obra de Kant: 
coisa-em-si e aparência, conteúdo e 
forma. absoluto e prático, formal e 
material. inteligência e coração, razão 
prática e razão pura. 

Ysolução dessas dualidades — pensa- 
va Fichte — não deveria ser buscada num 
princípio situado em terreno prévio a 
toda relação entre sujeito e objeto. Em 
outras palavras. a solução não poderia 
ser alcançada “a menos que se encontre 
um ponto no qual o objetivo c o subjetivo 
não estejam separados. mas sejam 


9068 


; tela de J. J. Schmeller, Turingsche Landes Bibliothek, Weimar. ) 


unos”. Esse ponto. de onde se poderia 
deduzir todo o saber. seria o eu. 


Que é o eu? 


O núcleo central designado por Fichte 
pela palavra eu não deve ser confundido 
com a consciência individual do próprio 
Fichte ou de qualquer pessoa e nem 
mesmo com um simples “sujeito” abs- 
trato. O filósofo não construtu um siste- 
ma de idealismo subjetivo e afirmou 
claramente: “O cu não deve ser conside- 
rado como mero sujeito, como fot consi- 
derado até agora, quase sem exceção. 
mas como sujeito-objeto”. À palavra eu 
(ou. mais exatamente. eu puro ou egoi- 
dade) designa uma consciência transcen- 
dental, isto é, uma estrutura universal, 
independente das consciências indivi- 


FABBRI 


FICHTE 


Goethe foi um dos mais destacados participantes do grupo Tempestade e Ímpeto, 
do qual também faziam parte Schiller, Klinger e Lenz. O movimento colocava a 
vida como valor supremo e recusava todas as formas que pudessem limitar o 
desenvolvimento dan com isso lesada o Romantismo. (Ilustração para o 


Fausto de Goethe, aquarela de FM. A. Re 


duais e tomada como pura atividade: 
encerra em si a estrutura de todo e qual- 
quer conhecimento teórico. ao mesmo 
tempo que o fundamento de toda e qual- 
quer ação prática do homem. Em outros 
termos, o eu tichtiano constitui uma umi- 
dade daquito que Kant separou como 
duas razões. a pura e a prática. Toda a 
obra puramente filosófica de Fichte pro- 
cura demonstrar essa unidade radical. 
Taltarefa foi considerada por ele como a 
forma através dy qual se poderia elevar 
a filosofia à condição de ciência eviden- 
te. saber do saber. conhecimento da 

"razão pela razão. Por isso Fichte empre- 
gou a expressão “doutrina da ciência: 
para designar sua análise do eu. 

A doutrina da ciência aborda o eu 
mediante uma intuição intelectual. que 
apreende sua estrutura e descobre seus 


ctssch, Museu Goethe, Frankfurt.) 


principios. Esses principios são três € 
constituem o fundamento da ação moral 
e de todo pensamento e rentífico. 

O primeiro pr incípio constitutivo do 
eu é uma versão metafísica do princípio 
da identidade Jógica. segundo o qual Né 
igual a À. Aplic: duda por Fichte, o princi- 
pio se formula nos seguintes termos: UV O 
eu põe a si mesmo como sendo”. Em ter- 
mos lógicos se diria: o A que é é idêntico 
Jo À que é posto: outra forma seria a 
seguinte: se À é posto, é. 

Assim como O primeiro princípio 
constitutivo do eu é encontrado a partir 
de um princípio lógico (o da identidade). 
o segundo também é encontrado por 
Fichte pela análise do pensamento lógi- 
co. Em lógica. os juízos podem ser melu- 
sivo (uma coisa é X) e exclusivo (aquela 
coisa não é X). Dessa dualidade decorre 


209 


FABBRI 


OS PENSADORES 


ARCHIV FUR KUNST UND GESCHICHTE 


Fichte não foi um filósofo encerrado em gabinetes e bibliotecas; participou 
ativamente dos acontecimentos políticos e sociais de seu tempo e foi um dos 
líderes da unificação dos alemães numa pátria comum, para conter a expansão 
da ditadura napoleônica. (Fichte pronunciando os Discursos à Nação Alemã; 
mural de Arthur Kamph, no Auditório Magno da Lindenuniversitat de Berlim.) 


o segundo princípio da sua doutri na da 
ciência e da estrutura do eu: “Ao eu, um 
não-eu é absolutamente oposto” 

O terceiro princípio do eu é obtido 
também pela análise da dualidade dos 
Juízos inclusivo e exclusivo. Se afirma- 
cão e negação são facetas de uma mesma 
experiência. sua oposição não pode ser 
definitiva; sendo aspectos da mesma 
realidade, não podem, por isso mesmo, 
estar em absoluta contradição. Essa 
constatação leva Fichte a enunciar o ter- 
ceiro princípio do eu nos seguintes ter- 
mos: no eu, ao eu divisível opõe- se um 
não-eu divisível. A oposição é, assim, 
interpretada por Fichte como oposição 
no interior da consciência e não contra a 
consciência. 

Continuando-se o raciocinio em ter- 
mos puramente lógicos, poder-se-ia 
dizer que, agora, se apresenta uma nova 
dualidade, localizada no interior da 
consciência. Fichte resolve o problema 
através da síntese: “O eu põe a si mesmo 
determinado pelo não-eu”. Isso significa 
que o eu possui duas atividades que 
constituem sua estrutura íntima: uma 
centrífuga (ativa), outra centrípeta (pas- 
siva). Em outras palavr as, dir-se-ia: a 
atividade do eu, ao exteriorizar-se, rece- 
be um chogue e, por conseguinte, o eu 


910 


volta-se sobre si mesmo. No primeiro 
caso, a atividade é produção: no segun- 
do, reflexão. 

A palavra oposição — empregada por 
Fichte para exprimir a relação do não- 
eu para com o eu — designa uma relação 
lógica, mas significa também uma rela- 
cão dinâmica de luta entre tendências 
que se enfrentam procurando suprimir- 
se. Analogamente, a palavra objeto 
designa, em primeiro lugar, algo que é 
simplesmente conhecido pelo sujeito, 
mas significa também aquilo que resiste 
ao esptrito e a ele se impõe. Fichte desli- 
za continuamente do sentido lógico e 
estático ao dinâmico, fazendo de toda a 
sua filosofia uma história abstrata e 
esquemática das lutas travadas entre 
duas forças hostis, que procuram aniqui- 
lar-se mutuamente. 

Do terceiro princípio (no eu, opõe-se 
ao eu divisível um não-eu divisível) 
decorre a síntese: “O eu põe a si mesmo 
como determinado pelo não-eu”. Essa é 
a base da parte teórica da doutrina da 
ciência. Mas do terceiro princípio decor- 
re também uma outra proposição oposta 
à anterior e que constitui o núcleo da 
parte prática da doutrina da ciência: “O 
eu põe o não-eu determinado pelo eu” 
Por um lado, a primeira proposição, 


FICHTE 


Inicialmente, os alemães saudaram em 
Napoleão o advento de uma nova era, 
mas logo se desiludiram. (Napoleão, em 
detalhe da tela de Antoine Jean Gros, 
“Batalha de Eylau”; Museu Versalhes.) 


FABBRI 


decorrente do terceiro princípio, dá ao 
eu um estatuto absoluto, ou infinito, 
pois só se limita aquilo que é autodepen- 
dente. Além do mais, o eu é absoluto na 
medida em que é limitado; o afasta- 
mento dos limites reafirma seu grau de 
absoluto. Por outro lado, o eu, como 
inteligência, depende do “choque”, isto 
é, de um não-eu indeterminado e indeter- 

minável; somente através desse não-eu, 
e devido a ele, o eu é inteligência. Esses 
dois aspectos do eu — absoluto, mas, ao 
mesmo tempo, dependente do não-eu — 
constituem uma contradição que conduz 
à parte prática da doutrina da ciência. 
Nesta encontra-se fundamentada a idéia 
de liberdade, na formulação fichtiana. 


A essência da liberdade 


' Para resolver a contradição existente 
entre a determinação do não-eu pelo eu 
com a posição infinita do eu, Fichte afir- 
ma que o eu determina o não-eu através 
de esforço permanente e constante. Se 
esse esforço levasse à consecução plena 
de seu objetivo, desapareceria toda a 
consciência, todo o sentimento e toda a 
vida. Para Fichte, o eu é infinito na me- 
dida em que luta para ser infinito: por 
outro lado, o eu é finito enquanto não 
consegue realizar seu ideal. Além disso, 
o sentimento do limite, por parte do eu, é 
um sentimento de força, pois o limite só 
é sentido enquanto se pretende ultrapas- 
sá-lo. 

Na doutrina da ciência está implica- 
da, portanto, uma filosofia prática, que 
se desenvolve de maneira semelhante à 
filosofia teórica e visa a determinar as 
condições da liberdade moral. Em ou- 
tros termos, a análise do eu enquanto 

estrutura cognitiva desvenda também 


sua natureza moral. 
“Meu impulso, na medida em que sou 


parte da natureza, minha tendência, 
enquanto espirito puro”, pergunta Fich- 
te, “são eles impulsos diferentes?” E 
responde: “Nao; sob o ponto de vista 
transcendental, ambos são um € o 
mesmo impulso original, que é a minhas 
natureza essencial; só que esse impulso 
é visto de dois lados diferentes. Em ou- 
tras palavras, eu sou sujeito- objeto e 
meu ser verdadeiro consiste na identi- 
dade e inseparabilidade desses dois 


ot 


ME FS GÊASS CEEE 


OS PENSADORES 


Schiller (1759-1805) formulou uma das 
idéias básicas do Romantismo: 
a harmonia do homem culmina na arte. 
(Schiller, tela de R. Simanowitz, 
Museu Nacional Schiller, Marbach.) 


aspectos. Se eu me considero como obje- 
to, perfeitamente determinado pelas leis 
da percepção sensitiva e do pensamento 
discursivo, então aquilo que é, na reali- 
dade, meu único impulso torna-se para 
mim impulso natural. Pois desse ponto 
de vista eu próprio sou natureza. Se me 
observo como sujeito, então esse impul- 
so passa a ser. para mim, puramente 
espiritual” 

Fichte conclui, então, que todos os 
fenômenos do eu dependem exclusiva- 
mente da interação entre esses dois 
impulsos e a interação não seria mais do 
que a interação de um e mesmo impulso 
consigo mesmo. Assim obtém-se, final- 
mente, resposta à questão de num ser 
absolutamente uno existir uma oposição 
tão completa quanto a que existe entre 
os dois impulsos. Ambos impulsos cons- 
tituem, diz Fichte, um e o mesmo eu e, 
portanto, devem ser unidos na esfera da 
consciência. Nessa união, o impulso 


212 


FABBRI 


mais elevado deve desistir da pureza de 


sua atividade e o mais baixo deve desis- 
tir do prazer. O resultado da união será 


atividade objetiva, cujo propósito final é 


a liberdade absoluta. . 
Em suma, a filosofia fichtiana afirma 


que o eu se manifesta na esfera prática 
como uma vontade que necessita de uma 
resistência para continuar existindo. 
Sem essa resistência, o eu não pode afir- 
mar sua independência e libertar-se; é 
por sentir-se limitada que a vontade 
pode aspirar continuamente à supressão 
de seus limites. A produção da resis- 
tência e a sintese da tensão entre ela e a 
aspiração infinita realiza-se segundo um 
processo semelhante ao que se verifica 
na parte teórica da doutrina da ciência. 
Existe, contudo, uma diferença essencial 
entre esta e a parte prática. Enquanto a 
primeira se conduz conforme um pro- 
cesso que exige a síntese dialética dos 
contrários, na segunda, | isto é, nos domi- 
nios da ação prática do homem, não se 
pode chegar ao ponto final. O dever-ser é 
atuação infinita e jamais completada do 
eu; por isso, toda meta atingida não é 
definitiva, mas etapa para se prosseguir 
na busca de etapas super rores. À vida 
moral é superação incessante de obstá- 
culos, sem interrupções e desfaleci- 
mentos; toda parada na vida do espírito 
é culposa. A atividade do eu é atividade 
heróica, processo contínuo de libertação 
na procura incessante de um ideal 


infinito. ; : 
A liberdade absoluta é,-assim, o fun- 


damento último do eu e a doutrina da 
ciência, que o traz à luz, “é do começo 
ao fim uma análise do conceito de liber- 
dade”, no dizer do próprio Fichte. 

O pensamento de Fichte foi exposto 
através do magistério universitário e de 
grande número de obras que redigiu ao 
longo de sua existência. Nascido a 19 de 
maio de 1762, Fichte estudou nas 
universidades de Jena, Wittenberg e 
Leipzig. Depois de ser preceptor, tor- 
nou-se professor universitário, inicial- 
mente na Universidade de Jena, onde, 
em 1794, substituiu o kantiano Karl 
Reinhold (1758-1823).Cinco anos depois, 
obrigado a deixar Jena, sob a acusação 
de ateísmo, transferiu-se para Berlim, 
onde passou a lecionar na faculdade de 
filosofia; em 1810 foi nomeado decano 


FICHTE 


A intensa atividade cultural e 
política de Fichte fez dele uma 
figura muito conhecida na Alemanha de 
seu tempo e objeto de humor para 
caricaturas. como a de Schadow. 


da recém-criada universidade. 

Ao falecer em 1814, tinha escrito um 
grande número de obras sobre a dou- 
trina da ciência. À primeira fora com- 
posta em 1704, quando imiciou seu 
magistério em Jena. Uma das mais 
conhecidas traz o titulo 4 Doutrina da 
Ciência, Exposição de 1804 e constitui o 
mais completo e elaborado enunciado de 
seu pensamento, segundo Didier Julia, 
um de seus intérpretes modernos. 


Com seu trabalho universistário € com 
toda a obra que escreveu. centralizada 
na procura e na formulação de uma teo- 
ra da liberdade absoluta, Fichte deu 
expressão filosófica aos ideais român- 
ticos de seu tempo. Foi por isso que 
Friedrich Schlegel, seu amigo pessoal e 
lider da escola romântica alemã afir- 
mou: “A Revolução Francesa, o Wilhelm 
Meister de Goethe e a Doutrina da Ciên- 
cia de Fichte constituem as linhas mes- 
tras de nosso tempo”. 


ARCHIV FUR KUNST UND GESCHICHTE 


Reden 


dic deutiídbe Mation 


turá 


Segann Goctrlicb Jide, 


Bertin, 2008. 


Ju der Nesifónibuadbandluna. 


Frontispício da primeira edição dos 
Discursos à Nação Alemã, publicada em 
1808, e caricatura de Carl Friedrich 
Zimmermann, mostrando Fichte 
pronto para lutar pelos compatriotas. 


913 


ARCHIV FUR KUNST UND GESCHICHTE 


ARCHIV FUR KUNST UND GESCHICHTE 


1762 — Fichte nasce em 
Rammenau, a 19 de maio. 
1766 — Nascimento de 
Thomas Robert Malthus. 
1770 — Nasce Beethoven. 
1772 — Nascem Friedrich 
Schlegel, Novalis e David 
Ricardo. 
1775 — 
Schelling. 
1776 — Declaração de In- 
dependência dos Estados 
Unidos da América. Adam 
Smith publica 4 Riqueza 
das Nações. Funda-se o pri- 
meiro sindicato operário na 
Inglaterra. 

1781 — É publicada a Crí 


Nascimento de 


tica da Razão Pura, de 
Kant. 

1782 — Nasce Paganini. 
17984 — Fichte completa 


seus estudos de teologia. 
1788 — Vem a luz a Crítica 
da Razão Prática, de Kant. 
1789 — A 14 de julho, o 
povo francês toma a Basti- 
lha: inicia-se a Revolução. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1790 — Goethe publica 
fragmentos do Fausto. 

1793 — Nasce Nicolai Iva- 
novich Lobachevski, pionei- 
ro da moderna geometria. 
1794 — Fichte publica Os 
Princípios Fundamentais da 
Doutrina da Ciência em seu 
conjunto e as Lições sobre a 
Destinação do Sábio. 

1797 — Schelling edita 
Idéias para uma Filosofia 
da Natureza. Nasce Schu- 
bert. ; 

1798 — É publicado O Sis- 
tema da Ética segundo os 
Principios da Doutrina da 
Ciência, de Fichte. Nasce 
Comte. 

1800 — Volta inventa a pi- 
lha elétrica. 

1801 — Publica-se a Expo- 
sição da Doutrina da Ciên- 
cia, de Fichte, que será co- 
nhecida como a Doutrina da 
Ciência de 1801. 

1802 — Napoleão Bona- 
parte é nomeado cônsul vi- 


BIBLIOGRAFIA 


talício, por plebiscito. Nasce 
Victor Hugo. 

1803 — Nasce Berlioz. 
1804 — Edita-se A Doutri- 
na da Ciência, Exposição de 
1804, talvez a obra mais im- 
portante de Fichte. 

1806 — Derrota de Napo- 
leão na Rússia. A Prússia 
declara guerra à França. 
1807 — Fichte publica os 
Discursos à Nação Alemã. 
1809 — Nascem Mendels- 
sohn, Poe, Darwin, Proud- 
hon e Gogol. Metternich é o 
novo chanceler da Áustria. 
1811 — Nasce Liszt 

1812 — Nascimento de 
Charles Dickens. Os Esta- 
dos Unidos declaram guerra 
a Inglaterra. 

1813 — Nascem Kierke- 
gaard e Verdi. Simón Boli- 
var retoma a Venezuela dos 
espanhóis. 

1814 — Fichte falece no dia 
29 de janeiro. 


LEON, X.: Fichte et son Temps, 3 vols., Armand Colin, Paris, 1954-1959. 
TALBOT, E. B.: The Fundamental Principle of Fichte's Philosophy, The Macmillan Company, 


Nova York, 1906. 


BREHIER, É.: Historia de la Filosofia, 3 vols., Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1962. 


JuLiA, D.: Fichte, Presses Universitaires de France, Paris, 1964. 


BourcEoiIs, B.: L Tdéalisme de Fichte, Presses Universitaires de France, Paris, 1968. 
HeIMsOETH, H.: Fichte, Revista de Occidente, Madri, 1931. 
GuRrwiTSCH, G.: Fichtes System der Konkreten Ethik, Túbingen, 1924. 


WunDT, M.: Fichte, 1927. 
FausT, A.:J. G. Fichte, 1938. 
PAREYSON, L.: Fichte, 1950. 


o 14 


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OS PENSADORES 


oentio, desordenado, desencan- 
ID tado, introspectivo, imaginoso, so- 

nhador, sentimental, saudosista, 
liberal, revoltado, heróico, expressio- 
nista — assim se poderia caracterizar o 
temperamento romântico, juntando-se 
opiniões de autores tão diversos quanto 
Goethe (1749-1832), William Blake 
(1757-1827), Paul Valéry (1871-1945) 
e outros. Essas características psicoló- 
gicas encontrar-se-iam em escritores e 
artistas do Romantismo, mas esse movi- 
mento cultural, surgido no final do sécu- 
lo XVIII e que teve ampla difusão no 
decorrer do século XIX, produziu tam- 
bém seus filósofos. 

Do ponto de vista filosófico, a caracte- 
rização do Romantismo assume dimen- 

são epistemológica (refer ente à consti- 
tuição do conhecimento científico) e não 
meramente psicológica e artística. Fun- 
damental no pensamento romântico é a 
generalização que ele opera na concep- 
cão clássica de “verdadeiro”, através da 
admissão da noção de “sentido”. Com 
isso, os pensadores românticos intentam 
promover os . conteúdos culturais en- 
quanto tais, o que realizam por meio da 
construção de um método próprio: a 
análise simbólica. 

O horizonte metodológico do Classi- 
cismo estivera centralizado na noção de 
ordem; a fidelidade a esse ideal e a 
formulação da própria noção de verdade 
exigiam um modelo no qual aquela 
ordem se manifestasse perfeitamente 
realizada. Eis porque a ordem inerente à 
construção da matemática e das ciências 
ditas exatas constituiu o modelo princi- 
pal da filosofia clássica. Outra, porém, 
será a linha metodológica do Roman- 
tismo, norteada pelo projeto, como afir- 
ma Michel Serres, “de compreender 
pluralismo das significações, de desco- 
dificar todas as linguagens que não são 
necessariamente as da razão pura”. Os 
conteúdos culturais, porque assumidos 
enquanto tais, são assumidos em sua 
obscuridade e não mais explicados sob a 
luz de um modelo claro porém transcen- 
dente. O horizonte metodológico, no 


Pág. ant.: Schelling, gravura de A. 
Schultheis, segundo tela de Stteler. 
(Archiv fr Kunst und Geschichte.) 


516 


Romantismo, deixa então de ser configu- 
rado a partir da noção de ordem e passa 
a ser dominado pela noção de simbolo. 
Desse modo, em lugar de tomar como 
ponto de referência o modelo ideal e abs- 
trato realizado pela matemática — como 
fazia a filosofia típica do Classicismo —, 
o Romantismo procura “constituir um 


modelo concreto no interior mesmo do 
campo analisado, referindo-se a seu con- 


teúdo mais que a sua ordem” (Serres). 
Esse “modelo concreto” é o arquétipo, 
prenhe de sentido, cuja escolha é deter- 
minada por sua situação remota, como 
origem limite. Dai o motivo de a análise 
simbólica, arquetípica, recuar no tempo 
para buscar seus modelos densos de sen- 
tido na história mítica (Apolo, Dioniso, 
Édipo, etc.). 

A Alemanha, desde o fmal do século 
XVIII, foi um dos focos de irradiação da 
arte e do pensamento romântico. E foi 
nela que nasceu aquele que é geralmente 
apontado como a mais pura expressão 
da filosofia do Romantismo: Friedrich 
Wilhelm Joseph Schelling. 


Filósofos e poetas 


Schelling nasceu a 27 de janeiro de 
1775, em Leonberg, pequena cidade de 
Wiirttemberg. O pai, Joseph Friedrich 
Schelling, pastor protestante, orientou- 
lhe a educação .no sentido da carreira 
sacerdotal. Schelling inicialmente estu- 


dou na escola do Mosteiro de Bebenhau- 
sen, perto de Tibingen, depois no semi- 


nário teológico desta última cidade, 
onde concluiu o curso em 1792. Os estu- 


dos teológicos foram importantes em 


sua formação, porém maior importância 
tiveram as discussões sobre a filosofia 
de Espinosa, Kant e Fichte, que manti- 
nha com dois colegas, posteriormente 
tão famosos quanto ele: Hegel 
(1770-1831), o futuro grande filósofo. e 
Hólderlin (1770- 1843), que se tornaria 
um dos maiores poetas da língua alema. 
Além de discutirem no terreno das mais 
altas abstrações filosóficas, os três eram 
adeptos entusiastas da Revolução Fran- 
cesa que, no entanto, não viria a ter 
sobre Schelling o mesmo efeito filosófico 
causado sobre o pensamento de Fichte. 
Na mesma época, Schelling impressio- 
nou-se com a filosofia de Fichte e aderiu 


SCHELLING 


Os poetas do Romantismo valorizaram amplamente a vida no campo e as formas de 
pensamento religioso, encontradas no folclore e na mitologia clássica. 
O sisteme de Schelling começou como filosofia natural e terminou pelo estudo 
dos mitos em sua obra clássica A Filosofia da M itologia. (“Goethe no Campo 


Romano” 


ao idealismo do mestre, publicando Do 
Eu como Princípio da Filosofia (1795) e 
Cartas Filosóficas sobre o Dogmatismo 
eo Criticismo (1796). 

Em 1798, Schelling foi nomeado pro- 
fessor da Universidade de Jena, onde 
teve oportunidade de conhecer pessoal- 
mente Fichte, que nele viu inicialmente 
um simples colaborador. 

Nos anos de 1802 e 1803, Schelling 
dirigiu, juntamente com Hegel, o Jornal 
Crítico da Filosofia. Na mesma época, a 
cidade de Jena era o centro principal da 
Escola Romântica alemã, e Schelling 
ligou-se intimamente aos seus membros. 
Friedrich Schlegel, poeta, crítico e pro- 
fessor, era um dos líderes mais inflama- 
dos do movimento; seu irmão, August 


Tieck (1773-185 


, telã de J. H. W. Tischbein, Staedelches Kunstinstitut, Frankfurt.) 


Schlegel (1767-1845), também pocta e 
crítico, tornou-se famoso por suas tradu- 
ções de poetas franceses, ingleses, italia- 
nos, portugueses e espanhóis. L udwig 
3). outro dos partici- 
pantes do movimento romântico, desper- 
tou em Schelling o interesse pela mitolo- 
gia e pelo folclore. 

Em 1803, ano em que casou com 
Caroline, divorciada de August Schlegel, 
Schelling transferiu-se para a Universi- 
dade de Wiirzburg. Aí permaneceu até 
1806, quando foi chamado a Munique a 
fim de ocupar os cargos de secretário da 
Academia de Artes e de associado à Aca- 
demia de Ciências. Esses cargos imiam 
lhe propiciar lazer para o estudo. Só em 
1820 voltaria a lecionar, dessa vez em 


917% 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Os mitos clássicos sempre constituíram matéria de inspiração para os poetas 
e artistas plásticos, como o flamengo renascentista Pieter Brueghel, cuja 
tela “A Oficina de Vulcano” se vê acima em detalhe (Galeria Doria-Pamphili, 
Roma). Schelling, renovando a interpretação dos mitos, tornou-os objeto 
de reflexão filosófica na obra A Filosofia da Mitologia, seu último escrito. 


Erlangen, onde permaneceu até 1827, 
quando retornou a Munique. Em 1841 
foi chamado a Berlim por Frederico Gui- 
lherme IV. O soberano via em Schelling 
um recurso para contrabalançar a cres- 
cente influência dos “jovens hegelianos” 
— Karl Marx (1818-1883), Feuerbach 
(1804-1872), Strauss (1808-1874) e 
outros —, que despertavam a oposição de 
elementos da Igreja. A esquerda hegelia- 
na, contudo, era muito forte e Schelling 
acabou por deixar suas funções docentes 
em Berlim. Faleceu em Ragaz, a 20 de 
agosto de 1854. 

“Além dos trabalhos em que esposava 
as mesmas idéias de Fichte, Schelling 
deixou extenso conjunto de obras dentre 
as quais se destacam: Idéias para uma 
Filosofia da Natureza (1797), A Alma 
do Mundo (1798), Projeto de um Siste- 
ma, Exposição de Meu Sistema (1801), 
Bruno : (1803), Filosofia e Religião 


518 


(1804), Investigações Filosóficas sobre 
a Essência da Liberdade Humana 
(1809), Filosofia da Arte, As Idades do 
Mundo, Filosofia da Mitologia e Filoso- 
fia da Revelação. As quatro últimas 
foram publicadas depois da sua morte. 


Da natureza 
ao transcendental 


Assim como o itinerário filosófico de 
Fichte começou com a descoberta do 
pensamento de Kant, o de Schelling par- 
tiu de uma adesão ao sistema fichtiano. 
Expressão disso são seus escritos juve- 
nis, dos quais os mais importantes são 
Do Eu como Princípio da Filosofia e as 
Cartas Filosóficas sobre o Dogmatismo 
eo Criticismo. 

Relativamente cedo, contudo, liber- 
tou-se do mestre por achar insuficiente a 
tese fichtiana de que a natureza é ape- 


ARBURIO MELLA 


SCHELLING 


Die Qeiden 
Les 


jungen QWRecthero, 


qe merecer oa qem o 2 cm rat 


Era Theil. 


teipstg, 
fa dr Tseugandídhen Wudibandiung, 
1774 


Litografia de G. R. Ryley para As 
Dores do Jovem Werther, a Goethe 
(Museu Goethe, Weimar), e frontispício 
da 1.º edição. (Biblioteca Central 
dos Clássicos Alemães, Weimar.) 


FABBRI 


FABBRI 


nas uma resistência oposta à atividade 
infinita do eu e produzida por essa ativi- 
dade. Schelling, ao contrário, passou a 
insistir na idéia de que a natureza é tão 
real e tão importante quanto o eu. E 
afastou-se ainda mais de Fichte, quando 
afirmou ser a natureza e a objetividade 
aquilo que fornece à consciência o mate- 
rial que esta, por sua vez, reproduz. 
Originalmente, a consciência e à natu- 
reza seriam uma só unidade infinita: 
mas a consciência limitar-secia a si 
mesma e apresentar-se-ia a si mesma 
como finita e diferente da natureza. À 
essência do eu é espírito, a da natureza é 
matéria e a da matéria é força. 

No conceito de força, Schelling identi- 
fica o terreno comum entre a natureza e 
o eu. Enquanto atração, a força é vista 
por Schelling como objetiva, natural e 
material; enquanto repulsão. é subjetiv: 
e espiritual: é o eu. 

Com a valorização da natureza — por 
oposição a Fichte —, Schelling esposa 
uma espécie de naturalismo organicista 
e procura resolver problemas colocados 
pelas ciências fisicas, não levados em 
conta pelo sistema fichtiano. Schelling 
acreditava que o objetivo fundamental 
das ciências fosse a interpretação da 
natureza como um todo unificado, vendo 
no conceito de força o fator que poderia 
conduzir àquela unificação. Nesse senti- 
do, tentou mostrar como todos os fenô- 
menos mecânicos, químicos, elétricos, e 
biológicos constituiriam manifestações 
de uma mesma força, que definiu como 
atividade pura. A natureza seria, assim, 
uma infinita auto-atividade jamais 
exaurida. Essa concepção já se encon- 
trava em Fichte, mas a atividade ers 
nele atribuída ao eu, não à natureza. 

A natureza — segundo Schelling — 
seria, como o eu fichtiano, uma aspira- 
ção infinita, uma tendência à dispersão, 
à qual se contrapõe uma tendência opos- 
ta. Todo o processo da realidade se cum- 
priria segundo um sistema dialético de 
oposições que, depois de sintetizadas, 
engendrariam novas contradições, e 
assim sucessivamente. 

A partir da valorização da natureza, 
Schelling transitou coerentemente atra- 
vés da idéia de desenvolvimento dialé- 
tico, até chegar a uma concepção mais 
ampla, que denominou de Sistema de 


519 


OS PENSADORES 


Uma das idéias fundamentais de toda a filosofia de Schelling consiste em sua 
afirmação de que a obra de arte constitui a mais completa criação humana e a 
melhor via de acesso ao absoluto. Em Ludwig van Beethoven, seu contemporâneo, 
a Escola Romántica alemã encontrou a mais perfeita expressão musical. 


(Beethoven em companhia de amigos, gravura da Biblioteca Nacional de Viena.) 


Idealismo Transcendental. Esse era o ti- 
tulo de uma obra escrita em 1800 e que 
foi o marco inicial de uma segunda fase 
de seu pensamento. Nessa obra, Schel- 
ling expõe. na parte teórica, o desdobra- 
mento da consciência absoluta em suas 
relações com a dialética da filosofia da 
natureza; na parte prática apresenta 
idéias sobre o desenvolvimento da cons- 
ciência no curso da história. 

As idéias de Schelling sobre a obra de 
arte possuem especial relevo dentro de 
seu sistema de idealismo transcendental. 
Na obra de arte Schelling vê a unificação 
do mundo da natureza e do mundo do 
espírito, do objeto e do sujeito. E, como 
Kant, considera a obra de arte seme- 
lhante ao organismo vivo, na medida em 
que ambos só podem ser compreendidos 
finalisticamente, ou seja, na medida em 
que ambos seriam realidades nas quais 
as partes só têm sentido dentro do todo e 
este, por sua vez, tem seu fim em si 
mesmo. A diferença fundamental entre 
os organismos e as obras de arte reside 
— segundo Schelling — no fato de que, 


320 


nos primeiros, a atividade finalística 
responsável por sua criação permanece 
escondida ou inconsciente, manifestan- 
do-se apenas no próprio produto; já nas 
obras de arte, a atividade pr odutiva 
seria consciente, enquanto seria incons- 
ciente o produto. 

A estética elaborada no Sistema de 
Idealismo Transcendental e nas confe- 
rências Sobre as Relações entre as Artes 
Plásticas e a Natureza revela um Schel- 
ling extremamente pessoal e apaixo- 
nado. Ele sustenta que, na obra de arte, 
a inteligência se torna totalmente auto- 
consciente pela primeira vez. Na filoso- 
fia, a inteligência é abstrata e limitada 
em suas tentativas de exprimir uma 
potencialidade infinita. Na obra de arte, 
ao contrário, a inteligência realiza toda 
a sua potencialidade, porque está livre 
da abstração. Dessa forma, a arte seria o 
objetivo último para o qual tende toda a 
inteligência. A arte seria a verdadeira 
filosofia, na medida em que, nela, se 
reconciliam a natureza e a história. À 
inteligência teórica — diz Schelling 


SCHELLING 


Três das maiores expressões do 
Romantismo alemão — Hoóoldertn, Hegel 
e Schelling — foram amigos desde a 
juventude. (F. K. Heimer: Hólderlin, 
Museu Nactonal Schiller, Marbach.) 


contempla o mundo, a inteligência prá- 
tica ordena o mundo, a inteligência esté- 
tica cria o mundo. 


Na arte, a verdade 


A abordagem dos problemas da obra 
de arte e a necessidade de harmonizar 
mais amplamente as diferentes partes de 
seu sistema levaram Schelling à, fase 
mais conhecida de sua filosofia: o siste- 
ma da identidade. Esse sistema engloba 
a filosofia da natureza e o idealismo 
transcendental, constituindo uma ter- 
ceira fase do desenvolvimento da filoso- 
fia de Schelling. Segundo o sistema da 
identidade, as contradições e oposições 
que permaneciam cemo resíduos no sis- 
tema do idealismo transcendental resol- 
vem-se no conceito de absoluto. O abso- 
luto seria a completa indiferença entre 
sujeito e objeto, natureza e espírito; 
seria identidade dos contrários que, no 
fundo, não oferecem, em sua presença 
real, outra oposição a não ser a de parti- 
ciparem diversamente do próprio abso- 


luto. A filosofia da natureza e à filosofia 
do conhecimento, tomadas separada- 
mente, constituem apenas a metade da 
verdade e precisam ser completadas pela 
outra metade, unindo-se numa indiferen- 
ciada unidade. A produção da realidade 
não deve permanecer na oposição entre 
natureza e inteligência. sujeito e objeto. 
mas na identidade do absoluto. Essa 
identidade absoluta encontra-se radi- 
"ada na origem comum da natureza e da 
inteligência: a razão. 

* razão seria, assim. una e anfinita. 
abrangendo tanto as coisas-em-si quanto 
o conhecimento. Na razão não haveria 
objeto ou SUJeito, espaço ou tempo. Sua 
lei suprema seria O pr ae da identi- 
dade lógica: À é iguala À. Esse princi- 
pio seria independente de qualquer 
consideração espacial ou temporal. o 
que torna a distinção entre sujeito e ob- 


Jeto apenas formal e relativa: sujeito e 


objeto seriam formas independentes de 
qualquer essência. 

Em sua total unidade e identidade. o 
absoluto de Schelling condiciona todas 
as diferenças e, ao desdobrar-se como 
série de potencialidades, permite chegar 
ao ponto em que o objeto predomina 
sobre o sujeito (natureza), ou vice-versa 
(espirito). Ao manifestar-se como natu- 
reza ou como espirito, o absoluto, contu- 
do. nada perde de si mesmo e o que 
"aracteriza cada uma de suas potenc 1ali- 
dades é a sua direta participação na 
totalidade unitária. Não há, portanto. 
uma relação de produção entre objeto e 
sujeito, natureza e espirito, ou seja. a 
ER não é produzida a partir da 

alidade objetiva externa, ou vice- 
versa. Sujeito e objeto, espírito e natu- 
reza seriam, portanto, condicionados 
que têm seu fundamento último no abso- 
luto incondicionado. único. indiferente e 
idêntico. Por essa razão, nem a natureza 
nem o espirito constituem seres peculia- 
res, totalmente distintos um do outro: 
são ao mesmo tempo sujeito e objeto. | Na 
natureza existiria um princípio vital. 
responsável por ela estar continuamente 
tentando sair de sua passividade: no 
espírito, por outro lado, manifestar-se-ia 
um princípio natural, que o impede de se 
constituir como um ser puro, voltado 
apenas para si mesmo. 

Conhecer o absoluto é a tarefa a que 


921 


ae | 


OS PENSADORES 


Entre 20e 35 anos de idade, 
Schelling exerceu pene influência 
junto ao público de sua época. As 

obras escritas depois disso só foram 
publicadas postumamente. (Franz 
Kruger: Schelling aos 69 anos.) 


se deve propor a filosofia, mediante a 
intuição intelectual. Assim procedendo, 
a filosofia penetraria na unidade essen- 
cial existente entre o mundo natural e o 
mundo do espírito, intuindo o desabro- 
char e o desenvolvimento de suas poten- 
cialidades respectivas; cada uma das 
potencialidades de um dos dois domínios 
corresponde — segundo Schelhng 
uma potencialidade do outro. 

A melhor via de acesso ao absoluto, 
entretanto, não seria constituida pela 
intuição intelectual dos filósofos, mas 
pela criação artística. Nessa idéia en- 


dee 


ARCHIV FUR KUNST UND GESCHICHTE 


contra-se uma das características funda- 
mentais do espirito do Romantismo, do 
qual Schelling foi um dos maiores ua 


sentantes. Para ele, nas obras artística 
ficam anuladas todas as oposições e 


exprime-se, da maneira mais pura e 
completa, a identidade dos contrários no 
seio do absoluto. 


A revelação do divino 


A última fase do pensamento de Schel- 
ling (que se estende desde 1809 até sua 
morte, em 1854) caracteriza-se pela 
integração do problema do pensamento 
religioso dentro de uma filosofia mais 
ampla do que o sistema da identidade, 
embora o inclua. As obras referentes a 
essa fase foram publicadas postuma- 
mente: Às Idades do Mundo, Introdução 
à Mitologia, Filosofia da Mitologia e 
Filosofia da Revelação. Nelas, Schelling 
procurou construir uma filosofia posi- 
tiva (segundo sua pr ôpr Ia expressão). 
fundamentada na pesquisa da evolução 
do pensamento religioso através da his- 
tória, especialmente o expressado nos 
mitos. 

Nessa fase do pensamento de Schel- 
ling, assume grande importância a idéia 
de que o mundo finito existe como algo 
separado do absoluto, do qual se des- 
prendeu, mas aspira à reincorporação no 
absoluto, através da evolução da natu- 
reza e do desenvolvimento histórico. 

A partir dessa idéia geral, Schelling 
passou a considerar como tarefa primor- 
dial da filosofia a explicação do pro- 
cesso de volta ao absoluto. Para isso, a 
filosofia deveria converter-se fundamen- 
talmente numa filosofia da mitologia. 

A mitologia — afirma Schelling — é 
um sistema simbólico de idéias, com 
sua própria estrutura apriorística, da 
mesma forma como o entendimento — 
como mostrara Kant na Crítica da 
Razão Pura — é constituído por catego- 
rias responsáveis pelo pensamento lógic 0. 

Desvendadas as estruturas aprioris- 
ticas da mitologia, seria possivel ver 
como os mitos constituem formas de 
expressão da volta ao absoluto divino. 
Deus é concebido por Schelling como a 
evolução de uma oposição, na qual o 
absoluto vazio do nada contra apõe-se à 
plenitude do ser, operando-se a sintese 


SCHELLING 


Schelling não teve maior participação 
nos eventos políticos da época, como 
o levante que levou à criação do 
Parlamento alemão. (Tela de Menzel: 
funerais das vitimas da insurreição.) 


pela união do ser e do nada na realidade 
divina. 

Com sua Filosofia da Mitologia, 
Schelling abre novas per spectivas para a 
interpretação dos mitos. Fazendo o 
inventário das diversas posições filosó- 
ficas referentes à mitologia, situa-as em 
três grupos: as que recusam qualquer 
valor de verdade aos mitos, as que lhes 
concedem apenas uma verdade indireta e 
exterior e, finalmente, as que lhes atri- 
buem uma verdade intrínseca e imedia- 
ta. No primeiro caso, estariam, por 
exemplo, aquelas filosofias — que Schel- 


ling denomina “emanatistas” — que 
interpretam a mitologia como alteração 
ou desvirtuamento de um suposto mono- 
teismo original. Schelling rejeita esse 
tipo de interpretação, que coloca causas 
negativas na raiz histórica dos mitos: ao 
contrário, para ele, a mitologia precede 
a revelação de um Deus único. Por outro 
lado, recusa as interpr etações que preten- 
dem atribuir origem filológica à às entida- 
des mitológicas; para ele, não cabe bus- 
car uma origem linguística para a 
mitologia, Já que da mitologia é que pro- 
cederia a própria lingua. 

Schelling dedicou agudas análises às 
interpretações que conferem aos mitos 
uma verdade indireta e exterior, ou seja. 
aquelas que consideram os mitos como 
alegorias cujo sentido, consequente- 
mente, deve ser buscado noutra pauta de 
linguagem. como o resultado de uma 
“tradução” ou de um “desvelamento”. A 
noção de alegoria surge estreitamente 
vinculada a duas idéias que desempe- 
nham importante papel na última formu- 
lação de seu sistema: a de profetismo e a 
de ironia. O profeta, com efeito, é aquele 
que tem uma antevisão do futuro ali 
onde o homem comum nada percebe 
além do trivial e do imediato: o profe- 
tismo aparece, assim, como uma espécie 
de “alegoria da duração”, a tradução, 
em termos de porvir, da significação 
profunda do presente. Por outro lado, 
Schelling concebe um divino fundamen- 
talmente irônico, que opera de forma 
sempre simulada — que triunfa, por 
exemplo, exatamente ao morrer na cruz 
entre ladrões — e que suscita, portanto. a 
necessidade de uma interpretação alegó- 
rica do mundo. Todavia, no caso dos 
mitos, Schelling endereça à tese alego- 
rista uma crítica decisiva, que prepara o 
caminho para novas perspectivas de 
interpretação: essa tese não leva em 
conta a anterioridade do elemento divino 
da mitologia. Schelling reivindica: o 
sentido do mito deve ser buscado no pró- 
prio mito e não fora dele; o mito não é 
uma alegoria, mas uma tautegoria. 
Escreve: “A mitologia não é alegórica: 
ela é tautegórica. Para ela, os deuses são 
seres que existem Realmente: que não 
são uma outra coisa, que não significam 
outra coisa, mas que significam somente 
aquilo que eles são” 


1775 — Schelling nasce a 
27 de janeiro, em Leonberg.. 
Beaumarchais publica O 
Barbeiro de Sevilha. 

1776 — Nascimento de 
Amedeo Avogadro. 

1782 — Morte de Johann 
Sebastian Bach. 

1783 — Nascimento de 
Stendhal. São publicados os 
Prolegóômenos a toda Meta- 
física Futura, de Kant. 

1790 — Schelling ingressa 
no seminário teológico de 
Túbingen. 

1791 — Morte de Mozart. 
1797 — Schelling publica 
as Idéias para uma Filosofia 
da Natureza. 

1798 — É nomeado profes- 
sor da Universidade de Je- 
na. Publica A Alma do 
Mundo. Schiller escreve 
Wallenstein. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1799 — Nasce Balzac. 
Morre Beaumarchais. Hum- 
boldt viaja pela América do 
Sul até 1804. 

1801 — Schelling publica a 
Exposição de Meu Sistema. 
Gauss edita as Investiga- 
ções Aritméticas. 

1803 — Maine de Biran pu- 
blica o Tratado do Hábito. 
Schlegel divorcia-se de Ca- 
roline e esta se casa com 
Schelling. É publicado Bru- 
no, de Schelling. 

1804 — Morre Kant. Fichte 
publica A Doutrina da 
Ciência, Exposição de 1804. 
Schelling edita Filosofia e 
Religião. 

1805 — Morre Schiller. 
Beethoven compõe Fidélio. 
1806 — Nasce John Stuart 
Mill. 

1807 — Gay-Lussac realiza 


BIBLIOGRAFIA 


estudos sobre a dilatação 
dos gases. 

1809 — Vêm à luz as Inves- 
tigações Filosóficas sobre a 
Essência da Liberdade Hu- 
mana, de Schelling. 

1814 — Morre Fichte. 

1818 — Keats publica 
Endymion. Nasce Karl 
Marx. 

1819 — É editado O Mun- 
do como Vontade e Repre- 
sentação, de Schopenhauer. 
1820 Nasce Engels. 
Schelling torna-se professor 
em Erlangen. 

1821 — Nasce Dostoiévski. 
1826 — Mendelssohn com- 
põe Sonho de uma Noite de 
Verão. Schelling continua 
lecionando, em Munique. 
1854 — Falece no dia 20 de 
agosto. 


Mora, J.F.: Schelling, in Diccionario de Filosofia, 2 vols., Editorial Sudamericana, Buenos 


Aires, 1969. 


MARGOSHES, A.: Schelling, in The Encyclopedia of Philosophy, 8 vols., The Macmillan Com- 
pany & The Free Press, Nova York, 1967. 
JANKELEVITCH, V.: L 'Odyssée de la Conscience dans la Derniêre Philosophie de Schelling, 


Félix Alcan, Paris, 1933. 


TILLIETTE, X.: Schelling — Une Philosophie en Devenir, J. Vrin, Paris, 1970. 

PEPIN, J.: Mythe et Allégorie, Aubier, Éditions Montaigne, Paris, 1958. 

SERRES, M.: Análisis Simbólico y Método Estructural, in Estructuralismo y Filosofia, sele- 
ção de textos de José Sazbon, Ediciones Nueva Visión, Buenos Aires, 1971. 

BREHIER, É.: Schelling, Paris, 1912. 


JASPERS, K.: Schelling: Grósse und Verhângnis, Munique, 1955. 


READ, H.: The True Voice of Feeling, Londres, 1953. 
TiLLICH, P.: Mystik und Schuldbewusstsein in Schellings Philosophische Entwicklung, 1912. 


KOokKTANEK, A. M.: Schellings Seinslehere und Kierkegaard, 1962. 


DDACI 


CAN DALH A 


e CNPVRIGUT MIMNINIAL 1072 — ARDIL CC A CHITIDAL CIMMICTDOAIL